Mesmo que nunca tivesse trabalhado antes, era questão de observação e análise: cada setor fez uma reformulação, juntaram tudo e apresentaram como um trabalho coerente, sendo que em momento algum pareceu haver uma coordenação geral das reformulações, pensando na empresa como um todo e não em diretrizes gerais e cada setor em particular.
Resultado: não tardou um mês e começaram a reformular os setores reformulados - inclusive com contratações. Mais um mês e aí, sim, com mais uma série de fusões e desdobramentos de setores, mudanças de nomes e mudanças de salas, veio o novo passaralho - cortando, inclusive, vários daqueles funcionários que haviam sido contratados havia um mês.
Nessa novela, nosso setor teve várias transferências, algumas contratações, algumas demissões. Uma das salas que ocupávamos está vazia, a sala do antigo subchefe virou sala de reunião, e vários rostos desconhecidos apareceram (para compensar os rostos desconhecidos que desapareceram). Não me queixo totalmente: fui jogado para um canto, tenho agora apenas a janela às minhas costas - à qual deixo aberta, escancarada, o dia inteiro - e, mais importante: sem doutora Sabujinha nas proximidades. Pelo visto, notaram que havia algum clima belicoso entre mim e ela, e nos puseram em extremidades distantes. Pior para Carnegie, o Arauto do Apocalipse, que está agora sentado à direita da colega mais simpática do setor (quiçá da empresa, ainda que eu ache que não, preciso ser justo: tem gente muito podre aqui dentro).
O mais curioso dessa reformulação é que parece que quem pensou a nova distribuição geográfica dos funcionários fez curso de cálculo de microondas no refeitório - conforme o meme consagrado.
Dia desses encontrei Fernandes, o colega de cima (agora apenas um andar acima!) no corredor do nosso andar. Conversamos normalmente, e no final lembrei de perguntar o que ele fazia ali:
- Vim usar o banheiro, que os de cima estavam todos ocupados, com fila.
Achei que poderia ser algo pontual - um café da manhã coletivo com algo passado e que afetou todo o setor. Não era o caso.
Dia desses fui cumprimentado esfuziantemente por um colega no banheiro. Achei estranho: todos aqui conhecem minha fama - mesmo os novatos, parecem que já são alertados que eu sou uma pessoa de poucas conversas. Como sou educado, cumprimentei, mas sem a mesma alegria que ele. Na saída, perguntei ao Macedo, que me esperava para irmos almoçar, quem era aquele que havia saído antes de mim:
- É colega novo?
- Não. Ele tem anos de casa.
- Mas como nunca o vi antes?
- Foi transferido pro setor que ficou no andar abaixo, e estão com poucos banheiros para a quantidade de funcionários alocados.
Ou seja, a empresa lançou a inovação do colega de banheiro. E eu, que já não faço parte do clube do café, para não ter que socializar, agora preciso evitar até mesmo o mictório!