Encerrado o processo, podemos agora fazer uma análise mais detalhada das eleições. Se o segundo turno foi histórico e heróico, o primeiro foi um desastre: a extrema-direita se tornou força dominante no congresso e nos estados.
Foram 15 governadores eleitos (PL, PP, Podemos e Republicanos), contra seis dos partidos do dito centrão (MDB e PSD), quatro de esquerda (PT) e dois do que seria a direita tradicional, o PSDB (sendo que em Alagoas o partido estava coligado com PL e PP).
No congresso, só o PL ficou com quase um quarto da câmara (23,5%), 121 deputados, três a menos que a soma das esquerdas (124). No senado, as esquerdas terão 15 senadores, pouco mais da metade do que o PL possuirá, 28 - no total, a extrema-direita terá 49 assentos. Vale notar também o crescimento da extrema-direita gourmet, o Novo, com 3 senadores e 10 deputados. Mesmo sem o executivo, a extrema-direita tem condições para pautar as duas casas e trabalhar num sistema de boicote permanente ao presidente. Mais que isso, para alterar a constituição, como já haviam anunciado ao cabo do primeiro turno, faltam apenas 49 votos na câmara para chegar aos 308 - no senado eles já possuem quórum suficiente -, e negociações nos estados podem ajudar a conseguir esses deputados. É importante lembrar que mudança constitucional não passa por sanção presidencial. Serão quatro anos de pressão intensa sobre o governo e ameaça constante à democracia.
A corrida eleitoral
No primeiro turno, foi uma eleição fria: pouca, muito pouca discussão sobre os candidatos, não só por conta da campanha curta, como pela jogada do bolsonarismo, via STF e mídia, de pautar o debate em torno das relações de Vorcaro com Alexandre de Moraes, o que tirou o foco das eleições e dos candidatos e ainda jogou no colo do governo um problema que ele não tinha nada a ver - numa associação tosca mas eficiente de que se Moraes é “contra” o bolsonarismo ele é necessariamente “aliado” de Lula.
Sobre a campanha curta, sei que é assim há dez anos, mas esse é um ponto importante de ser levado em consideração, pois diminui o tempo de exposição dos candidatos e de debate entre eles, e favorece quem já tem visibilidade e sabe usar das novas tecnologias para criar ondas. Isso vale à direita, mas também à esquerda, como mostraram as candidaturas de Jones Manoel e Elias Jabbour, por exemplo.
Sobre a eleição fria, nada mais que consequência de quatro anos em que seguimos com trabalho de base praticamente inexistente. Nossa atitude é compreensível: não apenas por conta de um esvaziamento da política, resultado dos rearranjos institucionais neoliberais, como por um esgotamento dos anos de governo Bolsonaro pai: a vitória de Lula foi a oportunidade de podermos tocar nossa vida sem um desgaste por dia provocado pelo governo. Ademais, já tínhamos um candidato forte para 2026: o presidente em exercício. O problema: nós largamos mão de acompanhar política, eles, não. Seguiram mobilizados, principalmente na internet e nas redes sociais, com amplo apoio e divulgação da mídia corporativa - que, no meu caso, ajudou a manter o cansaço durante o governo Lula, visto que todo dia era uma pauta negativa diferente.
A mídia corporativa, por seu turno, não decepcionou: pelos quatro anos se comportou como o partido de oposição, papel que assumiu desde quando Lula assumiu, em 2002, e PFL e PSDB não se mostraram à altura de uma oposição política - e isso é profundamente diferente de ser vigilante com os atos do governo, não se trata de fazer jornalismo chapa branca, mas criar todo um clima de desesperança e pessimismo não é jornalismo. Na campanha, se não divulgou fake news, omitiu notícias em doses industriais sobre Flávio e seus desvios de conduta, em especial com o Banco Master - depois, soubemos, parece que eram todos do mesmo círculo de “amigos”.
Por um tempo, acreditei que esse apoio - velado de início, mais visível depois da proibição das bets - de Globo, Folha e outros fosse uma estratégia para forçar o segundo turno e barganhar com Lula uma agenda que atendesse aos seus interesses e daqueles que esses veículos representam sem dizer o nome. Porque com o currículo de Flávio, essa era uma eleição para Lula ganhar no primeiro turno, se a mídia corporativa tivesse feito o básico do jornalismo. Não fez. Porém, Flávio não é Jair, e a convivência dessa mídia com esse fascismo menos tosco (mas ainda tosco) se mostrou muito harmônica, orgânica - com direito a almoço antes de sabatina fake.
O segundo turno e depois
O segundo turno, desnecessário detalhar muito, foi esse movimento colossal de massas, nas ruas e nas redes, e que aconteceu de modo espontâneo e bastante orgânico. O Exército de Lula, comandado por Janones, foi importantíssimo para qualificar nossas ações nas redes e dar um sentido a elas. Esse é um fator fundamental em uma democracia de massas, apesar do quanto isso dói no ego de muita gente de esquerda, em especial a acadêmica, de ter que seguir ordens simples e ser “só” mais um, ao invés de ser o estopim da revolução com um textão acadêmico, ou então de colocar vários poréns para explicar que seguiria, mas que não concordava com tudo e blábláblá. Cito como exemplo algumas (poucas) pessoas da minha bolha querendo problematizar o muso do moletom cinza da manifestação de 11 de outubro na Paulista, como se isso tivesse importância diante da urgência de barrar o fascismo. Diferentemente do primeiro turno, quando teve influenciador de esquerda fazendo campanha para Derrite e Prado, ao atacar Tebet por não ser de esquerda, e sendo muito republicado: um belíssimo exemplo de tiro no pé (ou em órgãos vitais, pensando no histórico de um dos eleitos) dessa esquerda radical formada nas universidades e que parece ter esquecido do mundo real em que foi criada.
Junto com a importância das redes, a centralidade das ruas: foram nessas mobilizações que a campanha de Lula mostrou sua real força e criou a onda que o levou à vitória inconteste, mesmo com a tentativa de golpe por parte de empresas de transporte e prefeitos bolsonaristas (inclusive, a necessidade de fraudar o processo eleitoral reforça o discurso de segurança das urnas).
E ouso dizer: foi nossa sorte que Flávio Bolsonaro tenha terminado o primeiro turno à frente. Não só porque eles trataram de subir a rampa do Planalto e sentar na cadeira presidencial, já montavam o ministério e distribuíam cargos, anunciavam seu real programa de governo, ainda que apenas em linhas gerais, mas, principalmente, porque nos despertou um senso de urgência que não teria se o resultado fosse 47% para Lula e 45% para Flávio: penso que a campanha esquentaria um pouco, mas a organização nas redes e as mobilizações nas ruas só começariam depois das primeiras pesquisas, dando a virada de Flávio - nisso, perderíamos ao menos uma semana, e talvez a chance de vencer.
O ponto agora é se conseguiremos manter essas mobilizações - nas redes e nas ruas -, ainda que em ritmo menor (que ninguém aguenta o ritmo que foram essas três semanas). Convém lembrar que em 2018 tivemos um grande movimento de vira voto, principalmente de rua, e que desapareceu tão logo fecharam as urnas e decretaram a vitória de Bolsonaro - Haddad não teve estatura para entender o momento e conduzir a resistência ao fascismo, preferindo retomar sua vida normal, como se ele não tivesse liderado 47 milhões de votos e vivêssemos num período de normalidade democrática.
Lula, no seu discurso após a vitória, sinalizou que entendeu o novo momento e disse que vai governar com o povo: mobilização e pressão popular vão se tornar um elemento fundamental deste período, a única forma de conseguir aprovar pautas de interesse da população e da soberania nacional com o congresso que foi eleito - as habituais negociações do presidencialismo de coalização já se mostravam esgotadas no Lula 3 e devem se tornar praticamente inviáveis agora. É também a oportunidade para criar novas lideranças para encabeçar a sucessão do presidente: ainda é cedo para citar nomes, mas talvez o PT precise abrir mão da cabeça de chapa - afinal, nosso objetivo primeiro será o mesmo desta eleição: manter o estado de direito e vencer a extrema-direita e o fascismo.
27 de outubro de 2026

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