segunda-feira, 22 de junho de 2026

Futebol, fé e outras bets [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Disse em crônica passada que esta era uma copa inútil. Reconheço minha parcialidade em tal julgamento: trata-se de uma copa inútil para quem trabalha CLT (ou precarizado, como PJ) das oito às cinco. Para quem trabalha à noite, não deixa de ser um alívio. E mesmo para pais e mães de criança pequena, como é o caso de Maceda, que pode assistir ao jogo contra o Haiti, pois Macedinho já tinha sido posto para dormir (Macedo gosta tanto de futebol quanto de novela bíblica).

Quem também soube fazer do limão uma limonada foi minha vizinha de cima - a que tempos atrás (outubro de 2024, para ser mais preciso) precisou da ajuda da síndica para conseguir descapetizar alguém, pois o bicho ruim não ia embora só com o barulho infernal que ela e seus convidados faziam.

Brasil e Haiti, nove e meia da noite. Clima de festa pela cidade durante todo o dia: se a estreia foi uma decepção para Marrocos (e para alguns brasileiros que não acompanham futebol de verdade, ou saberiam que se o hexa vier, vem de zebra), o segundo jogo era favas cantadas - a não ser que acontecesse uma enorme zebra (segundo a transmissão do jogo, mesmo assim, o odd estava bom para apostar, ou melhor, investir com segurança no Brasil, praticamente um tesouro direto das bets). 

Nem são nove horas redondas e começam a chegar os convidados da vizinha de cima. E acaba minha paz. Não vou reclamar, afinal, é copa do mundo, muita gente está ansiosa pela primeira vitória da última seleção com Neymar (esperamos). Os convidados vão chegando até a hora do jogo. A partir dessa hora não ouço mais seu interfone tocar nem o tradicional barulho no hall de entrada do apartamento - parece que eles fazem um sapateado para entrar, deve ser algum código interno deles, tipo crianças de doze anos costumam ter, ou ao menos eu tinha (não que eu esteja implicando, só constatando). 

O juiz apita. Não tarda, uma oração. Amém. Mais outra oração. Aí eu começo a implicar. Haja reza para a seleção canarinho! Sei que o time não inspira muita confiança, mas não precisava rezar tanto pra ver se deus ajuda. Até porque se tem algo que não me parece condizer com a Bíblia, Jesus, deus e toda a religião cristã, é achar que entes divinos interfeririam num esporte competitivo, escolhendo um lado em detrimento de outro - e isso sem bases morais, que seriam as mais aptas para julgamentos religiosos. Traição, por exemplo, não é pecado? Ou então avareza: que dizer de jogador que comemora convocação fazendo propaganda pra bet? Por sinal, não tem uma bet evangélica, não? Se não existe, os pastores estão perdendo dinheiro!

Enfim, rezar e orar era pouco, com vinte minutos de jogo começaram também os cantos de louvor. Ponho o som da tevê lá em cima, nem tanto para escutar o insuportável narrador da tevê falando de bets enquanto cita o nome de um ou outro jogador que está com a bola, mas para abafar a vizinha de cima, mesmo. 

Veio o gol do Brasil. Explosão de alegria e alívio no bairro. A vizinha de cima com seus convidados, impassíveis: seguem cantando e rezando, como se não estivesse acontecendo jogo nenhum.

Irritado com o barulho, deixo a tevê no mudo e coloco Sepultura no talo. Por que Sepultura, deve estar perguntando a desocupada leitora, o desocupado leitor. Ora, para dar uma brasilidade pesada à minha tentativa de infernizar a vizinha e seu culto em casa. Péssima escolha. Foi cutucar o próprio diabo com vara curta. Começaram a falar a língua dos anjos e a pular feito uma manada de elefantes - sentimento que eu já conhecia de outros carnavais, digo, celebrações religiosas. Não, não era delay da minha televisão: foram quase dez minutos até o Brasil fazer o segundo gol que justificasse aquela pulação toda - e eles seguiram pulando esses dez minutos todos e mais um pouco. Até pensei em reclamar para a síndica, mas imaginei que ela não acataria minha reclamação, uma vez que provavelmente também ela estaria pulando e gritando com o jogo, por mais que já tivesse passado das vinte e duas horas.

Fui para um bar perto de casa, acompanhar o jogo em meio ao povo - irritado em ter sido expulso de casa por toda aquela fé sem limites (sonoros).


22 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Ciro, o tirano da janela [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

A confluência de conflitos latentes (ou nem tanto) aqui na equipe tem gerado uma série de saias-justas que chegam a ser divertidas de acompanhar - e mesmo de ser protagonista. 

A guerra da janela persiste. Pacheco voltou com sua tática do gaveteiro. Eu ignorei, e abri minha folha, para ventilar um pouco a sala abafada. O dia não estava muito frio, mas reconheço que o vento estava gelado e insistente - quase incômodo, eu diria. Quase!

Não era o que sinalizavam Pacheco e Goleador, que começaram a forçar tosses, na esperança de que eu tomasse a iniciativa de desfazer o que fizera. Eu, com meus fones, fingia que não ouvia. 

Não tardou, Pacheco se levantou para seu social habitual, deixando Goleador no frio e na aporia: ou aceitava o vento, ou teria que fazer coro à Doutora Sabujinha pela janela fechada - dar razão à sua arqui-inimiga. Não me recordo se já comentei algures: as duas já nem se cumprimentam e quando conversam, é o extremamente necessário para o serviço - um pouco menos, na verdade (a chefia não sabe dessa parte). Não que isso seja uma novidade para Pacheco: também não somos dignos de seus cumprimentos Carnegie e eu - com Mello ela soube sair do seu lado antes de chegar a esse ponto. Por falar em ponto, mantenho aqui minha indignação já expressada: sua baia virou ponto de encontro de colegas aleatórios de outras equipes e do Mello, o que tem prejudicado assazmente meu rendimento antilaboral.

De volta ao conflito fenéstrico. Outros colegas estavam nas duas fileiras de baias ventiladas pela janela que ocupo, e ninguém mais tossia ou parecia incomodado - um deles, inclusive, se mantinha sem blusa de manga comprida. 

Pelo visto, por conta do jogo do Brasil, estava todo mundo adiantando trabalho, sem tempo para conversa de cerca-lourenço, e Sabujinha teve que logo voltar ao seu lugar, fingir que trabalhava e tossia. Tosse cá, tosse lá e vento frio frequente (e eu de fone e blusa). Nessa hora, Macedo, nosso homem da calma, perdeu a paciência e resolveu intervir: pediu, gentilmente e em ASMR, para que eu fechasse a janela, pois o vento estava frio e parecia que não era o único incomodado com isso. Aceitei o pedido do colega e assim o fiz. Depois, no café da tarde, me contou: Goleador foi agradecê-lo, cheia de mesuras, pela intervenção. 

Esse agradecimento fez surgir em mim uma pequena dúvida: será que, sem perceber, estou me tornando o novo vilão da equipe, Ciro, o tirano da janela? 



19 de junho de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.