quarta-feira, 19 de junho de 2013

É mais do que vinte centavos – é menos do que contra tudo

Alguns elementos ajudam a explicar a perplexidade da Grande Imprensa para com os atos que agitam São Paulo há duas semanas e avançaram com força Brasil adentro esta semana. Um deles, muito comentado, é a falta de lideranças nos moldes típicos de sindicatos, partidos e organizações afins: os tais líderes do Movimento Passe Livre têm pouca ascendência sobre a massa que se reúnem ao seu chamado – resultado do angariamento de pessoas ter origem na internet e não fruto de um trabalho de longa data de “conscientização”. Um segundo é a ausência de bandeiras claras – demorou para os ideólogos da Grande Imprensa se darem conta de que vinte centavos não eram o motivo de juntar tanta gente. Soma-se a isso que outro fato incomum é seu caráter não-reativo. Nos últimos dez anos, desde a chegada do PT ao executivo federal e conseqüente desarticulação dos movimentos sociais organizados, o que se vê são movimentos reagindo a pautas postas desde cima, pelos governos de turno – as poucas exceções que lembro são alguns movimentos de minorias e os movimentos por moradia, apesar d'estes só terem conseguido visibilidade quando num momento de luta reativa, a desocupação de Pinheirinho, em janeiro de 2012.

Os tais vinte centavos foram tão-somente o estopim para uma insatisfação generalizada, que não possui foco claro – é uma insatisfação com a situação social do país. Os motivos (em um primeiro momento) são muitos, variados e até mesmo contraditórios. Isso não desmerece o movimento, pelo contrário. Pode prejudicá-lo, é certo: a massa de pessoas, não estando sob o cabresto de uma ou algumas lideranças, tão fácil se aglomerou, tão fácil pode se dispersar. Ou pior: pode achar quem dê as rédeas da situação. Por outro lado, a ausência de uma vocalização clara do que querem atrapalha os movimentos dos donos do poder: o que atender, com quem dialogar? (Com todos, como se vivêssemos literalmente em uma democracia?). Na década de 1960, Herbert Marcuse já levantava que uma das formas de enfraquecer movimentos reivindicatórios e a tomada de consciência era identificar problemas pontuais e saná-los (a genérica “insatisfação pelas condições de vida” viraria um problema de baixo salário ou de transporte público).

Na ausência de bandeiras definidas, a Grande Imprensa e os donos do poder vão tentando impôr as suas – aquelas cheias de boas intenções que servem para mudar absolutamente nada. É o que comenta com propriedade Paulo Motoryn: “a grande imprensa já está mobilizada para maquiar o movimento de acordo com um ideário conservador” [http://j.mp/15kmj30]. Apesar do estopim ser o reajuste nos transportes públicos, não é contra o aumento do custo de vida, como foi dito no Jornal Nacional. Não é contra a corrupção, como tentam definir e confinar os protestos, pois como Alex de Castro fala em seu artigo “O problema com o movimento anti-corrupção” [http://j.mp/11ZS6Zd]: existe alguém abertamente pró-corrupção? Se o motivo para tantos irem às ruas fosse esse moralismo rasteiro apregoado por Veja e seus novos (não tão novos) seguidores diários – Folha e Estadão –, desde o início da república não sairíamos dela. As reivindicações por migalhas, contra bodes expiatórios, até juntam algumas pessoas, mas não duzentas mil.

Se não consegue seqüestrar, esvazia-se. Se as reivindicações não viram à direita, que sejam todas, a ponto de não ser nenhuma. “Contra tudo”, como foi capa da Folha. O esvaziamento do discurso pode ser sentido em uma presença vazia de conteúdo nas manifestações: me chamou a atenção no ato de segunda uma foto publicada pela Folha, de uma família que fora até o largo da Batata “protestar” com um cartaz com dizeres algo como “filho, pai, avô presentes no ato”. No ato de terça, na Paulista, li alguns relatos no Fakebook (não estou em SP para acompanhar in loco) de que o protesto de tão pacífico se tornara uma micareta, praticamente um aquecimento pro jogo da canarinho na copa das confederações, com direito a ufanismo e ambulantes. Caras pintadas enrolados em bandeiras do Brasil são uma excrescência que logo deve ser alçada pela Grande Imprensa como a cara das manifestações.

A questão não é tirar essas pessoas dos atos, antes como fazer com que essa participação seja minimamente pensada e sentida como protesto. Com ou sem partidos, os atos motivados pelo Movimento Passe Livres são políticos, aberta e escancaradamente políticos. Retomar métodos da esquerda tradicional, como vejo em análises pela internet? Defendo antes a derrota do movimento do que seu retrocesso.

Chama a atenção que dos movimentos que chamei de não-reativos, ou seja, que conseguem impôr uma pauta de discussões e não seguir a ditada pelo governo, dois deles, o movimento por moradia e o passe livre, são movimentos urbanos – papel que durante a década de 1990 foi do MST. E é do passe livre que sai o estopim para esse levante que ainda deixa a todos perplexos.

Não acho que os manifestantes sejam incapazes de compreenderem a ligação dos problemas locais com questões globais – talvez preguiçosos, admito. Entretanto, grandes temas não conseguem mais mobilizar como faziam até meados do século passado. São problemas pontuais, ainda que longe de serem problemas menores, que abrem para uma questão mais ampla: a da cidade. Penso que talvez esteja aí uma das chaves para compreender esse movimento e possíveis desdobramentos na política institucional. Não chega a ser plausível, por ora, mas dá pra sonhar em ver políticos no cargo de prefeito não abandonando a prefeitura por cargos mais “nobres”, nas esferas estadual e federal: a política (em qualquer nível) como vocação e não como carreira e profissão.

*

Sobre os acontecimentos não-pacíficos das manifestações desta terça-feira. Eu comentava antes do ato de segunda que a briga era pela opinião pública. A pecha de vândalos e violentos migrou dos manifestantes para a polícia militar e o governador Geraldo Alckmin. Eu chutava que a tentativa seria taxar novamente os manifestantes de arruaceiros. Eu arriscava: “é bem provável que a ordem do governador Alckmin e seu secretário de segurança pública (sic), Fernando Grella Vieira, seja infiltrar mais homens do que geralmente ocorre. A solitária pedra que citei em outra crônica terá a companhia de outras, e pode ser o estopim para a polícia militar reprimir com 'rigor' manifestantes que nada tem a ver com policiais à paisana. Ou pode ser que a polícia não use de toda a violência do dia 13, apenas o suficiente para inflamar os ânimos amainados de alguns, e deixe o 'vandalismo' correr solto. Diga-se de passagem, os tais atos de 'vandalismo', supondo terem sido cometidos pelos manifestantes, são bem leves e ordeiros: barricadas com lixo são necessárias para atrapalhar o avanço da polícia, e a quebra de vidros é coisa pouca, perto do que uma multidão pode fazer. Mostra disso é o respeito às vacas sagradas brasileiras – os carros –, que seriam barricadas bem mais eficientes”.

Respeitaram o ato de segunda: talvez porque seria dar muito na cara infiltrar homens logo no primeiro ato após aquele que descortinou quem eram os violentos na história. Para a sexta manifestação, usaram um pouco de cada tática que levantei: alguns infiltrados para agitar alguns mais exaltados – sempre há – e a omissão da polícia militar para dar conta dessa meia dúzia. A completa ausência da polícia militar só pode ser ter sido deliberada – ou então é de uma incompetência que justificaria sua extinção até por aqueles que a defendem. De qualquer forma, a inação dos fardados não foi menos incompetente (mesmo para seus objetivos), e o recado que fica é que parece que a polícia militar só sabe agir com violência – do contrário, não age.

Os atos de vandalismos desta feita foram muito diferentes de todas as outras: nas demais aconteceram quando a manifestação estava em estágio mais avançado e, salvo na quinta, em reação à truculência da polícia militar. Os atos contra a prefeitura aconteceram logo no início, puxados por uma meia dúzia que se movia com desenvoltura e poderiam ter sido impedidos muito facilmente – se as forças de segurança não tivessem se omitido.

Os demais atos que se seguiram, nada mais que conseqüência do primeiro. Achar que a partir dali a polícia militar, o Estado, ou qual outro órgão da “ordem” que possa estar interessado em causar tumulto não esteve presente soa certa ingenuidade: conforme o portal Ig, no “minuto a minuto” das manifestações: “o prédio onde fica a agência bancária incendiada foi um antigo hotel. Nele há uma ocupação de sem-tetos. Aproximadamente 300 pessoas moram no local, mas não há informação de feridos”. Com centenas de agências bancárias pelo centro da cidade, os “vândalos” acertam de incendiar justo a de um prédio ocupado pelo movimento de luta por moradia? É um senso de coincidência muito grande por parte dessas pessoas!


PBco, 19 de junho de 2013.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

O que esperar do ato desta segunda, 17?

Os protestos de quinta-feira-13 e a forma como o Estado reagiu à manifestação até então pacífica puseram a disputa pelo espectador e a opinião pública no centro da manifestação desta segunda – tática levantada inteligentemente pelos manifestantes. Na manifestação do dia 13, a polícia militar, atendendo aos apelos da Grande Imprensa – vale lembrar os editoriais da Folha e do Estadão, para não citar a abjeta mídia televisiva – por mais “rigor” na repressão aos “baderneiros” conseguiu com isso reverter a opinião pública que, como praxe num país conservador e de forte raiz ditatorial como o Brasil, se punha contra os “arruaceiros” e a favor da polícia descer o cacete em todos aqueles “vagabundos”. Nesta segunda, a disputa será por colar a pecha de “vândalos” novamente naqueles que protestam.

Conforme a Grande Imprensa, a polícia militar não pretende utilizar o choque desta feita – que ficará de reserva, para qualquer eventualidade. Não ter o choque – tropa apta a “controlar” rebeliões em presídios, por exemplo – no trato com os manifestantes é positivo. Contudo, a falta de preparo da polícia militar em lidar com a população, com o povo, com manifestações, não torna o cenário muito tranqüilo.

Torço para estar errado, mas vejo grandes chances do protesto não ser tão pacífico como desejam os que dele participarão. E não falo por causa dos exaltados, que esses se controlam enquanto a multidão não é “provocada” por bombas de gás e balas de borracha. Como a briga é pela opinião pública, é bem provável que a ordem do governador Alckmin e seu secretário de segurança pública (sic), Fernando Grella Vieira, seja infiltrar mais homens do que geralmente ocorre. A solitária pedra que citei em outra crônica terá a companhia de outras, e pode ser o estopim para a polícia militar reprimir com “rigor” manifestantes que nada tem a ver com policiais à paisana. Ou pode ser que a polícia não use de toda a violência do dia 13, apenas o suficiente para inflamar os ânimos amainados de alguns, e deixe o “vandalismo” correr solto. Diga-se de passagem, os tais atos de “vandalismo”, supondo terem sido cometidos pelos manifestantes, são bem leves e ordeiros: barricadas com lixo são necessárias para atrapalhar o avanço da polícia, e a quebra de vidros é coisa pouca, perto do que uma multidão pode fazer. Mostra disso é o respeito às vacas sagradas brasileiras – os carros –, que seriam barricadas bem mais eficientes.

As sugestões dos manifestantes para que filmem os “exaltados” pode ser positiva, se depois for possível mostrar que se tratam de policiais militares – conseguir um IPM seria pedir demais e inócuo. Controlar os ânimos dos manifestantes de fato, isso parece difícil, mas não de todo impossível – a multidão é capaz de controlar os que a formam, quando ainda sob seu próprio controle.

Foi algo que discuti com amigos, ainda durante a manifestação do dia 13, com a avenida Paulista livre de carros e pessoas para o choque passar: tendo a polícia militar apelado para a violência, talvez seja o caso de apelar para a irreverência. Como os skatistas que vi arriscarem umas manobras nessa hora, na Paulista, ou como o magistral dançarino de “Stayin Alive”, no vídeo reproduzido no youtube. Independente disso, um grupo mostrou saber fazer uso do poder das imagens e tem feito “intervenções” capazes de rodar o mundo: os manifestantes com flores é uma delas, e a citação de Os fuzilamentos de 3 de maio, de Goya, não parece ser por acaso – penso que novas imagens do tipo podem surgir hoje, que esse pessoal é bom.

Pelas proporções que o ato promete tomar, é bem provável que os governos – municipal e estadual – cedam e revoguem o aumento da passagem ainda esta semana. Daí, inclusive, o "inusitado" apoio de formadores de opinião que até ontem eram contra os manifestantes e abusavam de adjetivos pejorativos para se referir a nós. É sabido que os protestos não são por vinte centavos – são por direitos, como gritam muitos cartazes, e são também por causa de qualquer insatisfação difusa. Se essa insatisfação for canalizada para outras bandeiras (que seja ainda na linha do transporte público, algo como “R$ 3,00 ainda é um roubo”), achar um novo estopim, pode ficar impossível controlar as séries de manifestações – mais fácil, então, ceder agora os vinte centavos, mesmo abrindo o “perigoso” precedente de que disputar o poder de fato com os políticos traz resultados. Estes atos, de qualquer forma, deixam no ar o risco de a Copa do Mundo ser realizada sob estado de sítio.

Havia terminado este texto quando vejo na internet a notícia de que entulho foi depositado no Largo da Batata, local da manifestação de hoje – santa coincidência! O Estado põe seus primeiros infiltrados.

São Paulo, 17 de junho de 2013.


sábado, 15 de junho de 2013

Premeditação na violência policial e quatro erros de avaliação dos donos do poder

Leio na Grande Imprensa que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, responsável último pelos atos da polícia militar sob suas ordens “afirmou que atos abusivos de policiais serão investigados. 'Não temos nenhum compromisso com o erro. A polícia tem uma corregedoria. Então será apurado qualquer abuso que tenha sido cometido. A polícia trabalha. Exceção, se houve um abuso isolado, isso vai ser rigorosamente apurado'”.

Sobre abuso das nossas polícias, isso merece um texto só para o tema. Qualquer investigação séria vai mostrar que não houve excesso dos abusos por parte da polícia militar paulista nas manifestações do dia 13 de junho – e não falo isso com ironia. O que houve de excepcional foi a aplicação no centro rico da cidade mais rica do país do mudos operandi que essa polícia utiliza nas franjas pobres da cidade – em Capão, em São Miguel, em outras regiões “esquecidas”. Foi a atuação banal e costumaz, feita em doses homeopáticas e diárias contra negros, pardos e pobres, concentrada em uma dose de choque contra a classe média branca. Nada de extraordinário, apenas a democratização da repressão.

A polícia militar, por mais que tente aparentar o contrário, não é burra. Toda as ações contra os manifestantes, no dia 13 de junho, dão a clara impressão de premeditação. O que parece ter havido por parte da cúpula da polícia militar e do governo foram alguns erros de avaliação na hora de montá-la.

Dizem as autoridades que havia um pacto com os manifestantes que foi desrespeitado. As autoridades sabem que há uma diferença grande entre esse tipo de movimento – quase espontâneo – e passeatas organizadas por sindicatos e outros órgãos para-estatais de controle da ordem. As tais lideranças o são porque haviam feito a chamada para o ato, não porque têm qualquer ascendência sobre supostos subordinados. Esse tipo de pacto, se feito, teve o único intuito de servir de álibi para a ação da polícia.

Polícia que demorou para agir, a crer na versão oficial – e não porque fosse possível qualquer negociação – já que os manifestantes não deveriam parar a Consolação. Como comentei no relato do que vi na manifestação [http://j.mp/cG19DMp]: eu estava na linha de frente quando o choque interveio. Antes dele, no máximo uma dúzia de policiais militares fazia a contenção, na altura da Consolação com a Maria Antônia e Caio Prado. Uma dúzia de policiais militares para fazer a contenção de milhares de manifestantes é uma provocação, é um convite a “passem por cima, por obséquio”. Aconteceu que os manifestantes não fizeram esse favor. Foram longos e tensos minutos em que os manifestantes ficaram parados, gritando “Vamos pra Paulista”, mas sem avançarem de fato. Mesmo sem justificativa, o choque resolveu agir – “ataque preventivo”, como poderiam justificar depois, com ajuda de Datenas da vida. Oficialmente, a ordem era impedir que bloqueassem a Paulista – e conseguiram: quem a bloqueou foi a polícia, como seguiam interditando o centro da cidade, mesmo com os manifestantes bem longe.

Pela violência inaugural da polícia militar, pode-se supor que o plano era não apenas dispersar os manifestantes, como esperava-se que boa parte deles desistisse e fosse embora – restando alguns mais “valentes” para tomar porrada sob a justificativa de vândalos. Realmente, ouvi algumas pessoas, logo que a polícia começou a vandalizar, que iriam embora. No Fakebook uma amiga se desculpava por ter feito o mesmo: justificou que temia pela sua segurança. A grande maioria, contudo, permaneceu. Primeiro erro de avaliação das autoridades.

Por falar em vândalos, um parágrafo à parte. Sempre foi essa a justificativa para deslegitimar todo o movimento. Do outro lado, tentava-se argumentar que era uma meia dúzia que se aproveitava. Até a intervenção da polícia, era impossível qualquer ato do tipo, porque quem ousasse vandalizar qualquer coisa, seria impedido pelos demais manifestantes. Depois da polícia agir... horas há que é necessário: queimar lixo no meio da rua vira necessidade: é tempo que se ganha para fugir da truculência. O grosso da “depredação” dos bens públicos e privados, contudo, não viria daí, e sim de vidros de estações e bancos quebrados. Começa que ação contra coisas é bem diferente do que contra pessoas – um vidro troca-se, um olho, não. E é de se questionar o quanto isso é feito por manifestantes mais exaltados. A polícia já havia avisado que poria policiais à paisana na manifestação – oficialmente para filmar e identificar esses “arruaceiros”. Contudo, quando filmam um policial fardado quebrando o vidro da própria viatura – não fosse a gravação e depois seria apresentada como outra prova do vandalismo que justificaria a ação violenta da polícia –, não é preciso nenhuma teoria conspiratória para saber que os policiais à paisana não estão para filmar, mas para exaltar ânimos, quebrar agências e estações – no mínimo metade é ação deles –, tacar a solitária pedra que vai justificar o avanço animalesco da polícia (este último exemplo não me refiro à manifestação do dia 13).

O terceiro erro de avaliação foi que a Grande Imprensa apoiaria a ação incondicionalmente – em editoriais, os mui democráticos Folha e Estadão já haviam pedido ações mais enérgicas contra os manifestantes. O problema é que a Grande Imprensa notou que não poderia distorcer os fatos o quanto precisaria, e que a população começava a formar uma opinião independente sobre as ações da polícia. A enquete no programa do Datena, perguntando se o espectador concordava com aquele tipo de protesto, e com ampla maioria do sim era uma mostra ao vivo disso (depois a pergunta foi alterada para “protesto com baderna”). Bater frontalmente com os espectadores seria admitir sua parcialidade, sua mentira – tiveram que recuar, em nome do que chamam de “credibilidade”. Segundo erro de avaliação foi da mídia, ao achar que o espectador seria refém da sua versão, custasse o que custasse.

A pancadaria democrática do início do protesto foi abusada até o final e depois dele. Como também comentei em meu relato, a Paulista já fluía normalmente e do outro lado da rua, vi três homens serem atacados por três bombas da polícia – qual a necessidade de dispersar uma “multidão” de três pessoas? O objetivo dos “excessos” mesmo sem a menor justificativa parece ser amedrontar os manifestantes para o próximo ato – não funcionou agora, mas no próximo... É esse o caso dos tiros em jornalistas, mais no fim do protesto. Segundo a jornalista da Folha – que tem a versão mais plausível – o policial mirou nela e atirou: estava num estacionamento, não havia manifestação, nem manifestante por perto. Curiosamente no olho – único lugar que uma bala de borracha pode causar um estrago mais grave à pessoa. Curiosamente, não houve manifestantes com esse azar, e sim profissionais da imprensa: um manifestante poderia ser justificado como “efeito colateral” dos confrontos, que não havia essa intenção, que tivera azar – e a versão da polícia militar e do Estado predominaria. Contra alguém da imprensa, a versão da polícia fica sob suspeição – inclusive porque o tiro foi dado quando o clima estava mais ameno, numa rua que em nenhum momento foi um dos principais campos de batalha. Foi, na verdade, um recado para os manifestantes que pretendem ir ao próximo ato, reforçado pelos discursos das autoridades, do governador Geraldo Alckmin, inclusive: quem aparecer segunda vai se machucar, vai perder o olho, vai estar com a vida em risco – afinal, “quem não reagiu está vivo”, e isso vale pra “bandido” quanto pra “baderneiro”.

Arrisco afirmar: esse é o quarto erro de avaliação das autoridades: segunda-feira poucos, pouquíssimos vão ficar em casa por medo do que aconteceu no dia 13.


São Paulo, 15 de junho de 2013.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

SP não pode parar? (apenas outro relato do dia 13/06)

Sete e dez da noite, mais ou menos. Uma mãe com uma criança de colo - um ano, se muito - sai do carro, na rua Caio Prado, e corre desesperada em direção à Augusta, em meio à fumaça. "Puta merda!, que idéia errada", penso na hora. A mulher nota isso antes de passar pelo primeiro carro atrás do dela, quando uma bomba estoura pouco metros na sua frente. A criança berra, a mãe consegue voltar pro carro antes do grosso da multidão começar a correr na direção contrária, por causa das bombas. Começava aí o tal vandalismo das manifestações em SP, que a Grande Imprensa e o Estado dizem ocorrer – até então a mulher estava há vários minutos presa no trânsito, em meio a baderneiros, arruaceiros e vândalos, e não se desesperara.

Eu chegara atrasado à manifestação. Seis e meia estava em frente ao Theatro Municipal. Havia quase um clima de virada cultural, o trânsito impedido, as pessoas ocupando a Xavier de Toledo - mas a utilizavam para ir e vir, não com rodas de samba. O viaduto do Chá estava fechado: manifestantes? Nem sinal deles: a polícia fizera dele uma base. Caminhei até a República, tranqüila, encontrei a manifestação quase em frente ao Copan. Corri para o início. Estava no cruzamento da Consolação com a rua Caio Prado. "Vamos pra Paulista!", era um dos gritos dos manifestantes, que não avançavam, impedidos por uma barreira de alguns poucos policiais militares. Não contei no relógio, mas depois que cheguei, a manifestação ficou bem uns cinco minutos parada num clima tenso de disputa de território. Passei por trás da barreira. Próximo ao canteiro central, observei e analisei a situação: aqueles poucos policiais militares segurando milhares de manifestantes, havia algo errado: logo ou chegaria reforço - vai que nossa polícia militar tinha sido minimamente inteligente e faria a contenção! -, ou aquilo era provocação e, diante da resposta não-violenta dos manifestantes, logo viria bomba. Fui ingênuo em achar que era a primeira opção e que a polícia militar direcionaria os manifestantes para a praça Roosevelt. Mas não fui tão ingênuo em acreditar tanto na minha ingenuidade e tratei de ver qual parecia a melhor rota de fuga: me pareceu a Caio Prado.

O clima era tenso, palavras de ordem eram gritadas, mas não havia - ali na linha de frente da manifestação - nenhuma afronta à polícia, além do "Vamos pra Paulista" que não se concretizava em ato. Isso até a primeira bomba - que, definitivamente, não foi disparada da população, e sim contra ela. Foi pouco depois que vi a cena da mãe desesperada com a criança de colo. "Não corre, não corre", alguns tentavam acalmar a turba que explodia por entre os carros, respeitando as vacas sagradas que entopem nossas ruas. "Vinagre aqui! Vinagre aqui!", alguns "terroristas" compartilhavam o antídoto para as bombas de gás lacrimogêneo da polícia. Eu tinha os olhos cheio de lágrimas, a garganta ardendo e o nariz escorrendo a ponto de achar que estava sangrando por causa do gás. As primeiras bombas causavam grande corre corre, a partir da quarta ou quinta, era apenas passar o estrondo para os manifestantes tentarem voltar à posição.

Nessa hora, uma amiga que dormiria em minha casa me ligou avisando que havia chegado mais cedo - duas horas - e me esperava no metrô. Fui encontrá-la no Anhangabaú. O barulho das bombas e a freqüência com que estouravam davam um ar de ano novo - minha amiga até brincou e cantarolou qualquer canção da época. O cheiro de vinagre estava no ar. No viaduto do chá - ainda interditado - o choque já havia saído. Fomo comer algo, aproveitei para beber um mate pra aliviar a ardência na garganta causada pelo gás. Na lanchonete, entraram três rapazes em trajes fora de época, um usava cartola, outro tinha uma bicicleta que devia ser antiga na época do meu avô. "Estamos num filme do Pasolini, é isso?", brincou minha amiga. Pouco depois passou um carro da Rota, atrás um militar branco, boina meio caída, o olhar vidrado. Minha amiga concordou que o soldado parecia soldado da SS. Uma das cenas tinha mais peso na realidade, era a segunda. Subimos por uma rua Augusta transformada em cenário de filme, com lixo e pequenas fogueiras em toda sua extensão até a Paulista, lojas fechadas. Carros da polícia militar e dos bombeiros (e até um carro da polícia civil) passavam em alta velocidade.

Na principal avenida da cidade, quem a bloqueava não eram os manifestantes, mas a própria polícia militar. Os focos de manifestação haviam sido dispersados. Tivemos que correr de algumas bombas de gás lacrimogêneo, até acabarmos na esquina da Bela Cintra com a Paulista - onde três pelotões da cavalaria montavam base. Eu me perguntava no que aquela manifestação uma hora antes, pouco mais, precisaria de cavalaria. Ainda havia fumaça das bombas quando notamos um homem sem uma perna. Andava calmamente com sua muleta e parou próximo a uma tropa que estava ali. Calmamente acendeu o cigarro, observou, analisou a situação. Havia mais policiais que manifestantes, mais curiosos do que policiais. Um policial militar tentava fazer os curiosos se dispersarem. Sem poder usar de bombas de gás, não tinha lá grande autoridade. O homem, depois de muita exortação, calmamente se retirou do meio da rua. Veio até nosso lado e ali ficamos, acompanhando à distância, as movimentações. Soubemos que havia um grupo maior na Angélica; vimos uma fogueira na Bela Cintra com a Luís Coelho. Ouvíamos o barulho de bombas vindo da direção da Augusta. Chegavam comentários sobre a jornalista da Folha. Ônibus do choque passavam. Um amigo voltou da Consolação. Lá, com o trânsito já fluindo, um grupo de quinze pessoas, se tanto, gritando "Sem violência" no canteiro central, havia sido dispersada pelos policiais com mais bombas. "Saíram correndo, no meio dos carros, não sei como não foram atropelados", comentou meu amigo. Só depois a polícia militar fechou a via para evitar maiores "efeitos colaterais".

Na Paulista, vejo um rapaz sendo abordado por, pelo menos, seis policiais. Achei que estava pichando uma agência bancária. Depois conversamos com ele: que pichação, que nada, apenas passava e acharam que tinha cara de suspeito. Diz que ficou chocado com a aula de reacionarismo dos policiais: "de que lado você está?", "vai dizer que não estamos fazendo o certo, que não estamos protegendo a sociedade?". Conceitos abstratos para agredir pessoas concretas.

No fim, a avenida já liberada dos "vândalos" a polícia militar resolveu, enfim, cessar suas manobras e liberá-la para o tráfego. Já passavam das dez e meia. Conversávamos com mais algumas pessoas na esquina quando escutamos três bombas e vimos três homens correndo. Ninguém pode dizer que nossa polícia não é democrática: uma bomba para cada um. E a truculência diária das periferias e locais ermos agora no centro da cidade, na "avenida mais rica do Brasil", ao vivo na TV.


São Paulo, 14 de junho de 2013.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Contra o que protestam em SP?

Na quinta-feira, seis de junho, passam por mim, na rua Augusta, nove da noite, muitas motos da polícia militar, quatro carros da força tática, dois do choque. Um tanto alheio ao Fakebook e noticiário, sabia da manifestação por ter ouvido, alguns minutos antes, a conversa entre dois policiais militares, na República. Ainda assim me admirei: tudo isso para uma manifestação? Depois ficaria sabendo que aquilo não era nada. Na terça, dia onze, oito horas da noite, na Paulista, trinta e quatro (dessa vez me dou ao trabalho de contar) motos da polícia militar passam, direção Consolação, zunindo como um enxame de abelhas. Pouco depois, trinta e quatro passam de volta, direção Paraíso – quero crer que as mesmas. Outras doze logo passam no mesmo sentido. Mais dois carros da força tática. Isso em menos de dez minutos. “Eles chegaram na Paulista, eles chegaram na Paulista”, avisa, alarmado, o dono da banca de jornais ao segurança do Conjunto Nacional. Em casa, vejo no noticiário que cerca de cem manifestantes haviam subido a Brigadeiro e tentavam impedir o trânsito na Paulista. Em meio às manifestações, duas pessoas são feridas por alguém que demonstra que um carro é também uma arma – além de boa parte dos problemas de mobilidade da cidade. Fugiu impune, e desconfio que muitos homens de bem comemoraram sua violência – porque queimar lixeiras e atrapalhar um trânsito é um exagero, ferir ou matar pessoas, conseqüência dos atos da vítima. “Quem não reagiu está vivo”. Vivo e sem hematomas – mas não parecem muito confortáveis nas suas vidas medíocres e vazias, vide o tanto se enraivecem por nada.

A Grande Imprensa faz sua parte: vende posicionamento travestido de notícia – vende ideologia como se fosse verdade, para usar termos mais à esquerda. Baderneiros, arruaceiros, vândalos. Quem muito precisa de adjetivos é porque tem algo a esconder da realidade, se apresentada crua à interpretação dos sujeitos – a liberdade é da imprensa, não do espectador, temido se puder pensar e criar seus próprios juízos (e deixar de ser mero espectador para se tornar sujeito ativo).

O motivo oficioso é o aumento de vinte centavos na passagem do transporte público. O Movimento Passe Livre reivindica além, o direito constitucional de ir e vir, negado (ou ao menos restringido) a quem não tem condições financeiras de bancar o lucro dos empresários do setor – há tempos costumo dizer que há dois modelos de transporte público no mundo: o que serve o público e o que se serve do público; o Brasil claramente segue o segundo.

Há, contudo, alguma outra questão de fundo, que não tem a ver com passagem de ônibus e metrô. Se fosse só isso, não há como negar um certo exagero dos manifestantes – ainda que fácil de compreender. Definitivamente, não é só isso. Se eram cem manifestantes subindo a Brigadeiro, havia no mínimo cinqüenta e quatro policiais – um para cada dois. Certamente já havia mais policiais lá, já que a Paulista estava tomada de militares. Vivemos em uma sociedade com direito ao voto. Daí para uma democracia, a distância é grande. Nossa representatividade é torta e pouco representativa; nossa polícia ainda é militar, nosso judiciário ainda é ineficiente, nossa imprensa age em conluio obsceno com os donos do poder – estatal e financeiro. Manifestações só são toleradas se dentro do Fakebook ou da cabine de voto. Quando afrontam de fato o poder – e quem domina a rua detém o poder, isso é sabido por todo governante –, há o aparato repressor e ideológico armado e pronto para atacar. E esse aparato é desproporcional, exagerado para uma democracia. A democracia pressupõe, exige a dissensão – negá-la como faz a Grande Imprensa, como faz o Estado, é negar a própria democracia.

Há algo além no grito desses manifestantes e na resposta violenta do Estado. Estamos numa situação social confortável, desemprego baixo, salários numa média boa para os padrões tupiniquins. Aqueles que estão protestando não se direcionam contra um bode-expiatório, eleito Judas da vez dos direitos humanos, como Malafaia ou Feliciano. Não reclamam de não terem emprego, como os Ni-Ni da Espanha. Não saqueiam lojas em busca de bens de consumo anunciados como as chaves da felicidade e negados a seguir, como em Londres. Não gritam contra um ditador, como nos países árabes – afinal, temos o sufrágio universal que garante o verniz democrático à nossa sociedade. Não é imitação do que está acontecendo no estrangeiro – sair de casa na chuva e no frio para apanhar da polícia militar não é a mesma coisa que ir passear no shopping; queimar ônibus não equivale a lutar boxe na academia. Não é reivindicação kitsch de uma aura libertária a la 1968, como em manifestações universitárias irrelevantes. Tampouco são organizados para desestabilizar a ordem: os manifestantes não são parte de um pretenso grupo bolchevique ou de criminosos, de modo que não faz sentido a presença exagerada da polícia militar. Ela serve como provocação – justo de quem deveria zelar pela ordem – e tem o efeito esperado: a reação inflamada de alguns manifestantes, que justificaria a pancadaria em todos.

O que os donos do poder defendem? Sabe-se lá quantos segredos de Estado não estão nas gavetas das empresas. É fácil, contudo, saber de quem se defendem.

O que os manifestantes reivindicam? Contra o que, contra quem gritam? Não me parece haver um único motivo – o que ouso afirmar é que não tem nada a ver com vinte centavos.

São Paulo 12 de junho de 2013.

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Passenger

Apresso o passo para atravessar a Paulista. No cruzamento com a Augusta, em frente ao Conjunto Nacional, uma mulher com um violão e vozeirão meio a la Aimee Mann faz uma versão mais lenta e sem firulas de “The Passenger”, do Iggy Pop. Algumas poucas pessoas assistem. Um casal se abraça. Uma mulher, jaqueta rosa sob a marquise de luzes amarelas, acende um cigarro. Páro na esquina, esperando, junto com outros transeuntes, o sinal para pedestres abrir. São nove horas da noite – faz frio em SP. Uma garota passa ágil por mim. Cabelo curto preto, blusa vermelha, calça preta, tênis – a vejo apenas de costas. Atravessa a rua como se o vermelho fosse para os carros. O asfalto está molhado, tem uma cor mais escura e reflete com um brilho fosco as luzes da cidade. Vejo algo da minha tristeza do momento nas marcas que, a cada passo seu, sobram no chão úmido – a perco de vista tão logo chega do outro lado. The bright and hollow sky. You know it looks so good tonight. I am the passenger. O homem verde indica que podemos cruzar a rua sem perigo e sem pressa. Relampeja. Me ponho a atravessar a Augusta – recolho minhas melancolias caídas na faixa de pedestres.

São Paulo, 29 de maio de 2013.

domingo, 26 de maio de 2013

A sombria cor-vazio do branco.

Foto de Luis Felipe Labaki [j.mp/10Ykne6]
Subindo as escadas, primeira porta à esquerda, entra-se em um grande salão, circular no extremo oposto. À direita da entrada, uma sala anexa, retangular, sem separação. Em todo ambiente, o chão é de cimento (reparo algumas manchas coloridas, ou ao menos que rompem com o monocórdio cinza), o teto é preto, as paredes, brancas. Não há janelas. As luzes do grande salão estão apagadas – apenas um abajur sobre um mesa, mais ou menos no centro. As da sala contígua estão acesas: luzes brancas em uma sala branca – e vazia. No salão há cadeiras, dispostas aleatoriamente quanto ao lugar e direção – mas tendendo para o centro, para o abajur. Há pessoas nesse salão, muitas – eu chutaria perto de cem. Estão em silêncio, o olhar perdido, sem saber para onde mirar. A maioria está sentada nas cadeiras. Há pessoas sentadas no chão – algumas deitadas. Outras poucas caminham – em geral logo páram e se sentam (ou deitam) novamente. Há músicas que ocupam todo o espaço – feitas para isso. É o concerto NME13, de música eletroacústica, em uma das salas de exposição do Instituto Tomie Ohtake. Um rapaz se levanta, transita pelo salão, adentra a sala adjacente, até então vazia. Ele vai até próximo da parede oposta, se senta defronte a ela, de costas para o salão. De onde o vejo, ele perde a sombra. A sala é branca, a luz é branca, a música que é executada no instante, “Cor”, de Clayton Mamedes, tem um clima sombrio. No salão, na penumbra, a música a transitar pelas caixas, preenchendo de diversas maneiras o espaço, o olhar faz as vezes geralmente reservada aos braços: o que fazer com eles? Não há instrumentista a executar a peça, não há vídeo a ilustrá-la, não há foco – a não ser o estático o abajur ao centro, a iluminar timidamente o computador e a mesa de som. Olhar para baixo, fechar os olhos? (São alguns dos momentos em que vi manchas coloridas). Pode-se flanar o olhar por entre os colegas de público, até se deparar com outra pessoa a fazer o mesmo e baixar os olhos, um pouco constrangido. O rapaz resolveu esse problema: pode olhar para frente, não se deparará com ninguém, com nada além do branco e da música sombria nomeada cor. Mas o que ele vê diante do branco? Lembro de uma tira do André Dahmer: um homem defronte um grande aparelho de tevê, comentando que algo está deixando sua alma pequena. Eu não conseguiria ter esse tipo de reflexão diante de um televisor.
Mas envolto por três paredes brancas, sentiria minha alma de que tamanho? O branco, tão vinculado à idéia de paz, de pureza cristã. O quanto não fujo do branco? Paz que pode ser a ausência de vida – a vida sempre tão conflitiva, não necessariamente uma guerra. Pureza que pode significar a falta de marcas, de sombras, da exata noção da profundidade, o raso. O vazio. Lembro da música do Marilyn Manson: um grande mundo branco, que suga nossas cores. Também poderia ser o inverso: um grande mundo colorido que mancha nossa brancura. Ou então apenas um mundo que não respeita nossas cores. As cores, elas vêm para preencher esse vazio ou disfarçá-lo? De início penso nas cores da publicidade, das cores que vazam brilhantes da tevê, e me parecem enganadoras. Mas e as cores sombrias da obra que escuto aquele momento? Por que só estas seriam as verdadeiras? A pop-art desbotada de Arthur Bispo do Rosário é colorida. A primeira obra do concerto, “Impulso e impacto n° 3”, de Caio Kenji, é colorida – colorida e sinestésica, a ponto de ver traços coloridos a la Malevich sendo desenhados pelo som no espaço escuro. Música para exposição. Cores, e não preto no branco. A publicidade engana e encobre? Até que ponto? E os pontos coloridos que resistem em meio ao cinza? E a flor de Drummond a desabrochar em meio à náusea? Mais tarde, durante a última peça da noite, “Pato Rei I”, de Tiago de Mello, eu andaria sozinho por aquele espaço branco. Algum pensamento sobre minha relação com o Outro brilharia e eu sentiria leve angústia, que me faria retornar logo ao breu. Estar diante do branco, revela ou apaga?

São Paulo, 26 de maio de 2013.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Sopa de feijão

No céu, a bela lua minguante cercada por nuvens que, como um véu, insinuam cobri-la sem terem capacidade para fazê-lo de fato. No meio do meu caminho, um Sesc. Freqüento eventualmente as atividades culturais do circuito Sesc – não que não sejam boas, me desagrada o seu clima excessivamente asséptico: empregados apagados como bons serviçais, ausência de pobres, pouco espaço para inesperados. Mas a comida é boa, mais saudável e mais barata que um qualquer-coisa no bar da esquina – e eu estava com fome. Opto por sopa – feijão com macarrão. Não está frio para sopa; não estou doente para sopa, porém gosto de sopa de feijão. Sento em uma mesa, a sopa demora – não esperava por essa espera toda, e ao invés de seguir com a leitura de Correio do tempo, do Benedetti, fico a observar as pessoas do local, em silêncio, porque não sou do tipo que consegue puxar papo. É um público um pouco diferente daquele que me deparo nas apresentações culturais: há mais idosos e famílias com filhos, menos jovens descolados. Na minha frente estão sentadas duas garotas – bonitinhas –, uma oriental e uma negra. Tento adivinhar suas idades, não consigo: vinte, vinte e cinco, trinta, trinta e pouco? São jovens, porém não adolescentes. Branquelo, creio que tenha me habituado a analisar os sulcos da idade com meu reflexo no espelho, com a imagem de meus pais – daí que orientais e negros acabem sempre me parecendo mais jovens. As duas moças conversam animadas, mas quando uma sai para ir ao banheiro, a outro logo confere o celular, como se estivesse a espera da mensagem salvadora. A oriental tem uma tatuagem no braço, a parte que dá para ver deixa a impressão de ser parecida com os primeiros rabiscos em camisetas que fiz. Uma senhora começa a gritar com um senhor, parece sério de início, logo noto que não é o caso, está indignada por ter chegado depois: “como você já está aqui, se eu saí antes”. Finalmente o sinal chama a minha senha. A sopa é de feijão carioca, para minha surpresa – quando faço, ou minha mãe faz, sempre é de feijão preto. Sem pré-julgar, tomo a primeira colherada. Nessa hora, sinto o gosto da noite na casa de meu avô: a toalha xadrez vermelha, o teto azul, as paredes com azulejos laranjas sustentadas pela folhinha do sagrado coração de jesus e por uma espécie de calendário permanente da Bayer, a caneca marrom para pôr a dentadura depois da sopa – a janta era invariavelmente sopa –, o tic-tac pesado do relógio, tudo isso iluminado por uma fraca luz amarela. Jogo um pedaço de torrada na sopa, ver como fica, e todo esse sabor de passado se quebra. A fila no caixa, o aviso sonoro da senha do pedidos, as pessoas que conversam ao meu redor: volto ao presente. Longe de São Paulo, a casa de meu avô deve estar agora povoada tão-somente de memórias – dentre elas, nossa risada cúmplice e sem maior motivo que uma troca de olhares em silêncio, na hora da sopa.

São Paulo, 15 de maio de 2013.

domingo, 5 de maio de 2013

No último trem ao voltar de Campinas

São Paulo, mon amour, pensei quando o ônibus chegou no terminal Tietê. Acho que já me declarei à cidade em crônica anterior. Essa sensação aumenta ainda mais ao voltar de Campinas – cidade que sinto como uma prisão, e que por dez anos abstrai para suportá-la. Como toda prisão – desconfio –, fiz meus amigos de cela, e este sábado na “Princesa do Oeste” revi duas das pessoas mais queridas que tenho na cidade. Os lugares não se encontram, constroem-se, disse Mia Couto. Concordo em partes: os lugares são construídos do nada, mas de uma configuração prévia que autoriza certas construções e limita outras. Para mim, Campinas se construiu como Ercília, do livro de Ítalo Calvino. Os fios das relações construindo as ruas pelas quais eu transitava e as paredes da casa que me abrigava. Porém, conforme muitos dos meus amigos foram levantando acampamento de lá, ela foi ficando mais limitada do que já era – minha Ercília exigia reconstrução diária dos seus laços. No breve trajeto pelo Cambuí e centro, até chegar na rodoviária, onze horas da noite, uma cidade que se nega a si como tal. É sábado mesmo? Um milhão de habitantes? Pato Branco, no seu interiorano hábito das pessoas irem para a avenida principal curtir a noite sem opções, se concentrando nos postos de gasolina, ainda lembra que é uma cidade, quase (quase!) dá para fazer um paralelo com a rua Augusta, em São Paulo. E Campinas? Pode ser desconhecimento meu, mas não sei de rua parecida. Na praça do Centro de Convivência Cultural, jovens de classe média se rebelam conformísticamente bebendo em trajes darks sob a vigilância de câmeras de segurança e da base da PM – podiam chamar aquela de base infanto-juvenil da PM. Na sua ânsia de progresso, Campinas deixou o que era para não se tornar nada – e nisso Pato Branco, deitando abaixo construções com alguma história para construção de torres classe média, acompanha a cidade paulista. Uma pena. Se tivesse se mantido como cidade-museu, estilo as cidades histórias de Minas, creio que hoje Campinas seria uma cidade mais interessante, quem sabe até convidativa – certamente mais bonita. (Pato Branco não chegaria a isso). Talvez minhas reclamações sobre Campinas e Pato Branco (na primeira vivi dez, na segunda, dezessete anos) sejam as mesmas que moradores antigos dirigem contra São Paulo, que diante das possibilidades abertas parece ter sempre optado pela pior (o site “Quando a cidade era mais gentil” dá uma boa mostra disso [j.mp/16cKaah]), até se tornar no mostrengo cosmopolita atual – que graças a skatistas, putas, alguma classe-média com boa vontade, e alguns poucos outros, resiste em ser um deserto de asfalto e concreto. É quase a mesma amargura de Trevisan com sua Curitiba perdida. No meio da tarde, enquanto esperava por um dos amigos, na praça do Centro de Convivência, um casal na minha frente namorava como se vivesse em cidade pequena, como se estivesse nas férias: calmamente, sem afobação, carícias entrecortadas de silêncio e olhares. Campinas merecia isso e não ruas em que carros passam apressados enquanto tiozões desfilam Ferraris (que eu imaginei de início ser um Miura; semana passada a confusão se deu com um Porshe placa preta na Augusta). Mas ela optou por ser um local de passagem, que demarca sua forte segregação social com avenidas túneis e rodovias. Chego em São Paulo a tempo de pegar o último metrô. É sábado, não está vazio, mas está silencioso. Num canto um homem parece voltar do trabalho, cabeça baixa, parece cansado. Ao seu lado, um casal gay tira fotos: um negro, outro branco e loiro, cada um com seu moicano. Um homem já começando a ficar grisalho, cabelo e barbas compridos, camisa verde-musgo, meio estilo hippie-limpo, tem o olhar perdido – fosse Campinas e seria o estereótipo de quem mora na Vila São João e toca numa banda de músicas folclóricas. Um rapaz com dois brincos (e provavelmente alguma tatuagem que não enxergo) mexe no celular. Um homem gordo e calvo tem um livro na mão e mexe no celular. Também mexe no celular uma moça com uma grande tatuagem no braço, que não consigo identificar. Uma mulher de vestido colorido em tom pastel – branco preto vermelho –, óculos, grandes orelhas e forte estrabismo olha irriquieta para os lados, mais ou menos como deve estar fazendo o branquelo alto magricelo que emana cheiro de café – além dos amigos, há um café e o preço da paçoquinha diet que considero pontos positivos de Campinas – e que faz anotações sobre as pessoas do vagão em um caderno. Embaixo da teletela do metrô, que a essa hora passa propaganda institucional, um outro rapaz gordo dorme esparramado – ele usa bermuda jeans. Perto dele, um casal descolado, uma bela morena (que mexe no celular) e um rapaz que me lembra quase um “Sérgio Malando cool” pelo estilo do boné – talvez eu esteja influenciado pela tenebrosa propaganda de refrigerante com o referido artista nas paredes do trem. Atrás desse casal, um outro – ao menos um par –, ele com roupa mais justa, ela, com roupa super curta. Dois homens conversam, tem-se a impressão que a noite caminha para o final para ambos, apenas esperando chegar em casa – diferentemente de quatro amigas, prontas para a balada. Trechos de Arcade Fire, François Breut e Interpol se revezam em minha mente. Me dou conta que a festa que fui em Campinas não tinha música – e não fez falta. Por um mês não quero sushi. Travestis fazem ponto perto do circuito de rua do Anhembi. Lembro com saudades dos bons tempos da categoria, em meados dos anos 90, Gugelmin, Moreno, Gil de Ferran, Zanardi, Montoya, Vasser – pois é, eu gosto de automobilismo. Sinto mais receio de andar à noite por Campinas do que no centro de São Paulo – nesta me sinto em casa e não tem porque temê-la, apesar de saber que sempre há riscos. Por falar em casa, ao chegar, vejo na internet que em Fukuoka faz sol.

São Paulo, 05 de maio de 2013.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Pressa e preconceitos (nova versão sobre a polêmica Thomas - paniquete)

Não é por causa da internet, vem de antes da pseudo-ágora virtual a necessidade comum de logo classificar para defender ou execrar. Com a internet, em que assuntos se tornam ultrapassados muito antes do soar da meia-noite e em que o senso-comum é tido como opinião, preconceitos e visões de mundo pré-determinadas se alastram como fogo em pólvora e ganham poder avassalador. Assisti ao episódio do programa Pânico em que ocorre a polêmica com o dramaturgo Gerald Thomas, crucificado em praça virtual por machismo. Fui um desses que o criticou [j.mp/cG14413g]. Não retiro tudo o que disse, mas me retifico.

Mantenho o que comentei sobre o texto em que se defende dos ataques: nele, Thomas, além de se mostrar inábil, proporcionou uma demonstração de machismo ilustrado, repetindo idéias precárias, como a de que mulher que se mostra é porque quer ser abusada ou de por serem amigos não há abuso. Menos mal que na sua precariedade argumentativa Thomas nos ofereceu essa demonstração de preconceitos que não são exclusividade dele. Fosse um pouco mais esperto, ele precisaria apenas narra a cena para explicar que as fotos dizem mais do que realmente houve.

Como já havia dito na outra crônica, Pânico já é violento. No episódio polêmico, colocaram a paniquete para estrear como repórter no programa, e ela faz bem feito a cena de repórter inexperiente e burra – pode ser que lhe falte o traquejo dos demais, porém são erros por demais grosseiros para alguém formado em jornalismo (segundo a Wikipedia) e que circula pela mídia há um bom tempo: não segura o microfone direito, deixa sobrar um silêncio chato, erra nomes, erra informações. É o lance do humor do programa, bem fraquinho, explorando ridículos e vexações.

Antes de chegar a Thomas, logo no início do quadro, a verdadeira cena de machismo por parte de um dos entrevistados: o presidente da Mangueira, Ivo Meirelles, tão logo encontra a paniquete, trata de abraçá-la e passar a mão – “ai, ai, esse presidente é danado”, diz a apresentadora em sua voz nasalada. Depois, nas entrevistas com “pessoas comuns”, nas ruas, o show de machismo para justificar a polêmica: homens defendendo o “metia a mão mesmo”: Thomas não teria feito nada diferente daquilo que os espectadores do programa fariam, logo, é legítimo (para constar, há opiniões contrárias também). Mesmo o doutor em psicologia posto pra falar sobre a polêmica dá a entender que o que o dramaturgo fez (dentro do contexto de que seria um abuso) foi compreensível, afinal, sabe como é, os instintos, e a ex-musa do Paraná Clube é gostosa mesmo...

À cena com Gerald Thomas, enfim. Os apresentadores do quadro se aproximam, Thomas reclama da presença: “já fizeram isso em São Paulo”, mas entra na brincadeira, finge bravo, querer esganar o apresentador. Dentro da ceninha, Thomas (autor, diretor e ator do Pânico) pede arrego, ajoelha, tenta abrir a braguilha do apresentador – “agora são vocês que estão em pânico?” –, depois tenta com a outra apresentadora, uma travesti. Já em pé, o apresentador pede ajuda ao dramaturgo, introduzindo a paniquete: “é a primeira vez dela aqui, como repórter”, ao que Thomas responde: “peraí, deixa eu ver o sexo real dela”. Está no contexto, estão falando em “primeira vez” e, como Thomas fala em entrevista no programa, tanto a travesti quanto a moça tem o sobrenome “balls” (o da paniquete é Bahls, mas a sonoridade é igual), dá mesmo para desconfiar que possa ser outra travesti – está atrasado quem acha que travesti é só aquela figura de traços grotescos facilmente identificável. Inclusive, o repórter do programa, ao notar certo exagero, tenta, mesmo que timidamente, deter o avanço do dramaturgo – diferentemente do que pré-julgou Nádia Lapa em seu texto, pelas fotos. A cena, portanto, em seu contexto, não me pareceu machista. Antes do assédio à paniquete, houve também com o homem e com a travesti, e não vi grita contra isso – dois pesos duas medidas?

Se reafirmo o texto de Thomas machista, e sua postura absolutamente conformista, diferentemente do que ele acha, preciso concordar com ele quando critica seus críticos: há uma forte dose de moralismo nisso. Moralismo e preconceito. Na ânsia de novos motivos para refazer uma crítica que é antes um papagaiar, atropela-se os fatos, o contexto, prega-se uma seriedade absurda – esse politicamente correto de ressentidos, que tem dificuldade em lidar com o que escapa dos delimitados e que se desconcerta quando se foge da seriedade por ele pregado. Ratifico que essa polêmica toda abre a possibilidade de uma discussão mais aprofundada sobre o machismo em suas filigranas, para além da violência explícita. Porém, também defendo deveríamos aproveitar a oportunidade para repensar esse policiamento apressado em defender seus pré-conceitos: no fim, esse tipo de atitude apenas dá razão para “pensadores” como Pondé, Jabor e outros desse quilate desacreditarem aqueles que se põem críticos do status quo.

São Paulo, 18 de abril de 2013.

domingo, 14 de abril de 2013

Não foi crítica, foi demonstração (sobre o episódio Gerald Thomas - paniquete)

Amiga minha havia comentado da cena de Gerald Thomas avançando sobre uma paniquete. Sem ver as imagens, achei que pudesse ser algum caso de exagero ou da imprensa ou das feministas acadêmicas de plantão – que sabem da “experiência da violência contra a mulher” mais por teoria do que por serem mulheres, e acham que uma passada de mão na bunda praticamente equivale a um estupro, como tive de ouvir mais de uma vez. Ao ver as fotos, achei o episódio bastante agressivo – e ouso dizer, feliz.

Com algum esforço, dá para entender o que Thomas gostaria de criticar – com a atitude e seu texto posterior. A forma como o fez, contudo, além de ser exatamente o que se esperava dele, serviu para escancarar um pensamento comum e bastante precário. Ando um tanto averso à internet, de modo que não li quase nada sobre o ocorrido, por isso pode ser que eu não saia do senso comum, que não vá além do que já foi dito sobre o assunto. O que li foram os dois textos publicados na página da Carta Capital [j.mp/ZuVbLf]: o do próprio Thomas e o de Nádia Lapa. O texto de Gerald é uma tentativa de explicar o que deveria ser motivo para uma profunda auto-reflexão. O de Nádia traz pontos interessantes, mas que perdem por falta de uma compreensão um pouco mais ampla do contexto e por uma visão bem simplista de relações humanas: parte-se do pressuposto da racionalidade do homo oeconomicus, a pessoa com seus desejos claros e transparentes, unidirecionalidade nas suas condutas, sempre expressas em contratos explícitos – mas não é isso que pretendo discutir, o texto de Lapa, antes a atitude de Thomas.

Thomas tenta justificar que estavam dentro da classe artística – tudo o que ele fez ali seria, se não aceito, tolerado, afinal, são colegas de classe e amigos –, e seu ato não seria mais que reverter o jogo de constrangimento que o programa Pânico impõe às suas vítimas, ao mesmo tempo que revelaria o papel de mulher-objeto protagonizado pela paniquete. Acontece que sua atitude foi uma baita publicidade para o programa – o que eles justamente buscam. Ele não inverteu o jogo, ele jogou o jogo da forma mais quadrada possível. Isso, penso eu, explica em parte o porquê ninguém fez nada, como alerta Lapa: o programa é muito violento, uma violência a mais, que diferença faz? Ademais, estavam às claras, sendo filmados: era de se imaginar que o dramaturgo não iria muito além do que foi – sem contar que até hoje não me consta que ele seja um estuprador (no sentido antigo do termo, já que agora qualquer desrespeito físico contra a mulher é estupro). O questionamento levantado por Lapa, de que “se a agressão tivesse sido com uma atriz considerada recatada" seria aceito com a mesma normalidade, tem uma óbvia resposta negativa por um óbvio motivo: a paniquete estava interpretando um certo papel-social, o de mulher-objeto em um apelativo programa de televisão – o que uma "atriz considerada recatada" não faria. Uma mulher é, antes de qualquer papel social, uma pessoa, e merece respeito só por isso (como Gerald Thomas também merece, ainda que uma violência não justifique a outra), porém não há essa pura abstração de mulher-em-si numa situação desprovida de qualquer contexto – neste caso, temos o de violência masculina como a da imprensa espetacular.

O fracasso da pretensa crítica à imprensa de Thomas vira precariedade de raciocínio quando ele tenta argumentar que seu ato seria de aversão à mulher-objeto: há formas e formas de mostrar essa condição. Dou aqui meu exemplo, num outro contexto, bem mais tranqüilo que um programa de tevê, e por isso mais sutil: o leitor mais atento, a leitora mais detalhista devem ter notado que citei algumas vezes a paniquete sem ter dito seu nome. A paniquete continuará sem nome nesta crônica, uma vez que salvo em situações imprescindíveis (como contrapôr extremos de riqueza e pobreza de São Paulo), evito falar o nome de objetos, produtos, em meus textos: que se chame Maria ou Josefa, o que importa para o programa é que seja gostosa. Agir como o machista típico costuma agir diante de uma mulher-objeto está se mostrando útil para abrir o debate (como o pastor Feliciano está sendo útil para a questão homoafetiva desde que assumiu a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados), porém está longe de ser uma crítica, ainda mais quando Thomas justifica a violência pelo fato da paniquete estar “(praticamente) [de] bunda de fora, salto alto de “fuck me”, seios a mostra". Já fui execrado por uma feminista por ter dito isto, mas uma mulher com vestido mini, decote master e "salto alto de 'fuck me'" está realmente pedindo... pra ser vista – ouso dizer que esteja querendo também ser assediada, ainda que não afirme tão peremptoriamente. E quando me deparo com uma mulher assim, eu reparo mesmo. Discretamente, porque sou alguém educado; sem falar grosserias, porque não acho que seja puta por causa da roupa, nem que chamá-la assim seja uma abordagem muito frutífera; sem passar a mão, porque não tenho esse direito; e caso esteja com algum amigo ou amiga que tenha o mesmo gosto que eu, chego a fazer algum comentário "machista", como "é gostosa, mas essa paniquete exagerou no silicone". A mulher pode estar só com calor, como contra-argumentou minha interlocutora, isso pouco me importa: não estou agredindo fisica ou verbalmente, não vou fazer avaliação de intenções do Outro para saber se ela queria ser olhada ou não. Assim como quando estou com calor e tiro a camisa, não vou poder ficar incomodado com pessoas se admirando com minha magreza – seja porque achem bonita ou feita.

Outra coisa que me chamou muito a atenção no texto de Thomas sobre o episódio foi a justificativa de que, por serem amigos – ele e o pessoal do Pânico –, sua atitude não teria problema. É a demonstração de uma noção de violência e de estupro (no sentido antigo, porque no atual, se eu fosse mulher, já teria sido estuprado quatro vezes, no mínimo) muito estreita (e, pior, muito comum): não é raro casos de violência sexual entre amigos e colegas de trabalho ou faculdade. Há um tempo teve repercussão o de uma estudante de direito, estagiária do escritório de advocacia Machado, Meyer, Sendacz e Opice Advogados, que se matou tempos depois de ter sido estuprada por um colega do emprego [j.mp/11dZHlg]. Ouvi uma vez no bandejão da Unicamp amigos repreendendo (de leve) um colega, porque havia embebedado uma amiga para que "consentisse" fazer sexo anal. Inclusive uma frase me marcou nessa conversa: "com puta tudo bem, com amiga é sacanagem", numa mostra de que o estupro em si não seria um ato condenável, porque mulher-objeto é pra ser usada, independente do que ela quer ou aceita. Esse tipo de estupro, cometido por um conhecido, lembro ter lido há muito tempo uma reportagem, é o mais comum e o menos denunciado: vira um caso de "sacanagem", motivo pra rompimento de relação, uma vergonha para a mulher, que não dá ao ato a dimensão que ele realmente tem – caso de polícia.

Como disse, o episódio grotesco de Gerald Thomas e a paniquete abre a feliz oportunidade de tratar para além de círculos estreitos a questão da violência sexual contra a mulher, os preconceitos na sociedade, mesmo entre pessoas tidas por esclarecidas. Se isso será levado na base do “ativismo de reação”, se centrando nos casos e personagens; se resultará num debate mais consistente, como no caso da homoafetividade; se será seqüestrado pelo feminismo acadêmico e seus jargões para convertidas, ainda está em aberto. De minha parte, torço pelo segundo caminho, uma movimentação que aborde e ataque o problema sem discursos prontos e foco em inimigos e palavras de ódio: não é um caso isolado, não é uma questão de bem contra o mal, de achar inimigos: é uma questão social mais do que de gênero, uma questão de respeito, de dignidade, de relação com o Outro, de vida em sociedade.


São Paulo, 14 de abril de 2013.

sábado, 13 de abril de 2013

Depois da festa, os corvos.

Nada contra corvos, urubus e aves do gênero. Reconheço que não acho dos pássaros mais bonitos, nem acharia muito interessante se tivesse um exemplar desses em meu quintal – prefiro as curucacas ou maritacas, a depender de que casa falo –, mas são aves que simpatizo. Feito o parênteses introdutório de desculpas, ao texto.

Em meus anos nos bancos de universidade, descobri que honestidade intelectual não é algo lá muito valorizado na academia – ou melhor, todo mundo fala bem, mas nem todos praticam. Quero acreditar que poucos, muito poucos agem de má-fé, e que eventuais lapsos são, antes, aquilo que Freud chamou de ato falho.

Amiga minha me avisou que o pesquisador da USP Silvio Carneiro havia redigido uma resposta pro meu texto “A alta intelectualidade contra o baixo centro”. Entrei no blog, dei um control F, digitei Daniel, não apareceu nada: se confundiu, avisei. Ela insistiu. Tem meu nome, meu blogue, referência ao meu texto? Não. Então não é pra mim. Ela insistiu de novo: é. Ok, fui ver o que o camarada tinha a dizer. Pode não ter sido uma resposta ao meu texto, e sim a um outro texto qualquer (que ele não apresenta), afinal, era bem visível seu convite à inação contemplativa-revolucionária que critiquei.

Achei que cabia uma nova resposta não tanto por o que ele escreve, mas porque em minha crítica ao artigo anterior do Carneiro, havia dito que seu “texto é um belo exemplo do cacoete dessa esquerda parasita de bancos acadêmicos, precária de pensamento”, e noto que não disse outra característica importante: é uma nata acadêmica a quem falta auto-análise e auto-crítica. Faltou também ele levar menos para o lado pessoal – reconheço que meu texto era um tanto agressivo, o que dificulta um distanciamento.

O “novo” artigo, “Depois da festa, os despojos” [http://j.mp/XJkgb4], tem duas partes: na primeira Carneiro se explica, na segunda, se justifica. A primeira serve para ele deixar clara sua erudição aos apedeutas ranzinzas. A segunda, para dizer que ele não é um apático pesquisador revolucionário de gabinete.

Não sei, reconheço que está divertido pegar o exemplo de um pesquisador de uma sigla cheia de letras, que se diz revolucionário, pra mostrar suas contradições. Mas que dá uma preguiça, dá. Se eu tivesse me proposto a ajudar na organização do Festival Baixo Centro – ou qualquer coisa útil – não estaria perdendo tempo com isto. Por falar em Baixo Centro, deixo claro: se no texto anterior falei do festival, de universidade pública e esquerda-intelectual-status-quo, neste falo só dos dois últimos: o Baixo Centro, apesar da torcida contra, conseguiu os fundos necessários para acontecer e está acontecendo, abrindo as possibilidades que comentei – resta saber como serão aproveitadas. Eu e Carneiro estamos aproveitando pra treinar nossa retórica de quem se diz crítico e babar nossa erudição feita de palavras-chaves.

A crítica pela crítica. Diretamente da sua comuna auto-sustentável (onde os integrantes não tocam em dinheiro), Carneiro fetichiza sua inteligência e erudição, “pois o fetiche remete a isto: não importa onde se dê, sequer com quem esteja se relacionando, o fetichista procura seu prazer na construção de um cenário”. O cenário que ele busca é aquele que ele lê, para poder ajustar a realidade à sua visão, e se pôr como ator político esclarecido – dono de uma contemplação iluminada. O autor, tudo indica, queria ver no Festival Baixo Centro a aplicação prática das teorias e críticas do seu grupo de vanguarda. Mas eles não seguem a verdade e isso o frustra. Carneiro vai pondo palavras nas bocas dos organizadores, numa interpretação do que foi dito bastante contestável, ainda mais pelos textos que ele indica (pode ser que ele oculte parte das suas fontes, vai saber, pode ter coisas que ele não consegue rebater). Por mais que não seja o foco, a atual onda de repressões não foram ignoradas no texto de Gabriela Leite. Onde ele viu toda essa rejeição à burocracia cultural? No fato de não pedirem autorização pra ir pras ruas nem se utilizarem da reserva técnica da Fapesp? A ausência de uma tutela incomoda sobremaneira o pesquisador: parece que ele só conhece a autonomia pela hierarquia.

Na parte em que se justifica, Carneiro se lembra que faz parte de outro grupo que o Zagaia – do qual sigo com a impressão de que é uma Negação da Negação soft e sem aquela boa revista que o MNN edita –, e é mais do que um pesquisador de um lugar cheio de letras da USP: também faz parte do Cordão da Mentira, o qual faz O evento verdadeiramente transgressor – a carnavalização em bares pra esquerdistas. Não deixa de ter graça ele precisar se explicar, e não deixa de ser amostra do quanto eles promovem ações relevantes e significativas fora do círculo dos próximos e iniciados. Enfim. A seguir, ele se esconde ao encadear uma lista de movimentos dos quais seriam parceiros. Ter grupos que apóiam é ótimo, melhor do que um aglomerado de pessoas tão-somente (o que, segundo ele, é o que acontece com o Baixo Centro). Mas no que esses grupos estão livres do fetichismo (que ele insiste em identificar rasteiramente com dinheiro) que acomete os organizadores do Festival Baixo Centro? Seriam pessoas abnegadas de qualquer conforto material que fazem fotossíntese? E como explicar bares revolucionários que cobram R$ 8,00 a garrafa de cerveja de multinacional que patrocina a escrete canarinho? Não explicou como financia os sambas em bar bacana de bairro de pessoas bacanas, onde desdentado não só não entra, como nem passa em frente. Isso para não dizer no que haveria de essencialmente diferente da sua festa pra do Baixo Centro – além de meia dúzia de pessoas iluminadas ou de uma pequena massa que aprova bovinamente as palavras da vanguarda

No fim, ele ainda precisa se explicar do porquê exercer “atividade de pesquisa”: “para entender as contradições de seu tempo”. Poderia começar por entender as suas próprias e do seu meio (aproveita que estuda psicanálise e procura um): afinal, fetichismo também não é dar vida a objetos inanimados? Por que Caneiro precisa se sustentar no fato de ser pesquisador do LATESFIP-USP para dar legitimidade ao que fala, isso numa sociedade que despreza conhecimentos não livrescos (vide o preconceito com o ex-presidente Lula)? É essa a contestação que ele faz, do alto da sua hierarquia? (não tão alta). Esse batido fetichismo acadêmico, que acha que títulos e participação em congressos são sinônimos de conhecimentos. Por que críticas incomodam – ainda mais de alguém que nem é pesquisador de porcaria alguma – tanto a ponto de ele não as pôr, só a responder, numa apresentação unilateral? Por que precisa pôr tão explicitamente que pesquisa é “atividade”? Não lembro de vendedor dizer: faço atividade de vendas: é óbvio que este faz uma atividade. E por que a prática não pode se tornar práxis sem as luzes dos doutos do marxismo? Que seja mais difícil, isso quer dizer impossível? Por que – além de por preconceito – achar que não é possível contestação num festival aberto como o Baixo Centro? Não sei se é do festival, mas não estava lá há duas semanas: embaixo do minhocão há um cartaz cobrando memória, com o nome de cinco (não lembro agora) desaparecidos políticos durante a ditadura militar. E se a academia e sua esquerda são tão eficientes, por que a USP se fecha cada vez mais pra sociedade? Por que ela se perde em patéticas discussões sobre polícia ou não polícia (patética pela forma que é posta)? Por que sua utilidade, aos olhos da maior parte da população, não vai além do HC?

Eu sigo achando que o mundo é mais vasto que a academia, mais complexo que uma teoria engessada e mal-digerida por seus seguidores, e que ações que rompem com a inércia e abrem possibilidades, mesmo que tais possibilidades não se concretizem, são melhores que disputas de ego em textos que querem apenas manter tudo como está – apesar de seus autores dizerem que são contra.



São Paulo, 13 de abril de 2013.

Daniel Gorte-Dalmoro, além da Casuística [www.casuistica.tk] e do MAP, PEPMA, PQPPFFC, ETZN, mIRC, ICQ, MSN e Facebook, não se lembrou de nenhum outro grupo do qual participou. Exerce a atividade de bon vivant por achar que se tem a oportunidade deve bem aproveitá-la. E segue freqüentando o Baixo Centro, mesmo fora do festival.