quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Desatenção flutuante [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


 Parte da minha estratégia em evitar a fadiga do trabalho (na medida do possível, claro) consiste em fazer uso da “desatenção flutuante”, como quase diriam os psicanalistas: no meu canto, com meus fones de ouvido, evito escutar assuntos de trabalho, para não ter risco de parecer negligente, ao não dar uma informação que eu sei, nem para me estressar com assuntos que não mos foram designados (parênteses para celebração gramática-literária: combinação de pronomes oblíquos átonos!). Escuto somente quando vejo que é algo que realmente diz respeito a mim - quando escuto, porque não é incomum ver pessoas agitando os braços para mim, como esses bonecos de posto.

Macedo, por exemplo, faz o exato oposto e como prêmio está sempre sendo contemplado com uma reunião extra para participar. Já tentamos lhe explicar que aqui não é uma escola Voldemort e que ser prestativo assim serve para acumular mais trabalho, não para que ajudem quando ele precisar.

Enfim. Me chamam apenas para reuniões essenciais - e o novo chefe, na última, presencial, ainda confundiu nossos nomes, numa cena curiosa. Após os apontamentos de Macedo, ele olhou para mim - que estava ao lado do nobre colega - e perguntou:

E você, Macedo, o que tem para complementar?

Bem, acho que é isso - respondeu o interpelado.

A sala ficou um tempo em silêncio. Ele me olhava fixamente, e eu devolvia o olhar, fingindo que não era comigo.

E então, Macedo?

Macedo sou eu - respondeu o próprio.

Ah, desculpa.

Nisso o clima deu uma desanuviada, contamos causos de colegas outros que nos confundem, Mello se lembrou de um outro tópico que ele precisava discutir e eu consegui passar incólume.

Estava eu hoje no meu cantinho, tomando minha água, reclamando do calor e fazendo ativismo digital para Lula e Haddad e deputados e senadores de esquerda, quando chega mensagem de Meirelles no whatsapp, com o link para a reunião e a senha, e o aviso: 

Só falta você para começar, e o diretor geral já deu pinta que hoje está mordido.

Pqp, eu tinha esquecido completamente dessa reunião no meio da tarde! Desliguei o som e entrei aturdido na reunião. O diretor estava com o semblante fechado e falava de alguma dificuldade junto a um grande fornecedor, devido a atrasos na consecução do plano de ação.

Como eu disse, desatenção flutuante é o meu forte, e eu vi que estava mesmo bem na minha tática: não fazia a menor mínima ideia do que estavam tratando. Eu só precisava torcer para que o diretor não fizesse como o chefe, e pedisse minha opinião. Quanto mais ele falava, mais eu ficava nervoso: minha ignorância era tanta que eu não conseguiria sequer dar uma enrolada. Minha cara na câmera devia ser da incompetência e do pavor em pessoa. E como cantavam o Planet Hemp: os cães farejam medo. No meio da fala o diretor interrompe e se dirige a mim:

Sérgio S.?

Pronto, eu devia saber que esse dia uma hora iria chegar (ou seria melhor dizer que essa hora um dia iria chegar?). Com isso, eu definitivamente entraria para a lista do próximo passaralho - se é que esperariam até lá.

Pois não, diretor.

O que você está fazendo aqui?

É, pelo visto minha cara me denunciava muito mais do que eu imaginava. Tentei gaguejar uma resposta, mas fui interrompido:

Você não faz parte do compliance, por que está nesta reunião?

Me passaram o link, dizendo que eu estava atrasado, nem tive tempo de pensar.

Pois saia agora!

Nem terminei de dizer com licença e tratei de sair da reunião. Meirelles agora é quem deve estar preocupada...


30 de setembro de 2026


PD: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas.



quinta-feira, 24 de setembro de 2026

O carisma de uma porta de elevador [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]

Precisamos falar sobre foto de perfil no Whatsapp - principalmente se você utiliza seu Whats para trabalho também, como é o caso na empresa.

Em geral, as pessoas aqui mudam pouco sua foto de perfil. A minha, por exemplo, coloquei em um desses eventos internéticos de criança viada, em 2016; em 2024 troquei por uma em que estou montado, e depois de um chamado dos superiores, de que eu precisava uma foto mais séria e condizente com o serviço, coloquei minha cara, como se estivesse numa foto 3x4 para identidade: olhos abertos, expressão entre a meio morta e a assustada e o carisma de uma porta de elevador - Brotinho diz que estou bonito nela, e eu prefiro não imaginar se eu estivesse feio... Lino e Goleador devem trocar cada dois ou três anos, apenas para mostrar o que mudaram nesse tempo. Carnegie há anos colocou uma foto sua cheia de efeitos que nem dá para notar a ação do tempo nesse ínterim. Meirelles está com a foto da eleição passada, ainda - não é propaganda de nenhuma candidatura, mas tem seu simbolismo ainda atual. Macedo usa uma da sua mala de viagem, das férias de 2022. Inclusive já foi assunto da bancada, qual seria o significado dessa mala: desejo de partir? Saudades de viajar pelo mundão, quase sem rumo e quase sem programação (foi uma ironia, vide o texto Má Influência, de abril de 2023)? Aviso falso de que está de férias, para ver se assim recebe menos demanda? Ele atesta que é escolha estética - e preguiça. Gosto muito de um colega de outro setor, que tem a foto de uma santa em uma caixa dourada numa parede de pequenos azulejos vermelhos: parece que foi tirada em algum banheiro de parada de ônibus.

Quem alterou recentemente foi Mello. Na verdade foram duas trocas. Numa, colocou uma foto levemente adulterada por IA, que fez com que parecesse o George Clooney. Tenho a impressão de que rolou algum tipo de piadinha no Clube do Café, pois uma semana depois (hoje) ele resolveu trocar. E o fez sem avisar.

O dia corria bem. A dada altura, precisei mandar alguns arquivos para ele. Com o web Whatsapp aberto (sim, Meta e Alphabet sabem de tudo o que se passa aqui na empresa, se algum dia virem que ela vai bombar, chega uma proposta pouco antes), digito seu nome, arrasto os arquivos, mando e vou fazer o que mais tenho que fazer.

No meio do expediente, entro no web Whatsapp - uso um add-on no navegador para embaçar os nomes, então só vejo a foto e a última mensagem - e não reconheço uma das primeiras fotos que aparece, apenas identifico que a última mensagem é o arquivo que eu enviara para Mello. Pronto!, pensei (ainda que em termos um pouco menos publicáveis), mandei documentos sigilosos da empresa para o entregador do Mercado Livre! Nada, era apenas o colega em foto um pouco menos modificada, parecendo com qualquer outra pessoa que não ele - nem o George Clooney. Da minha baia, gritei para ele: 

Se não for botar uma foto que te identifique, se for pôr uma foto de uma pessoa genérica que você acha que se parece com você, ao menos avise!

Minha mulher achou que fiquei bem nela - justificou.

Sim, tão bem quanto eu na minha, que também contou com a aprovação do Brotinho.


24 de setembro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definida

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Saldão de Bíblia e prateleira de vidro [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


Muito lentamente, desde que Lula assumiu a presidência, o centro de São Paulo vem recuperando parte de seu comércio. Alguns trechos ainda estão desertos e mostram a profundidade da crise do governo anterior - e a inépcia do governo municipal. As ruas São Bento, entre a Direita e a Praça Ouvidor Pacheco e Silva (todo tapumado, utilizado como depósito para as reformas no centro, programadas para terminar nas eleições... do ano retrasado) e a José Bonifácio, por exemplo, seguem desertas de comércio. Na própria rua Direita, o comércio resistente parece sobreviver a dura custas - uma parte já fechou.

Numa dessas lojas vazias abriu uma das lojas mais aleatórias que vi até agora - opinião compartilhada por Macedo e Goreti. Sem nenhum letreiro externo, nenhuma reforma interna, simplesmente levantaram a porta, distribuíram uns baldes para recolher a água das goteiras e instalaram uma faixa com três linhas: “Loja de fábrica/Saldão de Bíblia e/Prateleira de vidro”.

Quando abriu, imaginei que seria um comércio breve - talvez o dono da sala que se meteu em negócios furados de diversos calibres, uma espécie de Ronaldinho Gaúcho das empresas - e aproveitou que estava sem ganhar o aluguel da sala para se desfazer daquilo que aceitou como pagamento de dívidas. Passaram um, dois, três meses - e a loja seguia lá, com seu saldão de Bíblia e prateleiras de vidro. Passou um ano, pouco mais, e ela seguia aberta. Da última vez que passamos por ela, havia diversificado seus produtos: calça jeans a preços de saque de caminhão tombado (um suco de frutas sai mais caro pela redondezas) e uma vasta coleção de quadros de leões - todos emoldurados em molduras bastante bregas.

Sempre fico a me perguntar o que é aquela loja, que surrealismo paulistano a explica. Desta vez explicitei a pergunta ao nobre colega Goreti que, de início, levantou a teoria de ser refugo das lojas da Conde de Sarzedas, famosa rua de vendas de artigos para igrejas evangélicas.

E as prateleiras de vidro?

Refugo de onde se expunham os sex toys na Love Nox.

Nunca tinha ouvido nessa Love Nox. Fui pesquisar na internet, talvez seja um bom lugar para levar o brotinho...

21 de setembro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definida

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Jogo de War no escritório [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


Consequências ainda de toda a rerereformulação da empresa, nosso setor ficou mais enxuto, para ganhar agilidade e dinamicidade, aproveitando da “competência e resiliência” de quem sobrou: “aqui só estão os melhores”, avisou o supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis dia desses, conhecido oficialmente como Manager de Fluxos Intersetoriais. Melhores no que, ele esqueceu de explicar. E tenho alguma forte suspeita de que não são os melhores em serviço, visto que eu e a doutora Sabujinha seguimos firmes e fortes na empresa - ela inclusive em treinamento externo pago pela empresa, pronta para galgar posições aqui. Puxa-saquismo de resultados! Assumo que subestimei sua capacidade - capacho para qualquer porta.

Enfim, setor enxuto significa mais trabalho por pessoa, sobrecarregando quem já vinha sobrecarregado - Macedo que o diga -, e dando trabalho a quem vinha com esmero evitando esse tipo de fadiga - no caso, eu.

Essa enxutagem fez com que se abrissem espaços vazios na sala - como já comentei alhures, a sala da antiga subchefe virou nossa sala de reunião. Não mais. Decidiram que ali seria um bom espaço para o supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis e sua equipe de seis pessoas - dentre os quais um seboso colega leitor de Olavo de Carvalho (ele está sempre com um livro do autoproclamado filósofo anal), cujo comportamento é muito cordato e as falas, discreta e constantemente preconceituosas.

Quem não ficou muito feliz foi nosso atual chefe, que viu o aquário da chefia ser dividido em dois, para que metade fique com o manager - cada um com seu ar-condicionado, claro, enquanto o resto da sala possui, toda ela, outro ar (desregulado). Pois é, achava que ia reinar sozinho, mas vai ter que dividir. Ele pode ver pelo lado positivo: se conseguir dividir também as preocupações, quem sabe a velocidade com que seus cabelos estão embranquecendo desde que assumiu o posto diminua também?

Nós, reles mortais CLT, acompanhamos esse verdadeiro jogo de War - como bem definiu Macedo - com apreensão. Quer dizer, eu não, pois já garantiram que vou continuar no meu cantinho aqui, então eu só assisto, mesmo. Surgiram dois focos de tensionamento. 

O primeiro foi o Clube do Café e Goreti. Com mais gente na sala, sobrou menos espaço livre, menos espaço para o armário onde estão os apetrechos do Clube do Café e a panela de arroz de Goreti. É certo que o Clube do Café está mais para clube da bolacha água e sal ultimamente: os colegas que costumam fazer o café toda manhã foram transferidos e os que sobraram tem preguiça; a pipoca também, passado o ânimo inicial (ou será o fim do clima de copa do mundo), só tem acontecido de vez em quando. Mas Goreti segue firme e forte com sua panela de arroz. Por enquanto o móvel segue no lugar, com um armário colado a ele, atrapalhando parte do corredor e dificultando o uso da tomada o referido Clube.

O segundo é mais grave e alcança um número maior de colegas. Nessa de diminuir nossos espaços para caber mais gente - otimização espacial para pessoas resilientes, afinal, para que uma baia em que cabem dois monitores para quem só usa um? -, quem está na mira é um frigobar que apareceu em algum passado remoto, ninguém sabe de onde, e aqui segue - apesar da briga de longa data do RH para levar para sua sala e, mais recentemente, dos funcionários transferidos levarem para o setor onde foram alocados. Goreti diz que já tem a solução, mas quer antes saber se vai ter mais gente a defender o móvel do Clube do Café, antes de soltar sua solução maravilhosa - que, por ora, ele só contou para mim e para Macedo, sob jura de confidencialidade:

É só usar o frigobar como suporte para a impressora.

Está aí, Goreti soube incorporar o novo espírito da empresa e está sugerindo adaptá-lo até mesmo ao frigobar!


15 de setembro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas

terça-feira, 1 de setembro de 2026

O padre e o RH [por Sérgio S., ex-Trezenhum. Humor Sem Graça.]


Nessa de reformulações, passaralho, contratações, remanejamentos e outras bossas acontecidas nos últimos tempos dentro da empresa, criaram um cargo novo, uma espécie de supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis (o nome é mais curto, mas mais hermético também). Ou, como ele mesmo disse na sua apresentação: “cheguei para fazer acontecer”. Enfim, não sei onde ele se encontra no organograma da empresa, que poderes possui, porém, reconheço, a coisa parece que começou a fluir melhor nas trocas entre setores. Isso não quer dizer que tenha feito um grande trabalho: quando tudo está parado, qualquer passo de tartaruga é um avanço.

Eu ainda estava a caminho do serviço quando Macedo anuncia no grupo de whatsapp: 

O padre já chegou ao escritório.

Padre?! Não entendi a história e achei que era o único perdido, mas descobri que não. Depois de ele garantir que era um padre de verdade - e não um de eleições e festa junina -, Carnegie perguntou:

Ele vai para qual setor?

A pergunta era pertinente - eu temia perder meu cantinho na janela -, mas eu tinha uma dúvida ainda prévia:

Padre pode ter dois empregos?

Macedo acabou nem respondendo no grupo, já que, aos poucos, íamos chegando ao escritório - ele gosta de ser o primeiro, parece até crescido na tradição japonesa. De qualquer modo, ele também não tinha muito mais o que esclarecer: havia chegado junto com um dos chefes, que trazia o padre, todo paramentado.

No meio da manhã, o padre apareceu no setor. Com uma garrafinha de água mineral na mão (daquela marca que teve lote recolhido por estar com bactérias), espargindo a água pelo setor - mas com cuidado para não acertar ninguém. Um colega até comentou que era a primeira vez que via padre benzer com água mineral. 

Ele deve ter esquecido o aspersório e a caldeirinha na sacristia; mais importante é a intenção - respondeu, depois, Mello, um dos que ficaram a ciceronear o padre todo o tempo, revelando um passado de coroinha, ou ao menos de papa-hóstia (se é que esta parte é passado).

Depois de percorrer o prédio todo, benzendo e rezando um pai nosso com quem quisesse, o padre se despediu e foi embora: não, não era um novo contratado, apenas amigo do novo supervisor-geral-responsável-por-fazer-os-contatos-intersetoriais-mais-ágeis, que, talvez tendo em vista o estado que estamos todos, decidiu apelar aos santos, ver se conseguia fazer acontecer de algum modo, como havia prometido.

Detalhe importante, que ficamos sabendo depois do almoço, quando um alvoroço tomou conta da empresa: ele não passou no RH. Restou o grande questionamento: que coisa ruim está no RH que o padre achou por bem evitar o setor - ao menos sem os equipamentos oficiais de exorcismo? Goreti, sem nomear, foi preciso:

Nem o padre quis entrar lá, e nós temos que nos submeter...


01 de setembro de 2026


PS: Este é um texto ficcional (a imagem também), teoricamente de humor. Não há nada para além do texto. Qualquer semelhança com a vida real é uma impressionante coincidência, ou fruto da sua mente viciada que quer pôr tudo em formas pré-definidas