terça-feira, 9 de junho de 2026

A Copa inútil [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Ao contrário do que a desocupada leitora, o desocupado leitor, poderia imaginar a partir do título, o móbile desta crônica não é a disputa entre mim e a Pacheco, vulgo doutora Sabujinha, sobre quem é o mais inútil do setor. É sobre a copa do mundo, mesmo.
Nossa bancada é um pouco dividida quando o assunto é futebol: uma parte mal sabe da existência do esporte, a outra é fanática e trata do assunto com uma seriedade digna dos grandes assuntos da atualidade, como a guerra contra o Irã ou a separação da Virgínia com o Vini Jr.
Foi com surpresa que presenciei Goreti falando da copa, ele sempre tão alheio a esses (e a outros) assuntos. Fala da copa não com ânimo ou interesse, mas com raiva mesmo:
É a copa mais inútil de todos os tempos! Primeira fase não tem um mísero joguinho durante o expediente! Me diga, copa assim para quê? 
Eu, claro, concordo não concordando inteiramente com o nobre colega e trago à baila a de 2002, sem jogos durante o expediente e ainda com foguetório atrapalhando o sono.
Ao menos naquela fomos campeões! - Ele retruca.
E isso muda algo? - respondo, ao mesmo tempo que lembro de minhas concepções da época, que foram enterradas com a copa do Japão e da Coreia.
Houve um tempo em que acreditei que o futebol influenciava na percepção de bem estar da população e, consequentemente, influenciava nas eleições presidenciais de outubro. Eu era jovem e a copa de 2002 foi uma prova de que minha sociologia de boteco se sustentava tanto quanto a do Luciano Huck - com a diferença que ele, com seus milhões, tem direito a plateia e repercussão das atrocidades que diz. E se eu me exponho aqui é só para mostrar, uma vez mais, meu compromisso com a verdade, doa a quem doer.
Minha resposta mexeu com os brios de parte dos colegas, indignados com meu desdém pelo penta, que passaram a defender tanto o evento quanto o escrete canarinho - por mais que as esperanças não sejam muito esperançosas.
De qualquer forma, não tenho como não concordar com Goreti: se avançarmos, ainda conseguimos dois ou três jogos para diminuir o expediente - muito pouco para toda a expectativa criada:
Tirando a copa de 2002, esta é a mais inútil desde que estou vivo e consciente da passagem do tempo - e, principalmente, enredado nas teias do capitalismo por intermédio da revenda de meu tempo de vida sob a forma de mão de obra assalariada. Digo isso da perspectiva de quem não se emociona com esse evento, hoje transformado em uma data puramente comercial, tal qual o natal. 
Minha bonita fala não foi compartilhada pelos aficionados da ludopedia bretã, em especial os seguidores do adolescente Ney (conforme os pitagóricos, já explicado em crônica anterior), que poderão ver seu ídolo e modelo de homem esquentando o banco de reservas, fazendo joinha para a câmera, chutando levemente a bola antes do jogo e, quem sabe, até mesmo ver o craque em ação, deitando e rolando pelos gramados da América do Norte. A discussão se instaura para além da bancada. É nessa hora que Goreti decide cutucar o vespeiro com vara curta:
Que o Brasil caia logo da primeira fase! Neymar é o ápice de toda uma geração do que só foi em potência - disse ele aristotelicamente. Neymar, Keirrison, Ganso, Foquinha, Pato: essa geração merece esse vexame para mostrar que futebol se faz no gramado, treinando e jogando sério. 
O fuzuê completo foi armado. Não era dia de jogo, mas o expediente foi praticamente suspenso na discussão que se seguiu.

09 de junho de 2026

PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

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