quarta-feira, 27 de julho de 2011

Da precariedade dos argumentos – o movimento feminista da Unicamp (II)

(ou, de quando as alunas da Unicamp estiveram prestes a pedir asilo na África do Sul)


Falei na crônica passada da fase cretina sobre aborto pichado pelo coletivo feminista da Unicamp.

Há também um e-mail que recebi falando de mais um estupro em Barão Geraldo. As feministas adoram boatos de estupros. Chego a achar que sentem prazer em espalhar o medo, mas prefiro acreditar que se trate de mera tática para angariar apoio a qualquer custo à causa – inclusive ao custo de perder esse apoio com requintes de ressentimento no futuro, se não for constantemente alimentado. É tática corriqueira utilizada pela esquerda caduca e pela direita up-to-date, e que consiste em fugir da realidade apelando para o emocional mais rasteiro, na esperança do medo ter o poder convencimento que o seu discurso racional não possui.

Enfim. Conforme a mensagem, trata-se do terceiro estupro em duas semanas. Para ficar na média estadual (1 para 5800 mulheres, mais ou menos), Barão precisa de sete por ano. Se seguir nesse ritmo alucinado de estupros em produção fabril, Barão terá aproximadamente 1 estupro para cada 1400 mulheres ao fim de doze meses. Falta pouco para as alunas da Unicamp pedirem asilo na África do Sul.

Conforme a lógica da apelação ao medo, vale tudo: de inflar dados, a lembrar casos de cinco anos atrás (ouvi isto de uma garota homossexual, que não sei quão atuante foi, mas teve contato com o movimento), a interpretar de maneira sui generis a fala do delegado do 7º DP: o fato d'ele ter dito que a falta de atenção da vítima contribuía para a abordagem do estuprador – eu tinha ouvido ele falar isso sobre assaltos, duas semanas atrás, ele deve gostar de se repetir –, foi interpretado como tendo jogado a culpa do estupro na vítima. Não se trata de pôr a culpa, mas de alertar que a grande placenta Barão Geraldo está no Brasil, um Brasil com índices de criminalidade acima da Suécia ou dos condomínios fechados.

Diz o “arreal” e-mail: “não é possível que tenhamos nossa liberdade cerceada, que sintamos medo toda vez que saímos de casa ou que usamos tal ou qual roupa”. Passar sozinha às 23h por uma viela escura que eu não me aventuro depois que escurece não exime o estuprador de culpa, mas que é prova de falta de percepção de realidade, isso é (há três anos tive discussão sobre esse suposto caso de estupro). E o mais divertido é o e-mail terminar identificando o verdadeiro inimigo por trás da ideologia do crime de estupro: o capitalismo.

Respiro aliviado ao saber que antes do século XVIII não havia violência contra a mulher, e vislumbro uma luz de esperança no passado.


Campinas, 27 de julho de 2011.


ps: não serei desleal, me contaram de dois dos casos de estupro. Ficou faltando o terceiro, na verdade o primeiro, que pode muito bem ter acontecido, não nego, mas também não acredito piamente. Pelo que me contaram, prenderam também o estuprador – o mesmo para todos casos.


ps2: o e-mail feminista:

"Na última sexta-feira foi notificado mais um caso de estupro em Barão Geraldo, desta vez perto da moradia da Unicamp. Infelizmente este não é um caso isolado, o que se comprova pelo absurdo de três estupros em apenas duas semanas, um deles perto de um distrito policial próximo à Unicamp. A própria universidade muitas vezes mascara estes dados ao abafar os casos de estupro e mostra total descaso com esta violência brutal ao não tomar medidas, ainda que mínimas, que garantam a integridade física das estudantes, como iluminação adequada, circular interno, e seguranças com concurso público, preparados para prevenir casos como este e receber estudantes que tenham sofrido tamanho trauma.

A resposta da polícia a esta situação, que vem assustando e indignando principalmente moradoras e estudantes, é dizer que é normal em um local com muitos moradores de cidades menores e outros países, que não têm o hábito de tomar os mesmos cuidados que quem já mora em Campinas, haver este tipo de crime. De acordo com o delegado do 7º DP, Tadeu de Almeida, não há motivo para preocupação, já que o número de casos registrados está dentro da média esperada.

Achamos que o machismo é uma ideologia imperante em nossa sociedade, que tem o estupro como sua face mais perversa; repudiamos a declaração do delegado, que apenas naturaliza esta ideologia, isto é, a própria opressão. É um direito nosso, das mulheres, de ter relações sexuais com quem queremos, mas também é nosso direito de dizer NÃO. E a culpa não é e nunca pode ser jogada na vítima: não é possível que tenhamos nossa liberdade cerceada, que sintamos medo toda vez que saímos de casa ou que usamos tal ou qual roupa.

Porém, também acreditamos que as saídas individuais, como as aulas de defesa pessoal, não bastam. Além de medidas imediatas que busquem prevenir a violência machista, devemos nos organizar, mulheres e homens trabalhadores e da juventude, para combater essa ideologia. E identificar qual o nosso verdadeiro inimigo: o capitalismo, que utiliza do machismo para melhor oprimir e explorar o povo, dividindo mulheres e homens trabalhadores numa luta entre si.

Exigimos nosso direito de estudar e trabalhar sem ter receio na hora de voltar para nossas casas! Exigimos nosso direito de usar minissaias e roupas que desejamos sem o medo de que sejamos as próximas a serem estupradas! Exigimos nosso direito de ter relações sexuais com quem quisermos!

ACORDA UNICAMP!"

domingo, 24 de julho de 2011

Da precariedade dos argumentos – o movimento feminista da Unicamp (I)

(ou, de como fiquei sabendo que os homens de Malta têm placenta)

Em uma democracia de massas os movimentos de massas são fundamentais para seu funcionamento. São eles quem põem – muitas vezes impõem – debates à sociedade – ainda mais num país em que a pauta do dia costuma ser dada prioritariamente pelo presidente de turno. Por exemplo, não fosse o MST e a questão agrária – que atualmente avançou para uma questão territorial – teria ficado em terceiro plano, e a violência no campo talvez hoje fornecesse mão-de-obra para o crime organizado, assim como nossas prisões.

Os movimentos de massas, além de colocar o debate, são também importantes para mantê-los na cena pública. Porém, na hora de conduzi-lo, quando esses movimentos conseguem não se prejudicar a si próprios, já saem no lucro. Poderia buscar exemplos no MST, mas me centro num que tem me incomodado por ser mais próximo e mais presente para mim: o movimento feminista da Unicamp.

Me incomoda por dois motivos, primeiro porque são pessoas que estão numa universidade, muitas já na pós-graduação, e são incapazes de elevar o nível da discussão; segundo porque sou favorável à boa parte das – se não todas – bandeiras defendidas pelo movimento: fim da chamada jornada dupla exclusiva para mulheres, legalização do aborto, e, onde cabe, igualdade entre os sexos – pois, apesar das feministas negarem, há diferenças entre macho e fêmea, mesmo no gênero humano.

Quer dizer, ao menos eu, um reaça desinformado, assim cria. Porque a levar a sério uma das pichações das feministas, no Canadá, na Espanha, em Malta, na Nova Zelândia, homens já possuem placenta. Diz a tal pichação: “Se homem engravidasse, aborto já seria lei”. A conclusão lógica não é nada difícil de se alcançar. Perceber a precariedade do raciocínio tampouco.

Quem o movimento pretende sensibilizar com esse tipo de “argumento”? Os convertidos mais dogmáticos talvez aplaudam, mas os que não vêem motivos para apoiar o aborto, seguirão tão convictos quanto. E na minha visão é para esses que o debate deveria ser direcionado.

Quem sabe se as integrantes do movimento feminista da Unicamp saíssem de seu mundinho muito estreito e fossem atrás de outros exemplos, dentro da própria causa feminista, como os quadros da artista lusitana Paula Rego – seja a série em defesa do aborto, ou outras obras não tão específicas, mas muito forte na abordagem da temática da violência contra a mulher –, não conseguissem elevar o debate, alcançar ouvidos surdos à sua causa? Quem sabe se não agissem muitas vezes contra a própria causa o aborto não estaria mais próximo de se tornar lei, sem necessidade de homem ter ovário e placenta?

Campinas, 24 de julho de 2011.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Sinais dos tempos

Não é apenas da minha densa cabeleira que eu sinto falta. Bons (e saudáveis) os tempos em que eu ia ao médico uma vez por ano, para ele olhar os numerosinhos dos exames, botar o estetoscópio nas minhas costas e dizer que eu estava bem – no máximo que eu apresentava uma anemia e que precisava engolir uns comprimidos de ferro do tamanho de uma castanha-do-pará.

Comecei há pouco tempo a fazer tratamento com acupuntura. Para quem quase desmaiou da última vez que fez exame de sangue, ser toda semana espetado por uma dúzia de agulhas e não passar mal é um avanço. Já vinha de outros carnavais a minha vontade de me aventurar por essas terras, mas sempre me esquecia de pedir referências ao Aílton, o médico homeopata que há um par de anos me assiste. Lembrei finalmente no início de maio quando, por conta de estresse com o mestrado, fisgadas que se tem na coxa quando se tem uma distensão eu estava tendo na cabeça. Isso passou junto com a entrega do texto da qualificação, e eu nem precisei ir à acupunturista. E tudo parecia se encaminhar para um organismo mais saudável: minha “pangastrite severa com três úlceras” do início ano (dava nome de banda, conforme um amigo), por exemplo, tinha dado lugar a uma mera gastrite crônica. Oficialmente eu até poderia me aventurar a comer pizza novamente (não livre de riscos).

Mas eis que fiquei sabendo que possuía uma disfunção, cuja causa talvez seja o estresse. Não é a erétil, por enquanto, e sim hipoglicemia.

Hipo, pouco, glicemia, açúcar. Oba! Dieta à base de chocolate, leite-condensado e pipoca doce, pensei. Que nada: lá estou eu, no alto do meu obsceno peso, pedindo adoçante, por favor. Doeu mesmo ter que restringir queijos e chimarrão. Porque os doces, no fim estou comendo mais do que antes, por ter que comer cada duas horas (o que eu já vinha mais ou menos fazendo por causa da gastrite) e frutas secas serem uma das melhores opções. O mais curioso é a possibilidade de, quem sabe, vir a ganhar peso agora que parei de comer doces.

E esta semana ficou bem marcado o sinal desses novos tempos. Num dos potes em que guardava uma das variedades de erva-mate, esvaziei-o para pôr as frutas secas: banana, tâmara, pera, figo, damasco, abacaxi. Ficou bonito, parece um pote de doces sortidos. Uma hora o pus ao lado do pote em que ainda resta os velhos tempos, a erva-mate. Analisava-os, degustando os prazeres de cada um e me perguntava: qual será minha doença do fim do ano?

Campinas, 08 de julho de 2011.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Paulo Renato e o desastre na educação nacional

Uma coisa ainda perturba boa parte dos acadêmicos das duas principais universidade brasileiras (ao menos): a popularização do ensino superior e o conseqüente fim do seu elitismo. Justificam seu posicionamento com argumento nobres e verdadeiros, mas tanto para quem está dentro como para quem está fora é possível perceber o preconceito para com quem não é ou foi aluno de USP, Unicamp, Unesp ou alguma federal, e sim de Uniesquinas, Anhembis, Mackenzies, Fatecs da vida. E eis o mérito enquanto homem público nos últimos vinte anos do recém falecido Paulo Renato de Souza: tirar o diploma universitário de uma elite, atendendo a uma grande demanda da sociedade. Com isso e a tímida nacionalização do Bolsa-Escola do Cristóvão Buarque, creio que se esgota o que há de bom (e relevante) a dizer sobre ele. Seu reinado à frente do Ministério da Educação foi um desastre que só não se tornou uma tragédia porque Lula venceu em 2002. Mas ele fez o estrago tão bem feito que não tem como reparar no curto e médio prazo.

A popularização do ensino superior e a universalização do ensino fundamental tiveram como verdadeiros beneficiários as estatísticas oficiais e os bolsos dos mercenários da educação.

No ensino básico, a escola pública não mereceu sequer uma lápide, o ensino técnico foi desmantelado – trazendo problemas inclusive para a indústria brasileira, ou o que sobrou dela –, e não houve discussão séria sobre educação, pelo contrário, a concepção de ensino regrediu para algo próximo de Pavlov – adestramento estímulo-resposta-punição para responder corretamente a testes e vestibulares (Saeb, Enem, vestibular e provão já no fim da faculdade).

No ensino superior, a universidade pública só não teve o mesmo fim da escola graças à sua excelência na pesquisa e na formação de quadros e ao seu poder de resistência, o qual vinha sendo sufocado por inanição, sob a justificativa de enxugar a máquina pública e diminuir gastos com funcionalismo. O golpe de misericórdia já havia sido anunciado: a substituição do modelo de financiamento, não mais por instituição, mas por aluno, o que poria Unip e USP em pé de igualdade na busca por verbas públicas.

Fora o desmonte da educação pública, do abandono da idéia de educação como algo que deve ter em vista os interesses da coletividade tanto no curto quanto no longo prazo e a submissão do sistema educacional ao ensino privado, não houve mudança no conceito de educação ou escola, diferentemente dos CIEPs do Brizola – copiados por Collor e seus CAICs –, ou dos CEUs da Marta. Ou melhor, houve sim: educação passou a ser um negócio cujo único objetivo é o lucro, dos donos das escolas e faculdades com a oferta de “ensino”, e do aluno, que ampliaria seu “capital humano”, com o que teria melhor “alocação” no mercado de trabalho (não parece coincidência que Dimenstein, do quadro capital humano na CBN, fez uma elegia cheia de meias verdades sobre Paulo Renato na Folha do dia 27). Não por acaso que quando Paulo Renato saiu do governo virou consultor para empresas do ramo de “ensino”, e não um “amigo da escola” a tentar com seu “know-how” ajudar os diretores das falidas escolas públicas brasileiras. Eis uma boa síntese da sua vocação de homem público e do seu interesse pelo futuro da nação. Que lamente sua morte apenas parentes e amigos.


Campinas, 30 de junho de 2011.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Marchas, paradas, velocidade, instantaneidade: 2011 ou 1909?


O STF decidiu, enfim, que o artigo 5º da Constituição é legal, de forma que o direito constitucional de livre expressão é um direito, e liberou as manifestações favoráveis à legalização da cannabis, as marchas da maconha.

Ingrediente extra para inflamar a marcha para Jesus que acontece esta quinta em São Paulo: porque a livre expressão brasileira permite manifestações claras de intolerância e preconceito, desde que não carregue insígnias muito vistosas, como suásticas em camisas pretas: ser contra a criminalização da homofobia, usando camisetas com Jesus, por exemplo, é tolerado – e até visto como um valor positivo, firmeza de caráter, liberdade de culto. Se defender que gay é inferior não tem problema, falar contra maconheiro, então, que mal tem?

Três dias depois é a vez da Parada Gay ocupar a Av. Paulista e combater o “somos um em Cristo” com o colorido do “amai-vos uns aos outros”. O fato desta acontecer na área nobre da principal cidade do país ainda permite sonhar com um futuro um pouco menos tenebroso.

*

“Já não há beleza senão na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças ignotas para obrigá-las a prostrar-se ante o homem”. Talvez a fraqueza para os dias atuais do manifesto futurista de Marinetti seja sua franqueza. Não fosse por isso (e, em dado caso, na substituição de “homem” por “Senhor”), o texto de 1909 poderia passar tranqüilamente como sendo de 2011: o nacionalismo de antanho foi substituído por requentos pós-modernos de identidades fragmentadas que, em alguns casos, necessitam ser defendidas com a mesma obsessão; e, mais impressionante, o tom militarista segue perfeitamente atual: salvo o pessoal da bicicleta, que faz bicicletadas, e a chamada esquerda, que insiste em passeatas, caminhadas e atos, o que temos são marchas e paradas, eventos tipicamente militares – inclusive com suas insígnias, a folha de cinco pontas, a cruz, o arco-íris. Faltam apenas os desfiles.

Outra mostra que os tempos não mudaram tanto: o local das manifestações: a rua. Por mais que o discurso hegemônico diga que a rua esteja esvaziado de sentido e de poder (discurso repetido principalmente quando há manifestações reivindicatórias da “turba”, MST, MTST, ou meros grevistas), ela segue como o espaço de disputa entre os diversos atores sociais relevantes – por mais que não seja o único local. Batalha que se estende além das marchas e paradas esporádicas: “afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade”. A guerra tão louvada por Marinetti em 1909 está no nosso dia-a-dia em 2011.


Pato Branco, 21 de junho de 2011

ps: por conta de viagens atrasei a publicação desta crônica. De qualquer forma, não precisei alterá-la, apesar da tentação em falar do STF rasgar a Constituição, mas acho que cabe melhor em texto de humor isso.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O mundo das possibilidades perdidas: O dia em que Francoy comprou Monster

Final de semana fui para Ribeirão Preto. Fui de carona, e o motorista viu tudo fazer sentido quando respondi que já me aproximava dos trinta: “você parece ter vinte e dois, mas fez muita coisa pra essa idade”. E realmente, eu precisava ter entrado na universidade com uns quinze anos – além de ter sido precoce em tantas outras coisas.

Em Ribeirão, fiquei na casa do Paulo, e bem que gostaria de ter revisto mais gente, mas desencontrei. Uma dessas pessoas desencontradas foi o poeta Daniel Francoy – que em 2010 publicou o ótimo livro Em cidade estranha seguido de Retrato de mulheres, pela editora portuguesa Artefacto.

Por estes dias ele resolveu fazer nova investida pelas suas memórias, algo que outrora havia feito pelo twitter, quando fazia a contagem regressiva para completar sua terceira década de vida. Desta vez não se limitou aos 140 caracteres, e partiu para crônicas mais encorpadas, nas quais eles aproveita da sua bagagem cultural pop e erudita para unir poesia, mordacidade e auto-ironia: “Jovem nos Anos 90, Velho nos Anos 2000”.

Na primeira, conta da compra do disco Monster, do REM: Estava quente e caminhávamos de volta ao liceu quando Beatriz disse que morava ali perto, na Rua Prudente de Moraes, quase esquina com a São José, e que às vezes tinha o hábito de andar sem roupa pela casa. Lembro-me de ter ficado atônito, mas não lembro o que disse em resposta. De todo modo, toda vez que relembro esse episódio, quase que involuntariamente evoco alguns versos de 'Dobrada à Moda do Porto', de Álvaro de Campos: 'Quem sabe o que isto quer dizer? Eu não sei, e foi comigo...', embora muitas vezes (mas não sempre) eu saiba o que isto quis dizer porque sim, foi comigo. E também por isso digo, bom amigo, que o mundo das possibilidades perdidas é infinitamente mais doloroso do que o das impossibilidades absolutas. Que homem tem o direito de se sentir miserável por nunca ter tido Scarlett Johansson? Já não saber o gosto do beijo de Beatriz pesa como uma condenação, e uma condenação tola e radical, algo como perder um dia de sol simplesmente por não ter achado a chave que abria a porta de casa.”

Ao ler o texto fui ouvir o referido disco do REM, para mim um dos melhores do grupo. Não tive nenhuma Beatriz que me contasse que andava nua pela casa – no máximo vizinhas distraídas que andavam nuas pelo quarto –, mas REM me fez lembrar de minha primeira namorada – coincidentemente também sua ex –, que na época adorava a banda. Eu imaginava que ali, em fevereiro de 2002 – namorada, filosofia, nova vida! –, eu finalmente e definitivamente saía do mundo das possibilidades perdidas. E talvez uma das possibilidades que me abria fosse a de me dar conta do que realmente acontecia à minha volta – e eu a perdi.

Noto então que o título da série de crônicas do Francoy não cabe de todo a mim: ainda não me considero envelhecido nos anos 00 (nem nos anos 10), e não é por conta de não aparentar beirar os trinta. É por desconfiar que se algum dia alguma “girl next door”, alguma Beatriz me aparecer pela frente, como com o Francoy, quinze anos atrás (caramba, estamos velhos!), é bem capaz d'eu saber o que ela quer dizer quando comentar que anda nua pela casa (ou nem precisa tanto), mas vou seguir achando que não é comigo.


Campinas, 09-16 de junho de 2011.

ps: O blogue do Francoy: www.oceuvazio.blogspot.com

domingo, 12 de junho de 2011

Homossexual: um doente da cabeça.

Há uma coisa que assusta mais do que as vitórias políticas do movimento reacionário encabeçado pelos evangélicos – mas que conta com amplo apoio de setores do catolicismo, não convém esquecer, a diferença está que estes são mais discretos. São as vitórias ideológicas, sutilmente presentes no discurso. Pois as derrotas dos projetos de avanço dos direitos civis podem ser revertidas, por mais que isso exija mobilização e pressão. Não é tarefa fácil, mas é facilmente identificável.

Quando se adentra a esfera do discurso, tudo se torna mais esfumado: difícil de perceber, difícil de saber até onde vai essa luta ideológica, difícil de se organizar de tal modo que a oposição tenha efetividade. Por exemplo: qual linha divide o combate aos preconceitos presentes na fala comum do patrulhamento de um politicamente correto pernicioso ao que se pretendia defender?

Quando falo em discurso, falo do discurso quotidiano, meu, seu, de qualquer um do dia-a-dia, e não aquele encampado na última eleição por José Serra (PSDB) do “Brasil, o país do aborticídio” ou, ainda que sem a mesma verve de fim de mundo, pela candidata paz e amor (e moralismo) Marina Silva (PV). É aquele discurso que ainda acha graça em piadas as mais batidas com minorias, como um certo ex-presidente da República filiado ao PT um dia fez sobre Pelotas, é o discurso que vê na figura do diferente uma ofensa, como para o senador Roberto Requião (PMDB). Enfim, é o discurso que corre de boca em boca e de tão banal praticamente não notamos.

E o que tem passado despercebido é a volta da homossexualidade como doença. Não apenas nos círculos moralistas, onde nunca deixou de ser doença, pecado, coisa do demônio, como na grande imprensa – que inconscientemente tem incorporado esse discurso reacionário. Botulismo é provocado por bactérias, raquitismo, por má alimentação, hipertireoidismo é uma doença do metabolismo, e homossexualismo? Seria do caráter? Da moral? Ou é genético? Quais as formas de transmissão? Contato visual, respirar o mesmo ar, a simples existência do gay? Um filme institucional estadunidense dos anos 1950 já alertava:Homossexualismo é uma doença, cuidado. Uma doença que não é visível, como sarampo. Mas não menos contagiosa, uma doença da cabeça”.

Não me surpreenderia se em breve na Record, no horário do pastor RR Soares, na missa do Padre Marcelo, na Rede Canção Nova, no horário eleitoral de algum partido, aparecesse uma nova versão desse filme, atualizado para o século XXI, mas com a mesma mensagem – reacionária já em meados do século XX.

O que me surpreende, de qualquer forma, é seguir havendo esse mesmo discurso, esse mesmo pensamento, e essa gente continuar achando que é ela quem está bem da cabeça.



Campinas, 12 de junho de 2011.


ps: peguei a referência do filme do blogue do Marcelo Rubens Pavia.

http://www.youtube.com/watch?v=v3S24ofEQj4&feature=player_embedded

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O direito ao preconceito e à intolerância

Acho que já é passada a hora do PSDB mais do que fazer um mea-culpa, agir para tentar reparar todo o obscurantismo que seu candidato à presidência de 2010, José Serra, autorizou e fortaleceu sobremaneira.

Aproveitando-se do momento de fragilidade do ministro da casa civil, Antônio “pepita de R$ 20 milhões” Palocci, a frente parlamentar evangélica, liderada por Anthony Garotinho (PP), mostra bem a interpretação bíblica sui generis que esse grupo de eleitos representa: ao invés do “ofereça a outra face”, o “é dando que se recebe”. Poderia ser só na política, na negociação de verbas e migalhas de poder, tal qual se espera de um político padrão brasileiro; porém a pressão contra o kit anti-homofobia e agora contra a lei que criminaliza a homofobia mostram que esse pensamento vai muito além da esfera parlamentar, ele é um pensamento conseqüente do que isso traz de implicações na sociedade.

Porque Realengo pode não ser rotina, mas não foi algo sem causas, e a bancada evangélica lava as mãos para o fato inconteste de que o assassino foi influenciado antes e acima de tudo pelo ideal ascéptico tão característico do cristianismo e pelo uso que os “homens de bem” fazem dele nas suas pregações. Pode ter havido bullying, desequilíbrio mental, e mais outras tantas causas; quem juntou tudo isso e ofereceu como solução a chacina purificadora foi a religião cristã.

Quem se opõe à criminalização da intolerância só pode ser o intolerante. E o discurso da intolerância, nunca é demais lembrar, é o discurso do ódio, do assassinato, da morte.

Como disse no início, o PSDB tem sua grande dose de culpa, ainda que não seja, claro, responsável pela eleição ou formação da bancada evangélica. Se quer agir como oposição conseqüente e como partido progressista que um dia foi – ao menos nos costumes e direitos civis –, é hora de reconhecer o momento e perder uma boa oportunidade de encurralar o governo para evitar que a mentalidade mais reacionária encurrale o país.

Contudo, Alckmin continua no partido, José Serra continua no partido, FHC defende que o PSDB busque as novas classes médias, essas que votam em Bolsonaros, Enéas, xerifes e pastores. Talvez nossa esperança deva ficar mesmo fora da política, no STF. Até porque se formos tentar fazer política com as próprias mãos, a polícia fará a dela, que é a da repressão autorizada pelo Estado Democrático de Direito – esse que democraticamente autoriza o direito ao preconceito e à intolerância.


Campinas, 01 de junho de 2011.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Rachas sem fronteiras

De início a sugestão de Antônio Prata do Churrasco Sem Fronteiras (CSF) publicado na Folha de quarta, dia 18 de maio, me pareceu excelente, dessas irretocáveis. Porém, pensando um pouco, notei que não daria muito certo, ou ao menos que não era assim tão unificadora como a princípio pareceu.

Se num primeiro momento o CSF parece vencer barreiras culturais, unindo católicos, islâmicos e judeus, por prescindir de carne de porco, logo esbarra na resistência dos vegetarianos ou, pior, na fúria dos veganos. Os vegetarianos não é difícil enturmá-los, basta não esquecer a salada, e pôr na grelha um pimentão, uma cebola, uma batata, um abacaxi. Pode ser que haja alguma disputa por este último e carnívoros e vegetarianos se desentendam, com os segundos se sentindo surrupiados, por terem menos opções e ainda serem obrigados a dividir. Nada que não se resolva no próprio churrasco.

Duro mesmo é a fúria dos veganos. Via de regra, eles não se contentam em seguir sua dieta e, se forem questionados, explicar os seus porquês (digo via de regra porque tenho um amigo, o Harlen, que nem vegano parece ser, de tão tranqüilo que é). Eles precisam fazer marcação cerrada e atazanar todo aquele que não seja como eles: sua revolta não é contra a eventual falta de opção para sua dieta restritiva, mas contra a existência de opções além dela. E não adianta acrescentar brócolis, rabanete, chicória, radicci, lingüiça calabresa de soja: o problema é a carne. Eles seriam a versão pós-moderna contra-revolucionária (ou pós-revolucionária?) dessa nobre empreitada; estariam para o CSF como as palavras de ordem estão para o samba: amargas, destruidoras do brilho, desagregadoras, anti-poéticas, e o pior disso tudo: só comovem os convertidos.

Por sorte, se os veganos não estiverem em número suficiente, ainda é possível resistir a eles: nada que o cheiro de uma lingüicinha, a visão de um coração de frango e a evidência da alegria nos rostos com pedaços de carne escapando pelo canto da boca não ajude a espantá-los.

Problema maior serão as disputas internas ao próprio CSF. Como o próprio Antônio Prata percebeu em crônica anterior, se até conversa sobre o tempo no elevador, que até outro dia era um antiassunto, e hoje é capaz de gerar sérias contendas (e nem precisa seu interlocutor ser metereologista, mestrando no INPE ou militante do Greenpeace), que dizer então do Churrasco Sem Fronteiras? Percebo uma dessas fraturas. Porque a grelha e não o espeto? Desde quando um bom churrasco se faz na grelha? Grelha é paliativo: só em São Paulo se acha que grelha faz churrasco de verdade. Daí já se percebe a disputa política no CSF e a supremacia que os paulistas tentam ter sobre um assunto que eles sequer são dos mais entendidos. Conseqüência primeira: o questionamento ao próprio símbolo do grupo, o jogo da velha, #. Talvez melhor fosse o número 1, que representa simpaticamente um espeto, verdadeiro símbolo do churrasco, além de simbolizar a união, o espírito de todos unidos por não apenas uma boa causa, como por uma boa carne. E para os campos de batalha, além de dividir da praticidade da grelha para sair correndo, tem a vantagem extra de, em casos extremos, poder ser utilizado como arma: algumas aulas de tai chi ou kung fu, e um espeto pode ser manuseado com presteza e plasticidade. Seria o CSF unindo Ocidente e Oriente pelo espeto.

Bem, como se vê, a idéia parecia ótima, mas nem bem surgiu o CSF, e já surgiu junto a primeira cizânia. O que dizer na hora da seleção musical: por que samba e não chamamé? E se argentinos adentrarem o movimento e resolverem se indignar com nossos cortes de carne (apesar que eles, se não me engano, apoiariam a grelha)?

Talvez melhor seja ir em busca de alguns caldeirões retráteis e aceitar a sugestão da Feijoada Sem Fronteiras. Apesar que se aparecer um grupo de veganos pelo caminho, eles vão fazer piquetes, impedir a passagem, enquanto não forem substituídos os tradicionais ingredientes por côco, glúten, soja, castanha... para não falar nas disputas internas.


Ponta Grossa, 20 de maio de 2011.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

As árvores do meu quintal

A campainha de casa estava quebrada e o dono se prontificou a consertá-la. Como minha alterativa a ela era um tanto precária – me ligar para abrir o portão –, graças à qualidade sofrível dos serviços da Net, freqüentemente fora do ar, aceitei, mesmo sabendo qual seria a fatura.

Meu pequeno pátio estava que um matagal só, salvo os dois trechos não cimentados, um por um metro o primeiro deles, e dois por um o outro. Eu bem que tentara dar uma limpada no final de janeiro, quando o mato já havia tomado conta, mas antes do quinto minuto queimei a mão numa taturana. Depois disso fui postergando a retomada da tarefa – até pela falta de tempo.

O dono da casa, ao chegar para para consertar a dita campainha e se deparar com todo aquele mato (ao menos da parte interna da casa eu cuido bem), fez aquela cara de desagrado e se propôs a dar um jeito também no quintal. Anui, o que fazer?

Dois dias depois ele veio. Não demorou muito e o capim já estava todo arrancado, e ele, facão na mão, partia para as plantas de caule grosso. Nessa hora me surpreendi com seus conhecimentos em botânica. “Este aqui”, me mostrou um pé já alto, mais de um metro e meio, “é um ipê”. “E como foi parar aí?”. O abacateiro cortado há dois anos é fácil: tenho minha composteira, ou algo que o valha, onde jogo restos de frutas, mas eu não como ipê. “Ah, é passarinho que traz”. E zapt, era um ipê, porque o facão já havia levado.

“Esta aqui é uma pitangueira”, comentou de uma arvorezinha que há bem uns quatro anos brigava para se firmar. Trinta segundos e foi-se. Perguntou se a palma eu que tinha plantado. Como tinha sido, falou que deixaria, “mas assim que você sair eu corto”. O pé de amora ao lado não teve a mesma sorte – e minha sorte de ter um pé de amora no quintal durou um minuto. Consegui ainda salvar o pé de acerola que ganhara de um amigo, com o argumento de que eu quem plantara. Já o pé de lichia, que também tinha sido plantado por mim quando eu nem sabia o que era lichia, muito menos na árvore monstruosa que ela cresce, estava de saída e preferi não dizer nada. Não sei se reconheceu que árvore era aquela, de qualquer forma, quando voltei pra casa, o quintal “limpo”, ela não estava mais lá.


Pato Branco, 12 de maio de 2011.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Bicicletas de primeiro mundo

Se tem uma coisa que a elite brasileira adora é fazer o que ela acha que é chique no exterior. Ir à ópera vestindo casaco de pele em Ribeirão Preto, sendo que durante o dia a temperatura passou dos trinta graus, por exemplo. Essa elite acredita que a última onda mundial é bicicleta. Mas não qualquer magrela, tem que ser bicicleta comunitária. Veja São Paulo: espalhou bicicletários pelas estações de metrô – outra coisa chique, de primeiro mundo, metrô. Quantas pessoas usam o serviço? Isso pouco importa para a elite: fica bonito, não fica?

Numa cidade sem ciclovias – começam agora a ensaiar a instalação de algumas, ainda incipientes e sem perspectivas para um futuro próximo –, em que bicicleta é estimulada como passeio de domingo, o “usebike” é um programa tão patético que o sucessor só viu nele gasto inútil – ou seja, viu o que ele é. Mas como é coisa que tem em Barcelona, no Canadá, em Paris – e São Paulo não serviu de exemplo –, a Unicamp resolveu também aderir, numa prova de falta de senso de ridículo e de prioridades.

Agora a universidade contará com um sistema de bikes comunitárias intracampus para a comunidade interna se deslocar pra lá e pra cá gastando menos tempo e com “menos stress” (sic). Atrasado para a aula? Azar o seu, corra: o tempo autorizado com a magrela não permite assistir à aula inteira. Esqueceu algo em casa, ali pertinho? Vá de carro ou à pé: a bicicleta é só para o campus. Daí a pergunta: para quê bicicleta, se já tem ônibus circular interno? Só se for para passeio de domingo, pelo visto.

Enquanto isso a Unicamp finge que estudante universitário não é estudante e não mexe um dedo pelo meio passe estudantil no transporte público, melhora o tráfego dos carros às custas de piorar a vida de pedestres e ciclistas – que têm que se deslocar mais e atravessar mais ruas –, e segue sem calçadas para pedestres em boa parte da fazendona, mas vagas para estacionar, isso sobra. Inclusive, a Unicamp a cada dia se firma como um grande estacionamento gratuito e cada vez mais bem equipado e protegido – só falta ser com seguro.

Enquanto isso, a moradia estudantil – destinada a alunos que ainda não são da elite – segue sem ampliação de vagas, casas mal pensadas e mal construídas, com reformas sempre lentas; o restaurante universitário tem fila das 11h30min às 13h45min (para compensar o tempo que você vai ganhar com o bicicleta?), e bibliotecas e salas de informática continuam alagando eventualmente – mas só quando chove. Olha, uma utilidade! As bikes poderão ajudar pra sair à cata de gente para entrar no mutirão de retirada dos livro das prateleiras antes que molhem.

Campinas, 29 de abril de 2011.

terça-feira, 26 de abril de 2011

O absurdo e o escárnio

Estamos tão anestesiados pelo absurdo que vivemos em nosso quotidiano que o escárnio pode ser atirado em nossa cara e ainda agradecemos. Entregues a uma liberalidade capaz de fazer corar um liberal de boa cepa – desses que não se encontra por estes tristes trópicos –, as cidades brasileiras caminham para se tornar aglomerados de multidões solitárias, concreto e asfalto – por onde se deslocam cidadãos virtuais em bolhas metálicas individuais. Claro, há uma resistência orgânica da urbe: o território concreto contra o espaço tratado indiferentemente às suas características naturais. Mas a cidade insiste e vai atropelando o que tiver pela frente para dar passagem aos carros – que com seus motores com cem cavalos de potência, por suas vias se movem mais lentamente que galinhas.

Pela manhã, ligo o rádio, Band News FM ou CBN, e lá estão as duas emissoras com seus helicópteros e notícias sobre o trânsito. Congestionado para cá, tudo parado ali, flui muito lentamente não sei onde, tantos quilômetros de lentidão acolá, engarrafado entre tal e qual ponte sentido pra lá, aviso pra quem vem que é melhor não chegar, porque não entra, e pra quem sai, surpreendentemente o trânsito flui quase normalmente. Ao volante, reclamamos, bufamos, lamentamos, xingamos e aceitamos: é assim, que fazer? Encontrar meios de aproveitar esse tempo – audiobook parece ser a tendência da moda. Eis o absurdo que não mais nos perturba realmente.

O escárnio fica por conta das emissoras. Logo após o anúncio de tudo parado, a propaganda de mais um veículo – para você contribuir com todo esse caos. E achamos normal anunciar carro depois de noticiar os males do transporte individual que estamos sofrendo ao vivo. Tão normal que compramos a caranga anunciada.

E pela manhã, parados no trânsito, criticamos as ruas insuficientes da cidade, xingamos o motorista que demorou cinco segundos para dar o arranque, bufamos, lamentamos, reclamamos e aceitamos. Fazemos bem: se contribuímos para escarnecerem de nossa cara, por que não aceitar o absurdo de nosso dia a dia?


Campinas, 26 de abril de 2011.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Onde os mágicos não têm vez

Sempre que há a discussão se o copo está meio cheio ou meio vazio me põem na equipe do meio vazio – o que acho uma injustiça, tamanho preconceito. Mas hoje poderão se regozijar em júbilo que estão corretos. O Mágico (L'illusionniste), filme de Syvain Chomet, a partir da adaptação do roteiro de Jacques Tatit, não cabe a discussão do meio cheio vazio ou meio vazio, mas do três quartos vazio ou do um quarto cheio (aviso: ao fim desta crônica entrego fim o do filme).

Conta a história de um ilusionista na década de 1960 que tenta sobreviver se apresentando em casas de espetáculo – ou onde lhe oferecerem oportunidade. No meio do caminho, depois de passar por um vilarejo escocês onde faz algum sucesso, uma jovem aldeã acaba acompanhando-o à sua revelia e passa a morar com ele em um hotel em Edimburgo.

O filme é mais do que decadente: é o fim da linha. Muito bem pensado, não há nada que salte os olhos nessa direção: os traços são leves, o filme é feito de diálogos (silenciosos) leves, e apenas o palhaço destoa no seu comportamento.

No correr do filme, o que se vê é o mágico penando para poder seguir na profissão escolhida – ao mesmo tempo que tenta satisfazer aos anseios ingênuos de consumo da garota –, assim como toda a trupe de uma época superada que está hospedada no mesmo hotel da capital escocesa. E dando apenas pequenas deixas, é sobre isso que o filme trata: o fim de uma época, massacrada pelos meios de comunicação visual de massa. Não há razão de ser para artistas desconhecidos e sem o encantamento da indústrial cultural: diante de uma banda impulsionada pela televisão que leva milhares de fãs à loucura, ou da magia do cinema, o que é um mágico, um ventríloco, trapezistas, um palhaço? A opção que resta é a de se submeter: fazer seus truques em vitrines de lojas para divulgar mercadorias. Deixar de ser um artista para ser um produto qualquer, descartável e substituível ao primeiro atraso.

Creio que quanto à metade vazia do copo não haja muita discussão.

Sobre a outra metade. O um quarto cheio do copo poderia ser a mocinha deixar de ser uma empregada em um fim de mundo para se embelezar e viver um sonho de princesa na cidade grande. O quarto vazio, que o filme termina antes de dar as doze badaladas e a carruagem virar abóbora. Vestido, sapato, acessórios, o que surgiu como mágica custou muito suor ao mágico, e ela dava claros sinais de não estar nem um pouco atinada à realidade quando tentou comprar um relógio com uma moeda. Se deixava levar pelo engodo das aparências – justo na sociedade do espetáculo. Havia, sim, um príncipe, bonitão e erudito, pelo que aparentava. Seriam felizes até quando, se é que seriam felizes?

Mágicos não existem, diz o recado de despedida do ilusionista, junto a um maço de dinheiro. Existiam até um momento atrás. E a mocinha em breve descobrirá que o maravilhoso mundo que tem diante de seus olhos, esse onde mágicos não têm vez, é pura ilusão.


Campinas, 11 de março de 2011.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Sentir-se em casa

Uma coisa é ter uma casa – essas com paredes e teto, diferente da da canção infantil –, outra coisa é sentir-se em casa – esse sentimento que eu não vou saber explicar aqui. Para isso ter casa ajuda – não garante. E se em uma época a casa pode servir, em outra não mais: depende do momento, do humor, do contexto.

No meu caso, há momentos nos quais voltar para minha casa dos meus pais, em Pato Branco, é sentir-me em casa. Tem horas, isso não basta: preciso estar no meu quarto, onde acordei minha infância e adolescência. Outras, mais especificamente ainda, tenho que me trancar em companhia de meu piano – que ainda me tolera os dedos a cada ano menos ágeis. Mas tem vezes que ele – meu porquinho da índia –, é deixado fechadinho no seu canto, porque meu sentir-me em casa está antes de tudo na companhia dos meus pais e do meu irmão.

Contudo, como minha vida acontece a mil quilômetros de distância, Pato só tem a sensação de casa se for aproveitada por períodos curtos. Logo preciso voltar para Campinas, onde o sentimento ficava restrito quase que só à minha casa mesmo – onde moro já há mais de sete anos (é tempo para estudante) –, até porque Campinas não me inspira nada nesse sentido.

Diferentemente de Ribeirão Preto, onde uma série de lugares mo inspiravam, além de onde morava: a USP, a praça Camões, o Theatro Pedro II.

E de Ribeirão veio me visitar este final de semana um amigo a quem muitas vezes me refiro como “meu irmão mais velho”, o Paulo. Me pegou num momento tenso, com prazo do mestrado estourando, e essa tensão reverberando para todos os lados da minha vida pessoal. E um dos pontos que atinge é justo que não tenho me sentido em casa em lugar algum, sequer em minha casa – até pela vontade de mudar, que já não deixo mais guardada, como na música da Madredeus (apesar de não estar tão bem encontrada).

O final de semana em companhia do Paulo foi curto, não deu para pôr papo em dia (nunca dá), não deu sequer para discutir nossas últimas alegrias e tormentas, muito menos para debater temas filosóficos, epistemológicos ou de caso. Serviu apenas para reencontrá-lo, para um abraço: foi um breve sentir-me em casa – que eu tanto precisava.

Casa que há dez anos encontro como nenhuma outra, impressionantemente independente de variações de clima, de humor, de momento, de contexto...


Campinas, 09 de março de 2011.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

De onde surgem os sapos?

Sempre me perguntei de onde surgem os sapos. Porque é uma chuvinha mais forte e pronto, já tem um, às vezes dois, pelo meu quintal, que nada tem de atrativo a sapos ou rãs (que também dão seu ar da graça). E minha casa não fica tão perto do rio que passa no fim da rua: uns trezentos metros ou mais. Teriam que ser muito velocistas – e fortes – para vencer tão rápidos tamanha distância contra a corrente – que é uma subida quase sem boca de lobo, e a enxurrada desce forte para um sapo, imagino. Marreco ainda vá lá, apesar de eu nunca ter visto marreco nestas cercanias, para um ter batido em minha janela às três da manhã. Mas essa é outra história.

Aprendi na escola que sapos nascem girinos. Mas depois de grandes como eles se movimentam sem serem vistos? Teletransporte? Patas batráquias divinas os transportam pelo além? Por mágica? Isso até serem pegos por um carro no asfalto. Pois hoje, estendendo roupa agora à noite, vejo algo se mexendo de uma fresta do cimento próxima à casa– e fazendo um barulho consideravelmente alto para o tamanho da abertura. Logo brotou um sapo do buraco – bluf! Não chovia para o sapo ter aparecido – talvez tivesse decidido tomar uma fresca. O barulho vindo do buraco seguia, vez ou outra. Talvez fosse dia de faxina, e ele tivesse sido posto pra fora enquanto isso, não sei. Se era, invejei-o: minha casa precisava também de uma faxina para além da de rotina, porém meu tempo anda escasso, minha vontade, nem a isso chega, e não há ninguém para me pôr para fora e fazê-la por mim.

Bem, resolvido de onde surgiam os sapos pelo meu quintal a qualquer chuvinha, pensei que poderia dormir melhor sem essa batráquia questão, mas me dei conta que havia outra: como foram parar ali? A distância, a subida, a correnteza seguem as mesmas. E há quanto tempo estariam por ali – se é que não era outro solitário como eu –, para eu só agora perceber?

E onde há marrecos por estas bandas para um ter batido na minha janela às três da matina?


Campinas, 19 de fevereiro de 2011.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Ultrarromantismo e aprovação

Em seu Doutor Pasavento, Vila-Matas conta a história de um escritor catalão que resolve fazer como Agatha Christie fez em 1926: sumir sem avisar. Porém, contrariamente à inglesa, passam-se os dias e ninguém dá pelo seu desaparecimento – a editora francesa ou o porteiro de seu prédio, já que os pais e a filha estão mortos, a ex-mulher o odeia, e sua fama não o faz merecer nota em jornal. Estranha conseguir desaparecer tão fácil, na rua Vaneau, em Paris. Seu próximo passo é conseguir desaparecer de si, encontrar sua própria Patagônia – conforme a descrição do escritor W. H. Hudson –, ou “sentir-me senhor de mim mesmo, sem a carga de um nome”, como se regozijava em suas viagens William Hazlitt – ser seu ídolo Robert Walser, no fundo: desaparecer sendo.

Reconheço que essa idéia de desaparecer me parece muito interessante. Há a vida e os medos, contudo, que fazem com que ela seja interessante apenas em idéia. E um dos medos é justo o de ser esquecido.

Esquecido, certamente serei. Como esquecerei boa parte das pessoas com quem conversei ou convivi um dia. A angústia vem de imaginar que certa pessoa possa me esquecer – me esquecerá, logo ela, tão importante para mim? E não adianta lutar contra o esquecimento, que conseguir arrumar um lugar na memória à força, se plantar como uma estátua na cidade, pode ajudar a não ser esquecido, mas é uma vitória de Pirro – melhor ser esquecido, isso abre chances para ser recordado. Porque as recordações pessoais, elas só tem o colorido que as tornam singulares – não necessariamente positivas – quando espontâneas.

Quinta-feira abro o e-mail e vejo uma mensagem com o título “Ultrarromantismo e aprovação”, de uma Julia que desconheço. Deve ser alguém que se lembrou de mandar material para a próxima Casuística, pensei – sendo que terceira edição, por problemas técnicos e enroscos acadêmicos, ainda sequer foi lançada. Pois não era. A tal da Julia eu conhecia, sim, apenas não me lembrava dela. Havia sido educanda num projeto de educação popular que participamos há quatro anos, e me escrevia para contar que passara em letras na USP – e que eu tinha sido, nos tempos idos, uma das pessoas que redespertara nela o interesse por literatura.

Fiquei feliz pela sua aprovação. Sei que nada ajudei com o vestibular, mas saber que tive lá minha pequena dose de incômodo que a fez escolher letras, a ponto dela se dar ao trabalho de me avisar do seu sucesso, me deixou muito contente. Tentei contar desse meu contentamento na minha resposta a ela, não consegui. Como agora.


Campinas, 13 de fevereiro de 2011.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Utilidades básicas de um celular

Não é novidade para mim que um aparelho novo não é um facilitador da vida apenas, mas um transformador da percepção, da relação do indivíduo com o mundo e, em larga escala, do próprio mundo. Mesmo assim, insisto em me surpreender quando me dou conta dessas banalidades.

Começo com um exemplo tirado dos livros. Conforme McLuhan, o estribo, introduzido na Europa na Idade Média, foi responsável primeiro por maior firmeza sobre o cavalo e, a partir disso, permitiu em combate um tranco muito maior contra o adversário que não se utilizava da pecinha. Quando ambos a utilizavam, a alternativa era se guarnecer. Surge daí a figura do cavaleiro, cujos altos custos de construção da armadura fizeram com que só a nobreza tivesse condições de se dedicar à arte da cavalaria, e apenas parte o fizesse, o que trouxe conseqüências muitas para o correr dos secúlos subseqüentes.

Enfim, pouco entendo de Idade Média e de cavalos, e antes de me enroscar, melhor vir logo para a cidade e os tempos atuais – ainda que cavalos possam ser vistos pela Av. Paulista, sempre com estribos, eventualmente com símbolos medievais.

Ter um carro não significa apenas se mover com mais rapidez e agilidade pela malha urbana. Significa uma outra relação o tempo: o número e a forma de organizar compromissos é alterado de maneira considerável. Significa ver a cidade de outra forma. De início conheci São Paulo por carro apenas, apresentada por meu tio. Desde 2008 resolvi me perder pelas ruas do seu centro e conhecê-la à pé. De uma cidade feia, hostil e que me assustava, ela se tornou uma cidade habitável e bonita, ainda que siga feia, problemática, caótica, às vezes até hostil – não o suficiente para que agora eu não deseje morar nela.

Enquanto me enrolo para trocar de ares, já que Fuvest não ajuda, amigo meu que também resolveu mudar para a capital avisou que um celular ajuda muito na hora de procurar apartamento. Acreditei nele, não via porque deveria desacreditá-lo: não é dos chatos que ficam tentando me convencer que celular é como se fosse um umbigo pós-moderno. Como sobrava um na casa de meus pais, resolvi trazê-lo, ainda que, sinceramente, não soubesse no que ajudaria – isso ele não explicou, por ser muito óbvio. A utilidade mais plausível que consegui imaginar foi a facilidade de um corretor me encontrar.

Pois semana passada, saindo da Unicamp, vejo um rapaz que pára defronte a kitnets com placa para alugar. Do bolso saca o celular. Agil com os dedos, liga rapidamente para a imobiliária e pede informações. Caramba! Então é assim que o celular ajuda?!


Campinas, 08 de fevereiro de 2011.


(na foto, cavalos e vaquinhas, todos com estribo, na Av. Paulista, no dia mundial sem carro de 2010, sobre o qual faço alguns comentários no texto "Dia da piada do dia sem carro", que vem sem esta ilustrativa foto, por eu não ter máquina digital e demorar para revelar os filmes).

sábado, 29 de janeiro de 2011

Facebook e segregação

Por não ser católico, graças a uma formação moral-cristã assaz tíbia dada por meus pais, posso discordar do santo padre sem estar condenado à danação (ainda que as mensalidades da PUC provavelmente compensassem esses e outros deslizes), e o faço nesta crônica, porque Bento XVI criticou o uso da internet para a criação de personalidades falsas ou ilusórias nas redes sociais – como se ilusão fosse privilégio da internet, e não da sociedade ou da Igr...

Vejo como uma das grandes perdas da internet justo a falta desses espaços de anonimato, talvez não completo, mas ao menos com um certo controle sobre o que é exposto, a quem é exposto. A ascensão do padrão Msn frente o Icq – em que endereço de e-mail substitui um número de identificação –, e a febre das n redes sociais que se sobrepõem desde 2004 marcam essa virada, em que a internet se tornou definitivamente extensão do mundo real, e não um apêndice.

Tomemos o Facebook. Não há como se esconder ali: pode não pôr sua foto, seu nome, nada que o identifique no seu perfil, mas por seus amigos as chances de ser encontrado e identificado são consideráveis.

Porém o que mais me chama a atenção é o potencial de segregação entre os “in” e os “out” da rede do sr. Zuckerberg: pois sendo a rede virtual feita dos amigos reais do dia a dia, e havendo um “diálogo” permanente entre todos ali – diferentemente de um bate-papo por mensageiro, geralmente restrito a duas pessoas, ou ao menos ao presente da comunicação –, assuntos do mundo real continuam no virtual, os do mundo virtual continuam no mundo real, e assim as duas esferas vão se misturando e virando uma coisa só. Os não animados com a tela do computador – ou com as maravilhas do Facebook, apenas –, passam a ter dificuldades para se entender no próprio grupo, precisam que alguém explique as piadas internas. Logo se verão deslocados entre aqueles com quem convivem, por não compartilhar as discussões do Facebook.

Talvez me chamem de jurássico. Pode ser. Noto pelos endereços dos meus e-mails, do meu Msn, pelas minhas contas falsas em redes sociais, que sigo o padrão de quando comecei com a internet, em 1996: um lado sempre meio escondido. Tento justificar dizendo que isso me permite certa visão crítica, pelo distanciamento; há quem diga que isso serve apenas para acentuar meu lado velho ranzinza, como quando insisto em não ter celular ou em ainda ter máquina fotográfica a filme. Pode até ser, mas de carola ao menos ninguém pode me chamar – se é que quem usa Facebook ainda sabe o que é carola, já que dia desses tive que refrescar memória de amiga para essa "gíria antiga"...


Ponta Grossa, 29 de janeiro de 2011.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Muita memória para pouca recordação

Os provérbios andam em baixa na sabedoria popular, substituídos por frases “dilapidares” de intelectuais televisivos e celebridades instantâneas – Big Brothers ou até menos. Uma pena, acho que perdemos todos com isso. “Quem muito quer nada tem” foi um desses provérbios gastos que me lembrei por estes tempos. Deu-se ao ler notícia sobre o Facebook, na qual seu criador, Mark Zuckerberg, se vangloriava de que em breve os usuários da rede de relacionamento terão todas as suas mensagens, das mais importantes às mais triviais, preservadas para a posteridade.

Me pergunto se isso é sonho ou pesadelo, numa vida que cada vez mais entrelaça mundo real e mundo virtual. Se no mundo virtual tudo é com-provado, como faremos com o mundo real, para provar o que se passou?

Ademais, qual a necessidade de ter tudo registrado, tudo preservado “materialmente”. Quem muito quer nada tem, dizia o velho dito, e essa necessidade de memória no Facebook para guardar tudo talvez seja sintoma de nossa falta de memória para recordar até de lembranças marcantes, porque são tantos estímulos simultâneos pelos quais passamos na “era da urgência”, como dizia a reportagem, que fazemos só isso: passamos, sem chances de sermos tocados, de guardarmos registros, de termos lembranças, de termos recordações vivas (dava para atualizar o poema de Francisco Otaviano para o século XXI).

Não nego, será emocionante para os emotivos eventualmente poder voltar e reler momentos chaves da sua vida, aquele recado ou aquele bate-papo que eram para ser banais, sem futuro – outros entre tantos – e acabariam sendo marcantes. Mas aí surge outro problema, que já sofri com o e-mail (que Zuckerberg promete asfixiar com seu Facebook). No início o Gmail dizia que eu nunca mais precisaria apagar uma mensagem. E foi mais ou menos isso que fiz: e-mails de pais, de amigos, de futuras namoradas, já ex-namoradas, de desconhecidos, de listas, chamadas de notícias, previsão do tempo, está tudo lá, 25 mil e-mails ocupando 30% do espaço que o Google muito bondosamente me dá. Pois eu precisei encontrar o endereço de e-mail de um tal de Paulo com quem eu trocara duas ou três mensagens em fins de 2008, início de 2009. Haja refino de pesquisa para encontrar as tais mensagens, e ainda assim só porque eu lembrava com razoável precisão da data; ou então aquelas mensagens com o tal endereço ficariam para a posteridade – para o presente, que era quando eu precisava, estariam perdidas.

Aos emotivos, portanto, a dica: comer peixe, que dizem que faz bem para a memória. Para garantir, não dispense a velha agenda de papel ou o tão ridicularizado diário guardado no criado-mudo ao lado da cama.


Pato Branco, 21 de janeiro de 2011.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Luzes sombras e cores

Tenho cá minhas dúvidas se um dia a comunicação entre duas pessoas pode vir ser transparente e cristalina: tudo o que é dito de um lado é compreendido do outro, e eventuais falhas no entendimento logo sanados. Se acaso for possível tal nível de esclarecimento, quero distância.

Em geral, vemos os mal-entendidos sempre de maneira negativa, quase que a origem dos males do mundo - ou ao menos das relações humanas. Não discordo que eles podem acarretar muito desgaste e conseqüências desagradáveis, porém julgo tais conseqüências antes frutos de nossas dificuldades para o diálogo do que do mal-entendido mesmo.

Um mal-entendido pode ser uma oportunidade para um encontro franco com outra pessoa - assim como consigo mesmo, uma vez que pode deixar evidentes certos preconceitos nossos muito ínfimos, mas não menos presentes. Pode ser a chance de uma nova e repentina idéia; a abertura para o inesperado que o contato transparente não deixaria: se tudo é sabido, por que arriscar? No que arriscar?

Meu elogio das sombras - na comunicação, inclusive - é algo recente, tem três anos. Já precisei me vigiar mais para tentar manter um certo equilíbrio entre luzes e sombras - e não jogar luz sobre tudo, como desejo em minha herança iluminista. Hoje já não tenho esse ímpeto luz luz luz e chego, eventualmente, até a perder a medida: semana passada achei que fora cristalino, mas a luminosidade do que eu dissera ficara bem aquém do que eu julgara. O que era para ser sabido, pré-combinado, sem sobressaltos, tranqüilo, num sopro se tumultuou e se desfez ganhando surpreendentes cores inusitados contornos outros significados diferentes perspectivas novas possibilidades - se serão predominantemente positivas ou negativas, ainda não sei, e isso tem também sua graça (da qual faz parte certa angústia).

Voltei para casa perplexo, como ainda estou: como pode da sombra tantas cores? E como pôde eu um dia querer só luz?

Sombras, por favor!


Campinas, 14 de dezembro de 2010.


segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Sobre as bandas covers do Festival Planeta Terra

O século XXI começou com a moda passada, quando o antigo deixou de ser uma influência para ser determinante – a tal da moda retrô. Como o mundo do consumo atual anda se consumindo muito rápido, o retrô foi se acelerando, e já estamos no retrô anos oitenta e anos noventa, perto de chegarmos ao retrô do retrô, o retrô dos anos zero zero. Para não chegar tão cedo à contradição, ganhou força moda ensaiada ainda no século passado, com os Sex Pistols, de bandas fazerem covers de si mesmas, aproveitando essa nostalgia das quinquilharias consumidas num passado não tão distante, mas já obsoleto – bem exemplificada, por exemplo, no almanaque dos anos 80, em voga nos adultos jovens mais ou menos da minha idade, que nem lembranças dos anos 80 têm direito.

Perdi a vinda do Rage Against The Machine cover e a segunda do Pixies cover ao festival SWU (nome que me deixa profundamente irritado), mas aceitei o convite de acompanhar o Cássio ao Planeta Terra, em que tocariam, além de Mombojó, Hurtmold e Phoenix, Pavement cover e Smashing Pumpkins cover.

No show do Pavement, banda indie seminal dos anos 90, muito palco para a banda. Deviam estar acostumados a tocar em festivais, mas não como atrações principais, dessas que precisam se preocupar com iluminação: shows à noite deveriam ser em pequenas casas, sem tudo aquilo de espaço: bastavam um ou dois spots iluminando e fim. De qualquer forma, o grupo parecia animado com o show, salvo o principal nome do grupo. Stephen Malkmus, para além da pose de elegância, parecia cansado, sem empolgação, ainda que não se possa dizer que foi burocrático. Talvez fosse desânimo, sabendo do atraso que era se restringir às músicas do velho grupo diante do que produziu depois do seu fim – que teve boa repercussão, contrariamente aos seus colegas de banda, salvo Nastanovich e sua quase conhecida Silver Jews, que era já paralela ao Pavement. Teve lá sua dose de emoção ver Pavement tocando ao vivo, como se fosse possível voltar ao início dos anos 90, mas não é a mesma coisa, não adianta se enganar. E Stephen Malkmus parece que não quis mesmo entrar tão a fundo na ilusão: estamos em 2010. Em resumo, chamar decepção é exagero, mas Pavement cover foi frustrante – shows do Stephen Malkmus and the Jicks e Silver Jews seriam bem mais vivos.

Já o grande grupo cover da noite – o indie main stream – era o Smashing Pumpkins cover – que voltara prometendo não ser mero cover de si mesmo. Deixarei comentário sobre isso para daqui a pouco. No show era evidente quando tocavam a parte cover e quando tocavam a parte não-cover. E por ter intercalado músicas novas e antigas, conseguiram acabar com qualquer clima catártico que o show poderia (e prometia) ter para os desesperados fãs da banda de Billy Corgan. O que houve foi um morde-assopra: uma música para a galera empolgar, outra pra todo mundo ficar parado olhando torcendo pra acabar logo e começar uma música antiga (ou “do Smashing de verdade”, como diriam muitos). Poderia argumentar que o artista faz bem de mostrar as novas músicas, ao invés de só agradar o público com as velhas e conhecidas. Ocorre que ao voltar com o mesmo nome, mas sem o mesmo vigor, o Smashing Pumpkins se aproveita do que foi para tentar emplacar o que não mais é. Quando Corgan acabou com a banda, há dez anos, parece ter feito bem. A banda que teve depois, a Zwan, mostra um pouco isso: deixava de lado o clima sombrio e um tanto auto-indulgente por algo um pouco mais leve e colorido, sem excessos. Uma mudança necessária para não se repetir. Mas sem o mesmo sucesso imediato no novo formato, voltou à velha fórmula – disse ele que é porque seu coração era Smashing –, primeiro em carreira solo e, diante de novo insucesso, com a velha banda e o velho nome. Que só tem força enquanto cover de si mesma: já tinha mostrado em suas novas composições, e isso ficou claro no show no Planeta Terra. Para minha tristeza: sequer as últimas composições do velho Smashing Pumpkins parecem animar os fãs da banda cover, e elas ficaram fora do set-list.

Para concluir: não vou dizer que não valeram a pena os shows. E não vou criticar a volta das bandas covers de si mesmas: fui ao Planeta Terra por causa de três shows, dois deles cover. No SWU, teria ido por causa de três também, dois deles covers. Mas no caso de bandas em que os artistas conseguiram seguir com trabalhos interessantes, caberia atrelar a banda cover a apresentações dos novos projetos – não sei se precisavam ficar ou num ou noutro. Billy Corgan, mesmo tendo seu “coração Smashing”, poderia ter prosseguido com a Zwan. Malkmus poderia ter feito show com o Pavement cover, e num outro dia tocado em São Paulo as músicas de seu Real Emotion Trash e outros. Nessas voltas, parece que perdem todos – artista e público.


Campinas, 29 de novembro de 2010.

domingo, 14 de novembro de 2010

Selo de qualidade para o Enem

Nestes tempos em que as pessoas têm extravasado seus preconceitos, também eu preciso admitir preconceito que tive dias atrás. Mal havia passado uma semana das eleições, e parti do meu pré-conceito reforçado durante o ano de 2010 quanto à lisura da Folha e preferi nem ler do que realmente se tratava o problema no Enem, merecedor de ser a capa numa edição de domingo. Me conformei em achar que se tratava de um factóide.

Só agora, uma semana depois, mais tranqüilo, verifiquei que estava correto no meu achismo. Com essa semana, noto que poupei meu estômago. Menos mal.

Àqueles que trataram de logo se esquecer, também pensando em seu bem-estar, lembro da manchete da Folha de 7 de novembro: “MEC erra de novo e causa confusão no 1º dia do Enem. Apresentação das perguntas não batia com a folha de respostas da prova, realizada por 3,4 milhões de alunos”. Dentro, o título da reportagem não dá margens para leituras dúbias: “Erro no Enem afeta 3,4 milhões de alunos”. Trata-se, portanto, de uma falha completa, do Enem – com 3,4 milhões de provas erradas, um número impressionante –, ou de quem redigiu o título, que precisa de umas aulinhas de português, ou de ética, mais provavelmente. Como o caso é grave – o de ética, mas a Grande Imprensa finge que isso é irrelevante –, o principal jornal do Paraná, a Gazeta do Povo do dia 14 de novembro, trazia não só a manchete mas quase toda a capa dedicada à perda da credibilidade do Enem após fiascos.

Enfim, aos fatos. A imprensa alardeia quase dois mil alunos afetados (contrariamente ao que afirmou a Folha de 7 de novembro), o Ministério Público que tenta cancelar a prova, o ministro Haddad prestes a cair diante de mais esse fiasco. Pois bem, dois mil em 3,4 milhões significa que essa confusão, essa desmoralização, toda essa perda de credibilidade do exame se deve a 0,06% de falha (arredondando para cima). O percentual de falha das urnas nas eleições 2010 foi quase sete vezes maior: 0,4%. Talvez a Grande Imprensa não tenha atentando para esse dado, por isso não pediu a anulação das eleições – esse retumbante e desmoralizante fiasco da democracia brasileira, a se concluir pelo exemplo do Enem. Tomara que ninguém desse pessoal leia esta crônica.

Diante do clima de conflito binário – o bem contra o mal – que a Grande Imprensa já há algum tempo tenta criar no Brasil (como já criou na Venezuela), anda difícil não tomar partido – por mais que eu, mesmo com muito boa vontade, julgue o governo Lula no quesito educacional mediano (se se parece excepcional é porque a base de comparação foram os inomináveis anos FHC-Paulo Renato). Porém, honestidade deveria ser algo banal e não uma virtude rara – isso a gente se dá conta nas eleições – e, convenhamos, com 0,06% de erro poderíamos dar um selo ISO qualquer de qualidade para o Enem. As virtudes, os méritos e deméritos, a utilidade e se se gosta ou não do exame, isso é outro debate.


Pato Branco, 14 de novembro de 2010.

domingo, 31 de outubro de 2010

A queda da Folha conforme a decadência dos seus ombudsmen

É possível notar a decadência da Folha de São Paulo nos últimos anos pelo nível dos seus ombudsmen. Sou eufemístico ao falar decadência, mais condizente é dizer seu despencamento de qualidade. Decadência era no início da década, quando parecia que havia possibilidade de reversão relativamente tranqüila.

Os últimos jornalistas a ocuparem o cargo apenas atestam o caminho da Folha rumo ao título de veículo mais mau caráter da Grande Imprensa – o que tem algo de honroso, dada a qualidade dos adversários, convenhamos. Eles realmente imaginam que alguém minimamente vivo acredita que eles são plurais, imparciais, independentes? E como já disse alhures, não vejo ser parcial como algo necessariamente negativo – até porque não creio na imparcialidade. Contudo, tampouco acho louvável a busca pela parcialidade, como é a tônica na internet.

Mário Magalhães era um ombudsman moderado, mas mesmo assim, por desagradar ao chefe, seu mandato acabou não sendo renovado ao fim do primeiro ano. Carlos Eduardo Lins da Silva parecia mais um office boy – moço de recado, como chamam em Portugal – do que ombudsman: levava e trazia mensagens dos leitores e do jornal pra lá e pra cá, pouco acrescentava.

Já Suzana Singer só não beira o patético porque o que ela faz como ombudsman é patético. Ela simplesmente inverteu o que faria o ombudsman: ao invés de fazer a crítica do jornal a partir do que recebe dos leitores, ela defende o jornal das críticas dos leitores! E defende de maneira muito pobre, o que é pior. Diz ela em sua coluna do dia 31 de outubro que a cobertura do jornal, depois de escorregadas (escorregadas? Eram tombos!) no primeiro turno, foi equidistante com relação aos dois candidatos no segundo. Aham. Numa eleição que mais parecia ser pela paróquia de Aparecida do que pela presidência do Brasil, na capa de 12 de outubro o jornal mostrava Dilma não comungando, ao contrário de todos ao seu redor; já na capa do dia 29, a foto era de Serra beijando uma Santa. Se isso é equidistância, Singer deveria explicar o que é “equidistante” na novalingua da Folha, que não achei a definição no seu Manual de Redação.

Se Folha um dia quiser provar que não é tão mau caráter assim e não tenta enganar seus leitores, que nomeie para o que eles chamam de ombudsman a Eliane Catanhêde, ou o Clóvis Rossi, ou o Otávio Frias Filho de uma vez, por que não? Aí, então, podemos conversar.

Campinas, 31 de outubro de 2010.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Falta de educação

Lembro da primeira vez que assisti a uma orquestra sinfônica ao vivo. Cidade do interior, há dez anos uma sinfônica não pisava por lá, o maestro achou por bem pedir que não aplaudissem entre os movimentos. Começou com Mozart, não lembro o que. Ao final do primeiro movimento, aplausos esfuziantes de boa parte da platéia – deste escriba, inclusive. Espertinho, imaginei que o maestro não ter agradecido devia ser sinal de que aplaudíamos na hora errada. Esse tipo de educação, de etiqueta, se aprende mesmo com o uso.

Com o advento do correio eletrônico, aquele cabeçalho de carta caiu. Salvo um professor aposentado da Unicamp que ainda punha “Paris, data tal do ano tal” (será que era só para ele dizer que estava passando uma temporada em Paris?), começa-se logo com um “eae’smaluco”, ou um “olá, tudo bem”. A carta tradicional, em compensação, até ano passado, ao menos – que até 2009 eu ainda trocava cartas com alguns amigos –, seguia com o tradicional cabeçalho.

O Orkut dispensou até o olá e o sds do final dos e-mails, que atualmente já vão dispensando tais “formalidades”. Porém não se pode fazer o mesmo nos mensageiros instantâneos – falta de educação que eu reiteradamente acabo por cometer.

Etiqueta que eu ainda não consegui descobrir é o que fazer quando comentam texto meu por aí, em fórum aberto. Se o fazem privadamente, fácil: é um correio eletrônico, respondo – ainda que por vezes leve dois meses para enviar a resposta, o que acaba por ser quase tão mal-educado quanto a não-resposta. Agora, e comentário em blogue? Se é um mal entendido, um convite à peleja, há, sim, o que responder. Porém, quando se trata de um comentário mais tranqüilo, um gostei, um interessante complemento – como o do Anderson em meu último texto –, o que responder? É um pouco da minha dificuldade em lidar com elogios, e dizer simplesmente obrigado; um certo senso de utilitarismo estrito (nem sempre seguido) nos comentário, em que um valeu só para dizer que li o comentário me parece dispensável – porque é óbvio que li e que gostei do elogio. Isso pouco importa: se é essa a etiqueta, já há um bom tempo sou um baita de um mal educado virtual.

Num eventual próximo comentário, a me surgir novamente tal dilema, não me tendo ainda decidido o que fazer, remeterei a este texto: lê lá, eu me enrolo, me enrolo, me enrolo, mas no fim digo obrigado.

Campinas, 29 de outubro de 2010.

domingo, 24 de outubro de 2010

Saudades do Tiririca

Fui um dos que criticaram o Tiririca. Hoje me retrato. Não que ele tenha feito uma campanha de alto nível, mas foi exagero dizer que ele escarneceu da política e dos eleitores, salvo quando disse que “pior do que está não fica.” Não é por obra de nenhum semi-analfabeto que nossa política está e estará pior.

O escárnio parte de uma facção da elite, de um grupo da elite intelectual e acadêmica – ainda inconformada por ter sido alijada do poder federal há oito anos pela rafuagem –, que conseguiu baixar o debate eleitoral e a discussão política a um nível tão baixo, mas tão baixo, que tarefa para os próximos quatro anos será tentar desfazer a ligação automática entre política e falta de escrúpulos que PSDB, Folha, Globo e Veja, principalmente, construíram.

A campanha de Serra nos contemplou com algumas lembranças dos piores momentos da direita nacional. Começou com um tosco lacerdismo udenista pré golpe de 64. Para chegar ao segundo turno apelou descaradamente ao populismo mais rasteiro – Adhemar de Barros e Maluf – com suas propostas anti-tucanas nunca questionadas pela imprensa sempre vigilante dos gastos petistas do dinheiro público com os pobres. Já no segundo turno, faltou apenas jogar caspa no paletó e dizer que Dilma incluiria maconha na merenda escolar para ser confundido com Jânio Quadros – porque a pergunta sobre a crença em Deus houve. E, claro, desde o início sua campanha tem um collorido indisfarçável, que vai se tornando a cada dia mais evidente. Não imagino o estouro de uma refinaria de crack com a bandeira do PT, ou uma edição tão tosca do debate no JN como em 1989, nem há clima para um novo Proconsult, mas atento apreensivo para um golpe branco orquestrado pelo candidato junto com a Grande Imprensa.

Nestas eleições uma eventual vitória da Dilma já foi anunciada como o fim da democracia de fato no país; já se levantou o desmonte do Estado Democrático de Direito e a ascensão de um Estado fascista sob o PT. Nunca a lembrança de 64. Não creio que seja por conta da história do PT, antes por qualquer projeto do PSDB – esboçado no início da campanha, sem eco nos quartéis.

Alberto Goldman, do PSDB, em discurso não transmitido na Grande Imprensa, sugeriu semana passada comparação entre Lula e Hitler. Tiririca perguntava se o eleitor sabia o que fazia um deputado federal. O eleitor poderia perguntar agora se Goldman sabe o que é capaz de fazer um político. A lembrança a Hitler, o apoio da Grande Imprensa e o Serra ao seu lado mostram que, ao contrário do Tiririca, ele e o PSDB sabem, sim, mas não terão coragem de dar a resposta antes das eleições. Nem depois.

O eleitor pode escolher descobrir por conta. Não sugiro.

Campinas 24 de outubro de 2010.

Produção egoacadêmica

Se para medir a produção científica brasileira, além do tanto de paper produzido (por favor, por mais que os novos ricos e a academia se entristeçam com este fato, ainda moramos no Brasil e não no Brazil, e estamos falando de produção científica e não de scientific production, logo, fala-se “papér” e não “peiper”) fosse levado em conta o material egoacadêmico que um professor ou um pós-graduando gera anualmente em seus embates nas n mesas-redondas que participa para engordar seu currículo lattes - o que também afaga seu egoacademicisimo -, teríamos uma melhor imagem dos esforços que os pesquisadores tupiniquins fazem em prol do desenvolvimento da ciência.

Um amigo contava das agruras do seu doutorado. Teve o infortúnio de cair no meio de uma disputa entre grupos de um programa de pós na Unicamp. Pelo regulamento, seu primeiro orientador não podia orientar no doutorado, mas se seu grupo conseguisse a coordenadoria de pós-graduação, dava-se um jeitinho e passaria a poder. Não conseguiu. O grupo que assumiu a pós, para evitar mal-estar desnecessário com o grupo rival, não liberou o professor para orientar, mas não quis assumir qualquer posição oficial, assinando documento dizendo que não podia, como pediu meu amigo. O professor pediu a seus dois orientados que escrevessem uma carta falando que só aceitavam ser orientados por ele. Meu amigo se recusou: a disputa interna entre os grupelhos não era com ele. Do outro lado, a coordenação "pediu" que eles assinassem uma carta pedindo que trocassem de orientador. Se negou também. O pedido foi um pouco mais incisivo: ou assinava ou perdia a bolsa. Argumento errado para meu amigo. Só assinamos a qualificação e a defesa se tiver a assinatura desta carta. Aí não teve como não ceder ao bom argumento de autoridade da autoridade. Mais velho, mais independente (não apenas financeiramente), ele acha que essas disputas são complexo terceiro mundista, briga para ver quem é o maior anão, disputa entre pequenos, que preferem não olhar para os grandes para não terem que encarar o próprio tamanho.

Tentei argumentar que disputas entre grupos e brigas de ego costumam ter em qualquer lugar - do ministério à copa -, mas devo reconhecer: universidade pública vai muito além não só do bom senso como dos níveis toleráveis, e a troco de nada. Já tive aula de ética em que o professor parava a aula para fazer fofoquinha de uma colega de quem ele não gostava – e que sequer era da Unicamp. E o pior é que a geração que vem aí não hesita em seguir o chefe: antes deixar tudo como está do que pôr a carreira em risco – por mais que ela já esteja comprometida.

Amiga minha contava de conhecida nossa que faz mestrado na USP. Perto do prazo para qualificar, sem qualquer resposta do orientador, foi atrás do dito e quando o encontrou descobriu que ele sequer sabia qual era seu tema de pesquisa. Ele alegou que estava com alguns problemas de saúde e por isso ficaria um tanto ausente “a partir dali”. Lógico, minha conhecida foi urgentemente pedir para trocar de orientador. Nada. Mais nova e sem a independência do meu amigo (e não falo aqui da financeira), preferiu deixar como estava. Não entendi. Minha amiga, muito bem inserida nos meandros acadêmicos, me explicou: trocar de orientador poderia queimá-la dentro do programa; logo, melhor fazer a pesquisa pedindo ajuda para amigos, pôr o nome do orientador ausente na dissertação, agradecer a todos, e correr atrás de outro para o doutorado, tendo esse seu desprendimento como carta de apresentação. “Era mesmo o melhor que tinha a fazer”, concluiu ela.

Sendo a universidade pública brasileira uma carreira burocrática cuja admissão não se dá de maneira impessoal – ainda que isso não implique que os selecionados não tenham as qualificações exigidas para o cargo –, realmente era mesmo o melhor que tinha a fazer. Por isso eu insisto: para o bem dessas pessoas, como essa conhecida, dona de um ego bastante volumoso, mas capaz de um desprendimento tal apenas para se mostrar servil às autoridades da universidade e poder um dia ser ela a autoridade: nossa produção científica devia levar em conta também a produção egoacadêmica!


Campinas, 24 de outubro de 2010.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

E se legalizar o aborto?

Conversava com um grande amigo que trabalha na saúde pública e que já atendeu em posto de saúde da periferia, e acabamos entrando no famigerado tema do segundo turno: legalização do aborto. Ele me trouxe uma experiência sua interessantíssima, e que dá uma mostra do que pode acontecer no caso de legalização.

Uma moça, cerca de vinte anos, chegou ao posto de saúde onde trabalhava e falou que queria fazer um aborto. Coisa que pouca mulher faz, por toda a carga negativa do ato e pelo medo de ser presa ou processada. Ele não a repeliu, pelo contrário, a acolheu, e pediu que explicasse o porquê da sua decisão. Ela disse que seu parceiro iria achar que ela era uma oportunista, por engravidar quando estavam juntos há pouco tempo; que os seus pais não iriam aceitar que ela tivesse um filho sem que estivesse casada e, assim sendo, não via outra alternativa. Ninguém ainda sabia da sua gravidez e ela, ao invés de pedir a uma conhecida onde havia a clínica de aborto mais próxima, ou qual o método abortivo mais eficiente, resolvera ir direto ao posto de saúde – talvez com medo do que poderia ocorrer com ela, ou por desinformação.

Meu amigo pediu para que ela voltasse para casa e esperasse a poeira baixar, que pensasse um pouco mais, analisasse melhor a conjuntura. Explicou que ainda havia tempo para realizar o aborto, caso ela realmente quisesse, e se fosse essa sua vontade, não poderia fazer ali, mas ele daria as sugestões e indicações para que fosse o menos traumático e o mais seguro possível – dentro das possibilidades de um aborto ilegal para uma mulher da periferia.

Ela voltou algumas vezes ao posto para conversar, pesar os vários aspectos em manter ou interromper a gravidez, até o dia em que foi para comunicar sua decisão e agradecer meu amigo e a enfermeira que também a assistiu pela atenção e sugestões: conversara com o parceiro, com os pais, e resolveu que dava, sim, para levar em frente a gravidez.

Isso ilustra um pouco a “carnificina” que o novo arauto do conservadorismo reacionário brasileiro, José Serra, anunciou no caso de vitória da infanticida Dilma Roussef.

Legalizar o aborto não significa “chega deita expele”. Significa que a mulher poderá ir ao posto de saúde sem medo de dizer que pretende fazer um aborto, ser acolhida por profissionais capacitados – enfermeiro, assistente social, psicólogo, médico –, que com ela pesarão e se certificarão da sua decisão, para só então chegar às vias de fato: extrair um punhado de células que nada são, ou começar com a assistência e os exames pré-natal necessários.


Campinas, 11 de outubro de 2010.