terça-feira, 11 de outubro de 2011

Médicos, palhaços e uma minoria que faz questão de ir além.

Outlier é como a estatística chama os casos em uma amostra que estão muito fora do espectro das respostas padrões, e por isso são desconsiderados. Reconheço que eu via como outliers o que chamo de bons médicos, aqueles que além dos conhecimentos técnicos exigidos, têm atenção e cuidado para com seus pacientes – nada excessivo, apenas o necessário na relação entre duas pessoas. Resistia – e ainda resisto – em taxar essa minha postura como preconceituosa, ainda que tampouco a julgue positiva: diria antes que se trata de má vontade com a classe médica, fruto de interação não apenas com médicos enquanto profissionais, mas com parentes que seguiram a profissão, e de ter morado com estudantes de medicina, numa república que virou ponto de encontro de parte da turma – para não falar do relato de amigos não-médicos que trabalham na área da saúde.

Semana passada tive a oportunidade de pôr essa minha concepção à prova, ao aceitar o convite para participar de uma mesa sobre máscaras sociais, no evento Medicina, Cultura e Arte 2, organizado pelos alunos da Faculdade de Medicina do ABC – convite que me surpreendeu, tanto quanto o teor do evento.

Por conta de alguns acasos, acabei ficando além, muito além da mesa que participei, e do que havia planejado e esperava: como domingo precisaria estar em São Paulo de novo, aceitei a sugestão e o convite para dormir no Diretório Acadêmico, onde acampavam parte dos participantes de outras cidades. Com isso pude ter um contato com os alunos bem maior do que havia tido durante a tarde, alunos tanto da FMABC, quanto de outras universidades, Unesp, Curitiba, Recife. 

Como um deles mesmo admitiu, estudantes e médicos como os participantes do MCA são minoria – porém minoria é diferente de outlier! E, mais animador: trata-se de um pessoal ciente que está numa posição de poder perante a sociedade, e que está disposto a refletir sobre as próprias práticas – disposição que me pareceu até maior do que na grande maioria de quem é das ciências humanas, até porque enquanto estes se julgam pensadores natos, e isso os desobrigaria da auto-reflexão, aqueles sabem que estão tendo uma formação técnica e se vêem forçados a ir além do que a faculdade oferece.

Voltei do ABC mais otimista: descobri que médicos e futuros médicos com uma visão holística do paciente existem em maior número do que eu imaginava, e estão se organizando – pelo que entendi, começam a. Quem sabe em um futuro não tão distante, aliado a políticas governamentais e iniciativas institucionais que já ocorrem, médico de saúde da família, por exemplo, deixem de ser consideradas carreira para os médicos fracassados.

Campinas, 11 de outubro de 2011.

ps: o título fica por conta de muitos dos estudantes com quem conversei participarem do projeto "Sorrir é viver", que, pondo alunos transformados em palhaços (clowns), procura humanizar a formação médica e dar uma aliviada no carregado ambiente hospitalar. É inspirado nos Doutores da Alegria (que fizeram uma apresentação-palestra no primeiro dia do evento, por sinal) e na medicina de Patch Adams.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Ah, tantos chamados!

Andava eu por Campinas, ensimesmado em minha dor nada poética – pelo contrário, até me impedia de pensar nos eventos recém ocorridos que caberiam em uma crônica como a do macho cordial –, quando ouvi uma voz feminina me interpelando impaciente “Vem logo, Dalmoro”. Dalmoro é como muitos de meus amigos me chamam – e eu mesmo prefiro ser chamado assim. Olhei para o lado, a mulher insistiu uma vez mais: “anda, amor”.

Sem respirar aliviado, porque a dor continuava, entendi o ocorrido: a habitual confusão entre “amor” e “Dalmoro”. Não que eu me ache um cara que apaixona loucamente mulheres casamenteiras à primeira vista, ou à segunda, terceira, décima; ou que esteja carente a ponto de sair à cata de chamados de amor atirados ao zéfiro (apesar de teimarem que meu negócio seria mais os chamados atirados ao euro). É que se se falar amor meio enrolado, acaba soando como Dalmoro – por isso eu achar que é comigo. Felizmente não é sempre que amor e Dalmoro se parecem – digo na sonoridade, que é o móbil desta crônica.

Pior é com meu irmão: ninguém pode escutar mal, não entender algo ao seu lado, que logo acha que a parada é com ele.

Graças a uma foto minha, que teimaram que era dele, ostenta desde a adolescência o lacônico apelido de . Um dia, quando eu falava do meu problema com chamados vindos de desconhecidos, contou que seu drama era muito maior: é alguém ao seu lado perguntar “ã?”, e já está se virando, achando que estão falando com ele. E poucas vezes de fato estão: gasta a virada do pescoço à toa, e encena novamente a cara de “disfarça...” – que segue ruim, por sinal.

Nessa conversa, até cheguei a cogitar se não teríamos algum problema mal resolvido de egocentrismo crônico, achar que o mundo gira ao nosso redor: só porque eu ligo do celular da namorada do meu amigo e ele atende dizendo meu nome, antes d'eu falar qualquer coisa, e eu encafifo “como ele descobriu que era eu quem estava ligando?”; ou meu irmão que atende a todos não-entendimentos, “ã?”. Coisa que vem de casa, sem dúvida, já que meu pai, de nome pouco usual – Dejanir –, em alguns casos se espicha para atender a uma solicitação “de janeiro”, até que O engole toda sua prontidão.

Cheguei à conclusão, então, que nossos apelidos, associados a uma atenção, essa sim um tanto carente, acabam por nos pôr nessas situações que soam como quem leva o mundo no umbigo. E no fim das contas, enquanto eu ouço chamados que não são pra mim, recebo e-meios – ou até comentários no blogue –, reivindicando que eu desça um pouco do planeta onde estou com a cabeça e seja capaz de ouvir quando me chamam, “Dalmoro!”, realmente.

Campinas, 08 de setembro de 2011.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Os cientistas que poderiam estar matando, roubando, mas estão apenas pedindo mais dinheiro para...?

O mandarinato júnior tupiniquim tem se mexido ultimamente, ao menos na Unicamp: em nome da ciência de qualidade, dizem, querem reajuste de suas bolsas de pós-graduação.

Quem me conhece sabe que estou anos-luz de defender a ética do trabalho; sabe também da minha birra com a torre-de-marfim que é a universidade pública brasileira, ainda privilégio de uma elite, sem reais intenções de alterar o quadro.

A alienação com o mundo extra-muros por parte dos pós-graduandos não é completa, contudo, como é claramente perceptível no escárnios com os mais marginalizados da sociedade que eles dizem atender.

Um dos cartazes, seguindo a toada que começa nos idos tempos do trote, em que veteranos põem calouros pra brincar de pedintes em sinais, diz "Eu poderia estar matando. Eu poderia estar roubando. Mas estou pedindo sua colaboração. Ajude-me a fazer ciência". Certo. Poderia estar trabalhando também, porque qualificação ele tem – é portador no mínimo de um diploma de nível superior, quando não de mestrado –, caso ache que esteja vivendo em situação próxima à de mendicância com sua bolsa de R$ 1.200 ou R$ 1.800 – valores baixos, sem dúvida, mas há questões outras que um pesquisador deveria levar em conta além de achincalhar com quem não teve as mesmas oportunidades que ele e de pedir grana pro cafezinho.

A desculpa geralmente utilizada em favor das bolsas é que ter um trabalho tornaria inviável a pesquisa. Se assim fosse, a PUC-SP não poderia ter o conceito que tem nos parâmetros ditados pelos doutores das universidades públicas – bolsa ali serve no máximo para não pagar a mensalidade. Trabalhar, na verdade, não permitiria noitadas cinco vezes por semana.

Concordo que seria uma perda trocar noitadas por uma rotina enfadonha, mas parece ser a única forma dessas pessoas descobrirem que a universidade não é um mundo em miniatura, com tudo o que há lá fora mimetizado.

Prova da ignorância do mundo real por parte desse mandarinato em (má) formação, que usa o preço do cafezinho para mostrar a perda do seu poder de compra, é a briga pelo aumento do valor das bolsas, tão-somente. Questões outras, tanto de interesse da universidade, da sociedade e da ciência, quanto deles próprios, são deixadas de lado. O fato, por exemplo, de não ser permitido trabalhar com carteira assinada – o que leva-os a trabalhar sem, contrariamente ao contrato assinado e muitas vezes prejudicando colegas que não conseguiram bolsa. Ou então não reivindicar que o período de bolsa passe a contar para a aposentadoria (são seis anos, mestrado e doutorado, para não falar no pós-doc).

Contudo, se os pós-graduandos da Unicamp não enxergam além da universidade, além do umbigo, surpresa seria se conseguissem pensar além de um presente imediatista.


Campinas, 05 de setembro de 2011.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Fora de forma

Há quem ache reconfortante achar um bode expiatório para seus problemas. Não costuma ser o meu caso, ainda mais se o tal bode vier acompanhado (uma cabra expiatória?) do fator tempo.

Tenho tentado voltar a escrever crônicas, após breve intervalo. Entretanto me vejo muito fora de forma: levo no mínimo duas horas, ao invés dos trinta minutos, como era minha média de antigamente; ademais, não tenho conseguido ser sucinto como havia me proposto – tenho outros espaços, como a Casuística, para me alongar e ser mais prolixo –, e o pior: no geral, ando insatisfeito com o que tenho escrito. Atribuo essa minha perda de forma aos apertos do mestrado, que me fez abandonar temporariamente esse hábito que me é agradável – ou costumava ser.

Não é, contudo, a primeira vez que o mestrado me põe fora de forma. Costumo dizer que fiz três besteiras ao começá-lo: parar com o tai-chi, com o yoga e com a musculação.

Já tentei correr, mas acho muito chato. Por três vezes tentei retomar a musculação, mas não consegui – antes fiz cinco anos porque gostava! O tai-chi, esse até voltei por um ano, mas fui obrigado a abandonar, por causa do prazo para qualificar o mestrado e dos seus horários não propícios – ou muito cedo, ou na hora em que eu estava mais rendendo.

E fico me perguntando se essa minha forma atual, em que minha idade parece ter invertido seus números – 82 e não 28 –, com trocentos probleminhas de saúde, além de falta de fôlego e raciocínio (mais) lento, não será o que ostentarei ao fim do mestrado, além do meu título – que ficará bem menos visível.

Se eu soubesse que iria acabar assim, e que isso é culpa mesmo do mestrado, teria partido para a terceira graduação antes da pós. Mas não sei, tenho a impressão que meus cabelos têm caído não para dar lugar a conhecimentos mais aprofundados, e que não adianta eu tentar achar bode expiatório, até porque o tempo já passou. Ou melhor, segue passando, e meu prazo final se aproxima – e é bom eu me aligeirar, se não quiser perder o resto da minha cobertura superior por causa de preocupação.


Campinas, 29 de agosto de 2011.

domingo, 28 de agosto de 2011

O macho cordial latino-americano


Há no imaginário a figura do macho latino-americano, aquele sempre seguro de si, que não pede informações porque nunca se perde, e que não aceita desfeita, ainda mais de mulher – só do chefe, mas é que ali é diferente, há seus motivos, que o referido macho não vê porque se justificar, afinal, duas desfeitas é demais. Eventualmente, os machos mais sentimentais, como Vinícius de Moraes, podem chorar de tristeza de amar, porém o farão na mesa do bar, ao lado de um copo, dos amigos – nada de correr atrás da amada. Bibelô, personagem do Angeli, é um outro exemplo do tipo, atualmente não raro sob roupagem um pouco mais moderna, num discurso mais doce – até mesmo com um visual metro-sexual.

Por Sofia, Luiz Tatit promoveu uma quebra nesse homem todo-poderoso: insistia todo dia, mas Sofia, Sofia!, não ouvia. Ele esperava, cedia, tudo para mostrar seu haicai, para ela especialmente feito. Porém, parece que haicai não cabia bem no conceito de poesia de Sofia – ou seria Tatit por inteiro que não cabia no seu conceito de homem?

De qualquer forma, com “Haicai” o macho cordial latino-americano saiu do armário, criou coragem para cantar suas agruras no tom que elas merecem ser cantadas: sem choros, melodramas, aquele ar sério que o macho típico gosta de dar, e que acabaria dando à sua desilusão amorosa um tom patético – porque de ridículo, já basta a situação e seu protagonista.

Mas para o macho cordial, ao menos o do século XXI, Tatit é ousado demais para estes tempos de pessoas audazes. A cordialidade do macho na América Latina não raro oculta um quê de desajuste existencial com a sociedade machista – porque homem também sofre com machismo.

Eis então que surge Alice, ali, parada, sentada, com a cabeça esvaziada, que o macho cordial observa ao longe, calado, fazendo planos, divagando. Cuja aproximação, desgastante e hesitante, é cantada em “Alice”, música de André Vac e Thomas Huszar, da banda paulistana Memórias de um Caramujo: “Alice, que tolice, eu aqui me declarando para você e você nem aí para minha declaração. Declaração talvez nem seja, só um convite humilde para um dia tomarmos um café, se der, se por acaso sobrar um tempinho no seu expediente – ou não, 'cê vê, me liga”. É a abordagem anti-machista, tudo o que uma mulher não quer ouvir. E o pior, ainda resta a dúvida: ele se “declara” mesmo, ou apenas almeja em fazê-lo? “logo eu, que de te olhar já me arrepio, me desmonto, caio em peças; imagina, eu falando com você, quando te olhar já dói bastante”. Ao contrário de “Haicai”, não há música alta a tornar inaudível o que ele tem a dizer, só o próprio homem a perder a voz diante de toda a responsabilidade que lhe cabe.

Da projetada sabedoria de Sofia ao imaginado país maravilhoso de Alice, o macho cordial latino-americano não apenas sonha em ser visto e desejado por sua Dulcineia, tenha ela o nome que tiver – meus casos foram pouco criativos, ou foi Karina, ou foi Carine, ambas das artes –, como em se ver desobrigado de tomar a iniciativa por ser o macho, simplesmente. Até lá, fazer disso motivo de choro? Como Tatit e Memórias de Um Caramujo, o macho cordial sabe que melhor é dar risada de si mesmo.


Campinas, 28 de agosto de 2011.

Passo o myspace da Memórias de Um Caramujo, já que o Luiz Tatit não é nada difícil de achar referências na internet: http://www.myspace.com/memoriasdeumcaramujo

sábado, 20 de agosto de 2011

Da precariedade dos argumentos – o movimento feminista da Unicamp (III)

(ou, de quando a defesa ajuda quem ataca)


Aproveito a manifestação “contra a violência à mulher” promovido pelas estudantes da Unicamp há pouco para terminar minha trilogia contra o movimento feminista da universidade.

Me atenho ao detalhe da chamada: a questão feminina estará tão bem encaminhada que haverá apenas uma espécie de violência contra a mulher? Ou estará num patamar tal, da violência total – o apocalipse, o campo de concentração –, de forma que é de se questionar o porquê de uma passeata e não de um convite a um ato um pouco mais radical – suicídio coletivo ou mulheres-bomba. Claro, não é um erro de grafia que invalida a iniciativa. Invalida-a, por exemplo, ter sido encampada pelo DCE-PSol (foge ao escopo e ao espaço desta crônica explicar o porquê, mas este vídeo ilustra um pouco a ética do grupo/partido: www.vimeo.com/7630032).

O lapso na grafia, contudo, aponta o que trouxe nas outras duas crônicas: um problema conceitual que não é inconsciente – ainda que a seja de se imaginar que as feministas (feministas, não as mulheres!) não consigam ir muito além de onde estejam.

Começa que para elas violência parece ser só a física – no máximo as discriminatórias –, e de homens contra mulheres ou do sistema contra elas – em geral externas, via intervenções cirúrgicas ou indumentária. As auto-inflingidas, as de mulheres contra mulheres, essas inexistem ou são aberrações. Disso decorre que os inimigos são poucos e facilmente identificados (o texto das feministas da Unicamp é de uma precariedade exemplar): o homem, o machismo, o capitalismo – como se não houvesse uma tradição no Ocidente de no mínimo dois mil anos de história reforçando dado papel da mulher, para ficar apenas numa faceta bem visível da questão.

Ademais, banalizar toda tentativa de assédio como sendo estupro e ponto, ao espalhar boatos em série de estupros (passei a desacreditar todos quando em dado período de 2008 se tornaram semanais), o movimento perde credibilidade e a própria violência contra a mulher perde a seriedade com que merece ser tratada – acho que estas minhas crônicas ilustram bem isso.

Pior: certa feita ouvi no Bandejão uma conversa entre um grupo de alunos ao meu lado: criticavam um deles por ter embriagado uma amiga para que ela “consentisse” fazer sexo anal com ele: “fazer isso com puta tudo bem, com amiga é sacanagem”. O fato de ser um “amigo” embrumaça a história, mas que se trata de um estupro, como aquele em que um desconhecido encosta a faca contra o pescoço da mulher, não há dúvidas.

Porém, apesar do mesmo nome, são violências diferentes – e não falo aqui de gradações –, que exigem precauções diferentes. Uma exige não dar bobeira entrando sozinha numa viela às onze horas da noite; a outra, tomar cuidado com o seu colega de sala, um cara que parecia tão legal, isso numa festa, onde tudo até então era só diversão. Ao começar logo com a palavra ESTUPRO, em letras garrafais, e sem ter o cuidado de fazer a distinção entre as diversas modalidades dessa violência – pelo contrário –, o imaginário popular fixa logo o caso “violento”, deixando que o caso mais corriqueiro continue acontecendo, encarado como mera “sacanagem”.

Que defesa das mulheres é essa?


Campinas, 27 de julho - 20 de agosto de 2011.


ps: Questão que me surgiu ao ver chamada para nova marcha contra "a violência contra a mulher em Campinas": as feministas querem mesmo que os estupros acabem, o que, dado o atual contexto sócio-histórico brasileiro exige, infelizmente, certas precauções e auto-restrições - e não falo das mini-saias -; ou desejam acima de tudo punição ao estupradores, sem notar que isso pressupõe a necessidade do estupro?

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Da precariedade dos argumentos – o movimento feminista da Unicamp (II)

(ou, de quando as alunas da Unicamp estiveram prestes a pedir asilo na África do Sul)


Falei na crônica passada da fase cretina sobre aborto pichado pelo coletivo feminista da Unicamp.

Há também um e-mail que recebi falando de mais um estupro em Barão Geraldo. As feministas adoram boatos de estupros. Chego a achar que sentem prazer em espalhar o medo, mas prefiro acreditar que se trate de mera tática para angariar apoio a qualquer custo à causa – inclusive ao custo de perder esse apoio com requintes de ressentimento no futuro, se não for constantemente alimentado. É tática corriqueira utilizada pela esquerda caduca e pela direita up-to-date, e que consiste em fugir da realidade apelando para o emocional mais rasteiro, na esperança do medo ter o poder convencimento que o seu discurso racional não possui.

Enfim. Conforme a mensagem, trata-se do terceiro estupro em duas semanas. Para ficar na média estadual (1 para 5800 mulheres, mais ou menos), Barão precisa de sete por ano. Se seguir nesse ritmo alucinado de estupros em produção fabril, Barão terá aproximadamente 1 estupro para cada 1400 mulheres ao fim de doze meses. Falta pouco para as alunas da Unicamp pedirem asilo na África do Sul.

Conforme a lógica da apelação ao medo, vale tudo: de inflar dados, a lembrar casos de cinco anos atrás (ouvi isto de uma garota homossexual, que não sei quão atuante foi, mas teve contato com o movimento), a interpretar de maneira sui generis a fala do delegado do 7º DP: o fato d'ele ter dito que a falta de atenção da vítima contribuía para a abordagem do estuprador – eu tinha ouvido ele falar isso sobre assaltos, duas semanas atrás, ele deve gostar de se repetir –, foi interpretado como tendo jogado a culpa do estupro na vítima. Não se trata de pôr a culpa, mas de alertar que a grande placenta Barão Geraldo está no Brasil, um Brasil com índices de criminalidade acima da Suécia ou dos condomínios fechados.

Diz o “arreal” e-mail: “não é possível que tenhamos nossa liberdade cerceada, que sintamos medo toda vez que saímos de casa ou que usamos tal ou qual roupa”. Passar sozinha às 23h por uma viela escura que eu não me aventuro depois que escurece não exime o estuprador de culpa, mas que é prova de falta de percepção de realidade, isso é (há três anos tive discussão sobre esse suposto caso de estupro). E o mais divertido é o e-mail terminar identificando o verdadeiro inimigo por trás da ideologia do crime de estupro: o capitalismo.

Respiro aliviado ao saber que antes do século XVIII não havia violência contra a mulher, e vislumbro uma luz de esperança no passado.


Campinas, 27 de julho de 2011.


ps: não serei desleal, me contaram de dois dos casos de estupro. Ficou faltando o terceiro, na verdade o primeiro, que pode muito bem ter acontecido, não nego, mas também não acredito piamente. Pelo que me contaram, prenderam também o estuprador – o mesmo para todos casos.


ps2: o e-mail feminista:

"Na última sexta-feira foi notificado mais um caso de estupro em Barão Geraldo, desta vez perto da moradia da Unicamp. Infelizmente este não é um caso isolado, o que se comprova pelo absurdo de três estupros em apenas duas semanas, um deles perto de um distrito policial próximo à Unicamp. A própria universidade muitas vezes mascara estes dados ao abafar os casos de estupro e mostra total descaso com esta violência brutal ao não tomar medidas, ainda que mínimas, que garantam a integridade física das estudantes, como iluminação adequada, circular interno, e seguranças com concurso público, preparados para prevenir casos como este e receber estudantes que tenham sofrido tamanho trauma.

A resposta da polícia a esta situação, que vem assustando e indignando principalmente moradoras e estudantes, é dizer que é normal em um local com muitos moradores de cidades menores e outros países, que não têm o hábito de tomar os mesmos cuidados que quem já mora em Campinas, haver este tipo de crime. De acordo com o delegado do 7º DP, Tadeu de Almeida, não há motivo para preocupação, já que o número de casos registrados está dentro da média esperada.

Achamos que o machismo é uma ideologia imperante em nossa sociedade, que tem o estupro como sua face mais perversa; repudiamos a declaração do delegado, que apenas naturaliza esta ideologia, isto é, a própria opressão. É um direito nosso, das mulheres, de ter relações sexuais com quem queremos, mas também é nosso direito de dizer NÃO. E a culpa não é e nunca pode ser jogada na vítima: não é possível que tenhamos nossa liberdade cerceada, que sintamos medo toda vez que saímos de casa ou que usamos tal ou qual roupa.

Porém, também acreditamos que as saídas individuais, como as aulas de defesa pessoal, não bastam. Além de medidas imediatas que busquem prevenir a violência machista, devemos nos organizar, mulheres e homens trabalhadores e da juventude, para combater essa ideologia. E identificar qual o nosso verdadeiro inimigo: o capitalismo, que utiliza do machismo para melhor oprimir e explorar o povo, dividindo mulheres e homens trabalhadores numa luta entre si.

Exigimos nosso direito de estudar e trabalhar sem ter receio na hora de voltar para nossas casas! Exigimos nosso direito de usar minissaias e roupas que desejamos sem o medo de que sejamos as próximas a serem estupradas! Exigimos nosso direito de ter relações sexuais com quem quisermos!

ACORDA UNICAMP!"

domingo, 24 de julho de 2011

Da precariedade dos argumentos – o movimento feminista da Unicamp (I)

(ou, de como fiquei sabendo que os homens de Malta têm placenta)

Em uma democracia de massas os movimentos de massas são fundamentais para seu funcionamento. São eles quem põem – muitas vezes impõem – debates à sociedade – ainda mais num país em que a pauta do dia costuma ser dada prioritariamente pelo presidente de turno. Por exemplo, não fosse o MST e a questão agrária – que atualmente avançou para uma questão territorial – teria ficado em terceiro plano, e a violência no campo talvez hoje fornecesse mão-de-obra para o crime organizado, assim como nossas prisões.

Os movimentos de massas, além de colocar o debate, são também importantes para mantê-los na cena pública. Porém, na hora de conduzi-lo, quando esses movimentos conseguem não se prejudicar a si próprios, já saem no lucro. Poderia buscar exemplos no MST, mas me centro num que tem me incomodado por ser mais próximo e mais presente para mim: o movimento feminista da Unicamp.

Me incomoda por dois motivos, primeiro porque são pessoas que estão numa universidade, muitas já na pós-graduação, e são incapazes de elevar o nível da discussão; segundo porque sou favorável à boa parte das – se não todas – bandeiras defendidas pelo movimento: fim da chamada jornada dupla exclusiva para mulheres, legalização do aborto, e, onde cabe, igualdade entre os sexos – pois, apesar das feministas negarem, há diferenças entre macho e fêmea, mesmo no gênero humano.

Quer dizer, ao menos eu, um reaça desinformado, assim cria. Porque a levar a sério uma das pichações das feministas, no Canadá, na Espanha, em Malta, na Nova Zelândia, homens já possuem placenta. Diz a tal pichação: “Se homem engravidasse, aborto já seria lei”. A conclusão lógica não é nada difícil de se alcançar. Perceber a precariedade do raciocínio tampouco.

Quem o movimento pretende sensibilizar com esse tipo de “argumento”? Os convertidos mais dogmáticos talvez aplaudam, mas os que não vêem motivos para apoiar o aborto, seguirão tão convictos quanto. E na minha visão é para esses que o debate deveria ser direcionado.

Quem sabe se as integrantes do movimento feminista da Unicamp saíssem de seu mundinho muito estreito e fossem atrás de outros exemplos, dentro da própria causa feminista, como os quadros da artista lusitana Paula Rego – seja a série em defesa do aborto, ou outras obras não tão específicas, mas muito forte na abordagem da temática da violência contra a mulher –, não conseguissem elevar o debate, alcançar ouvidos surdos à sua causa? Quem sabe se não agissem muitas vezes contra a própria causa o aborto não estaria mais próximo de se tornar lei, sem necessidade de homem ter ovário e placenta?

Campinas, 24 de julho de 2011.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Sinais dos tempos

Não é apenas da minha densa cabeleira que eu sinto falta. Bons (e saudáveis) os tempos em que eu ia ao médico uma vez por ano, para ele olhar os numerosinhos dos exames, botar o estetoscópio nas minhas costas e dizer que eu estava bem – no máximo que eu apresentava uma anemia e que precisava engolir uns comprimidos de ferro do tamanho de uma castanha-do-pará.

Comecei há pouco tempo a fazer tratamento com acupuntura. Para quem quase desmaiou da última vez que fez exame de sangue, ser toda semana espetado por uma dúzia de agulhas e não passar mal é um avanço. Já vinha de outros carnavais a minha vontade de me aventurar por essas terras, mas sempre me esquecia de pedir referências ao Aílton, o médico homeopata que há um par de anos me assiste. Lembrei finalmente no início de maio quando, por conta de estresse com o mestrado, fisgadas que se tem na coxa quando se tem uma distensão eu estava tendo na cabeça. Isso passou junto com a entrega do texto da qualificação, e eu nem precisei ir à acupunturista. E tudo parecia se encaminhar para um organismo mais saudável: minha “pangastrite severa com três úlceras” do início ano (dava nome de banda, conforme um amigo), por exemplo, tinha dado lugar a uma mera gastrite crônica. Oficialmente eu até poderia me aventurar a comer pizza novamente (não livre de riscos).

Mas eis que fiquei sabendo que possuía uma disfunção, cuja causa talvez seja o estresse. Não é a erétil, por enquanto, e sim hipoglicemia.

Hipo, pouco, glicemia, açúcar. Oba! Dieta à base de chocolate, leite-condensado e pipoca doce, pensei. Que nada: lá estou eu, no alto do meu obsceno peso, pedindo adoçante, por favor. Doeu mesmo ter que restringir queijos e chimarrão. Porque os doces, no fim estou comendo mais do que antes, por ter que comer cada duas horas (o que eu já vinha mais ou menos fazendo por causa da gastrite) e frutas secas serem uma das melhores opções. O mais curioso é a possibilidade de, quem sabe, vir a ganhar peso agora que parei de comer doces.

E esta semana ficou bem marcado o sinal desses novos tempos. Num dos potes em que guardava uma das variedades de erva-mate, esvaziei-o para pôr as frutas secas: banana, tâmara, pera, figo, damasco, abacaxi. Ficou bonito, parece um pote de doces sortidos. Uma hora o pus ao lado do pote em que ainda resta os velhos tempos, a erva-mate. Analisava-os, degustando os prazeres de cada um e me perguntava: qual será minha doença do fim do ano?

Campinas, 08 de julho de 2011.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Paulo Renato e o desastre na educação nacional

Uma coisa ainda perturba boa parte dos acadêmicos das duas principais universidade brasileiras (ao menos): a popularização do ensino superior e o conseqüente fim do seu elitismo. Justificam seu posicionamento com argumento nobres e verdadeiros, mas tanto para quem está dentro como para quem está fora é possível perceber o preconceito para com quem não é ou foi aluno de USP, Unicamp, Unesp ou alguma federal, e sim de Uniesquinas, Anhembis, Mackenzies, Fatecs da vida. E eis o mérito enquanto homem público nos últimos vinte anos do recém falecido Paulo Renato de Souza: tirar o diploma universitário de uma elite, atendendo a uma grande demanda da sociedade. Com isso e a tímida nacionalização do Bolsa-Escola do Cristóvão Buarque, creio que se esgota o que há de bom (e relevante) a dizer sobre ele. Seu reinado à frente do Ministério da Educação foi um desastre que só não se tornou uma tragédia porque Lula venceu em 2002. Mas ele fez o estrago tão bem feito que não tem como reparar no curto e médio prazo.

A popularização do ensino superior e a universalização do ensino fundamental tiveram como verdadeiros beneficiários as estatísticas oficiais e os bolsos dos mercenários da educação.

No ensino básico, a escola pública não mereceu sequer uma lápide, o ensino técnico foi desmantelado – trazendo problemas inclusive para a indústria brasileira, ou o que sobrou dela –, e não houve discussão séria sobre educação, pelo contrário, a concepção de ensino regrediu para algo próximo de Pavlov – adestramento estímulo-resposta-punição para responder corretamente a testes e vestibulares (Saeb, Enem, vestibular e provão já no fim da faculdade).

No ensino superior, a universidade pública só não teve o mesmo fim da escola graças à sua excelência na pesquisa e na formação de quadros e ao seu poder de resistência, o qual vinha sendo sufocado por inanição, sob a justificativa de enxugar a máquina pública e diminuir gastos com funcionalismo. O golpe de misericórdia já havia sido anunciado: a substituição do modelo de financiamento, não mais por instituição, mas por aluno, o que poria Unip e USP em pé de igualdade na busca por verbas públicas.

Fora o desmonte da educação pública, do abandono da idéia de educação como algo que deve ter em vista os interesses da coletividade tanto no curto quanto no longo prazo e a submissão do sistema educacional ao ensino privado, não houve mudança no conceito de educação ou escola, diferentemente dos CIEPs do Brizola – copiados por Collor e seus CAICs –, ou dos CEUs da Marta. Ou melhor, houve sim: educação passou a ser um negócio cujo único objetivo é o lucro, dos donos das escolas e faculdades com a oferta de “ensino”, e do aluno, que ampliaria seu “capital humano”, com o que teria melhor “alocação” no mercado de trabalho (não parece coincidência que Dimenstein, do quadro capital humano na CBN, fez uma elegia cheia de meias verdades sobre Paulo Renato na Folha do dia 27). Não por acaso que quando Paulo Renato saiu do governo virou consultor para empresas do ramo de “ensino”, e não um “amigo da escola” a tentar com seu “know-how” ajudar os diretores das falidas escolas públicas brasileiras. Eis uma boa síntese da sua vocação de homem público e do seu interesse pelo futuro da nação. Que lamente sua morte apenas parentes e amigos.


Campinas, 30 de junho de 2011.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Marchas, paradas, velocidade, instantaneidade: 2011 ou 1909?


O STF decidiu, enfim, que o artigo 5º da Constituição é legal, de forma que o direito constitucional de livre expressão é um direito, e liberou as manifestações favoráveis à legalização da cannabis, as marchas da maconha.

Ingrediente extra para inflamar a marcha para Jesus que acontece esta quinta em São Paulo: porque a livre expressão brasileira permite manifestações claras de intolerância e preconceito, desde que não carregue insígnias muito vistosas, como suásticas em camisas pretas: ser contra a criminalização da homofobia, usando camisetas com Jesus, por exemplo, é tolerado – e até visto como um valor positivo, firmeza de caráter, liberdade de culto. Se defender que gay é inferior não tem problema, falar contra maconheiro, então, que mal tem?

Três dias depois é a vez da Parada Gay ocupar a Av. Paulista e combater o “somos um em Cristo” com o colorido do “amai-vos uns aos outros”. O fato desta acontecer na área nobre da principal cidade do país ainda permite sonhar com um futuro um pouco menos tenebroso.

*

“Já não há beleza senão na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças ignotas para obrigá-las a prostrar-se ante o homem”. Talvez a fraqueza para os dias atuais do manifesto futurista de Marinetti seja sua franqueza. Não fosse por isso (e, em dado caso, na substituição de “homem” por “Senhor”), o texto de 1909 poderia passar tranqüilamente como sendo de 2011: o nacionalismo de antanho foi substituído por requentos pós-modernos de identidades fragmentadas que, em alguns casos, necessitam ser defendidas com a mesma obsessão; e, mais impressionante, o tom militarista segue perfeitamente atual: salvo o pessoal da bicicleta, que faz bicicletadas, e a chamada esquerda, que insiste em passeatas, caminhadas e atos, o que temos são marchas e paradas, eventos tipicamente militares – inclusive com suas insígnias, a folha de cinco pontas, a cruz, o arco-íris. Faltam apenas os desfiles.

Outra mostra que os tempos não mudaram tanto: o local das manifestações: a rua. Por mais que o discurso hegemônico diga que a rua esteja esvaziado de sentido e de poder (discurso repetido principalmente quando há manifestações reivindicatórias da “turba”, MST, MTST, ou meros grevistas), ela segue como o espaço de disputa entre os diversos atores sociais relevantes – por mais que não seja o único local. Batalha que se estende além das marchas e paradas esporádicas: “afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade”. A guerra tão louvada por Marinetti em 1909 está no nosso dia-a-dia em 2011.


Pato Branco, 21 de junho de 2011

ps: por conta de viagens atrasei a publicação desta crônica. De qualquer forma, não precisei alterá-la, apesar da tentação em falar do STF rasgar a Constituição, mas acho que cabe melhor em texto de humor isso.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O mundo das possibilidades perdidas: O dia em que Francoy comprou Monster

Final de semana fui para Ribeirão Preto. Fui de carona, e o motorista viu tudo fazer sentido quando respondi que já me aproximava dos trinta: “você parece ter vinte e dois, mas fez muita coisa pra essa idade”. E realmente, eu precisava ter entrado na universidade com uns quinze anos – além de ter sido precoce em tantas outras coisas.

Em Ribeirão, fiquei na casa do Paulo, e bem que gostaria de ter revisto mais gente, mas desencontrei. Uma dessas pessoas desencontradas foi o poeta Daniel Francoy – que em 2010 publicou o ótimo livro Em cidade estranha seguido de Retrato de mulheres, pela editora portuguesa Artefacto.

Por estes dias ele resolveu fazer nova investida pelas suas memórias, algo que outrora havia feito pelo twitter, quando fazia a contagem regressiva para completar sua terceira década de vida. Desta vez não se limitou aos 140 caracteres, e partiu para crônicas mais encorpadas, nas quais eles aproveita da sua bagagem cultural pop e erudita para unir poesia, mordacidade e auto-ironia: “Jovem nos Anos 90, Velho nos Anos 2000”.

Na primeira, conta da compra do disco Monster, do REM: Estava quente e caminhávamos de volta ao liceu quando Beatriz disse que morava ali perto, na Rua Prudente de Moraes, quase esquina com a São José, e que às vezes tinha o hábito de andar sem roupa pela casa. Lembro-me de ter ficado atônito, mas não lembro o que disse em resposta. De todo modo, toda vez que relembro esse episódio, quase que involuntariamente evoco alguns versos de 'Dobrada à Moda do Porto', de Álvaro de Campos: 'Quem sabe o que isto quer dizer? Eu não sei, e foi comigo...', embora muitas vezes (mas não sempre) eu saiba o que isto quis dizer porque sim, foi comigo. E também por isso digo, bom amigo, que o mundo das possibilidades perdidas é infinitamente mais doloroso do que o das impossibilidades absolutas. Que homem tem o direito de se sentir miserável por nunca ter tido Scarlett Johansson? Já não saber o gosto do beijo de Beatriz pesa como uma condenação, e uma condenação tola e radical, algo como perder um dia de sol simplesmente por não ter achado a chave que abria a porta de casa.”

Ao ler o texto fui ouvir o referido disco do REM, para mim um dos melhores do grupo. Não tive nenhuma Beatriz que me contasse que andava nua pela casa – no máximo vizinhas distraídas que andavam nuas pelo quarto –, mas REM me fez lembrar de minha primeira namorada – coincidentemente também sua ex –, que na época adorava a banda. Eu imaginava que ali, em fevereiro de 2002 – namorada, filosofia, nova vida! –, eu finalmente e definitivamente saía do mundo das possibilidades perdidas. E talvez uma das possibilidades que me abria fosse a de me dar conta do que realmente acontecia à minha volta – e eu a perdi.

Noto então que o título da série de crônicas do Francoy não cabe de todo a mim: ainda não me considero envelhecido nos anos 00 (nem nos anos 10), e não é por conta de não aparentar beirar os trinta. É por desconfiar que se algum dia alguma “girl next door”, alguma Beatriz me aparecer pela frente, como com o Francoy, quinze anos atrás (caramba, estamos velhos!), é bem capaz d'eu saber o que ela quer dizer quando comentar que anda nua pela casa (ou nem precisa tanto), mas vou seguir achando que não é comigo.


Campinas, 09-16 de junho de 2011.

ps: O blogue do Francoy: www.oceuvazio.blogspot.com

domingo, 12 de junho de 2011

Homossexual: um doente da cabeça.

Há uma coisa que assusta mais do que as vitórias políticas do movimento reacionário encabeçado pelos evangélicos – mas que conta com amplo apoio de setores do catolicismo, não convém esquecer, a diferença está que estes são mais discretos. São as vitórias ideológicas, sutilmente presentes no discurso. Pois as derrotas dos projetos de avanço dos direitos civis podem ser revertidas, por mais que isso exija mobilização e pressão. Não é tarefa fácil, mas é facilmente identificável.

Quando se adentra a esfera do discurso, tudo se torna mais esfumado: difícil de perceber, difícil de saber até onde vai essa luta ideológica, difícil de se organizar de tal modo que a oposição tenha efetividade. Por exemplo: qual linha divide o combate aos preconceitos presentes na fala comum do patrulhamento de um politicamente correto pernicioso ao que se pretendia defender?

Quando falo em discurso, falo do discurso quotidiano, meu, seu, de qualquer um do dia-a-dia, e não aquele encampado na última eleição por José Serra (PSDB) do “Brasil, o país do aborticídio” ou, ainda que sem a mesma verve de fim de mundo, pela candidata paz e amor (e moralismo) Marina Silva (PV). É aquele discurso que ainda acha graça em piadas as mais batidas com minorias, como um certo ex-presidente da República filiado ao PT um dia fez sobre Pelotas, é o discurso que vê na figura do diferente uma ofensa, como para o senador Roberto Requião (PMDB). Enfim, é o discurso que corre de boca em boca e de tão banal praticamente não notamos.

E o que tem passado despercebido é a volta da homossexualidade como doença. Não apenas nos círculos moralistas, onde nunca deixou de ser doença, pecado, coisa do demônio, como na grande imprensa – que inconscientemente tem incorporado esse discurso reacionário. Botulismo é provocado por bactérias, raquitismo, por má alimentação, hipertireoidismo é uma doença do metabolismo, e homossexualismo? Seria do caráter? Da moral? Ou é genético? Quais as formas de transmissão? Contato visual, respirar o mesmo ar, a simples existência do gay? Um filme institucional estadunidense dos anos 1950 já alertava:Homossexualismo é uma doença, cuidado. Uma doença que não é visível, como sarampo. Mas não menos contagiosa, uma doença da cabeça”.

Não me surpreenderia se em breve na Record, no horário do pastor RR Soares, na missa do Padre Marcelo, na Rede Canção Nova, no horário eleitoral de algum partido, aparecesse uma nova versão desse filme, atualizado para o século XXI, mas com a mesma mensagem – reacionária já em meados do século XX.

O que me surpreende, de qualquer forma, é seguir havendo esse mesmo discurso, esse mesmo pensamento, e essa gente continuar achando que é ela quem está bem da cabeça.



Campinas, 12 de junho de 2011.


ps: peguei a referência do filme do blogue do Marcelo Rubens Pavia.

http://www.youtube.com/watch?v=v3S24ofEQj4&feature=player_embedded

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O direito ao preconceito e à intolerância

Acho que já é passada a hora do PSDB mais do que fazer um mea-culpa, agir para tentar reparar todo o obscurantismo que seu candidato à presidência de 2010, José Serra, autorizou e fortaleceu sobremaneira.

Aproveitando-se do momento de fragilidade do ministro da casa civil, Antônio “pepita de R$ 20 milhões” Palocci, a frente parlamentar evangélica, liderada por Anthony Garotinho (PP), mostra bem a interpretação bíblica sui generis que esse grupo de eleitos representa: ao invés do “ofereça a outra face”, o “é dando que se recebe”. Poderia ser só na política, na negociação de verbas e migalhas de poder, tal qual se espera de um político padrão brasileiro; porém a pressão contra o kit anti-homofobia e agora contra a lei que criminaliza a homofobia mostram que esse pensamento vai muito além da esfera parlamentar, ele é um pensamento conseqüente do que isso traz de implicações na sociedade.

Porque Realengo pode não ser rotina, mas não foi algo sem causas, e a bancada evangélica lava as mãos para o fato inconteste de que o assassino foi influenciado antes e acima de tudo pelo ideal ascéptico tão característico do cristianismo e pelo uso que os “homens de bem” fazem dele nas suas pregações. Pode ter havido bullying, desequilíbrio mental, e mais outras tantas causas; quem juntou tudo isso e ofereceu como solução a chacina purificadora foi a religião cristã.

Quem se opõe à criminalização da intolerância só pode ser o intolerante. E o discurso da intolerância, nunca é demais lembrar, é o discurso do ódio, do assassinato, da morte.

Como disse no início, o PSDB tem sua grande dose de culpa, ainda que não seja, claro, responsável pela eleição ou formação da bancada evangélica. Se quer agir como oposição conseqüente e como partido progressista que um dia foi – ao menos nos costumes e direitos civis –, é hora de reconhecer o momento e perder uma boa oportunidade de encurralar o governo para evitar que a mentalidade mais reacionária encurrale o país.

Contudo, Alckmin continua no partido, José Serra continua no partido, FHC defende que o PSDB busque as novas classes médias, essas que votam em Bolsonaros, Enéas, xerifes e pastores. Talvez nossa esperança deva ficar mesmo fora da política, no STF. Até porque se formos tentar fazer política com as próprias mãos, a polícia fará a dela, que é a da repressão autorizada pelo Estado Democrático de Direito – esse que democraticamente autoriza o direito ao preconceito e à intolerância.


Campinas, 01 de junho de 2011.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Rachas sem fronteiras

De início a sugestão de Antônio Prata do Churrasco Sem Fronteiras (CSF) publicado na Folha de quarta, dia 18 de maio, me pareceu excelente, dessas irretocáveis. Porém, pensando um pouco, notei que não daria muito certo, ou ao menos que não era assim tão unificadora como a princípio pareceu.

Se num primeiro momento o CSF parece vencer barreiras culturais, unindo católicos, islâmicos e judeus, por prescindir de carne de porco, logo esbarra na resistência dos vegetarianos ou, pior, na fúria dos veganos. Os vegetarianos não é difícil enturmá-los, basta não esquecer a salada, e pôr na grelha um pimentão, uma cebola, uma batata, um abacaxi. Pode ser que haja alguma disputa por este último e carnívoros e vegetarianos se desentendam, com os segundos se sentindo surrupiados, por terem menos opções e ainda serem obrigados a dividir. Nada que não se resolva no próprio churrasco.

Duro mesmo é a fúria dos veganos. Via de regra, eles não se contentam em seguir sua dieta e, se forem questionados, explicar os seus porquês (digo via de regra porque tenho um amigo, o Harlen, que nem vegano parece ser, de tão tranqüilo que é). Eles precisam fazer marcação cerrada e atazanar todo aquele que não seja como eles: sua revolta não é contra a eventual falta de opção para sua dieta restritiva, mas contra a existência de opções além dela. E não adianta acrescentar brócolis, rabanete, chicória, radicci, lingüiça calabresa de soja: o problema é a carne. Eles seriam a versão pós-moderna contra-revolucionária (ou pós-revolucionária?) dessa nobre empreitada; estariam para o CSF como as palavras de ordem estão para o samba: amargas, destruidoras do brilho, desagregadoras, anti-poéticas, e o pior disso tudo: só comovem os convertidos.

Por sorte, se os veganos não estiverem em número suficiente, ainda é possível resistir a eles: nada que o cheiro de uma lingüicinha, a visão de um coração de frango e a evidência da alegria nos rostos com pedaços de carne escapando pelo canto da boca não ajude a espantá-los.

Problema maior serão as disputas internas ao próprio CSF. Como o próprio Antônio Prata percebeu em crônica anterior, se até conversa sobre o tempo no elevador, que até outro dia era um antiassunto, e hoje é capaz de gerar sérias contendas (e nem precisa seu interlocutor ser metereologista, mestrando no INPE ou militante do Greenpeace), que dizer então do Churrasco Sem Fronteiras? Percebo uma dessas fraturas. Porque a grelha e não o espeto? Desde quando um bom churrasco se faz na grelha? Grelha é paliativo: só em São Paulo se acha que grelha faz churrasco de verdade. Daí já se percebe a disputa política no CSF e a supremacia que os paulistas tentam ter sobre um assunto que eles sequer são dos mais entendidos. Conseqüência primeira: o questionamento ao próprio símbolo do grupo, o jogo da velha, #. Talvez melhor fosse o número 1, que representa simpaticamente um espeto, verdadeiro símbolo do churrasco, além de simbolizar a união, o espírito de todos unidos por não apenas uma boa causa, como por uma boa carne. E para os campos de batalha, além de dividir da praticidade da grelha para sair correndo, tem a vantagem extra de, em casos extremos, poder ser utilizado como arma: algumas aulas de tai chi ou kung fu, e um espeto pode ser manuseado com presteza e plasticidade. Seria o CSF unindo Ocidente e Oriente pelo espeto.

Bem, como se vê, a idéia parecia ótima, mas nem bem surgiu o CSF, e já surgiu junto a primeira cizânia. O que dizer na hora da seleção musical: por que samba e não chamamé? E se argentinos adentrarem o movimento e resolverem se indignar com nossos cortes de carne (apesar que eles, se não me engano, apoiariam a grelha)?

Talvez melhor seja ir em busca de alguns caldeirões retráteis e aceitar a sugestão da Feijoada Sem Fronteiras. Apesar que se aparecer um grupo de veganos pelo caminho, eles vão fazer piquetes, impedir a passagem, enquanto não forem substituídos os tradicionais ingredientes por côco, glúten, soja, castanha... para não falar nas disputas internas.


Ponta Grossa, 20 de maio de 2011.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

As árvores do meu quintal

A campainha de casa estava quebrada e o dono se prontificou a consertá-la. Como minha alterativa a ela era um tanto precária – me ligar para abrir o portão –, graças à qualidade sofrível dos serviços da Net, freqüentemente fora do ar, aceitei, mesmo sabendo qual seria a fatura.

Meu pequeno pátio estava que um matagal só, salvo os dois trechos não cimentados, um por um metro o primeiro deles, e dois por um o outro. Eu bem que tentara dar uma limpada no final de janeiro, quando o mato já havia tomado conta, mas antes do quinto minuto queimei a mão numa taturana. Depois disso fui postergando a retomada da tarefa – até pela falta de tempo.

O dono da casa, ao chegar para para consertar a dita campainha e se deparar com todo aquele mato (ao menos da parte interna da casa eu cuido bem), fez aquela cara de desagrado e se propôs a dar um jeito também no quintal. Anui, o que fazer?

Dois dias depois ele veio. Não demorou muito e o capim já estava todo arrancado, e ele, facão na mão, partia para as plantas de caule grosso. Nessa hora me surpreendi com seus conhecimentos em botânica. “Este aqui”, me mostrou um pé já alto, mais de um metro e meio, “é um ipê”. “E como foi parar aí?”. O abacateiro cortado há dois anos é fácil: tenho minha composteira, ou algo que o valha, onde jogo restos de frutas, mas eu não como ipê. “Ah, é passarinho que traz”. E zapt, era um ipê, porque o facão já havia levado.

“Esta aqui é uma pitangueira”, comentou de uma arvorezinha que há bem uns quatro anos brigava para se firmar. Trinta segundos e foi-se. Perguntou se a palma eu que tinha plantado. Como tinha sido, falou que deixaria, “mas assim que você sair eu corto”. O pé de amora ao lado não teve a mesma sorte – e minha sorte de ter um pé de amora no quintal durou um minuto. Consegui ainda salvar o pé de acerola que ganhara de um amigo, com o argumento de que eu quem plantara. Já o pé de lichia, que também tinha sido plantado por mim quando eu nem sabia o que era lichia, muito menos na árvore monstruosa que ela cresce, estava de saída e preferi não dizer nada. Não sei se reconheceu que árvore era aquela, de qualquer forma, quando voltei pra casa, o quintal “limpo”, ela não estava mais lá.


Pato Branco, 12 de maio de 2011.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Bicicletas de primeiro mundo

Se tem uma coisa que a elite brasileira adora é fazer o que ela acha que é chique no exterior. Ir à ópera vestindo casaco de pele em Ribeirão Preto, sendo que durante o dia a temperatura passou dos trinta graus, por exemplo. Essa elite acredita que a última onda mundial é bicicleta. Mas não qualquer magrela, tem que ser bicicleta comunitária. Veja São Paulo: espalhou bicicletários pelas estações de metrô – outra coisa chique, de primeiro mundo, metrô. Quantas pessoas usam o serviço? Isso pouco importa para a elite: fica bonito, não fica?

Numa cidade sem ciclovias – começam agora a ensaiar a instalação de algumas, ainda incipientes e sem perspectivas para um futuro próximo –, em que bicicleta é estimulada como passeio de domingo, o “usebike” é um programa tão patético que o sucessor só viu nele gasto inútil – ou seja, viu o que ele é. Mas como é coisa que tem em Barcelona, no Canadá, em Paris – e São Paulo não serviu de exemplo –, a Unicamp resolveu também aderir, numa prova de falta de senso de ridículo e de prioridades.

Agora a universidade contará com um sistema de bikes comunitárias intracampus para a comunidade interna se deslocar pra lá e pra cá gastando menos tempo e com “menos stress” (sic). Atrasado para a aula? Azar o seu, corra: o tempo autorizado com a magrela não permite assistir à aula inteira. Esqueceu algo em casa, ali pertinho? Vá de carro ou à pé: a bicicleta é só para o campus. Daí a pergunta: para quê bicicleta, se já tem ônibus circular interno? Só se for para passeio de domingo, pelo visto.

Enquanto isso a Unicamp finge que estudante universitário não é estudante e não mexe um dedo pelo meio passe estudantil no transporte público, melhora o tráfego dos carros às custas de piorar a vida de pedestres e ciclistas – que têm que se deslocar mais e atravessar mais ruas –, e segue sem calçadas para pedestres em boa parte da fazendona, mas vagas para estacionar, isso sobra. Inclusive, a Unicamp a cada dia se firma como um grande estacionamento gratuito e cada vez mais bem equipado e protegido – só falta ser com seguro.

Enquanto isso, a moradia estudantil – destinada a alunos que ainda não são da elite – segue sem ampliação de vagas, casas mal pensadas e mal construídas, com reformas sempre lentas; o restaurante universitário tem fila das 11h30min às 13h45min (para compensar o tempo que você vai ganhar com o bicicleta?), e bibliotecas e salas de informática continuam alagando eventualmente – mas só quando chove. Olha, uma utilidade! As bikes poderão ajudar pra sair à cata de gente para entrar no mutirão de retirada dos livro das prateleiras antes que molhem.

Campinas, 29 de abril de 2011.

terça-feira, 26 de abril de 2011

O absurdo e o escárnio

Estamos tão anestesiados pelo absurdo que vivemos em nosso quotidiano que o escárnio pode ser atirado em nossa cara e ainda agradecemos. Entregues a uma liberalidade capaz de fazer corar um liberal de boa cepa – desses que não se encontra por estes tristes trópicos –, as cidades brasileiras caminham para se tornar aglomerados de multidões solitárias, concreto e asfalto – por onde se deslocam cidadãos virtuais em bolhas metálicas individuais. Claro, há uma resistência orgânica da urbe: o território concreto contra o espaço tratado indiferentemente às suas características naturais. Mas a cidade insiste e vai atropelando o que tiver pela frente para dar passagem aos carros – que com seus motores com cem cavalos de potência, por suas vias se movem mais lentamente que galinhas.

Pela manhã, ligo o rádio, Band News FM ou CBN, e lá estão as duas emissoras com seus helicópteros e notícias sobre o trânsito. Congestionado para cá, tudo parado ali, flui muito lentamente não sei onde, tantos quilômetros de lentidão acolá, engarrafado entre tal e qual ponte sentido pra lá, aviso pra quem vem que é melhor não chegar, porque não entra, e pra quem sai, surpreendentemente o trânsito flui quase normalmente. Ao volante, reclamamos, bufamos, lamentamos, xingamos e aceitamos: é assim, que fazer? Encontrar meios de aproveitar esse tempo – audiobook parece ser a tendência da moda. Eis o absurdo que não mais nos perturba realmente.

O escárnio fica por conta das emissoras. Logo após o anúncio de tudo parado, a propaganda de mais um veículo – para você contribuir com todo esse caos. E achamos normal anunciar carro depois de noticiar os males do transporte individual que estamos sofrendo ao vivo. Tão normal que compramos a caranga anunciada.

E pela manhã, parados no trânsito, criticamos as ruas insuficientes da cidade, xingamos o motorista que demorou cinco segundos para dar o arranque, bufamos, lamentamos, reclamamos e aceitamos. Fazemos bem: se contribuímos para escarnecerem de nossa cara, por que não aceitar o absurdo de nosso dia a dia?


Campinas, 26 de abril de 2011.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Onde os mágicos não têm vez

Sempre que há a discussão se o copo está meio cheio ou meio vazio me põem na equipe do meio vazio – o que acho uma injustiça, tamanho preconceito. Mas hoje poderão se regozijar em júbilo que estão corretos. O Mágico (L'illusionniste), filme de Syvain Chomet, a partir da adaptação do roteiro de Jacques Tatit, não cabe a discussão do meio cheio vazio ou meio vazio, mas do três quartos vazio ou do um quarto cheio (aviso: ao fim desta crônica entrego fim o do filme).

Conta a história de um ilusionista na década de 1960 que tenta sobreviver se apresentando em casas de espetáculo – ou onde lhe oferecerem oportunidade. No meio do caminho, depois de passar por um vilarejo escocês onde faz algum sucesso, uma jovem aldeã acaba acompanhando-o à sua revelia e passa a morar com ele em um hotel em Edimburgo.

O filme é mais do que decadente: é o fim da linha. Muito bem pensado, não há nada que salte os olhos nessa direção: os traços são leves, o filme é feito de diálogos (silenciosos) leves, e apenas o palhaço destoa no seu comportamento.

No correr do filme, o que se vê é o mágico penando para poder seguir na profissão escolhida – ao mesmo tempo que tenta satisfazer aos anseios ingênuos de consumo da garota –, assim como toda a trupe de uma época superada que está hospedada no mesmo hotel da capital escocesa. E dando apenas pequenas deixas, é sobre isso que o filme trata: o fim de uma época, massacrada pelos meios de comunicação visual de massa. Não há razão de ser para artistas desconhecidos e sem o encantamento da indústrial cultural: diante de uma banda impulsionada pela televisão que leva milhares de fãs à loucura, ou da magia do cinema, o que é um mágico, um ventríloco, trapezistas, um palhaço? A opção que resta é a de se submeter: fazer seus truques em vitrines de lojas para divulgar mercadorias. Deixar de ser um artista para ser um produto qualquer, descartável e substituível ao primeiro atraso.

Creio que quanto à metade vazia do copo não haja muita discussão.

Sobre a outra metade. O um quarto cheio do copo poderia ser a mocinha deixar de ser uma empregada em um fim de mundo para se embelezar e viver um sonho de princesa na cidade grande. O quarto vazio, que o filme termina antes de dar as doze badaladas e a carruagem virar abóbora. Vestido, sapato, acessórios, o que surgiu como mágica custou muito suor ao mágico, e ela dava claros sinais de não estar nem um pouco atinada à realidade quando tentou comprar um relógio com uma moeda. Se deixava levar pelo engodo das aparências – justo na sociedade do espetáculo. Havia, sim, um príncipe, bonitão e erudito, pelo que aparentava. Seriam felizes até quando, se é que seriam felizes?

Mágicos não existem, diz o recado de despedida do ilusionista, junto a um maço de dinheiro. Existiam até um momento atrás. E a mocinha em breve descobrirá que o maravilhoso mundo que tem diante de seus olhos, esse onde mágicos não têm vez, é pura ilusão.


Campinas, 11 de março de 2011.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Sentir-se em casa

Uma coisa é ter uma casa – essas com paredes e teto, diferente da da canção infantil –, outra coisa é sentir-se em casa – esse sentimento que eu não vou saber explicar aqui. Para isso ter casa ajuda – não garante. E se em uma época a casa pode servir, em outra não mais: depende do momento, do humor, do contexto.

No meu caso, há momentos nos quais voltar para minha casa dos meus pais, em Pato Branco, é sentir-me em casa. Tem horas, isso não basta: preciso estar no meu quarto, onde acordei minha infância e adolescência. Outras, mais especificamente ainda, tenho que me trancar em companhia de meu piano – que ainda me tolera os dedos a cada ano menos ágeis. Mas tem vezes que ele – meu porquinho da índia –, é deixado fechadinho no seu canto, porque meu sentir-me em casa está antes de tudo na companhia dos meus pais e do meu irmão.

Contudo, como minha vida acontece a mil quilômetros de distância, Pato só tem a sensação de casa se for aproveitada por períodos curtos. Logo preciso voltar para Campinas, onde o sentimento ficava restrito quase que só à minha casa mesmo – onde moro já há mais de sete anos (é tempo para estudante) –, até porque Campinas não me inspira nada nesse sentido.

Diferentemente de Ribeirão Preto, onde uma série de lugares mo inspiravam, além de onde morava: a USP, a praça Camões, o Theatro Pedro II.

E de Ribeirão veio me visitar este final de semana um amigo a quem muitas vezes me refiro como “meu irmão mais velho”, o Paulo. Me pegou num momento tenso, com prazo do mestrado estourando, e essa tensão reverberando para todos os lados da minha vida pessoal. E um dos pontos que atinge é justo que não tenho me sentido em casa em lugar algum, sequer em minha casa – até pela vontade de mudar, que já não deixo mais guardada, como na música da Madredeus (apesar de não estar tão bem encontrada).

O final de semana em companhia do Paulo foi curto, não deu para pôr papo em dia (nunca dá), não deu sequer para discutir nossas últimas alegrias e tormentas, muito menos para debater temas filosóficos, epistemológicos ou de caso. Serviu apenas para reencontrá-lo, para um abraço: foi um breve sentir-me em casa – que eu tanto precisava.

Casa que há dez anos encontro como nenhuma outra, impressionantemente independente de variações de clima, de humor, de momento, de contexto...


Campinas, 09 de março de 2011.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

De onde surgem os sapos?

Sempre me perguntei de onde surgem os sapos. Porque é uma chuvinha mais forte e pronto, já tem um, às vezes dois, pelo meu quintal, que nada tem de atrativo a sapos ou rãs (que também dão seu ar da graça). E minha casa não fica tão perto do rio que passa no fim da rua: uns trezentos metros ou mais. Teriam que ser muito velocistas – e fortes – para vencer tão rápidos tamanha distância contra a corrente – que é uma subida quase sem boca de lobo, e a enxurrada desce forte para um sapo, imagino. Marreco ainda vá lá, apesar de eu nunca ter visto marreco nestas cercanias, para um ter batido em minha janela às três da manhã. Mas essa é outra história.

Aprendi na escola que sapos nascem girinos. Mas depois de grandes como eles se movimentam sem serem vistos? Teletransporte? Patas batráquias divinas os transportam pelo além? Por mágica? Isso até serem pegos por um carro no asfalto. Pois hoje, estendendo roupa agora à noite, vejo algo se mexendo de uma fresta do cimento próxima à casa– e fazendo um barulho consideravelmente alto para o tamanho da abertura. Logo brotou um sapo do buraco – bluf! Não chovia para o sapo ter aparecido – talvez tivesse decidido tomar uma fresca. O barulho vindo do buraco seguia, vez ou outra. Talvez fosse dia de faxina, e ele tivesse sido posto pra fora enquanto isso, não sei. Se era, invejei-o: minha casa precisava também de uma faxina para além da de rotina, porém meu tempo anda escasso, minha vontade, nem a isso chega, e não há ninguém para me pôr para fora e fazê-la por mim.

Bem, resolvido de onde surgiam os sapos pelo meu quintal a qualquer chuvinha, pensei que poderia dormir melhor sem essa batráquia questão, mas me dei conta que havia outra: como foram parar ali? A distância, a subida, a correnteza seguem as mesmas. E há quanto tempo estariam por ali – se é que não era outro solitário como eu –, para eu só agora perceber?

E onde há marrecos por estas bandas para um ter batido na minha janela às três da matina?


Campinas, 19 de fevereiro de 2011.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Ultrarromantismo e aprovação

Em seu Doutor Pasavento, Vila-Matas conta a história de um escritor catalão que resolve fazer como Agatha Christie fez em 1926: sumir sem avisar. Porém, contrariamente à inglesa, passam-se os dias e ninguém dá pelo seu desaparecimento – a editora francesa ou o porteiro de seu prédio, já que os pais e a filha estão mortos, a ex-mulher o odeia, e sua fama não o faz merecer nota em jornal. Estranha conseguir desaparecer tão fácil, na rua Vaneau, em Paris. Seu próximo passo é conseguir desaparecer de si, encontrar sua própria Patagônia – conforme a descrição do escritor W. H. Hudson –, ou “sentir-me senhor de mim mesmo, sem a carga de um nome”, como se regozijava em suas viagens William Hazlitt – ser seu ídolo Robert Walser, no fundo: desaparecer sendo.

Reconheço que essa idéia de desaparecer me parece muito interessante. Há a vida e os medos, contudo, que fazem com que ela seja interessante apenas em idéia. E um dos medos é justo o de ser esquecido.

Esquecido, certamente serei. Como esquecerei boa parte das pessoas com quem conversei ou convivi um dia. A angústia vem de imaginar que certa pessoa possa me esquecer – me esquecerá, logo ela, tão importante para mim? E não adianta lutar contra o esquecimento, que conseguir arrumar um lugar na memória à força, se plantar como uma estátua na cidade, pode ajudar a não ser esquecido, mas é uma vitória de Pirro – melhor ser esquecido, isso abre chances para ser recordado. Porque as recordações pessoais, elas só tem o colorido que as tornam singulares – não necessariamente positivas – quando espontâneas.

Quinta-feira abro o e-mail e vejo uma mensagem com o título “Ultrarromantismo e aprovação”, de uma Julia que desconheço. Deve ser alguém que se lembrou de mandar material para a próxima Casuística, pensei – sendo que terceira edição, por problemas técnicos e enroscos acadêmicos, ainda sequer foi lançada. Pois não era. A tal da Julia eu conhecia, sim, apenas não me lembrava dela. Havia sido educanda num projeto de educação popular que participamos há quatro anos, e me escrevia para contar que passara em letras na USP – e que eu tinha sido, nos tempos idos, uma das pessoas que redespertara nela o interesse por literatura.

Fiquei feliz pela sua aprovação. Sei que nada ajudei com o vestibular, mas saber que tive lá minha pequena dose de incômodo que a fez escolher letras, a ponto dela se dar ao trabalho de me avisar do seu sucesso, me deixou muito contente. Tentei contar desse meu contentamento na minha resposta a ela, não consegui. Como agora.


Campinas, 13 de fevereiro de 2011.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Utilidades básicas de um celular

Não é novidade para mim que um aparelho novo não é um facilitador da vida apenas, mas um transformador da percepção, da relação do indivíduo com o mundo e, em larga escala, do próprio mundo. Mesmo assim, insisto em me surpreender quando me dou conta dessas banalidades.

Começo com um exemplo tirado dos livros. Conforme McLuhan, o estribo, introduzido na Europa na Idade Média, foi responsável primeiro por maior firmeza sobre o cavalo e, a partir disso, permitiu em combate um tranco muito maior contra o adversário que não se utilizava da pecinha. Quando ambos a utilizavam, a alternativa era se guarnecer. Surge daí a figura do cavaleiro, cujos altos custos de construção da armadura fizeram com que só a nobreza tivesse condições de se dedicar à arte da cavalaria, e apenas parte o fizesse, o que trouxe conseqüências muitas para o correr dos secúlos subseqüentes.

Enfim, pouco entendo de Idade Média e de cavalos, e antes de me enroscar, melhor vir logo para a cidade e os tempos atuais – ainda que cavalos possam ser vistos pela Av. Paulista, sempre com estribos, eventualmente com símbolos medievais.

Ter um carro não significa apenas se mover com mais rapidez e agilidade pela malha urbana. Significa uma outra relação o tempo: o número e a forma de organizar compromissos é alterado de maneira considerável. Significa ver a cidade de outra forma. De início conheci São Paulo por carro apenas, apresentada por meu tio. Desde 2008 resolvi me perder pelas ruas do seu centro e conhecê-la à pé. De uma cidade feia, hostil e que me assustava, ela se tornou uma cidade habitável e bonita, ainda que siga feia, problemática, caótica, às vezes até hostil – não o suficiente para que agora eu não deseje morar nela.

Enquanto me enrolo para trocar de ares, já que Fuvest não ajuda, amigo meu que também resolveu mudar para a capital avisou que um celular ajuda muito na hora de procurar apartamento. Acreditei nele, não via porque deveria desacreditá-lo: não é dos chatos que ficam tentando me convencer que celular é como se fosse um umbigo pós-moderno. Como sobrava um na casa de meus pais, resolvi trazê-lo, ainda que, sinceramente, não soubesse no que ajudaria – isso ele não explicou, por ser muito óbvio. A utilidade mais plausível que consegui imaginar foi a facilidade de um corretor me encontrar.

Pois semana passada, saindo da Unicamp, vejo um rapaz que pára defronte a kitnets com placa para alugar. Do bolso saca o celular. Agil com os dedos, liga rapidamente para a imobiliária e pede informações. Caramba! Então é assim que o celular ajuda?!


Campinas, 08 de fevereiro de 2011.


(na foto, cavalos e vaquinhas, todos com estribo, na Av. Paulista, no dia mundial sem carro de 2010, sobre o qual faço alguns comentários no texto "Dia da piada do dia sem carro", que vem sem esta ilustrativa foto, por eu não ter máquina digital e demorar para revelar os filmes).

sábado, 29 de janeiro de 2011

Facebook e segregação

Por não ser católico, graças a uma formação moral-cristã assaz tíbia dada por meus pais, posso discordar do santo padre sem estar condenado à danação (ainda que as mensalidades da PUC provavelmente compensassem esses e outros deslizes), e o faço nesta crônica, porque Bento XVI criticou o uso da internet para a criação de personalidades falsas ou ilusórias nas redes sociais – como se ilusão fosse privilégio da internet, e não da sociedade ou da Igr...

Vejo como uma das grandes perdas da internet justo a falta desses espaços de anonimato, talvez não completo, mas ao menos com um certo controle sobre o que é exposto, a quem é exposto. A ascensão do padrão Msn frente o Icq – em que endereço de e-mail substitui um número de identificação –, e a febre das n redes sociais que se sobrepõem desde 2004 marcam essa virada, em que a internet se tornou definitivamente extensão do mundo real, e não um apêndice.

Tomemos o Facebook. Não há como se esconder ali: pode não pôr sua foto, seu nome, nada que o identifique no seu perfil, mas por seus amigos as chances de ser encontrado e identificado são consideráveis.

Porém o que mais me chama a atenção é o potencial de segregação entre os “in” e os “out” da rede do sr. Zuckerberg: pois sendo a rede virtual feita dos amigos reais do dia a dia, e havendo um “diálogo” permanente entre todos ali – diferentemente de um bate-papo por mensageiro, geralmente restrito a duas pessoas, ou ao menos ao presente da comunicação –, assuntos do mundo real continuam no virtual, os do mundo virtual continuam no mundo real, e assim as duas esferas vão se misturando e virando uma coisa só. Os não animados com a tela do computador – ou com as maravilhas do Facebook, apenas –, passam a ter dificuldades para se entender no próprio grupo, precisam que alguém explique as piadas internas. Logo se verão deslocados entre aqueles com quem convivem, por não compartilhar as discussões do Facebook.

Talvez me chamem de jurássico. Pode ser. Noto pelos endereços dos meus e-mails, do meu Msn, pelas minhas contas falsas em redes sociais, que sigo o padrão de quando comecei com a internet, em 1996: um lado sempre meio escondido. Tento justificar dizendo que isso me permite certa visão crítica, pelo distanciamento; há quem diga que isso serve apenas para acentuar meu lado velho ranzinza, como quando insisto em não ter celular ou em ainda ter máquina fotográfica a filme. Pode até ser, mas de carola ao menos ninguém pode me chamar – se é que quem usa Facebook ainda sabe o que é carola, já que dia desses tive que refrescar memória de amiga para essa "gíria antiga"...


Ponta Grossa, 29 de janeiro de 2011.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Muita memória para pouca recordação

Os provérbios andam em baixa na sabedoria popular, substituídos por frases “dilapidares” de intelectuais televisivos e celebridades instantâneas – Big Brothers ou até menos. Uma pena, acho que perdemos todos com isso. “Quem muito quer nada tem” foi um desses provérbios gastos que me lembrei por estes tempos. Deu-se ao ler notícia sobre o Facebook, na qual seu criador, Mark Zuckerberg, se vangloriava de que em breve os usuários da rede de relacionamento terão todas as suas mensagens, das mais importantes às mais triviais, preservadas para a posteridade.

Me pergunto se isso é sonho ou pesadelo, numa vida que cada vez mais entrelaça mundo real e mundo virtual. Se no mundo virtual tudo é com-provado, como faremos com o mundo real, para provar o que se passou?

Ademais, qual a necessidade de ter tudo registrado, tudo preservado “materialmente”. Quem muito quer nada tem, dizia o velho dito, e essa necessidade de memória no Facebook para guardar tudo talvez seja sintoma de nossa falta de memória para recordar até de lembranças marcantes, porque são tantos estímulos simultâneos pelos quais passamos na “era da urgência”, como dizia a reportagem, que fazemos só isso: passamos, sem chances de sermos tocados, de guardarmos registros, de termos lembranças, de termos recordações vivas (dava para atualizar o poema de Francisco Otaviano para o século XXI).

Não nego, será emocionante para os emotivos eventualmente poder voltar e reler momentos chaves da sua vida, aquele recado ou aquele bate-papo que eram para ser banais, sem futuro – outros entre tantos – e acabariam sendo marcantes. Mas aí surge outro problema, que já sofri com o e-mail (que Zuckerberg promete asfixiar com seu Facebook). No início o Gmail dizia que eu nunca mais precisaria apagar uma mensagem. E foi mais ou menos isso que fiz: e-mails de pais, de amigos, de futuras namoradas, já ex-namoradas, de desconhecidos, de listas, chamadas de notícias, previsão do tempo, está tudo lá, 25 mil e-mails ocupando 30% do espaço que o Google muito bondosamente me dá. Pois eu precisei encontrar o endereço de e-mail de um tal de Paulo com quem eu trocara duas ou três mensagens em fins de 2008, início de 2009. Haja refino de pesquisa para encontrar as tais mensagens, e ainda assim só porque eu lembrava com razoável precisão da data; ou então aquelas mensagens com o tal endereço ficariam para a posteridade – para o presente, que era quando eu precisava, estariam perdidas.

Aos emotivos, portanto, a dica: comer peixe, que dizem que faz bem para a memória. Para garantir, não dispense a velha agenda de papel ou o tão ridicularizado diário guardado no criado-mudo ao lado da cama.


Pato Branco, 21 de janeiro de 2011.