sexta-feira, 19 de junho de 2026

Enquanto você estiver estudando

Pai, hoje você faria 72 anos. Foi a primeira coisa que lembrei ao acordar - e motivo de eu estar melancólico. Acho que a sequência de crônicas do Sérgio S. ajudou um pouco: lembrei de quando publicava o Trezenhum. Humor Sem Graça. à noite, madrugada muitas vezes, e na manhã seguinte, ao ligar o computador, lá estava um e-mail seu com comentário sobre as agruras da Universidade e, claro, a revisão do texto. Devia ser a primeira coisa que você fazia no dia. Às vezes havia alguns preciosismos gramaticais da sua parte, que eu não concordava, mas alterava por reconhecimento da sua ajuda. 

Na verdade, a ideia para hoje era escrever mais uma crônica do Sérgio S. e as disputas miúdas desta burocracia em que faço trabalho de estagiário com diploma de sociólogo. Sérgio S. é um spin-off de Trezenhum - e digo isso só para te provocar: com certeza você me mandaria uma mensagem me criticando por usar um termo em inglês, e eu concordaria contigo: prefiro dizer é uma derivação do Trezenhum. Curiosidade: já tem mais tempo que o original (só não sei se tem mais textos).

Lembrei também quando soltava meus textos mais sérios - esses precisavam de menos revisão, mas de vez em quando vinha. O que vinha mesmo era, na ligação seguinte - por telefone ou skype -, você começar: “Dani, aquilo que você falou no seu último artigo...” e começarmos nossa conversa sobre política, nem sempre confluente, mas sempre respeitosa - até porque éramos dois do campo da esquerda, cada um com seu extremismo particular. Por sinal, uma das principais pessoas para quem eu escrevia era você: mostrar que, ao mesmo tempo, eu seguia seus passos políticos e me diferenciava deles em detalhes. Ainda sinto falta dessas conversas. Como sinto falta de minhas férias serem voltar para Pato Branco, curtir a casa e a companhia sua, da mãe, e das cachorras. Colômbia, Lençóis Maranhenses, Salvador, Guatemala foram destinos legais, mas foram arremedos de férias.

Hoje tem jogo do Brasil. Foi com você que aprendi a não torcer pela seleção - mercenários era o que você acusava os jogadores, desde a copa de 1994, que eu me lembre. Patriotismo de fancaria, digo eu, hoje (e reitero o mesmo ranço seu para com Senna). Você era um nacionalista! Foi durante um jogo do Brasil contra a Argentina que você partiu. Hoje o jogo é contra o Haiti, país que rendeu uma das edições mais polêmicas do Trezenhum. Humor Sem Graça. O Brasil deve vencer fácil, eu devo aproveitar esse tempo para estudar. “Enquanto você estiver estudando, a gente te sustenta”, foi o que você me disse uma vez, no início do século, não sei bem se quando eu tinha entrado na psico ou na filosofia. E, de alguma forma, isso continua verdade até hoje.



19 de junho de 2026

quarta-feira, 17 de junho de 2026

A Ilíada do Clube do Café [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Marx, parafraseando Hegel, costumava dizer que a história se repete, a primeira como tragédia, a segunda como farsa. Pois esta semana estive diante de um rapto homérico aqui no serviço, mais especificamente no setor onde me encontro alocado como capital circulante. O primeiro rapto homérico, creio ser de conhecimento geral, é de Helena por Páris, desencadeador da Guerra de Tróia. A situação no trabalho talvez seja um pouco menos dramática, ou melhor, trágica, sem rapto de mulheres - até porque os tempos são outros e apesar de eu suspeitar que muitos colegas teçam comentários e tenham visões machistas, no ambiente eles (e elas) mantêm um mínimo de compostura.

Tudo corria relativamente bem naquela quarta-feira fria de sol, quando um colega do Clube do Café decidiu fazer uma pipoca para acompanhar o jogo de Portugal, digo, uma reunião on-line à qual estávamos submetidos. Abriu o armário onde ficam os apetrechos do clube e a panela de arroz de Goreti, buscou, buscou, buscou e... nada da pipoqueira. Discretamente ele comentou na sala:

Alguém viu a pipoqueira do Clube do Café? Não estou encontrando ela no nosso almoxarifado. - sim, eles chamam o armário de almoxarifado do Clube do Café, para irritação do dono da supracitada panela de arroz. A balbúrdia rapidamente se alastrou no ambiente, até porque o gol de Portugal saiu logo no início - e nada da pipoca para acompanhar o evento. Entre aqueles integrantes do Clube que não estavam na reunião, começou uma investigação para descobrir onde poderia estar o referido eletrodoméstico: quem foi o último a usar, quando foi a última vez que comeram pipoca. Sem pistas, a discussão chegou ao grupo de whats - conforme relatava minha fonte, que mantenho o sigilo por direito de ofício -, para indignação de ainda mais integrantes.

Fomos roubados! - bradava uma das vozes mais exasperadas.

Já perguntaram na segurança? - interveio outro, mais prático.

E lá foi Mello, como membro mais proeminente do referido Clube - e não estando em reunião -, ver com os seguranças se haveria possibilidade de analisar as imagens do circuito interno. A sala da segurança fica no mesmo andar do RH - e não foi necessário ir até ela. O cheiro de pipoca impregnava o andar - era intervalo de jogo, deviam estar fazendo a leva para o segundo tempo. O que se seguiu daí são versões contraditórias.

Diz uma versão que Mello chegou pisando duro na sala e ao se deparar com a inefável prova do crime exigiu imediata devolução do item raptado - o que não foi atendido. Saiu prometendo vingança.

A segunda versão diz que ele foi sorrateiramente até o RH, se certificou de que se tratava mesmo da pipoqueira que ele havia escolhido para o Clube, e perguntou quem tinha autorizado a pegar o apetrecho. Para sua surpresa, quem havia autorizado não era ninguém mais, ninguém menos, que um dos membros fundadores do Clube do Café: Conan (sim, temos um colega chamado Conan, inclusive com porte físico para estrelar o filme do bárbaro). Conan que na reorganização pós-passaralho foi transferido de setor, e por isso ninguém mais lembrava dele. Detalhe: ele não foi para o RH - ou seja, mistérios pairando no ar. Enfim, autorização dada, devolução de pipoqueira negada, depois de uma altercação que chamou a atenção da sala ao lado do RH, a da segurança. Mello saiu de lá prometendo vingança.


A discussão foi para o grupo de whats:

Quem foi que autorizou à revelia que a pipoqueira fosse emprestada? - questionou Mello, como quem não soubesse do que havia se passado.

Conan vestiu a carapuça e foi direto:

Entrei com minha quota na pipoqueira, tenho direito a usá-la de vez em quando.

Os meandros da discussão deixo de lado, para não cansar a desocupada leitora, o desocupado leitor, com filigranas jurídico-escolástica-econômicas. O resultado é que a pipoqueira ainda não voltou. E a ameaça de vingança de Mello segue pairando no ar.


17 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.