sábado, 26 de maio de 2012

Santa Ifigênia à noite.

Sábado passado fui assistir à Osesp, na sala São Paulo. Depois, resolvi aproveitar a deixa para passear pela região da Santa Ifigênia à noite – início da noite, é certo, mas deserticamente desestimulante para andar despreocupadamente. O passeio durou umas duas horas, tendo começado umas seis e meia. Aos que não conhecem bem São Paulo, a região da Luz, da Santa Ifigênia, costuma ser mais conhecida por Cracolândia – andou passando por uma certa higienização social, mas ainda faz jus ao nome.

Saio da Sala São Paulo, na estação Julio Prestes, já noite escura. Ainda que tivesse me organizado para subir a Duque de Caxias, me perco, não sei como, e acabo na rua do Triunfo – daí a decisão de levar a cabo o que até então era apenas plano, o do passeio pela região. Não vou saber por quais ruas deambulei, sei que tratei logo de achar a Avenida Rio Branco. Já havia circulado algumas vezes por essa região – famosa pelos eletrônicos –, porém sempre em momentos de movimento e de dia – salvo a primeira, quando ainda não morava em São Paulo, que saí da Estação Pinacoteca e meio que me perdi por ali, no início da noite.

Tenho plena consciência que não é um lugar muito tranqüilo, e sei que pessoas de boa família ou que aspiram a ser bons intelectuais ou acadêmicos brasileiros não deveriam dar esse tipo de rolê, em meio ao povo, sempre perigoso e sujo, ainda mais quando se trata da escória da escória. Desprezo essa brasilidade da nossa academia, e torço para que nada me aconteça.

Próximo a uma delegacia de polícia, vejo dois homens que aparentemente perseguem uma mulher. Ao mesmo tempo que parece assustada, a mulher ri – como se estivessem brincando de pega-pega. Defronte a delegacia, duas mulheres observam a cena. Ok, se está acontecendo algo fora dos padrões de sociabilidade aceitos ali, as mulheres tomarão alguma atitude, penso, e prefiro não olhar para trás. Noto que destôo um pouco dos habitantes do local, e resolvo usar o capuz do moletom que uso – ainda que isso me faça passar a ter medo da polícia, aliviado um pouco pelo bilhete da orquestra, para o caso de uma abordagem o que você está fazendo aqui, playboy? Numa rua escura, atravesso ao avistar à minha frente um grupo de pessoas encostadas no muro. Na hora penso se não é preconceito da minha parte, desviar das pessoas só porque estão em grupo. Sigo caminhando, observando a paisagem urbana – prédios, nóias, imigrantes, samba nos bares, ruas repentinamente desertas, repentinamente povoadas e agitadas. Na rua Conselheiro Nébias resolvo não atravessar ao ver um grupo sob uma marquise. Sou nóia, mas sou sangue bão, diz a mulher a dois homens que estão com ela. Não sei de onde surge, mas noto um homem caminhando à minha frente: anda com um braço flexionado, o pulso fechado, um sorriso estranho no rosto. Aponta repetidamente para o braço. Finjo que não é comigo, sigo meu caminho, ele na minha frente. Uma hora ele fecha o sorriso, se volta e vem na minha direção, pronto pra desferir um golpe. Não chega a finalizar o ato, não sei como me desvencilho, estou já na sua frente. Ele aponta para um carro da polícia, na esquina atravessando a rua, desconfio que foi por isso a tentativa de agressão. Estou na minha, vou virar aqui, mano, e dobro a esquina para a praça Júlio de Mesquita. Olho para trás, ele corre atrás de mim. Não penso duas vezes e faço bom uso das pernas que herdei. Me sinto um cachorro escorraçado. Duas vezes. Talvez seja assim que ele também se sinta, e apenas esteja marcando território.

Mesmo com as pernas bambas e o coração funcionando aceleradamente pelo susto, resolvo prosseguir meu passeio. Depois de algumas voltas a esmo, passo ao lado da praça da República e entro na rua do Arouche. Nesta região, que passei já algumas outras vezes, inclusive em horários mais tardios, volto a ter mais medo da polícia do que dos seus usuários.

Me avisaram que o Largo do Arouche é ponto de prostituição masculina. Um conhecido – acadêmico – me disse que da vez que passou ali viu dois michês brigando por ponto, todos ensanguentados. De minha parte, nunca vi nada anormal para o local – e com as três vezes desse sábado, já foram uns cinco vezes que passei pelo Largo. Me pergunto se ele teve “sorte” de passar ali justo quando acontecia uma briga dessas, ou se foi seu preconceito que permitiu ver muito além do que acontecia – talvez, se muito, fosse uma discussão pelo ponto. Passo por um grupo de três rapazes, inocentemente achando que só estão ali parados. Logo a atrás de mim vem um homem, mais velho. Vamos transar gostoso, perguntam ao homem. Descubro que não é só no Largo que rola a prostituição. Na esquina seguinte, um rapaz e duas mulheres – uma das quais desconfiei que fosse travesti – entregam um panfleto a um michê. Fico curioso em saber do que se trata, mas não peço um. Quando passo por eles, ouço uma parte da conversa. Se a gente não fosse tão conhecido depois da praça da República, dava pra ir pra lá. Como não guardo nenhuma visão idílica de pessoas de vida sofrida, não creio que sejam anjos dotados de sexo, fico me questionando conhecidos por quem, por o que? Disputa de ponto, faxina social, marcados pela polícia por conta de uma eventual ficha policial, grupo de extermínio? Há o dito que se não há deus, tudo é permitido. Mesmo havendo deus, se o Estado é falho – e muitas vezes ilegal, que crê que bandido bom é bandido morto –, como o nosso, tudo é permitido, logo, todos devem ser temidos. O trio me parece muito tranqüilo para que os tema, sigo meu trajeto e logo me distancio, pois páram para entregar outro folheto.

Perambulo um pouco mais por ali. Dois dias antes, dezessete de maio, havia sido dia de combate à homofobia, imaginei que fosse ter alguma campanha do gênero: nada. Talvez o trio da rua do Arouche?

São oito horas, mais ou menos. Os prostíbulos ainda esperam sua hora, botecos e pontos já estão cheios de travestis – diferentemente dos michês, essas me chamam para gozar gostoso –, algumas põem o celular pra tocar, outras dançam com fones de ouvido – e esse dançar aparentemente sem som dá um ar de loucura, de delírio onírico à cena, por mais ritmada que seja a dança –; muitos carros passam, alguns param, pessoas malham nas academias, mendigos dividem o fim da pinga e vasculham o lixo, espectadores entram em um teatro: a noite de sábado ainda está apenas começando.

São Paulo, 26 de maio de 2012.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Tornar-se vácuo.


(sobre o espetáculo de dança "Vácuo - I, Impostor")

Admito: pelos primeiros cinco minutos, isoladamente, eu teria criticado muito a coreografia "Vácuo – I, impostor", concebida por Hideki Matsuda, Key Sawao e Ricardo Iazzetta, a partir de instalações de Mike Nelson, apresentado na Galeria Olido, por ocasião do Festival Cultura Inglesa. Uma pessoa ao meu lado teve a mesma impressão desses cinco minutos e resolveu não esperar. Não sei se perdeu algo, porque se não teve paciência para ver o que viria a seguir, tampouco teria para o desenrolar da coreografia – muito mais num plano experimental, quase performance, do que um trabalho de plasticidade dos corpos e beleza de movimentos.
Há uma estranheza logo que se adentra a sala: palco e platéia com montanhas de papéis picados – essa indiferença inicial entre palco e platéia acaba frustrando uma eventual quebra da quarta parede que se abria como possibilidade. No palco, praticamente ao centro, meio encoberto por uma dessas montanhas, um relógio a contar o tempo – não se trata de contagem regressiva, não é pra se esperar nenhuma bomba, é apenas o andar automático e incansável dos segundos.

Da mesma porta que o público, entra o primeiro bailarino e se dirige ao palco – a luz da platéia ainda acesa, como ficará praticamente toda a apresentação. Como trilha sonora, ruídos, apenas. Ele passa a fazer alguns movimentos "avulsos", tão sem sentido quanto os ruídos, quanto os papéis picados, quanto sua entrada pela porta e não pela coxia. São mais de cinco minutos nessa "coreografia", sem beleza, sem sentido, até ele dar algumas voltas correndo pelo centro do palco, ir para o fundo e parar, encostado à lateral. Entra, então, uma das bailarinas. Ainda que não os mesmos, gestos sem sentido, até que ela se imobiliza também. Entra a outra bailarina, outros gestos sem sentido para os mesmos ruídos que tocam desde o início da apresentação.

Na platéia, mais alguém resolve sair – dá para ouvir, por causa dos papéis no chão.

Me pergunto se não deveria ser Sísifo, ao invés de Vácuo, o título da coreografia: há som demais, há coisas demais para um vácuo – os montes de papéis brancos poderiam remeter a montanhas de lixo, ou de tranqueiras de consumo, como i-pads e i-phones, alvo dos saques em Londres, no ano passado –, aqueles gestos sem sentido poderiam se reportar ao labor inútil do dia a dia – em busca desses objetos-lixo de luxo. Me dou conta de que não, não é uma questão de Sísifo: os bailarinos não se chocam, não se tocam, quando muito se cruzam, sempre à distância. Se não há um vácuo pleno é por uma impossibilidade física, apenas: contudo, entre os vazios que as montanhas de papéis picados deixam, há um vácuo entre cada bailarino: não há encontro, não há olhares, não há interação – como se cada um estivesse perdido no vácuo de si próprio.

Há apenas um momento em que os três têm sincronia, e é justo a prova de que não se trata de vácuo: quando gritam. Não há vácuo, como não há eco. Está cada um no seu canto, solitário, sem relação com os demais, por mais que o sentimento de todos seja o mesmo, que inspire o mesmo grito – gutural, de um vogal só. Lembrei de Juliano Garcia Pessanha e suas questões com o homem-de-Fora, homem-de-Dentro: se pararmos para nos observar, o quanto de nós não é exílio?

Pouco depois, finalmente, um trecho com música e não ruídos – o noturno opus nove, de Chopin, se não me equivoco. Muda a iluminação, para uma luz quente. Os bailarinos inertes. Enquanto dura a música, poucos, quase nenhum movimento. Até que se retiram, cada um por onde veio à cena, solitários como entraram – e como o tempo todo permaneceram. No fim, tudo igual: se não era vácuo, foi tornado vácuo. No breu, resta apenas o relógio, os segundos a correrem indiferentes como correram durante toda a apresentação.

Resta também uma sensação de vácuo, de incômoda ausência – logo preenchida por aplausos premeditados de alguém que decerto não via a hora de ir embora.


São Paulo, 25 de maio de 2012.

ps: procurei na internet obras de Mike Nelson. Não entendi o título “Vácuo”, já que tudo ali remetia muito mais a obra “Triple bluff canyon” (primeira foto) do que a “A psychic vacuum” (segunda foto).

domingo, 20 de maio de 2012

Da distância entre os corpos e os padrões da cultura

Saí com o Wlad, fomos dar uma volta na Augusta, sexta-feira à noite. Lá ele encontrou um conhecido da sua cidade: normal, Augusta à noite é ponto de encontro de várias tribos, de vários estilos. O que soa estranho é que poucas vezes trombei com um conhecido, por mais que a desça e suba umas quatro vezes por semana, ao menos. Quando isso aconteceu, não ficamos só no oi! Você aqui? Tchau, nem acabamos na tradicional cerveja em um bar. A primeira vez que encontrei dois amigos, fomos ao show da banda de um outro, na Augusta, mesmo. Na segunda, fiquei conversando com uma amiga, na Paulista, até depois da uma da manhã. Fomos, inclusive, assaltados em dez reais. Na verdade, o assaltante dizia que queria dez reais para não ter que assaltar ninguém. Comecei a argumentar com ele que a sua exigência era, sim, um assalto; mas minha amiga achou que não era o momento para uma discussão de relação com a pessoa, e resolveu dar os dez reais e se livrar dela – e não quis dividir o custo do assalto depois. Este sábado encontrei outros dois amigos, Tiago e Alexandre. Eu ia para casa, talvez escrever algo e dormir cedo (antes das duas). Eles me chamaram para a sessão da meia-noite “de um filme japonês sobre drama familiar”, resolvi aceitar – se não for assim, convidado, não assisto a filme algum.

E essa era toda informação que tinha quando adentrei a sala para assistir a O que eu mais desejo, do diretor Hirokazu Kore-Eda. Não digo que o filme seja ruim, mas o fato de durar (enroladamente) mais de duas horas faz com que eu não o recomente. A estética não me impressionou, diferentemente de outros diretores orientais que conheço, como Akira Kurosawa, Kim Ki-duk ou Takeshi Kitano, que parecem ter um ponto de tensão oriente-ocidente nesse aspecto. No máximo, o diretor conseguiu uma poética interessante para o tema do desapego, de aprender que as coisas possuem um fim e aceitar isso como parte da vida. 
 
O que acabei atentando mesmo foi para as relações interpessoais que o filme retrata – bem típicas da cultura, creio eu –, talvez até por certas pulgas atrás da orelha, reflexo principalmente de amizades e casos com descendentes.

Começo pela escola: me causou estranhamento o medo para com o professor, e a sujeição à sua autoridade – por mais que se pense em questioná-la depois, por outras instâncias: os alunos teriam, conforme a sinopse, doze anos, já seria idade de terem um pouco mais de audácia.

Nas relações familiares, mais propriamente falando, há as especifidades dos personagens do filme: um dos irmãos que se vê responsável por cuidar das tarefas rotineiras da casa, acordar o pai, etc; o outro preocupado em desfazer o divórcio dos pais; a garota que quer ser atriz e é mais do que desestimulada, ridicularizada pela mãe, frustrada com seu passado, em que tentara ela seguir a carreira. O que me chamou mesmo a atenção foram as relações quotidianas: a exemplo do próprio cumprimento típico japonês, o se curvar para frente (ao invés do aperto de mão ocidental), as demonstrações de afeto não passam pelo toque, seja nos momentos de agradecimento por um grande favor, seja nos momentos de emoção, como do casal de velhos que recebe a visita da pretensa neta – o que dizer, então, no dia-a-dia de pais e filhos, avôs e netos. Os próprios movimentos de entrega, de compartilhar, são feitos de gestos bruscos, como quando o avô dá ao neto um manju. Não que as pessoas não se toquem no filme: isso parece ser mais comum, contudo, entre amigos, sejam crianças ou adultos.

Esses comportamentos me fizeram lembrar de que na apresentação da Osesp, que eu assistira há pouco, só havia uma pessoa que me pareceu mais entregue ao seu instrumento do que o spalla Emmanuele Baldini: uma oriental do celo (ia falar japonesa, mas vi no site que se trata de uma coreana, Jin Joo Doh). O celo, por se tocar próximo ao corpo, quase como em um abraço, já parece ser um instrumento que convida mais à uma entrega – bem visível na ”dança da orquestra”, não havia celista que tocasse com a frieza de certos violinistas –, por que calhar justo com a oriental essa maior expressividade da pessoa e o instrumento se fundindo em um só? Coincidência? Pode ser. Porém penso que um fundo cultural tenha sua parte na explicação.


São Paulo, 20 de maio de 2012.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Soninha Francine e o metrô “sussa”

Soninha Francine, pré-candidata do PPS à prefeitura de São Paulo, jura que foi ironia o que escreveu no twitter: "Metrô caótico, é? Não fosse pela TV e o Twitter, nem saberia. Peguei linha verde e amarela sussa". Sendo uma figura pública e conhecendo das suas posições políticas, não consegui encontrar a ironia na frase – e não creio na sua incapacidade intelectual para ironias, antes na sua inabilidade política para tentar salvar o chefe. O comentário foi uma clara tentativa tornar o acidente na linha 3 como um caso isolado, resguardando o resto do maravilhoso sistema de metrô da cidade.

Sua frase serviu de gancho para lembrar a decepção – não só minha – que a ex-apresentadora e agora política profissional foi para uma geração – essa que hoje está entre os vinte e cinco e trinta anos, mais ou menos. Com bandeiras progressistas na área de direitos humanos, lembro de muitos amigos terem votado nela para deputada federal, em 2006, quando era ainda filiada ao PT. Depois trocou de partido, foi para o PPS, partido reboque de segunda mão (em vias de se tornar de primeira, com o naufrágio do DEM) do PSDB. Em 2010 apoiou Alckmin e participou da campanha de José Serra, dois dos expoentes mais fortes do conservadorismo reacionário em direitos humanos. Soninha definitivamente se transformava numa carcaça do que um dia havia sido.

Surpreende? Não. Decepciona, isso, sim.

Não surpreende porque Soninha é antes cria da indústria cultural. Oriunda da MTV, onde a linguagem da emissora – na época, década de 1990 – dava aos apresentadores a impressão de donos de uma personalidade independente e não mero representantes de um figurino para a ocasião, teve coragem de admitir que fumava maconha e de ter feito um aborto. Se admitir que usava maconha custou-lhe o emprego na emissora controlada pelo PSDB, ter assumido o aborto, para sua sorte, não lhe custou a estima do cruzadista da moralidade, José Serra – porque político, como comunicador, é uma espécie bem maleável. Contudo, ao aceitar participar da campanha do candidato tucano, parece que, no fundo, aceitou o pensamento de todo bom moralista: que os outros não façam aquilo que julgo errado, por mais que eu já tenha feito.

Sentimento semelhante de deslumbramento com um candidato parece ter acontecido com Marina Silva, na eleição para a presidência, em 2010. As diferenças, contudo, são enormes, e não fosse a própria Soninha jogar fora seu histórico, soaria ofensivo a comparação: Marina Silva é o Alckmin de saia, aversa aos avanços dos direitos civis, só que travestido num discurso up to date de preservação do meio-ambiente. Discurso que não é vago, visto sua história de vida, mas que não me surpreenderia ela ir para o outro oposto, caso fosse politicamente necessário – vide seu silêncio sepulcral durante todo o início da discussão do novo código florestal, quando ela estava mais preocupada em disputar o poder interno do PV.

Não tenho certeza disso que vou falar agora: porém tenho a impressão de que o Tiririca é menos nocivo à política nacional – encarando aqui além de seus aspectos pragmáticos, no que há de simbólico –, do que a Soninha. Ou talvez, sendo mais sensato, o palhaço Tiririca talvez seja só uma versão sem disfarces da comunicadora Soninha Francine.

São Paulo, 18 de maio de 2012.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Um acidente para começar a discutir São Paulo?

Em meio a discussões sobre copa do mundo, CPI, Comissão da Verdade, o acidente do metrô, esta quarta, dia 16 de maio, pode ter sido o pontapé inicial para que a disputa pela prefeitura paulistana se dê em torno de problemas do município. O acidente é mais um episódio que se soma aos constantes problemas com o sistema ferroviário urbano, que vão de crateras a casos de corrupção, passando por panes em trens e agora acidente no metrô. Felizmente não houve mortos ou feridos graves. O mais grave atingido talvez tenha sido o PSDB, que tem o estado de São Paulo como foco de resistência contra seu esfacelamento a la DEM, e de busca de uma identidade de um partido que não sabe a arte de fazer política em sua completude (ora como governo, ora como oposição).

A precariedade dos serviços de transportes públicos na cidade e região metropolitana são evidentes. São poucos os corredores exclusivos para ônibus, a espera nos pontos é grande e os trajetos das viagens não raro são um tanto irracionais – do ponto de vista do usuário. Quem reclama da lotação do metrô é porque desconhece o que é (ou era, ao menos, antes da linha quatro) o trem para Osasco: com intervalo de até vinte minutos, domingo à tarde os carros iam cheios. A vez que tive a brilhante idéia de pegar às sete da noite de uma sexta-feira, tive uma sensação de estar no trem para o inferno.

Como comentou um cara com quem vim de carona de São Paulo: a linha quatro foi inaugurada não faz um ano, e a cidade se mostra hoje impensável sem ela. Quantas outras linhas amarelas não seriam impensáveis, caso existissem, mas que sua na ausência, vamos dando um jeito e tocando a vida do jeito que dá? A resposta do PSDB para o problema do transporte público foi dizer que trem é metrô, e contribuir para o caos urbano, com novas faixas na marginal Tietê.

A título de comparação: São Paulo e Pequim possuíam, na década de 1970, malha metroviária muito próximas, algo em torno de 30 km. Na virada do século, São Paulo tinha 47 km, contra 53 km da capital chinesa – que em 2003, com duas novas linhas, foi para 113 km. Hoje Pequim tem 372 km em 15 linhas e 218 estações, contra as cinco linhas paulistanas e seus 74 km de trilhos onde se espalham míseras 64 estações – ainda acusadas de levar gentalha aos bairros onde vive gente feliz, como Morumbi ou Higienópolis.

O PT deve explorar o episódio, inaugurando, finalmente, um assunto de interesse local na disputa local que ocorre este ano. Faz parte da hipocrisia política representativa: um partido que jogasse justo não ganharia nada. Convém lembrar, contudo, que enquanto a expansão (ou criação) dos metrôs pelo país vai devagar, quase parando, apesar de ser mais do que urgente, o governo federal – PT – insiste no trem bala ligando São Paulo ao Rio. Conversava com o arquiteto português que mora comigo, e ele contava da idéia dos trens balas em Portugal: o deslumbramento do país crescendo, e a vontade de ser como toda a Europa rica, que possui trem bala, levou o governo a começar a implementação de três linhas. Depois de alguns gastos com desapropriações e início das obras, foram abandonados. Quando me contou, senti o Brasil embarcando um pouco atrasado nesse trem que Portugal já havia abandonado.

Que o acidente do metrô e a discussão que promete seguir dele ao menos faça com que o debate sobre a disputa municipal se centre na urbe, seus problemas quotidianos, propostas para torná-la menos hostil às pessoas que nela vivem. Que a disputa seja pautada em projetos sobre o futuro da cidade e não sobre o futuro dos partidos e candidatos. Porque o que vimos até agora foi a cadeira de prefeito ser disputada por conta da função que teve nos últimos anos: trampolim para cargos mais “nobres”.


São Paulo, 17 de maio de 2012.

sábado, 12 de maio de 2012

Gesto anacrônico

Amigo meu de Pato Branco disse ter raiva de gente que possui celular e não atende quando ele liga. Ainda bem que não moramos na mesma cidade, pois se sua raiva é tamanha como disse, nossa amizade estaria em risco – ou então ele teria que fazer como boa parte dos que me conhecem, e se adaptar ao uso que faço do celular.

Tenho a coleira móvel há quatorze meses. Deixei de largá-la sempre em casa quando me mudei pra São Paulo, início do ano, ainda que não seja sempre que saia com ela, ou que a deixe ligada quando carrego na mochila. Houve, é certo, um curto período, na segunda metade de abril, que só faltava eu dormir com o celular ao lado do travesseiro: ansiava por uma ligação ou um sms inesperado com algum convite para um reencontro. Como era de se esperar, nunca veio nada disso que eu almejava – no máximo, um convite para assistir a Raul, feito por um casal de bons amigos –, de modo que, meados de maio, de volta de Pato, e já resignado com a situação, voltei também ao meu velho uso: carrego-o quando sei que vou utilizá-lo, quando foi combinado d'eu sair com ele.

Deixo o celular, volto com o relógio.

Queria assistir a uma apresentação de dança e saí de casa em cima da hora. Consegui chegar a tempo, inclusive de comer algo antes. Quando fui ver a que velocidade precisaria engolir um pão de queijo com chá mate – e tinha sido por isso que carregara o relógio –, olhei para o pulso, onde havia posto o relógio há pouco, e tomei um susto: que gesto era aquele?! Foi como se eu olhasse para além das horas, para o passado.

Me explico.

Houve tempo que sair de casa sem relógio era o equivalente a sair sem as calças. Isso foi até 2007, quando eu tinha uma pontualidade de fazer inveja a britânicos e alemãs, e era de um rigor para comigo como o eram os ponteiros do relógio para com o tempo que mediam. Em 2008, já devidamente atordoado por um breve e silencioso relacionamento que tive em fins do ano anterior, querendo estudar a questão do tempo na sociedade do espetáculo (no livro, mas não tão interessado no livro em si), coincidiu do meu relógio acabar a bateria. Decidi que andaria um tempo sem. O início foi angustiante, mas fui me acostumando, e assim passaram os dias, por mais de seis meses, quando, para não perder as caronas de São Paulo para Campinas, precisei voltar a andar com trambolho – outra opção seria comprar um celular. Voltei a utilizá-lo com assiduidade, mas não como acessório obrigatório – e nunca mais o pus no pulso.

Não tinha me dado conta dessa minha nova relação com o tempo (que sequer chegou a ser tão revolucionária assim) até ano passado, quando uma amiga, que há três anos não encontrava, olhou para mim assustada: “você sem relógio?! Como?!”, só faltou perguntar se eu estava passando bem. Pois foi esse Dalmoro de quatro anos atrás que de repente me senti, ao trazer o pulso na posição habitual de olhar as horas. Me senti um estranho para mim mesmo, cometendo um ato sem sentido, exumando uma história já bem fechada e resolvida. 

Tirei o relógio do pulso como quem tira um espírito mau do corpo. Só então pude estar presente e atentar para as horas: tinha quinze minutos para meu lanche – que engoli em menos de dez, com medo de atrasar.


São Paulo, 12 de maio de 2012.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Sobre covers de Radiohead

Em um mês, pouco mais, assisti a três shows cover do Radiohead. O primeiro foi sem querer. Eu flanava pela rua Augusta, quando ouvi um grupo de estrangeiros comentar do show. Fui atrás deles. Achei salgada a entrada – descobri depois que para São Paulo é esse o preço –, mas como estava no clima, achei que valia a pena assim mesmo.

Ainda esperava o show começar quando me dei conta: fazer cover do Radiohead não é nada fácil. Começa pela voz de Thom Yorke, a forma como ele canta e varia o tom; segue pelas experimentações, pelo uso de eletrônica nas músicas.

Mas não foi pela dificuldade de tocar Radiohead que o show da banda Pública foi um lixo. Foi simplesmente porque, apesar de terem pego um disco fácil – The Bends, rock alternativo de alto nível, mas sem maiores invenções –, seguido ele na ordem, não eram bons instrumentistas e, como eu temia, o vocalista não conseguia acompanhar – nem de perto – Thom Yorke. Para piorar: não sabia as letras – sequer dos hits! Saí emputecido. Mesmo assim fui num outro cover de Radiohead, logo na semana seguinte. A explicação para arriscar novamente eu tinha fácil: conhecia o baterista, Luis André “Gigante”, dos tempos de Unicamp, e sabia que ele valia por um show.
Tendo como base músicas que vão do disco Ok Computer a In Rainbows, cedendo apenas em “Fake Plastic Trees”, o show foi um ótima surpresa: contrariamente a Pública, Radiolarians vai além de mero cover: adapta de leve as músicas, sem grandes invencionices, sem desfigurá-las – e não creio que seja por conta de limitações técnicas dos músicos as alterações, pois além do Gigante, os demais se mostraram ótimos instrumentistas: Fabio Pinc, Junior Gaz e Duda. Provavelmente as leves nuançares servem para as músicas melhor se adaptarem aos vocais de André Frateschi – ator que me é desconhecido, mas parece que já fez até novela –, que não tenta cantar além do que consegue: não tem a voz do Thom Yorke, mas canta no tom (trocadilho involuntário).

O terceiro cover foi nova apresentação do Radiolarians – até para ver se não me deixara influenciar pelo meu fim de noite da apresentação anterior. Para desagradável surpresa, Gigante não estava na bateria. Conforme o cara que estava no som, tinha tirado o dia para descansar. O baterista que entrou para substitui-lo poderia até ser bom, mas claramente havia sido escalado meio em cima: tocava lendo partitura. E pior: tinha Gigante para ser comparado – em "There there", que no show do Radiohead de verdade Phil Selway é ajudado na percursão por Ed O'Brien e Jonny Greenwood, e Gigante leva sozinho, ficou mais do que claro o desnível. Para completar: a banda não estava inspirada, cometendo erros.

Eram três da manhã, nem tanto por cansaço, antes por e-mails pra responder e não querer dormir tão tarde, preferi sair antes do final. Saí certo de que fazer cover de Radiohead não é para qualquer um, nem é para qualquer dia. E que o Gigante, se não é por um show, por metade dele, ao menos, vale.

Pato Branco, 08 de maio de 2012.


(neste vídeo, se não me equivoco, o baixo é tocado por Gustavo Boni)

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Franjas, entradas, saídas e outras bossas do gênero

Deve ter sido há uns vinte anos que eu fizera isso pela última vez (também a primeira). Estava na praia, no litoral paranaense, meu pai avisara: hora de cortar a franja. Naquela época devia ser moda isso: para economizar no cabeleireiro, salão, barbeiro, cortava-se a franja da pobre criança e assim dava para passar um mês mais com o cabelo comprido – lembro de ter visto foto de infância de uma amiga, a mesma franjinha de pais pão-duros.

Se meu pai tinha avisado, não tinha como fugir: a franja seria cortada, quisesse eu ou não. Para manter o mínimo de orgulho que me restava, resolvi eu mesmo cortar minha própria franja. A primeira tentativa saiu errada, torta. A segunda, também. A terceira, já quase sem franja, pior ainda. Me desesperei: já é daquela época que roupa, em geral, não me incomoda, mas cabelo... impensável sair de casa com um teco arrepiado. Para me ajudar: não era moda, ninguém usava cabelo raspado – situação que se inverteria uns dois anos depois – e eu não era lá adepto do boné – nunca fui, na verdade; de boina, nos últimos tempos. Fomos até um salão, onde uma mulher fez uma gambiarra com o que me restava de cabelo.

Eu era feliz nessa época, pois o “me restava de cabelo” era uma situação pontual, bem diferente da de agora, em que o que me resta de cabelo, estou quase passando cola pra que sigam na cabeça os parcos fios. E pior é pensar que cheguei nesta situação porque ninguém me explicou que quando me diziam que meu cabelo estava afinando, isso era o prenúncio da queda. Poderia ter evitado – ou tentado, ao menos. Lembro de uma crônica do Antônio Prata, em que ele dizia que preferia tomar finasterida e arcar com problemas de ereção: afinal, brochar seria algo que só ele e uma mulher precisariam saber, enquanto a careca refletindo a luz do sol poderia atrapalhar a visão de todos os que estão no tobogã do Pacaembu – inclusive diz ele que a tal da impotência causada por finasterida é lenda: toma desde os dezenove e pratica sexo todos os anos, sem nunca ter tido problemas.

Deixo o Prata com sua quase cabeleira a base de finasterida e volto à minha grande aventura dos últimos dias.

Da última vez que cortei o cabelo (no salão), dei as indicações de sempre: dá uma aparada não muito grande, mas o suficiente pra disfarçar a careca que se anuncia. Assim foi feito, mas a cabeleireira esqueceu das entradas, e o corte as deixou muito maiores do que realmente são. Essas entradas falsas me incomodavam, já fazia mais de mês, até que terça tomei uma decisão drástica: cortar minha própria franja. Depois de vinte anos, me aventuraria novamente. Tesoura em punho, sem ter achado nenhum pente ou escova pra dar uma arrumada antes (abandonei esse tipo de apetrecho há uma década, o que não implica em cabelo arrepiado), cortei aquele enganoso trecho da franja. E digo mais: não sei se dá pra dizer que ficou bom, mas ficou melhor do que antes.

Me olhei no espelho, orgulhoso do meu feito, e vi um pouco daquele garoto que há vinte anos chorava o cabelo mal cortado no banheiro: rá! Você não sabia fazer direito!, disse a esse piá que me olhava do outro lado do espelho. E, realmente: se soubesse, teria corrido atrás de algo pra calvície quando ainda havia cabelos em abundância.


Pato Branco, 04 de maio de 2012.

terça-feira, 1 de maio de 2012

O reajuste do salário mínimo e o silêncio da Grande Imprensa

A proposta é de aumentar em 17% o salário mínimo. Depois, indexar o reajuste à inflação anual. Mirian Leitão e outros intelectuais (porque economista da Grande Imprensa sempre se crê um intelectual, por mais estreita que seja a viseira) do mesmo quilate devem saber da notícia, que saiu no último dia de abril de 2012, mas preferem não dizer nada. Conseguiu o governo comprar até esses independentes arautos da responsabilidade?

Não, desta vez não se trata de mais uma medida disparatada, inconseqüente e populista do governo petista (lembrando: Lula não é mais presidente do Brasil). A proposta é para Nova Iorque, nos Estados Unidos, e o silêncio dos formadores de opinião tupiniquins é óbvio: foram desditos pela própria matriz do pensamento que papagueiam. Se se souber que o salário mínimo no Reino do Liberalismo é indexado à inflação, como criticar o governo brasileiro de irresponsável? Se uma proposta de reajuste de 17% está para ser aprovada nos EUA, como justificar que reajustes menores no Brasil irão custar a volta da inflação, o emprego de milhares e trazer a miséria novamente (?) a estes tristes trópicos?

Há diferenças de contexto, é certo: lá, pretende-se que com o salário mínimo possa uma família de três pessoas viver acima da linha da pobreza – é pouco para o país mais rico do mundo –; aqui, que um salário mínimo garanta às empresas a competitividade no mercado externo – competitividade que elas não conseguem ter por não aplicarem em pesquisa e desenvolvimento, por exemplo. Ah, sim, há um trabalhador que ganha R$ 622,00 por mês, e deve sustentar uma família com isso, mas é detalhe.

Para uma imprensa engajada, mais importante do que informar é desinformar. Para os veículos e colunistas de "respeito", nada de mentiras, apenas singelas omissões.

São Paulo, 01 de maio de 2012

domingo, 29 de abril de 2012

Três meses de São Paulo

Há três meses, na noite de 29 de janeiro, depois de um dia melancólico em Barão, eu aportava em São Paulo, que me recebia com sua famosa garoa. O apartamento aquela noite era só para mim. Estava todo bagunçado, abarrotado de expectativas e caixas para serem desempacotadas, que atrapalhavam a locomoção, mas não diminuíram minha alegria – era uma questão de me organizar.

Pois eis São Paulo sob garoa neste 29 de abril – não, São Paulo não é a "terra da garoa", não no século XXI, aqui é a terra das tempestades –, e eu com o apartamento inteiro só para mim: as duas pessoas com quem dividia saíram esta semana, uma porque daqui parte para a Europa; a outra porque os santos não bateram. Não há caixas a atrapalhar o movimento, apesar de ainda haver muitas expectativas a espera de ganharem a luz do dia (ou da noite). Outras pessoas já estão acertadas de virem morar, mas até se mudarem, relembro o que é morar sozinho. E este apartamento grande e branco e vazio reflete bem meu estado de espírito melancólico deste instante – deste instante!, é bom salientar.

Porque vivi neste três meses de São Paulo mais do que vivera nos últimos quatro anos em Barão. Uma cidade que tem meu ritmo – agitado –, e por isso faz com que eu me sinta mais tranqüilo: estamos em sintonia, em sincronia. Uma cidade que, se procurar, se encontra a cada dia horizontes novos, e oferece caminhos que permitem não andar em círculos. Ou mesmo onde percorrer o trajeto  de sempre não significa revivenciar as mesmas coisas.

Cidade que me abriu liberdades que eu não vislumbrava em Campinas, e com elas, coragens que eu não me permitia. É certo que São Paulo me faz rever muitas pessoas que não via há tempos, me permite encontrar sem querer com conhecidos. Mas, acima de tudo, me permite essa estranha comunhão do anonimato e da insignificância. Ser um anônimo, conhecer pessoas novas – interessantes, inteligentes, inusitadas –, e poder me apresentar também de formas novas. Que carregam ainda muito do velho – medos, limitações, e um jarro que eu julgava vazio, mas que descobri ser quase que uma caixa de Pandora para mim mesmo (ou de mim mesmo?). E sentir que mais do que à espreita, ao meu lado está a pantera que tanto temo. Ao mesmo tempo, notar o quão simples (não significa fácil) pode ser encontrar o refúgio quase idílico que almejo.

Descobri que São Paulo, que me soava hostil, por ser quase só cimento e asfalto, é poética, porque há pessoas, pessoas dos mais variados tipos, circulando e parando e te interpelando por entre o concreto e o piche. Que há o pixo, o lambe-lambe, que podem ser – parecem ser, muitas vezes – sinais de amor pela cidade. Cidade que por mais que autoridades e parte da população tentem, não permite que brinquem de esconde-esconde com ela, que se apresenta sempre inteira para quem quiser enxergar: nobre e mendiga, revolucionária e conservadora, violenta e pacífica, ampla e bitolada.

Como gosto de coincidências... neste dia 28 veio me visitar o Rafael, amigo de Barão – um dos poucos que, depois de terem entrado no mestrado em filosofia ou ciências sociais, consegui manter o mesmo contato franco e agradável de antes. Chegou quando o antigo morador terminava de retirar suas coisas. Em 28 de janeiro, Rafael foi um dos que estiveram no meu encontro de despedida. Esteve nas minhas duas despedidas: a de Barão, e a desta fase de São Paulo. Se da outra me deixou melancólico, me trouxe alegria desta feita: foi uma mostra mais de que o importante eu não deixei para trás.

Minha vinda pra São Paulo foi uma mudança, não uma revolução. São Paulo se apresentou a mim como uma cidade aberta, cabia a mim estar aberto a ela também para aproveitá-la, desfrutá-la. Esse me abrir – ainda incompleto – talvez tenha sido uma das minhas mudanças mais significativas nestes três meses. Que São Paulo agora dentre por completo este apartamento hoje vazio.


São Paulo, 29 de abril de 2012.

ps: a foto é do fotografo japonês Tatewaki Nio, que tomei conhecimento na exposição "Escultura do insconsciente", na Funarte, Campos Elíseos.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Um casal adolescente na minha frente

Tenho variado meus locais de estudo em São Paulo entre minha casa, a PUC e o Centro Cultural São Paulo (CCSP). Se na PUC há basicamente universitários, no CCSP, há uma considerável variedade de tipos: universitários, estudantes do ensino médio e cursinho, concurseiros, gente sem vínculo oficial com o ensino, e sei lá quais outras possibilidades.

Hoje – agora – havia vindo no CCSP almoçar e decidi estudar no próprio restaurante. Há um pouco de conversa, mas isso é uma constante do lugar – o que torna impossível concentração para estudar Hegel, por exemplo, e moda usar protetor auricular. Na minha frente, um casal, apostilas de cursinho ou ensino médio a acompanhá-los. Já havia notado uma vez o rapaz: outro dia dera uma mini-aula de física, de quase meia hora, a um amigo, em um local onde geralmente faz-se um pouco mais de silêncio. A mocinha, ainda não a notara, apesar que havia belos motivos para isso – bonita, belos olhos, bochechudinha, enfim.

Quando me sentei para almoçar – isso umas três da tarde –, discutiam o que estudar – decidiram por geopolítica, se não me engano. Seguiram um tempo lado a lado, cada um com sua caneta grifa texto, até que ela se apoiou em seu ombro, para estudar mais confortavelmente. Tão confortável que logo dormiu. Ou talvez nem tanto, porque não demorou para se debruçar sobre a mesa e dormir mais agradavelmente. Ele seguia a mudar as páginas e fazer correr a caneta por elas. A mocinha acordou depois de um tempo, e sem ter estudado muito, quando olhei para eles novamente, estava o namorado a explicar-lhe não sei bem o que.

Fiquei pensando. Tinham seus dezessete anos, mais ou menos, e o futuro em aberto, amplo, farto – assustador, se se parar para pensar. Em um ano ele poderia estar cursando o curso que queria, na melhor universidade do país, em São Paulo, mesmo; enquanto ela teria de decidir entre um curso que não lhe apetecia, só para seguir morando em Sampa, ou aceitar entrar no curso que era sua segunda opção, a oito horas da casa dos pais e do namorado. Em dez anos, ela poderia ser uma mulher bem-sucedida, uma carreira de sucesso e um futuro promissor dentro dela, engolindo a vida ao fim do dia, junto com dois comprimidos, para afogar qualquer pensamento acerca do caminho que trilhara. Ele poderia se descobrir em algo absolutamente inesperado e diferente e, a despeito da pressão dos pais por ganhar dinheiro ou deixar de ser “vagabundo”, se sentir feliz diante de tudo o que poderia ser e abandonou.

Tinham o devir em aberto, com ampla gama de opções – até pela condição social. Deviam ter suas angústias. Certamente as teriam – passarei, não passarei, onde, no que, terei sucesso –, mas pareciam estar presentes o suficiente para saber desfrutar do agora – por mais que fossem chatas apostilas ao lado do companheiro –, alheios a possibilidades – futuras ou passadas.

É claro que me projetava neles, em boa medida. Daqui um mês estarei começando uma faculdade que é minha segunda opção, porque não consegui passar na FAU-USP. Daqui um ano é esperado que eu já tenha defendido meu mestrado, e que já esteja preparando o projeto de doutorado. Mas vejo diante de mim um futuro amplo, talvez mais vasto do que via quando tinha dezessete anos. Ao mesmo tempo, sinto que algo precioso do agora se me escapa, escorrendo em possibilidades pretéritas que tornam o desabrochar do presente abrupto, em solavancos, carente da leveza necessária.

Quando estava prestes a terminar de escrever esta crônica, explicação do namorado já encerrada, a garota troca de apostila e boceja. A invejo por se permitir um quê de preguiça em plena quinta-feira, como quem não sente que tem tempo perdido para recuperar.

São Paulo, 26 de abril de 2012.

Discussão de trânsito


Porra, não freia assim, caralho!
Estou descendo (à pé, claro) a Augusta, já depois da meia noite. O grito é nas minhas costas.
Quase que bato em você!
Cara, eu vi onde você tava, não tinha risco.
Não tinha risco?! Não tinha risco?!
Sinto que os dois gladiadores do trânsito seguem descendo, se aproximando de mim, apesar de prosseguirem com a discussão.
Se eu não freio com tudo tinha acabado em cima de você, porra!
Tinha nada, tinha distância, eu vi. Acha que fiz sem ver?
Olho para trás, surpreso da discussão seguir em movimento, e também por curiosidade mórbida de uma discussão de trânsito de madrugada em São Paulo.
Viu o caralho!
O sinal vermelho, os dois páram – eles, não a discussão.
Claro que vi, você tava longe!
O caralho! Eu tava logo atrás!
Eu segui meu trajeto. Carros passavam. O sinal abriu, e os dois patinadores (rollerskater) seguiram sua discussão, se haviam quase batido ou não.

São Paulo, 26 de novembro de 2012.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Dilma, a gerente nos tempos da política da lição de casa.

A última pesquisa de opinião do Datafolha, que dá à presidenta Dilma Rousseff 64% de aprovação, muito acima dos seus antecessores no mesmo tempo de governo, serve para reforçar uma vez mais a idéia de que a polarização irracional entre PT e PSDB que imprensa, internet e redes sociais alardeiam está superdimensionada. Se somar os que consideram o atual governo regular, Dilma alcança 93% de opiniões favoráveis – o que não implica, nas simulações de segundo turno (!) contra candidatos tucanos, que a atual presidenta consiga reverter automaticamente todo seu apoio em votos.

De qualquer forma, alguém que aprova Dilma votar no PSDB é sinal que não vê diferença substancial entre os partidos. E, salvo no PSDB paulista, não está tão equivocado, não. O grande carro chefe de Lula, o Bolsa Família, atendia a proposta que corria entre muitos economistas neoliberais, de adoção de políticas compensatórias para a devastação do livre-mercado – nada que PSDB não adotaria, ou que não tenha adotado, ainda que mais timidamente. Quanto à sanha privatista tucana, não é demais lembrar que dos primeiros atos relevantes do segundo governo Lula foi a privatização das estradas, como de Dilma, a dos aeroportos. A guinada neo-nacional-desenvolvimentista, aprofundada com a crise de 2008, talvez seja uma das diferenças mais substanciais entre os partidos – mas essa opção de política de governo, para além da esfera de economistas, cientistas políticos e meia dúzia mais preocupados em macro-economia, pouco influencia a visão de grande parte da população sobre um partido, e aqui incluo a parcela que se crê politizada.

Outra diferença mais marcante está entre PT e PSDB paulista, talvez o grande motor da pseudo-polarização que afeta a sociedade, a se crer no que se lê e se vê. E isso por conta, principalmente, de dois caciques do partido: Serra, que desde 2010 abraçou abertamente as propostas mais reacionárias no quesito de costumes; e Alckmin, que tem como política de governo uso sistemático de repressão policial contra populações marginalizadas não-criminosas. Ou seja, a diferença aqui estaria no respeito ou não aos direitos humanos [bitly.com/cG24112]. O terceiro cacique do partido no Estado, FHC, até tentou problematizar em busca de norte menos reacionário – ainda que conservador – ao partido; não obteve respaldo, ao menos em São Paulo. A imprensa, claro, tem seu papel fundamental nesse superdimensionamento, uma vez que, como mostrou Maria Ines Nassif em texto para revista Interesse Nacional [j.mp/J5zd9k], acabou se tornando a base da oposição – o PSDB até anda tentando adentrar nos sindicatos, mas ainda é muito frágil socialmente.

A aprovação de Dilma ser maior do que a de Lula mostra, por outro lado, que a popularidade do ex-presidente vai além da sua figura, foi transferida ao PT no governo federal. Dilma, ao manter a linha mestra de políticas econômicas e sociais do antecessor conseguiu preservar a popularidade entre aqueles que o aprovavam. O extra frente Lula se deve, muito provavelmente, a dois fatores. O primeiro, ao estilo discreto da atual mandatária da República, que se trata, no fundo, da aplicação do slogan de Alckmin em 2006, “O Brasil precisa de um gerente”. O segundo é que, como Dilma possui diploma universitário, quebrou-se a rejeição nutrida por uma parte da população – que por ser letrada e ter um diploma “superior” na parede crê ser instruída e saber ler – contra Lula, que tinha como base unicamente o preconceito e o rancor contra alguém que já foi do populacho se tornar presidente.

Nestes tempos de esvaziamento da política (fruto do fim das ideologias, aliado às políticas neoliberais da década de 90) e guinada conservadora – quando não reacionária –, o “fazer a lição de casa”, como dizem Mirian Leitão e tantos outros “intelectuais” da mesma (diminuta) envergadura, tem sido o suficiente para garantir uma alta aprovação. A política transformada em disputa de escândalos e dossiês não tem se mostrado forte suficiente para mobilizar a opinião pública, ao menos nas pesquisas de opinião. Porque na internet e na Grande Imprensa, temos governos prestes a cair de podre.


São Paulo, 23 de abril de 2012.

domingo, 22 de abril de 2012

Cores e sombras no vazio até o Outro

(livre interpretação da coreografia "Estudos em Chrom.Aqui")

Encontros, desencontros e reencontros com o Outro. Essa foi minha livre interpretação da coreografia "Estudos em Chrom.Aqui", de Alex Soares, do grupo Mov'ola, na segunda vez que assisti à apresentação.

Talvez isso ajude a diminuir a coreografia: na primeira vez que a vi, consegui me deixar levar pelo desfrutar da dança, sem buscar se não haveria uma mensagem – até pela descrição do programa, "Estudos em Chrom.Aqui" parece não ter uma mensagem positiva a dizer, no sentido de ter um discurso que afirma algo: estaria muito mais para um discurso negativo de embaralhar o quotidiano, deixando ao espectador a possibilidade de uma outra percepção do mundo, ao fim da apresentação. Foi essa a sensação que saí da primeira vez: certo estupor e um repensar muito das minhas opiniões sobre o que vejo e vislumbro no dia-a-dia.

Talvez foi já com esse repensar efervescendo que vi "Estudos em Chrom.Aqui" esta segunda vez. E quem sabe por isso eu tenha me atido a detalhes da coreografia, e me deixado interpretá-la ao sabor do que me soava, conforme as emoções das minhas últimas vivências.

A coreografia começa com as bailarinas Aline Campos e Natacha Takahashi dançando iguais, porém a primeira à sombra, a segunda à luz. Sons de máquina e essa coreografia equivalente me fez pensar se os caminhos que trilhamos, claramente ou sem saber, não estariam, no fim, sujeitos à mesma reificação, ao mesmo carregar caixas sem sentido – como Sísifo.

Entra, então, o terceiro bailarino da coreografia, Woody Santana. Os três em cena dançam, até que uma das bailarinas, Natacha, se oculta atrás de um punhado de caixas empilhadas no fundo do palco.

Restam Woody e Aline, que carregam caixas – reais e imaginárias – da pilha para alguns lugares do palco – Sísifo? Toc? –, até começarem um duo de tensão e delicada agressividade. Em meio a essa harmonia que não é sincrônica, um lento escapar de Aline, como a caminhar pelo espaço. Woody ainda a segura, pelo pé, mas no fim o que Aline arrasta até um canto do palco – para depois se retirar – é o corpo inerte de Woody – como se carregasse um peso morto.

Reaparece Natacha, e o duo agora é de quedas, de sustentar-se com o Outro, sempre com grande delicadeza, leveza, apesar de haver certa tensão: uma nova harmonia sem sincronia.

Volta Aline. Em um caminhar hesitante, Woody se apóia em ambas, sem chão, mas também sem que uma delas – ou as duas – o segure firme. O próximo passo é um empurrar de Woody – que vai junto – para a beira do abismo. Há, então, uma disputa por Woody, por esse Outro que as empurra mas as segura, e Natacha sobra sozinha no palco, para o solo final. Traz ainda o braço esticado, como a esperar a mão de alguém que a acompanhe. Vai um tempo até desistir desse apoio que não vem, e ela recolha o braço. No final, a cada golpe, ela sente no peito o apagar das luzes e das cores, até que, sem ninguém que a segure, o corpo pendente pra trás, o golpe final e a escuridão – a queda solitária, finalmente.

São Paulo, 22 de abril de 2012.


sábado, 21 de abril de 2012

Toca Raul!


Virou piada sem graça e manjada, mas houve época que era pra valer gritar "toca Raul!" quando a banda era fraca – no repertório ou na execução, tanto faz. "Toca Raul!", foi a vontade que me deu de gritar, de verdade, depois de pensar um pouco sobre o filme Raul – o início, o fim e o meio, de Walter Carvalho, que havia assistido há pouco. O filme não chega a ser ruim, mas é um filme fraco, ainda mais quando se leva em conta todo o material que foi conseguido – inclusive é essa montueira de material que dá uma primeira impressão do filme ser mediano.

Difícil saber por onde começa o mau uso do material. Talvez pelo título, que não é verdadeiro: Raul – o início, o meio e o fim, deveria ser. Pois o filme perde a ótima oportunidade de fugir do calendário, embaralhar um pouco a vida – as imagens e as músicas, ao menos – de Raul, e fazer um filme menos literal e mais poético. Isso não implicaria em uma apresentação equivocada do roqueiro, apenas poderia dar chance a Raul Seixar compôr a trilha sonora do filme sobre a própria vida. Um exemplo. Conforme o documentário, Raul estava artisticamente quase morto na década de oitenta, sem gravadora, sem empresário, sem agenda, isso até ser resgatado por Marcelo Nova, do Camisa de Vênus. Quando morreu, em 1989, não fazia dez dias que tinha feito seu último show, em Brasília. Por que mostrar o caixão só após a morte biológica? Não tinha ele já sido fechado, para depois ser reaberto? Eventualmente, repetir imagens não seria problema. Inclusive, a fase decadente de Raul Seixas foi passada meio por alto, confusamente – lembro de cenas interessantes dessa fase, vistas em documentários sobre o músico –, dando a impressão que o ostracismo foi simplesmente porque Raul não conseguiu ser a metamorfose ambulante que a indústria cultural exige de seus produtos.

O final, como um todo, é precário, por demais apelativo: pra que mostrar Dalva, a empregada que encontrou Raul morto, entrando no elevador do Edifício Aliança, vinte anos depois, e tendo uma crise de choro? E durante todo o filme, por que intrigas entre os entrevistados, como ao contrapôr opiniões das ex-parceira de Raul, umas sobre as outras? Ou ao dizer a Paulo Coelho que a Sociedade Alternativa ainda o considera um membro? Risível a infalitidade desse tipo de provocação – não por acaso que riso foi primeira resposta do escritor.

Outro ponto negativo: Pedro Bial. Deu a clara impressão que foi imposição da Globo Filmes para aceitar fazer a distribuição. Se acaso foi fã de Raul Seixas, Bial dá ululantes mostras de que não conseguia entender o que ele dizia, e que não se deu ao trabalho de se interar sobre o assunto: disse, por exemplo, que Raul não tentou entrar na indústria cultural, diferentemente dos Tropicalistas, que ele agia por si próprio; poucas cenas depois, Raul diz que faz uma música fácil, pra ser o mais acessível possível. Antes já havia sido informado que ele aceitara assumir um figurino pra satisfazer a gravadora.

De qualquer forma, o filme tem seus pontos positivos, para além do tanto de material recolhido. Creio que o principal é a forma bastante ponderada e natural com que as drogas são tratadas. Paulo Coelho não se arrepende – nem deveria – de ter apresentado as drogas para Raul – que então só conhecia álcool e tabaco. Raul Seixas se acabou por causa de álcool e cocaína. Mas era a mesma cocaína que ajudava-o a se inspirar. Todos ali usaram, apenas ele se deu mal. Poderia ter sido diferente, Raul ter levado de boa e Paulo Coelho se afundado. O detalhe é que o filme desautoriza a creditar unicamente às drogas a decadência do músico: ele foi a exceção à regra na relação com elas, em não conseguir se deixar dominar – e não se trata de uma questão moral, definitivamente, e esse tipo de julgamento o filme tem todo o cuidado para evitar.

Em suma: o filme trabalha para criar uma imagem positiva de Raul, apesar dos seus altos e baixos, e sem distribuir culpas pelos pontos baixos do artista. Raul Seixas, contudo, por tudo o que foi e que fez, merecia um documentário melhor – e material para isso havia.

São Paulo, 21 de abril de 2012.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

O peso de cada dia


Conversava ontem com uma amiga, e ela disse que anda com insônia: acorda às vezes às duas, às vezes às cinco da manhã. Insatisfação com o trabalho – é professora de ensino básico numa escola particular –, crê ela que seja a causa principal do seu problema de sono – se Cartola dizia que o mundo é um moinho, tenho até medo de pensar o que não seria, então, a escola, fábrica de salsichas, como em The Wall, do Pink Floyd (e penso por ora nos professores)?

Lembrei do meu pai, ele também, tem dias que acorda preocupado, antes das seis da manhã; e em períodos um pouco mais pesados que teve, seu desânimo vinha sempre no início do dia.

De minha parte, não tenho problemas com trabalho, pelo simples fato de não trabalhar nem me incomodar com essa situação; nem problemas mais graves. Apenas questões existenciais-banais, em geral com relação ao Outro – minha gagueira, tal como definiu Mishima o que é ser gago, meu coxear social, como tenho utilizado ultimamente. Tampouco tenho problema com sono – eventualmente pra acordar, mas ando abusando na hora de me deitar, admito. O curioso, contudo, é como os extremos do dia me são pesados – não sempre, é claro –, por mais que consiga passá-lo leve. O dia por vir, o dia que passou, e alguma falta, um vazio que persistiu, por mais que o dia tenha sido mais do que ocupado, agradável, farto – feito de descobertas, de perdas, de perder-me e descobrir-me, de novidades, de satisfações pequenas (e não tão pequenas) que eu carecia não sabia o quanto, quando morava em Campinas. Tem momentos que acho que é o preço que pago por não me prender a uma dessas âncoras sociais firmes, fortes e bitoladoras – religião, crença numa verdade política compartilhada, exoterismo –, e ter a liberdade de olhar para frente e para trás e pesar o que fiz ou pretendo fazer – ou o que não fiz e, por mais que queira, pretendo deixar de fazer.

Relendo os originais (ou seria ainda o rascunho?) de uma novela que escrevi há pouco mais de um ano, um dos personagem dizia, num existencialismo de botequim, que encarar a vida de frente era "se deparar com a angústia pela manhã, a nulidade à noite, e saber criar nesse intervalo, com o pouco de liberdade que nos cabe, a felicidade." Quem sabe minha grande questão do momento seja: estarei mesmo aberto – e não digo racionalmente, mas inconscientemente – para inventar e construir essa tal felicidade que me apraz e que anseio e desejo?


São Paulo, 20 de abril de 2012.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Dizeres e não-respostas


Trombei na PUC com uma conhecida – amiga de uma amiga –, com quem já encontrara duas vezes e conversara algo para além de meia dúzia de frases vagas, sem ter chegado, contudo, a conversas existenciais-banais. Neste encontro de hoje – o primeiro sem mediação da amiga em comum –, ao nos despedirmos, não sei por que cargas d'água resolveu comentar que sempre tivera a impressão de que eu era um cara bacana. Agradeci e deixei por isso, por mais que também tenha uma boa impressão dela: achei que não convinha falar isso só porque ela comentara: se era o tempo dela, não era o meu.

Meu mutismo no que poderia ser uma troca de elogios me fez recordar da minha última "desilusão amorosa", como classificou uma amiga – o que desde o início me fez questionar, por que não "ilusão amorosa"? Pois bem, em esse meu namorico, a guria, sempre bastante sincera, comentou que seu silêncio frente o que eu dizia – e não era nada demais, ao menos para mim –, fruto de uma escolha de não mentir sobre o que sentia, só para atender ao que ela imaginava ser meu anseio de ouvir (ou ler), a causava especial incômodo, a ponto de fazê-la decidir por não mais mantermos nosso relacionamento tal como ele engatinhava. Disse que achava que, caso nossa relação se tornasse séria, seria uma injustiça termos esse desnível.

Esses dois casos – em que em cada um eu estava de um lado – me chamou a atenção para algumas coisas, que para mim, no meu coxear nas relações sociais – ainda sou dos que respondem quando me perguntam "como vai?" como estou, e não "bem, e você?" –, soaram curiosas.

A primeira é a idéia de contrato que parece arraigada em nossa sociedade – esse meu caso não é exemplo isolado –, e que pressupõe uma igualdade mais do que radical, absoluta, para que uma relação íntima – pode ser de amizade próxima – seja "justa", franca, verdadeira. Me fez lembrar a vez que notei que só eu buscava o Paulo – amigo a quem me refiro como "irmão mais velho" – quando em apertos: não havia movimento dele na direção contrária. Me dei conta, tempos depois, que a questão era que ele possuía outros expedientes para trabalhar suas urgências, e que eu, não abusando – se abusasse, ele avisava, de qualquer modo –, não tinha porque me privar de suas palavras, sua acolhida, quando precisasse. Não havia nada de errado nessa dissimetria: apenas formas de se pôr diferentes, que conseguem se harmonizar muito bem (há mais de uma década).

A segunda – derivada da primeira –, foi me questionar: falamos o que sentimentos porque sentimos, ou porque queremos ouvir o mesmo do outro? Se falamos para nos expressar, o calar do outro não é um problema, já que estamos nos exprimindo e não cobrando. Se falamos esperando uma reação na mesma proporção do outro lado, estamos sentindo mesmo, ou estamos tateando até onde arriscar a pele no relacionamento sem nos comprometer com uma futura desilusão?

Isso me fez lembrar de conversa que tive com o Mártin, amigo sociólogo. Ele comentava que um dos ethos de nossa sociedade é "arriscar-se sem riscos" – se pôr em pseudoriscos, para falar mais direto. Bungee jumping, saltar de paraquedas, fazer rapael, tudo seguindo normas de segurança, que garantem que não sofreremos nenhum acidente grave. Se envolver com alguém – se não for pela lógica comercial do networking – parece seguir a mesma lógica, um pseudo-entregar-se, porque feito não conforme o desejo, mas a partir das reações do outro.

Contrato entre iguais talvez deva mesmo ser a tônica, mas para empresas; normas de segurança me soam imprescindíveis para que esportes radicais sejam esportes; relações humanas talvez devessem ser mais fluidas, instáveis, maleáveis, arriscadas. Até chegarmos nisso, fico com a dúvida: não terei sido mal educado ao responder um elogio com tão-somente um sincero obrigado?

São Paulo, 17 de abril de 2012.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Das mortes que morri por estes dias


Pela primeira vez fui pra Ribeirão Preto depois de ter me mudado pra São Paulo – tinha o casamento de um amigo da época do cursinho, Leonardo. A caminho de Ribeirão, terminei de ler Em busca do tempo perdido, cujo primeiro volume, No caminho de Swann, havia começado a ler nos idos 2003. O livro termina com uma série de reflexões sobre o tempo e sua passagem, e eu acabei embarcando nelas, pensando em todos os que passei – todas as pessoas e todos os eus –, ainda mais que me dirigia para a cidade em que comecei minha vida “independente”, em que deixava – finalmente! – de ser filho dos meus pais para ser eu próprio, Dalmoro – até na escola eu era tratado como filho dos meus pais, e não eles como pais do Daniel.

O que me chamou a atenção é que, se das vezes que eu chegava vindo de Campinas, sempre me batia aquela nostalgia, um sentimento confuso de “já foi o meu tempo aqui, mas ele bem poderia voltar”, ou melhor, “não adianta voltar pra cá, simplesmente, pois não estou mais em 2001, mas bem poderia haver novamente a oportunidade de ter um novo tempo em Ribeirão”; desta feita lembrar de tal sentimento soou tão distante que quase não parecia ser comigo, não parecia que eu sentira isso em novembro ou dezembro – não lembro bem quando fui pela última vez para lá – e, confesso, tive até uma certa raiva de pensar que por tanto tempo essa foi minha auto-recepção na então “Califórnia brasileira”, agora “capital nacional do agronegócio”.

Quarta-feira, quando fora à minha consulta mensal com Aílton, sensação parecida já havia me assaltado, por outros motivos. Conhecera Camila não fazia uma semana e parecia sem sentido falar de como havia passado o mês até o dia em que a conhecera. Pior: eu tinha dificuldade em lembrar de como me sentira na semana anterior, e reportava como se falasse de alguém distante.

Em Ribeirão fiquei na casa do Paulo, com quem o encontro é sempre um sentir-se em casa, como já comentei alhures [j.mp/cG090311]. Estamos em 2012, não mais 2001. Paulo já tem cabelos brancos, eu, menos cabelo, a av. Jerônimo Gonçalves não tem mais suas belas e imponentes palmeiras imperiais, o cruzamento dela com a Francisco Junqueira não tem mais uma árvore enorme – está agora limpa, luminosa para a passagem dos carros –, a praça Camões segue aconchegante como há uma década, mas eu agora a freqüento acompanhado do Paulo e de sua cachorrinha, a Faísca (por sinal, fica a dica para encalhados de Ribeirão: passear com cachorro na praça). Fiquei contente com meu descompasso com Ribeirão: parece que depois de mais de uma década, eu me reencontrei em alguma cidade.

São Paulo, 03 de abril de 2012.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Um mar de rosas?


Andar na contra-mão, dançar conforme a música, buscar seu próprio bailado, disputar pra ser o primeiro. “La vie en rose???”, espetáculo da Companhia de Danças de Diadema, consegue apresentar uma interessante resposta à pergunta que se põe – se a vida é um mar de rosas.

Trata-se de uma apresentação alegre – otimista em alguma medida, portanto –, mas que não compartilha da idéia de uma alegria permanente e idílica. A trilha sonora é composta de várias músicas que se sobrepõem, de Bizet a hip hop, passando por Chico Buarque e Edith Piaf. Quem dá o tom, contudo, é Satié e suas Gnossiennes. Não faz muito, uma amiga disse que achava tristes as Gnossiennes e Gymnopedies. Eu as sinto de uma melancolia doce. Em “La vie em rose???” elas preenchem parte da coreografia com a sensação de falta, de ausência, e talvez seja essa uma das alternativas propostas pelo grupo para encarar o mar da vida: o estar com o outro – diferentemente de como começa a dança para uma das bailarinas.

A coreografia, contudo, não é linear, um caminhar para o encontro, para a alegria, para o mar de rosas. Ela tem o oscilar do oceano – esse que exige que navegar seja preciso, enquanto a vida dispensa dessas precisões, mais ou menos como cantam Pessoa em uma das músicas tocadas. Ora em harmonia, ora em disputa, ora em briga – se o paraíso talvez esteja nos outros, o inferno, já comentava Sartre, também está. A dificuldade em achar alguém que “dê uma mãozinha”, e a hesitação de se oferecer essa ajuda – que chega quando não mais necessária –, mostram os desencontros, as falhas de comunicação, os medos, os egoísmos.

A frase O que vocês estão fazendo?, repetida por uma das bailarinas três vezes, dá um outro ponto da resposta que o grupo tenta construir: parece que ter um pouco de consciência do que se está fazendo leva a um refazê-lo em outros termos – e não se trata de parar para pensar, às vezes é agir para pensar. Não por acaso a parte que me pareceu mais bela da coreografia vem depois dessa frase, dita após os cinco bailarinos dançarem belicosamente – com uma imagem urbana ao fundo, o que me pareceu uma ligação direta infeliz entre cidade e violência. O que vocês estão fazendo? Não havia resposta, e a conseqüência foi um maravilhoso flutuar da dançarina, bailando como o vôo de um pássaro – livre mas ciente das alturas que consegue alcançar, por mais que supere suas limitações –, com a ajuda dos cinco homens.

No final, após novamente a pergunta O que vocês estão fazendo?, cada dançarino em sua própria dança, gerando uma coreografia harmoniosa e bonita. Seria um grand finalle, a tão sonhada solução. Seria bonito, porém irreal, demais Poliana. A dança díspar de todos vai se homogeneizando, até todos estarem dançando igual – o que não é ruim por princípio, o problema é quando vira imposição. A saída para essa uniformidade, de todos juntos, mas isolados? Havia uma janela ao fundo, entreaberta, que mostrava luz do outro lado – uma janela, não uma solução.

São Paulo, 23 de março de 2012.