segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O que está sob o tapete [Diálogos com o cinema]

À primeira vista, O Convite, de Olivia Wilde, é uma comédia sobre relacionamentos - tanto relacionamento monogâmico quanto relacionamento aberto -, e todas as dificuldades que a convivência entre duas pessoas traz, independentemente do formato estabelecido. Se desentendimentos e brigas são mais comuns no casal monogâmico da história, Angela (Olivia Wilde) e Joe (Seth Rogen), as desavenças aparecem também no casal heterodoxo, convidado para o jantar e conhecer o apartamento, Piña (Penelope Cruz) e Hawk (Edward Norton).

Entretanto, remake de um filme espanhol (Sentimental, 2020, de Cesc Gay), o filme traz também uma camada de fracasso da promessa capitalista neoliberal, o fracasso de uma classe média tradicional, branca, cis-hetero. Essa chave é dada pela profissão de cada um dos personagens e sua relação com o trabalho.

Piña é sexóloga, aparentemente gosta do que faz, mas não consegue instituir uma separação entre momento de trabalho e momento da vida, atuando em certo momento, durante o encontro, como terapeuta do casal anfitrião.

Hawk se tornou massagista, porém antes era bombeiro e abandonou a profissão quando notou que a utilizava como uma válvula de escape inconsequente, pondo não somente a si como a outras pessoas em risco, após a morte da esposa.

Angela fez graduação em artes, mas se dedica às atividades do lar, sem conseguir a contento fazer o que se espera de sua ocupação - o suflê que dá errado, a cozinha suja, o marido que não ajuda com os calçados. Presa à rotina, Angela tenta a partir da própria casa “criar” algo novo - o tapete da sala, que seja. Contudo, como o casamento, como sua própria vida, uma reforma maior do apartamento está estagnada, travada na sua incapacidade de decidir uma cor para as paredes - e na recusa do marido em ajudar em tal escolha. Mais: o próprio marido desdenha dessas suas tentativas e questiona o que ela faz (“de útil”, poderíamos completar) durante o dia.

Já Joe vive a frustração e o ressentimento de sua banda ter tido um efêmero sucesso, em 2008, e nada mais, sendo agora professor de música num pequeno conservatório; ademais, sua “conquista”, o apartamento onde moram, não é fruto do seu trabalho, mas herança dos pais - ele que sequer tem carro, volta de bicicleta por pressão da esposa.

Essas dinâmicas externas acabam por interferir, é claro, na dinâmica de cada casal.


No caso de Piña e Hawk, por um bom momento, o filme sustenta a imagem de um casal amoroso, erótico (com suas festas sexuais e suas fantasias abertamente trazidas sem preconceito) e sem fraturas, já que estão sempre abertos ao diálogo. Isso até a discussão entre ambos, quando ela, que é espanhola, estoura ao ser corrigida no seu inglês (mostrando feridas na sua integração como migrante) e o acusa de acelerar o momento do convite aos vizinhos de baixo para uma das suas festas. Nesse momento, fica evidenciada uma pressa de Hawk nesses eventos, de onde é possível perceber neles algo de fuga, uma tentativa de tamponar uma ausência, deslocada dos riscos que assumia quando bombeiro; enquanto Piña cede ao companheiro e depois se ressente - afinal, é ela a pessoa experiente nesse tipo de ocasião, não somente por sua profissão, mas por tê-la apresentado a Hawk.

Entre Angela e Joe, o diagnóstico é mais evidente: como esperar momentos leves, uma libido acesa, se o dia a dia é baço, sem perspectivas, sem sonhos, feito de remoer os planos de juventude que fracassaram? Mais que manter o casamento por causa da filha, como eles atestam, antes é a filha quem mantém nos pais algum interesse pela vida sem jogar tudo pelos ares - não por acaso Angela lamenta que ela irá para a faculdade e sairá de casa... daqui seis anos.

Contudo, cabem as perguntas: que abismo é esse que se vislumbra e se teme quando se evita assumir as coisas como estão (o casamento falido, nesse caso) e encarar o que se pode fazer a partir disso? O quanto das nossas apostas fracassadas (a graduação em artes, a banda que quase fez sucesso) não servem como álibi para não alterar esse estado de coisas, deixando a responsabilidade no passado e evitando um comprometimento presente com o desejo e o devir?


01 de setembro de 2026

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

O colega de banheiro [por Sérgio S. ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


Em maio comentei aqui da reorganização e do passaralho que ocorreram na empresa. Cortaram vários cargos médios (que eu chamo de subchefe), depois alguns chefes, fizeram mudanças de lugares, e tudo parecia pronto para jazer na ordem que o capital exige. Sejamos sinceros: eu e meus colegas fomos semi-amadores na nossa avaliação. Tem muita coisa que se pode errar na percepção, na avaliação e nas conclusões - agora, achar que um passaralho vai se satisfazer sem passar a faca pelo chão de fábrica é quase como acreditar que privatização de serviço público vai trazer melhorias à população.
Mesmo que nunca tivesse trabalhado antes, era questão de observação e análise: cada setor fez uma reformulação, juntaram tudo e apresentaram como um trabalho coerente, sendo que em momento algum pareceu haver uma coordenação geral das reformulações, pensando na empresa como um todo e não em diretrizes gerais e cada setor em particular.
Resultado: não tardou um mês e começaram a reformular os setores reformulados - inclusive com contratações. Mais um mês e aí, sim, com mais uma série de fusões e desdobramentos de setores, mudanças de nomes e mudanças de salas, veio o novo passaralho - cortando, inclusive, vários daqueles funcionários que haviam sido contratados havia um mês.
Nessa novela, nosso setor teve várias transferências, algumas contratações, algumas demissões. Uma das salas que ocupávamos está vazia, a sala do antigo subchefe virou sala de reunião, e vários rostos desconhecidos apareceram (para compensar os rostos desconhecidos que desapareceram). Não me queixo totalmente: fui jogado para um canto, tenho agora apenas a janela às minhas costas - à qual deixo aberta, escancarada, o dia inteiro - e, mais importante: sem doutora Sabujinha nas proximidades. Pelo visto, notaram que havia algum clima belicoso entre mim e ela, e nos puseram em extremidades distantes. Pior para Carnegie, o Arauto do Apocalipse, que está agora sentado à direita da colega mais simpática do setor (quiçá da empresa, ainda que eu ache que não, preciso ser justo: tem gente muito podre aqui dentro).
O mais curioso dessa reformulação é que parece que quem pensou a nova distribuição geográfica dos funcionários fez curso de cálculo de microondas no refeitório - conforme o meme consagrado.
Dia desses encontrei Fernandes, o colega de cima (agora apenas um andar acima!) no corredor do nosso andar. Conversamos normalmente, e no final lembrei de perguntar o que ele fazia ali:
- Vim usar o banheiro, que os de cima estavam todos ocupados, com fila.
Achei que poderia ser algo pontual - um café da manhã coletivo com algo passado e que afetou todo o setor. Não era o caso.
Dia desses fui cumprimentado esfuziantemente por um colega no banheiro. Achei estranho: todos aqui conhecem minha fama - mesmo os novatos, parecem que já são alertados que eu sou uma pessoa de poucas conversas. Como sou educado, cumprimentei, mas sem a mesma alegria que ele. Na saída, perguntei ao Macedo, que me esperava para irmos almoçar, quem era aquele que havia saído antes de mim:
- É colega novo?
- Não. Ele tem anos de casa.
- Mas como nunca o vi antes?
- Foi transferido pro setor que ficou no andar abaixo, e estão com poucos banheiros para a quantidade de funcionários alocados.
Ou seja, a empresa lançou a inovação do colega de banheiro. E eu, que já não faço parte do clube do café, para não ter que socializar, agora preciso evitar até mesmo o mictório!





17 de agosto de 2026



PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas