quarta-feira, 3 de abril de 2013

A alta intelectualidade contra o baixo centro

(resposta ao texto “BaixoCentro: uma festa e nada mais”)
I'm only happy when it rains
I feel good when things are going wrong”
Garbage


Duas coisas que sempre me causam admiração em um certo pensamento da esquerda acadêmica brasileira: sua lógica binária e a capacidade preditiva da sua razão. Tais pensadores são capazes de dizer com uma certeza embasbacante se algo é bom ou ruim, se vai dar certo ou não, se é de esquerda ou não, antes mesmo de acontecer – não importa o que. Se não usam métodos econométricos, é por mera falta de familiaridade com eles. É certo que eles têm sido um pouco mais nuançados, talvez fruto da insistência nas leituras de Marx e marxistas, e até admitem que pode haver algo além de esquerda e direita: uma pretensa legião da boa vontade de aspirações esquerdistas, obnubilada pela reificação do capital e acometida do mal da falsa consciência.

Comento aqui o texto do pesquisador do LATESFIP-USP (Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da Universidade de São Paulo, USP) e membro do Coletivo Zagaia, Silvio Carneiro, sobre o Festival BaixoCentro [j.mp/fBCz12]. O texto é um belo exemplo do cacoete dessa esquerda parasita de bancos acadêmicos, precária de pensamento – fruto, em boa medida, da ausência de interlocutores minimamente dignos na direita –, que vocifera contra o capital (e contra o pai), mas no fundo está satisfeita com sua situação, a ponto de não coadunar com mudanças parciais, em nome da pureza revolucionária: só aceitam alteração no seu status quo quando a revolução chegar – muito cômodo para quem come e bebe bem.

Sustentado por seus anos de estudo e pesquisa, Carneiro (será que devo chamá-lo de doutor Carneiro?) desfila toda sua erudição livresco-revolucionária não apenas para criticar o Festival BaixoCentro – que merece, sim, muitas e pesadas críticas –, mas para desqualificá-lo e desmerecer aqueles que se engajam na sua organização.

Ele começa sua crítica ao festival recorrendo ao conceito de fetichismo: o Festival BaixoCentro, no texto de convocatória de Gabriela Leite, se apresentaria como um espaço livre de relações fetichizadas. Não sei se é exatamente isso que ela quis dizer, mas com um pouco de boa vontade e contorcionismo intelectual, conseguimos acompanhar os malabarismos retóricos de Carneiro para encaixar o mundo na “sua” teoria.

O ponto que deixaria descarado o fetichismo da mercadoria no evento seria o uso de dinheiro para financiá-lo – o mecanismo do crowdfunding seria apenas um novo disfarce para “toda merda da mercadoria”. Pode até ser, realmente o Festival BaixoCentro não me pareceu em nenhum lugar ter como objetivo ao término do evento o fim da mercadoria. Entretanto, o destaque para o financiamento individual, sem apoio de ONGs ou empresas ou leis de incentivo ou reservas técnicas, talvez seja para deixar claro que não há um direcionamento externo, um balizador explícito de até onde podem ir as atividades e as críticas do evento. A principal fonte de restrição seria a “consciência reificada” de seus participantes, ignorantes que não conhecem a verdade, pois não decoraram Marx, Gramsci, Lênin, Lukács, Debord, Mumford, Castells, Jacobs; para quem adorno é aquilo com que se enfeita o corpo (como os índios fazem), e não a prateleira (como fazem os intelectuais). Não creio que seja má-vontade dessas pessoas, antes falta dessa predisposição para passar horas em leituras e seminários enfadonhos e estéreis. Será que não estariam dispostos a conversar? (Conversar! não ter uma aula ou palestra). Carneiro não sugere nada no lugar do crowdfunding para levantar o dinheiro necessário. Saques e expropriações forçadas da propriedade capitalista? Assaltos a bancos? Bolsa Fapesp e reserva técnica? (Mas quantos atenderiam as exigências tecnocráticas da fundação?) Salários pagos pelo Estado (porque, afinal, capitalismo de Estado não segue a lógica do capital)? Ou será que ele crê que o amor pela revolução já é suficiente para realizar um festival? Se é assim, por que o Zagaia nunca fez nada parecido? Samba em barzinho na Vila Madalena parece estar um tanto aquém do Festival BaixoCentro.

A segunda parte da crítica é à falta de objetivos claros e específicos do Festival BaixoCentro, sua proposta aberta e permissiva. O Festival, pelo que entendi (não sou nem conheço ninguém da organização, acompanho das redes sociais, tão-somente), se propõe a ser um espaço de encontro, diálogo e trocas; e não um serviço de alistamento de revolucionários bovinos a serviço de uma vanguarda esclarecida (afinal, são da USP), e isso parece inadmissível para nosso revolucionário de gabinete: tanto esforço para nada? (Lembre-se, o pensamento binário). Uma ocupação colonialista que não é para os propósitos da revolução (porque aí colonização vira libertação). Ele chega até a fazer uma extemporânea e descabida referência ao MST.

Discordo dos motivos, mas concordo com a crítica de Carneiro sobre a visão dos organizadores sobre o local, no seu quotidiano. A impressão que se tem é que eles só conhecem o baixo centro das notícias da imprensa: têm uma visão preconceituosa, abstrata. Parece que falta percorrerem, em diversos horários do dia e da noite, as ruas da região. Para muita gente, o baixo centro não é um local de passagem; o baixo centro não é só concreto e asfalto: é uma região rica. Se não rica de dinheiro, rica de tipos, de culturas, de vivências, de “mundão”. E essa riqueza se dá justo pela diversidade das pessoas, de classes, de etnias, de renda que freqüentam o lugar – é uma região bem mais rica que o conjunto de baladinhas assépticas da Vila Madalena, em que se depara com um público uniforme. Aumentar ainda mais a diversidade do centro deveria ser objetivo de qualquer pensador de esquerda, libertário ou democrático, apenas. Se os organizadores ainda não se deram conta disso, nada faz crer que estejam fechados a esse tipo de crítica, de diálogo. Então por que não chamá-los para discutir juntos a região, enquanto flanam pelas “feiras” da avenida São João, pelos nóias da rua do Boticário, pelos inferninhos da rua Aurora, pelos flertes gays da avenida Dr. Vieira de Carvalho, pelas travestis da rua Rego Freitas, pela babel da avenida Rio Branco? Por que essa região deveria seguir interdita para os manos do Grajaú, os playboys de Tatuapé, os alternativos da Augusta, os intelectuais da Vila Madalena, os engravatados que trabalham no local durante o dia?

Chamar para o diálogo? O texto de Carneiro – e todo o histórico das nossas elites intelectuais – deixa em dúvida se sabe fazer isso: dialogar não é pegar pelo braço e falar: é assim que se faz, da minha forma é a certa. É fazer críticas, observações, propostas e aceitar que o outro, mesmo sem ser doutor, pesquisador, mestre, bacharel, possa ser sujeito dotado de vontade e discernimento para aceitar ou recusar o que fala alguém cheio de títulos – e mais, é ouvir esse outro “ignorante” e saber que há o que aprender com ele, que se pode concordar ou discordar dele. Dialogar, verbo reflexivo: só se dialoga quando ambos estão dispostos a mudar suas convicções, suas posições – fora disso é debate, é mesa redonda, é colóquio, é palestra, é aula, é a academia.

Carneiro não quer o diálogo, o que ele quer então? A inação, a contemplação amarga do que há – que satisfaz o ego dos teóricos críticos, por serem capazes de verem a realidade para além do véu do fetichismo e da falsa consciência. Se for imprescindível a ação, monta-se uma mesa redonda em desagravo ou apoio, organiza-se um colóquio, escreve (mais) um texto; se não, deixar tudo como está, para ver se piora, para ver se acontece algo – aquilo que o grosso de nossa esquerda acadêmica há tanto tempo propõe. Pequenas mudanças não os interessam e as grandes eles não são capazes.

O Festival BaixoCentro pode ser reificado, fetichizado, pode não questionar a essência do capital, pode não propôr a revolução, pode ser falha ao esquecer das “populações autóctones”, ao se centrar na oferta de produtos culturais; mas ele tenta fazer algo, tenta sair dessa inação necrófila, dessa contemplação desesperançosa. Ele tateia perguntas, ele ensaia saídas, ele abre a possibilidade de mudanças – que a academia, ressentida e rancorosa, tenta sufocar. De minha parte, ao invés de me vangloriar da certeza do fracasso, eu prefiro arriscar a errar. Ao invés da amargura passiva que só aceita que se seja feliz depois da revolução, prefiro protestar contra o capital “com o amor erótico presente em ações lúdicas, estéticas e simbólicas”. Sou a favor das experimentações que abrem o devir para inesperados!


São Paulo, 03 de abril de 2013.

Daniel Gorte-Dalmoro nunca fez nada de útil ou que presta. O mais perto que chegou disso é ser agitador e editor de uma revista eletrônica de “artes antiartes heterodoxias”, a Casuística [www.casuistica.tk]. Já foi membro do MAP, PEPMA, PQPPFFC, ETZN, mIRC, ICQ, MSN e Facebook. Tem um blogue [www.comportamentogeral.blogspot.com] e pros seus pais e na bilheteria dos cinemas diz que é estudante.


ps: não conheço, não faço idéia de quem seja a pessoa Silvio Carneiro. Estou aqui numa discussão entre atores políticos.

ps2: esta resposta só foi publicado hoje, dia 03 de abril porque tomei conhecimento dele ontem.

ps3: Antes de acharem que o texto do Carneiro puxa uma discussão sobre a ocupação dos espaços públicos, vale lembrar que ele, na verdade, continua: quem inicia o debate, através da ação, é o BaixoCentro.


segunda-feira, 1 de abril de 2013

Quando recordar é morrer.

Meus pais não me ensinaram que homem não chora, de modo que não vejo nisso uma falha – evito fazê-lo em público antes para preservar meus sentimentos da admiração pública. Já chorei (ou fiquei com os olhos cheios de lágrimas) vendo filme (ok, eu estava à flor da pele aquele dia), já chorei lendo livro (Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, do Mia Couto, e Primeiras estórias, do Guimarães Rosa, e não foi só ficar com olhos marejados), mas não me lembro de ter chorado vendo peça de teatro. Isso até sexta, quando uma amiga me chamou para assistir a Translunar Paradise, da companhia inglesa Theatre ad Infinitum. É uma peça que aborda um tema banal e delicado, e o trata com uma sensível delicadeza. Tanto que, apesar das emoções despertadas, não foi uma peça que me arrebatou – ela soube cativar sutilmente.

Sem qualquer palavra, fazendo uso de máscaras para contrapôr presente e passado, a vida que acontece e a lembrança do que aconteceu, Translunar Paradise é a história de uma senhora que, depois de morta, revisita seu companheiro, para ajudá-lo a superar a perda, fechar o passado e seguir a vida.

Após a morte da companheira, William se vê solitário, em companhia apenas do tic-tac do relógio – desse barulho monótono que se repete, que parece não passar, enquanto a vida segue como sempre, fora do compasso preciso das horas. Ele recusa a perda: insiste em pôr duas xícaras na mesa, em servir café para si e para a cadeira vazia ao seu lado. Diante de uma mala com objetos queridos, fica a lembrar de momentos diversos do casal: o emprego da mulher, a gravidez, o aborto (natural), a ida para a guerra, os traumas dessa experiência, o primeiro encontro, os desencontros. São cenas banais (apenas a guerra não é tão banal assim), retratadas com banalidade e uma estética de filme mudo dos primórdios do cinema – quase coreografias de uma vida qualquer. Difícil não se pôr – ou não imaginar pessoas queridas – em situações semelhantes. No presente, as máscaras com as marcas da idade (a expressão corporal dos atores é tamanha que eles conseguem fazer com que as máscaras incorporem uma série de expressões!), os sulcos de tudo o que se viveu.

William está em meio a essas recordações, dessa fuga para trás de um agora de dor, quando Rosa ressurge. Não é a história de amor após a morte – não esse amor cinematográfico. Nada de beijos entre o homem e o espectro da mulher – o contato (físico) entre os dois é impossível. O retorno da mulher morta é para livrar seu amado do peso que ele não quer largar e que o impede de encarar o presente que há. Ela o revisita para guardar sua xícara no armário, para pedir seus objetos antigos de volta, para fechar aquela mala contendo o passado e poder seguir para a morte – e deixá-lo que prossiga com sua vida.

Minha descrição parece dar uma boa medida da banalidade das cenas, a grandeza do espetáculo está na sua poética. Na forma como apresenta o amor: o desejo de Rosa não de esquecimento, mas de ser posta num segundo plano, porque ela sabe que somos feitos de presenças e ausências, e que quando estas adquirem excessivo peso impedem o movimento da vida. Recordar é viver, dizem, mas pode ser também não-viver (penso que se trata da maioria das vezes).

Deixar o outro partir, aceitar a própria morte, arriscar ser esquecido: duas provas de desapego e amor pelo outro que poucos conseguem pôr em prática – eu sigo tentando aprender.


São Paulo, 01 de abril de 2013.

ps: a peça fica em cartaz uma semana mais no CCBB de São Paulo.
ps2: não consegui pôr o vídeo aqui, há uma pequena mostra de uma cena em http://vimeo.com/37026590

quinta-feira, 21 de março de 2013

De um restaurante em um cruzamento vejo o movimento da rua

Depois de assistir ao ensaio da Osesp com o maestro Osmo Vänskä (uma experiência assaz interessante essa, de ver um ensaio que não o do Fellini), vou a um restaurante vegetariano, no cruzamento da Brigadeiro Tobias com a Senador Queirós. O restaurante é muito bom, e o preço relativamente barato para São Paulo – pouco mais de R$ 30 por quilo. Me sento do lado da janela, para a Brigadeiro, para assistir ao movimento da cidade. Pessoas passam, carros também, nada além do esperado (e assim será até o fim desta crônica, já aviso). (Bebida? Não, obrigado). Na vaga para idoso pára um carro com dois velhinhos. É um carro bom, novo, nem top nem “pop”, que evito dizer o nome para não fazer propaganda. O velhinho veste fato completo, a velhinha está um pouco mais leve na indumentária – quase leve demais para a temperatura do dia. (Professor ganhava nove reais a hora-aula, nove reais, sabe o que é isso?). Ficam um tempo ali, conversando, eu me distraio com o movimento que segue indiferente aos dois. Passam orientais, que me fazem lembrar de minha namorada, rolo, “caso afetivo significante”, como prefiro chamar, que foi quem me indicou este restaurante, e hoje começa vida nova na Bahia. Passa uma moreninha com camisa de medicina veterinária que eu vira próximo à estação da Luz, linda! Está com uma amiga, parecem perdidas, pedem informação a um homem parado em frente ao restaurante do outro lado da rua. Não, é aqui o restaurante bom!, grito em pensamento. O homem dá a informação, com os gestos percebe-se que não é na próxima, e na outra rua. Elas agradecem, correm para atravessar a rua, e somem de meu campo de vista, para minha tristeza. O casal de velhinhos – volto a reparar neles – seguem no carro. O movimento prossegue. De repente do senhor abre um pouco a porta do carro e despeja um líquido de uma espécie de caneco grande de plástico na rua. (Sabe do que não gosto daqui?). Será? Me parece estar esvaziando o papagaio. Será? Não deve ser. Pouco depois o carro parte. Passam homens carecas, orientais, moradores de rua, engravatados, morenas bonitas (mas não tanto quanto a veterinária, e me vêm à mente a música do Iggy Pop). Aparece, então, o casal de velhinhos, desta feita caminhando. Ele se agarra no braço da mulher com uma mão, com a outra leva uma bengala. Seu caminhar é lento e arrastado, não consegue levantar os pés do chão. (A bonita oriental que me fez lembrar de meu caso afetivo significante acaba de sair do restaurante em frente). Caminhar pela calçada irregular, inclinada e cheia de buracos, é rali para o senhor, que chega a me deixar cansado por ele. Um homem espera com paciência o casal passar, para então seguir com seu trabalho de carregar tábuas. Na esquina, param, a senhora põe a banqueta que carregava no chão, e o velhinho se senta. O homem retoma seu trabalho, pessoas passam, carros passam, ela espera, em pé, ao seu lado. A mancha no asfalto com o líquido segue forte e visível. Será? (Roubaram a moto do Arnaldo). Eles se levantam e seguem. Eu tomo nota. São duas e dois da tarde, preciso ir.

São Paulo, 21 de março de 2013.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Quase-presente, quase-futuro [Diálogos com o cinema]

Em O futuro, filme de Miranda July, o leitmotiv do longa é um casal de namorados que resolve adotar um gato e vê com isso suas acomodadas vidas (a vida do casal, como a de cada um dos parceiros) abaladas pela expectativa do bichado que virá – o gato está em uma clínica veterinária e terá alta em um mês. Com esse enredo simples, July levanta uma série de questões interessantes sobre a atual geração.

Jason e Sophie estão juntos há quatro anos, têm cerca de trinta e cinco anos, moram juntos. Sophie é professora de balé para crianças. Jason, atendente de assistência técnica por telefone, trabalha em casa. Não são desajustados, são desajeitados, principalmente Sophie, que apesar de dançarina não parece ter uma relação muito harmoniosa com o próprio corpo. Nenhum dos dois chega a ser infantil – “kidults” –, porém são muito imaturos, evidenciado pelo desespero de ambos diante da responsabilidade de adotar um gato – cuja expectativa de vida, e eles sabem disso, é de seis meses. Por essa reação, somada ao marasmo, à passividade das suas vidas, parece que terão pela primeira vez uma responsabilidade de fato: até então teriam apenas cumprido tarefas elementares do fluxograma do intervalo obrigatório até a morte.

Como têm um mês para a chegada do peso da vida adulta, decidem aproveitá-lo. Não, nada de viagens e hedonismo desenfreado: é um tentar se encontrar, antes que o gato chegue para acabar de vez com sua liberdade – que nada mais é que poder jogar tudo para o alto, tão-somente. Eles abandonam seus empregos. Ela anuncia aos amigos seu projeto de elaborar trinta danças em trinta dias – uma tentativa de alcançar o “sucesso” da secretária gostosa da academia, que tinha dez mil visitas ao seu vídeo no youtube. Ele prefere se deixar levar, estar aberto ao que a vida pode lhe oferecer. Mesmo sem nunca ter se interessado por questões ecológicas, entra em uma ONG que vende árvores sob a desculpa de salvar o mundo – não que tenha adquirido qualquer convicção, apenas passou por um homem que anunciava as tais árvores e acho que era o sinal.

Se ele passa a sair de casa, ela faz o inverso, e passa a ficar em casa – eis a grande mudança de vida que eles realizam. Ele parece bem – bem adaptado, ao menos – com seu novo emprego, tal como parecia com seu antigo: no fundo, a impressão que se tem é que qualquer coisa lhe é indiferente: assumiu o discurso ecológico como poderia ter assumido outro e como pode abandoná-lo com a mesma facilidade. Ela, por outro lado, segue desajustada: era uma professora sem vitalidade; em casa, com a tarefa auto-imposta e a comparação com a secretária bem sucedida, simplesmente paralisa. É uma exigência acima das suas forças – talvez não por ela não ser capaz, antes porque não parece ser de fato esse o seu desejo: ela apenas tenta fazer o que as outras estão fazendo. Nenhum dos dois demonstra autonomia (por esses e outros detalhes trazidos no filme), e o arroubo de assumir a própria vida que levou a essa reviravolta (aparente) foi somente um gesto irrefletido e inconseqüente, que não alterou a heteronomia de suas ações, de seus desejos, que não fez brotar qualquer plano para longo, médio ou curto prazo nele – nela, talvez as trinta danças, das quais não consegue sequer realizar a primeira.

Por falar em planos, quando eles se dão conta de sua idade – mais seis meses e temos trinta e cinco, trinta e cinco é quarenta, quarenta é praticamente cinqüenta, e cinqüenta é o fim –, fica evidente a precariedade de qualquer auto-reflexão: os planos de Jason são gerais e banais: ser rico, ser líder mundial; os de Sophie não chegam a ser esboçados: está há quinze anos se preparando. O que desejam, o que os realizariam, o que os fazem felizes são questões longe de serem postas – para ele porque já respondidas desde fora, para ela porque sem resposta.

Uma cena curiosa – até por eu ter me identificado – é quando Sophie decide cancelar a assinatura da internet, para não ficar só assistindo a vídeos de suas competidoras e se sentir cada vez mais fracassada: quando Jason chega do serviço, eles têm pouco tempo pra usar a internet, cada um corre para seu computador aproveitar seus últimos instantes na rede para... buscar informações inúteis, mapas desnecessários, e mais algumas nulidades que não fariam falta a uma vida – mas à nossa, faz (são essas inutilidades que fazem falta à vida, ou nossa vida é uma falta que acaba sendo preenchida com isso?).

Esse o panorama que o filme desenha. Contudo, como comenta o crítico Heitor Augusto, na hora do vai ou racha, July cede, ao invés de meter o dedo na ferida, contemporiza com seu público: o filme vira uma questão de casal, tranqüila para conversas pop-cult-bacaninha depois da sessão, sem causar nenhum desconforto de fato ao espectador. Não deixa de ser um filme interessante – poderia ser melhor.

São Paulo, 20 de março de 2013.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Spam, ofertas e fortunas

Estou mais do que habituado a receber spams na minha caixa de e-mails. Spam é o que há de mais abundante e elementar na internet, talvez só perca para a pornografia (por sinal, um site pornográfico evangélico poderia render uma boa grana). Por sorte os novos provedores de e-mail têm sistemas anti-spam muito bons (novos porque sou da época do zipmail, do mail.com, do yahoo.com (não havia o .br), e neles sobravam muitos spams na caixa de entrada), de forma que só dificilmente sou importunado por alguma propaganda (a senhora Beatriz Azevedo, do Acrobeat, não sei como, sempre finta o filtro). Não nego, contudo, uma curiosidade mórbida por aquilo que o Gugou deixa fora da minha vista. Vai que marcou como spam algo que não era? Até hoje nunca aconteceu, mas vai que.

Na pasta de spam estão lá três ou quatro e-mails com notícias diárias que tive preguiça de desassinar. Há sempre ofertas imperdíveis – de lojas que já comprei algo e das que nunca ouvi dizer. Há os anúncios para aumentar meu pênis, que nunca me interessaram, os para parar de roncar, os que vendem sapatos ou produtos de beleza, que tampouco me interessam, e têm aparecido vários prometendo resolver o problema da calvície – reconheço, já abri desses. E sempre há amigos que não conheço me deixando mensagens em redes sociais das quais não participo. Há ainda os e-mails me avisando de parentes que eu não sabia que tinha espalhado pelo mundo – África, Ásia, essas terras tidas por exóticas – que morreram e que não sei como sabiam da minha existência, mas me deixaram zilhões de dólares de herança. Amigo meu teve a mesma sorte: apesar de nikkei, descobriu que tem raízes tchecas, e um falecido tio rico que depositou uma boa quantia num banco chinês. Quis saber mais da morte do seu tio Ivo, mas parece que não obteve detalhes.

Hoje abro minha caixa de spam e tenho uma surpresa. Nada de produtos milagrosos, de férias e finais de semana inesquecíveis, de mensagens no facebook, de fotos da minha ex fazendo sexo na piscina, de milhões de dólares. Hoje eu ganhei trinta e cinco reais! Está lá, nada de três mil e quinhentos: três cinco vírgula zero zero, com a vírgula separando os centavos. Sem historinhas mirabolantes, sem mortes, sem sorteios, sem chaves da Readers Digest: bastava eu clicar num link e ganhar o dinheiro! 

Admito: fiquei com preguiça. Preferi seguir minha vida sem essa pequena fortuna caída do céu.

Pato Branco, 27 de fevereiro de 2013.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Discurso fora de tempo

Há incômodos e incômodos que uma obra-de-arte pode causar no seu receptor. Há aquele incômodo que aflige ao sair da sala de espetáculo ou exposição: que mundo é esse que estou vendo, que não é o mesmo que via ao entrar? Às vezes de modo sutil, às vezes em detalhes até então tidos por insignificantes, a obra-de-arte, o espetáculo, nos devolve ao mundo com alguma nova inquietação, com uma nova fissura diante dessa realidade que levamos ordinariamente, no modo automático, para não ter que lidar com os golpes que nos atingem a todo instante. E há aquele incômodo que, ao fim da apresentação, nos faz pensar que alguma coisa no espetáculo está fora da ordem, fora da nova ordem mundial: não altera significativamente nossa percepção do mundo, em que a sucessão dos dias em uma cidade segue com a mesma naturalidade com que Terra gira ao redor do sol. Foi com essa sensação que saí da Galeria Olido, após a apresentação de Angu de Pagu, da Companhia Sansacroma, companhia de dança radicado no extremo sul da capital paulistana. Não que a apresentação seja ruim – pelo contrário – mas no fim o foco acaba ficando na obra.

Ao tratar da vida de Patrícia Galvão, a ativista comunista de meados do século XX, era de se esperar que houvesse um forte componente político na obra. Assim foi. Ora fiquei tentado a achar que a companhia se restringia ao ambiente da época; ora que tentava um diálogo com o presente – a começar pela distribuição do “Manifesto da antropofagia periférica”, do poeta Sérgio Vaz. Se era esse o caso, o uso excessivo da palavra, ainda mais quando se tinha um trabalho corporal de grande expressividade, me causou certo incômodo: o discurso de 1930 trazido para dialogar com 2013 perde muito do seu sentido, por mais que os problemas verbalizados persistam. Ouvir “temos que ir para as ruas” em uma sala de teatro soa o equivalente ao “consuma com consciência” de alguns anúncios publicitários: pode aliviar a consciência de alguns, mas é risível na sua efetividade.

Com a queda do bloco soviético, o discurso hegemônico se impôs com tamanha força que ficou muito difícil opôr a ele um contra-discurso, ainda mais quando esse discurso de oposição foi forjado em outra época, num contexto muito diferente. Ele acaba soando ultrapassado, não importa que as condições de reprodução social sejam, na sua base, as mesmas.

O poder atual autoriza um sem número de falas e atitudes de oposição, à esquerda e à direita. O que ele não tolera é a recusa.

Diante desse poderio, mais efetivo que um contra-discurso parece ser a desconstrução do discurso hegemônico, levá-lo ao extremo, até sua própria contradição. É o que foi feito, por exemplo, pelos Nini, na Espanha: a recusa da lógica do trabalho, negado pela própria sociedade que o defende como único valor: estamos desempregados, iremos nos desocupar juntos em praça pública, ao invés de buscar empregos que não existem e nos culparmos por uma condição que não somos responsáveis. Os saques de Londres, em 2011, também podem ser vistos como a recusa do desejo sempre postergado em favor da realização do consumo aqui e agora: não nos mataremos de trabalhar sonhando um dia em conseguir Apples, Nikes, Nokias para sermos felizes: temos direito à felicidade, e se ela se encontra nesses produtos, seremos felizes já (quem sabe se tivesse havido um segundo momento, esse movimento conseguisse se consolidar como uma contestação política mais efetiva, mas a repressão foi forte). Nestes tristes trópicos, movimentos como o MST, MTST, Rádios livres e congêneres são a recusa do discurso defendido por nossas elites, de que habitamos um país moderno, avançado e integrado – o modo menos “pós-moderno” desses movimentos, reivindicando direitos básicos é prova da nossa modernidade de retaguarda.

Nestes novos tempos, de fim das ideologias – pela vitória da ideologia do pensamento único – não faz sentido, fora do contexto de fábrica, locais de trabalho, grupos reivindicatórios, pregar a união das pessoas: ela se sentem unidas de alguma forma, na sua torcida no Big Brother, nos seus compartilhamentos de “Fora Renan” no Facebook, na sua ojeriza a um ou a todos os partidos políticos: há uma série de opções de falsa união disponibilizadas pelo sistema – apresentando como perigoso todo aquele que não é de um núcleo muito próximo, ou os bodes expiatórios (com ou sem razões) de sempre, com a vantagem de tais opções não exigirem esforços –, o que obscurece a real solidão de cada um defronte a tv, o computador, o palco.

Se tivesse deixado ao público o silêncio que hoje o acomete em sua vidinha classe média (por mais que esperneie em redes sociais e xingue atendentes de mercado), se oferecesse a violência sofrida por Pagu como uma variação da violência que atinge (com poucas variações) moradores da periferia, talvez a Cia Sansacroma tivesse sido mais feliz na sua crítica.

São Paulo, 18 de fevereiro de 2013.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Inusitadices de São Paulo

São Paulo é uma cidade que autoriza uma descoberta nova a cada dia, que seja dos seus personagens urbanos, que seja dos seus bares e restaurantes.

Mês passado um amigo veio me visitar. De meio-dia fomos a um restaurante árabe na cracolândia, bom e barato (não só para os parâmetros de São Paulo), levados por uma amiga de “alma gorda e bolso magro”. À noite, eu e esse amigo fomos dar o rolê básico na Augusta. Quase na Roosevelt encontramos três amigos (dois deles que já figuraram em crônica aqui [j.mp/cGe25712]) num bar. Paramos para conversar. Ficamos um tempo ali, enquanto não decidíamos para onde ir, discutindo quase-amenidades como política, eleições, alternativas de esquerda, próximas cartadas do Lula, isso em meio a prostitutas que passavam (estávamos mais perto dos inferninhos do que dos teatros). Decidido que era hora de ir para outro lugar, um dos amigos propôs a Augusta, os demais preferimos algo fora do nosso habitual. O mesmo amigo partidário da Augusta não aceitou os inferninhos decadentes da Santa Cecília, sugerido pelo amigo lindo (para usar a expressão da crônica de antanho), que nos propôs, então, outro bar, “muito legal”. E lá fomos, o amigo do Garcia, que antes reclamava do preço da cerveja, agora reclamava não iríamos a inferninho algum e, andado cinqüenta metros, passou a reclamar também que teríamos que caminhar. O amigo lindo dizia que era um lugar cheio de mulheres lindas e descompromissadas, loiras, morenas, e uma ruiva no balcão. Pela primeira vez vou à “rive droite” (para dar um ar mais parisienne à crônica) do Viaduto Nove de Julho à noite – nunca tinha me aventurado para além do Estadão. A região é um tanto vazia, moradores de rua dormem sob as marquises, o amigo do Garcia segue reclamando. No Bixiga entramos numa rua completamente deserta. O amigo lindo avisa, é logo ali na frente. Chegamos a um sobrado de esquina. Parece haver pessoas no andar de cima, mal iluminado. A porta está fechada. O amigo lindo assobia, chama por alguém. Desce um homem, abre as portas (além da de ferro, para a rua, havia uma grade antes das escadas). O amigo lindo sobe, ver se podemos entrar. E eu que imaginava que os inferninhos da Santa Cecília que seriam barra pesada. Que lugar é esse que ele está nos trazendo, alguém pergunta. A gente pode subir, avisa o amigo lindo. Eu imagino que logo à entrada vai estar um segurança com uma pistola semi-automática exposta na cintura, que pessoas mal encaradas jogam pôquer em uma mesa – ou fazem uma reunião do “partido” –, e as muitas mulheres lindas já quase não têm mais nariz. Subimos, cumprimentamos os donos à entrada. Bem-vindos. As poucas pessoas que estão no bar nos observam – salvo um casal bêbado que brigava em uma mesa em separado –, cumprimentamos de longe e vamos para uma mesa no fundo. Não há segurança com pistolas, nem membros do partido, nem mulheres sem nariz (praticamente nem mulheres). Em compensação, há bandeiras do MST, do Corinthians, da Palestina, pôsters do Che e outros contestadores, nos guardanapeiros, adesivos de greve; no som, Gilberto Gil. É o Espaço de Cultura Latino-Americana. Um lugar de esquerda com preços de direita – que o amigo revolucionário do grupo compreendeu como necessário para manter as atividades e contribuir para a revolução. De revolucionário que se percebe num primeiro olhar, creio que o fato de não respeitarem a lei anti-fumo. Da minha parte, questiono a validade dessa tese da esquerda dos anos sessenta para os dias de hoje: da festa como local de contestação, mas enfim. Está miado hoje, já é tarde, mas é um lugar legal, se desculpa o amigo lindo. O amigo do Garcia reclama (do preço, da falta de mulheres, de ter caminhado, de ter subido escadas, da música que está tocando). Talvez pelo nosso espírito altamente contestador, exaltado ainda mais pelo lugar, a conversa que era de política e filosofia (os cinco da mesa com formação em filosofia e tendências esquerdistas, apesar do meu amigo revolucionário me achar um tucano direitista por não endossar o sistema representativo democrático liberal, e o amigo de Campinas ter pertencido a um grupo taxado de fascista no IFCH, por se contrapôr numa eleição ao Centro Acadêmico ao PSTU e ao PSOL) quando estávamos próximo aos puteiros, passa a ser de mulheres, em um tom que prefiro não prefiro reproduzir aqui – com um breve intervalo para discussão de ordens arquitetônicas e “ordens arquitetônicas meu cu”, como definiu o amigo do Garcia o neo-clássico brasileiro, mesmo o de antigamente. Ainda que sem emoções fortes, malucas, nóias e coisas do gênero, uma noitada bizarra.

Mais recentemente uma amiga veio me visitar. Fomos à liberdade no domingo, perto das duas da tarde. O passo apressado para escapar da chuva que se prometia forte, e que até então se resumia a esparsos pingos grossos. É aqui, ela anunciou, e adentramos uma portinha que parecia ser de outra das galerias da Liberdade, com o diferencial de ser em uma rua secundária, perpendicular à avenida Liberdade e à rua Galvão Bueno. Na entrada, à esquerda, uma loja de camisetas (a do Godzilla, por exemplo, estava trinta e oito reais). Logo depois, três máquinas de vender bolinhas – dessas que tanto me animavam quando criança e que eram raras e caras (ao menos era o que dizia meus pais). A seguir, um velhinho japonês rabiscava um papel com violência, enquanto explicava – no tom ríspido que o idioma soa àqueles que, como eu, não o compreendem – ao seu cliente o que havia lido em sua mão. Minha amiga – uma “magra de alma gorda”, como ela mesma (com razão) se define – já havia me avisado: é uma portinha, e no fundo abre um salão. Ao atravessarmos esse corredor, finalmente chegávamos ao restaurante. Não deixei de me surpreender, apesar de avisado: não era um salão, antes um enorme galpão, com um baita ar de bandejão da Unicamp: luz fria, mesas coletivas, muito ruído (logo piorado pelo som da chuva forte), um grande buffet, com a cozinha exposta ao lado. No fundo, um japonês, na casa dos quarenta anos, camisa e calça social, dando uma grande impressão de seriedade – de que recém havia saído de algum culto religioso –, tocava blues (estadunidense). Ao menos não havia a coordenadora chata do bandejão pedindo palmas – o público, digo, os clientes eventualmente até aplaudiam. No buffet, várias saladas, sushis adentrando a decadência rococó-pós-moderna do sincretismo geral brasileiro que já se abatera sobre as pizzas, ou seja, sushis com recheios vários e bizarros (nenhum de mortadela, como na cantina do DCE-Unicamp, se bem percebi), peixes grelhados, tempurá, yakissoba e outros pratos quentes, inclusive churrasco. Na mesa ao lado, numa família de negros que parecia saída de uma sitcom americana, a filha mexia os ombros suingadamente ao som da música; na mesa da frente, dois casais – um deles com uma filha na casa dos dez anos –, muito tatuados, braços pescoços peitos, tiravam fotos e mais fotos e mais fotos e mais, da comida do lugar deles, com óculos, sem óculos, fazendo cara de mal, fazendo beicinho, rindo, fazendo vezinho; atrás de mim, minha amiga me sugeriu dar uma olhada, duas senhoras orientais pareciam brincar de estátua, tão pouco e tão lentamente se mexiam – dava quase agonia –; na nossa mesa, um homem oriental muito duro nos gestos, no se sentar, no aplaudir, no comer. Comentei que se a série de pequenos quadros na parede oposta à cozinha fosse substituída pela via crucis, aumentaria o inusitado, mas não soaria tão deslocado assim. E olha que você nem viu a mulher que, não sei se é a dona ou o que, está sempre aqui, uma senhora japonesa de cabelo vermelho. Imaginei uma versão japonesa para Peggy Bundy, do seriado Married with Children. A luz pisca, por causa da chuva, os funcionários (que não são orientais) puxam uma vaia, para aumentar ainda mais o ar de bandejão – não fosse pelo preço, pela comida, pelo público, pelos hashis, pela ausência de pombos. Na comanda, o valor anotado com caneta rosa. Ao contrário da comida japonesa, o churrasco não é muito bom. À noite levei essa amiga e outros dois a um restaurante chinês, que além de ter uma tesoura para cortar o macarrão, oferece ao vivo o show da arte do macarrão.

São Paulo oferece as mais inusitadas artes.

São Paulo, 12 de fevereiro de 2013.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Coisas quotidianas quaisquer em SP.

Como não moro em Cruzeiro (DF), não me deparo com nenhum pacote de presente com dinheiro na porta de casa, mas ao sair, na minha frente caminha uma mulher de cabelos castanhos. Pelo caminhar, desconfio que seja oriental. Ao alcançá-la na esquina, onde parou para o sinal fechar, confirmo minha impressão. No Center 3, três homens de terno e grava e com um gestual muito solto para a sisudez do traje dão a impressão de uma cena a la Pulp Fiction (nenhum parece Travolta, e o negro do grupo tem apenas um bigodinho, nada de costeletas, como Samuel Jackson). Ficam um bom tempo parados, dois apoiados, conversando, o outro ao celular. Até que surge um quarto homem, esse de terno cinza, carregando uma sacola com sanduíche, e os três vão atrás dele. Se não é Pulp Fiction é outro filme. Na entrada do shopping, três homens – sem terno, mas com gravata – terminam, lado a lado e concentrados, seus sorvetes de casquinha. Não conversam, apenas degustam da sobremesa. Parecem três crianças deslocadas no tempo e nas roupas. À noite, em frente ao mesmo local, vejo duas garotas de top e shortinho minúsculo atravessarem a avenida Paulista com o sinal aberto para os carros. Uma delas, mais ousada (no sentido de se meter na rua), vira a bunda e rebola quando o carro pára para não atropelá-la. A cena me pareceu meio David Lynch, demi-absurda, com a pegada de pop-art da decadência de Arthur Bispo do Rosário. Descendo a Augusta, há dois homens de idade na minha frente. Um deles faz um gesto qualquer e imagino que sejam ingleses – o do gesto, ao menos. Não sei se vem realmente da Inglaterra, não reconheci o sotaque, mas ao passar por eles falavam em inglês. Quase chegando em casa, me vejo no meio de uma fila de mulheres – são três na frente, quatro atrás – andando em fila indiana atrás de um homem. Sigo meia quadra assim, um tanto constrangido por parecer que também estou atrás do macho alfa. Eles atravessam a rua, vão para o bar, eu subo as escadas e entro em casa. Na sala São Paulo é proibida a entrada de pessoas trajando bermudas, shorts e chinelos. Pessoas trajando fantasias bufas de nobre (ou bobo, não soube identificar) da corte estão proibidas de usarem perucas Luis XIV durante o concerto.

São Paulo, 08 de fevereiro de 2013.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Conquistas, encontros e solidões

Um espetáculo solo numa coreografia que pretende tratar do encontro amoroso, da relação com o Outro. Soa curioso, mas a escolha de Sílvia Geraldi em Todas as tardes está longe de qualquer absurdo: podemos até ser uma inexperiência crônica na arte da conquista (como este que escreve), porém estamos longe de sermos virginais no encontro com o Outro: seríamos antes síntese dessa infinidade de encontros que foram nos formando, conformando, transformando no correr da vida, desde (via de regra) o encontro com o Outro-mãe.

Encontrar o outro é perder-se um pouco de si. Contudo, perdido de si é possível encontrar o Outro? Essa perda que parece tão sintomática da atualidade. Que encontros nos permitem as receitas dos manuais de sedução, que “dão dicas” (porque “ensinar” seria chamar claramente o leitor de ignorante) de flerte, de postura corporal, de frases-chave, de olhares cronometrados?

Não há muitos elementos de palco em Todas as tardes: um gravador portátil e três molduras de tamanhos variados, com rodinhas – com as quais Sílvia interage em alguns momentos. Numa dessas interações, com a moldura um pouco mais larga e alta do que ela, põe-se a correr com o acessório, deixa se levar por ele, apóia-se nele como se apoiasse no ombro de alguém – e a moldura escapa, evitando a entrega completa. Ao fim, dançarina e Outro-moldura acabam frente a frente, como em um espelho: encarar o Outro talvez seja encarar o reflexo de si mesmo. E Sílvia hesita se deve atravessar esse espelho: seria que isso seria a superação de si em direção ao Outro? Ou seria o consumo de si pela própria imagem? Seria o enquadrar-se? Ou seria a descoberta que para além não há nada – ao invés de um país maravilhoso, o deserto do real? Sílvia atravessa para logo retornar, desencontrada.

Táticas de guerrilhas, gestos ensaiados, ordens de não planeje como conduzir a conversa a abordagem: a exigência de confiança e firmeza, e a realidade de hesitações e insegurança. O fato da intérprete não ser uma jovem reforça a sensação de que não há fórmula pronta, de que cada encontro é um ato solitário de atirar-se até o Outro – ou pode ser um estar sozinho a dois, como diante da imagem fria no espelho.

São Paulo, 02 de fevereiro de 2013.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Mais amor, por favor: uma noite de domingo por São Paulo.

Prestes a completar um ano morando em São Paulo, descubro que há uma feira a três quadras da minha casa, aos domingos. Serviu como consolo da minha ida ao Carrefour, onde esperava preços menos abusivos que as antigas lojas do seu Abílio, o Pão de Açúcar e o Extra. Que nada! Os preços se equivalem. E como prêmio extra, pretendia comprar cerveja, mas me senti intimidado com a bela promoter da marca que geralmente compro. Mais barato mesmo parece ser na outra rede do grupo Carrefour, o Dia %, com um desconto em torno de cem por cento: vinte por cento nos preços, oitenta por cento na qualidade. Em um ano morando aqui ainda não consegui achar um lugar para comprar horti-fruti bom e barato: o Mercado Municipal tem preços do lugar de gente feliz, e a feira recém-descoberta pareceu ter bons produtos, mas não permite grandes economias.

À noite, cansado de tanto me cobrar que eu preciso estudar (até cheguei a estudar um pouco), e vendo que minhas reservas de psicotrópicos estavam no limite, saio dar um passeio pela República e Santa Ifigênia, comprar erva e comer um lanche. Não tinha grandes esperanças de que o restaurante árabe na avenida Rio Branco estivesse aberto em um domingo à noite. Arrisquei mesmo assim. Ao passar pela rua do Boticário e sua penca de nóias, aquele lembrete interno: estou entrando em região perigosa. Na Rio Branco, bares com hispanohablantes, puteiros decadentes, lan-houses. Um homem – creio que um nóia – fala qualquer coisa atrás de mim, tenho a impressão que é comigo, mas não me viro. O restaurante está fechado, sem outra alternativa, retorno. Nisso cruzo com quatro garotinhas de uns treze, quatorze anos, talvez voltando do cinema, conversando animadas como pré-adolescentes da sua idade fariam num shopping. Me pergunto se a região é mesmo tão perigosa – proibida para menores –, ou se eu quem me deixo influenciar por todo o discurso preconceituoso com a área: cracolândia, nóia, imigrantes andinos, caribenhos, africanos, moradores de rua, ocupações, violência violência violência. Talvez a maior violência esteja justo nesse discurso contra a região, que não deve deixar de reverberar em seus habitantes. Mais amor, por favor!, como diz o lambe-lambe espalhado pela cidade.

Compro as ervas que me propus: um quilo de ilex paraguariensis nacional, meio de argentina. Ao menos erva-mate eu descobri cedo onde achar (cafeína é psicotrópico, aos desavisados). Páro no Estadão, comer um xis, esse criador de obesidade, ao qual pareço imune. Subo pela Augusta. O Inferno está fechado, de luto pela tragédia de Santa Maria; o Studio SP manteve sua programação. Lembro dos comentários de fanáticos religiosos na internet, comemorando as mortes. Mais amor, por favor! Na esquina com a Antônia de Queiroz, o garçom e um cliente conversam: é uma vinte dois de cano curto. Mais amor, por favor!

Mal chego em casa, ainda me preparava para uma crônica sobre o nada acontecido nesse passeio pela cidade, e uma amiga que não vejo há meses me liga chamando para encontrá-la com o namorado, na Augusta. Lá vou eu de novo – não são nem onze da noite, e não imaginava que, aí sim, teria material para uma crônica.

Estamos num bar na esquina com a Antônio Carlos. Pedintes páram para pedir esmola – devo estar com um aspecto realmente simpático, porque sempre se direcionam a mim. Foi mal, hoje não rola. Certo instante começa toda uma movimentação, as pessoas da mesa ao lado se levantam rápido, o garçom surge para ajudar, e quando consigo perceber o que está acontecendo já há cinco homens segurando um carro que, sem freio e sem motorista, com o alarme disparado, foi descendo calmamente a rua. Ficam um tempo ali, segurando e pensando no que fazer. O alarme parou de tocar mas o motorista não apareceu. Um deles faz um calço com uma caixa de papelão. Funcionou. Nos Estados Unidos a gente olharia, ficaria dando risada, ninguém ia se prontificar a ajudar alguém que sequer está presente, conta meu amigo. O brasileiro é cordial, principalmente com suas vacas sagradas – mesmo que não sejam os donos. Passa um pedinte balançando moedinhas num pote. Hoje não rola, desculpa. Pára o vendedor de rosas, sempre muito bom de lábia. A mim, nunca me convenceu, mas pela primeira vez sai da mesa em que estou sem conseguir dinheiro ou uma marmitex. Conversas sobre mestrados que não terminam nunca, doenças e movimentos negros, gays, feministas, sindicais. O garçom trás a conta: pela lei do psiu, do silêncio, da mordaça, sei lá, precisam fechar o bar, recém passou da meia-noite. Outros pedintes pedem um minuto da nossa atenção. Não dá pra tomar uma saideira? Desculpa, não. Passa novamente o pedinte das moedinhas no pote. Hoje não rola. 
 
Descemos a Augusta, em busca de outro bar. Paramos em um com mesas na rua: não, não estamos fechando. Um rapaz loiro, de óculos, magricelo, meio abobado e bem chapado pára em nossa mesa – chamemo-lo de mala, uma definição assaz apropriada. What's up? Ficamos os três olhando para ele. Minha amiga perplexa – São Paulo, de um modo geral, ainda a perplexifica –, meu amigo com cara entre a de pouco amigos e a de que bosta é essa?, e eu sei lá, creio que na minha natural cara de paisagem. Gimme five, e estica a mão. Meu amigo o cumprimenta e ele sobe um pouco, sem abandonar a área do bar. Não é americano: tem sotaque, comenta meu amigo. Na mesa ao lado se sentam dois rapazes, um estilo hardrock, outro de bigodinho. Passa o pedinte balançando o pote de moedas. Hoje não. O mala volta. Hey dude! Diante da nossa reação – ou falta de –, vai para a mesa de baixo. Não tarda muito, começa a briga: porra, você me queimou!, reclama o mala. Um copo é quebrado, e o rapaz do bigodinho o empurra desfere um chute quando já está caído. Mais amor, por favor!, e eu a segurar o brigão. O garçom chega: o que você está agitando? Ele me queimou com o cigarro! Você quem veio aqui encher o saco. O mala sobe até a porta do bar. Me vê mais uma cerveja. Não tem mais cerveja para você. O mala desce, pedindo pra que alguém compre cerveja pra ele. Pára na mesa ao lado – do rapaz do bigodinho e do hardrock. Dá uma nota – de cinqüenta ou vinte, não vi direito – ao hardrock: can you ask a beer for me? Peço. Se senta com os dois. O do bigodinho começa a chamá-lo de gay, pouco depois o hardrock se empolga também em ofendê-lo. O mala segue abobalhado. A conversa está baixando o nível, comenta minha amiga. E estragando nosso fim de noite, tenho vontade de completar. Passa uma vez mais o pedinte do pote de moedinhas. Não. O do bigodinho se levanta para nova rodada de agressão, mas na mesma hora pára um pedinte. Fica um clima estranho. I don't have money. Não estou entendendo, tem um trocado, só para eu completar... O mala o abraça: you're my fucking friend, but won't give you my money. O pedinte resolve passar logo, nem pára na nossa mesa. Os ânimos se arrefecem um pouco, sentam-se. As “ofensas” ao mala prosseguem. Até o bigodinho se levantar novamente e começar a esmurrá-lo: pára de encher, seu filho duma puta. Cabe a mim novamente, com todo meu porte, apartar o brigão – minha vontade era esmurrá-lo, mas não comecemos uma briga generalizada, mais amor, por favor! O mala vai para o meio da rua, quase se mete na frente do carro, sai correndo ao seu lado, tentando se pendurar na porta, desiste uns vinte metros acima. Volta. Se chegar vai ter garrafada, avisa o muy macho do bigodinho – contra um magricela e tendo um amigo na retaguarda é fácil ser valentão. Calma, tento conter o rapaz. Só quero meus óculos, pede o mala. Minha amiga ajuda a encontrá-lo, e pede pra ele sair. Ele ainda pede desculpa por qualquer coisa ao do bigodinho. Na esquina, vemos ele se confraternizando com um casal – eis um mala solitário, carente e chapado numa noite de domingo. Ao lado, os dois amigos trocam impressões. Porra, achei que fosse gringo. Eu também, eu gosto de conversar com gringo – comenta o do bigodinho. Me pergunto se o estopim para sua agressão não estaria na acusação de gay que fizeram ao mala – ou se seria apenas inabilidade para lidar com o Outro, saber sensatamente cortar papo com os chatos, ao invés de golpeá-los (para não deixar mal-entendidos: definitivamente, não foi o caso de uma agressão motivada por questão de opção sexual). Olha, o cara esqueceu um pino! Comenta o hardrock. Prepara duas carreiras, cada um cheira uma. Você devia conversar com o Ronaldo, virar segurança na boate dele, em Curitiba. Nós achamos que está de bom tamanho para a noite. Pagamos a conta e eu volto sob acusação de que busco – e se não busco, atraio – esse tipo de coisas para depois escrever crônicas. No caminho passo pelo pedinte do pote de moedinhas – balanço negativamente a cabeça.

São Paulo, 28 de janeiro de 2013.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Praça Roosevelt, skatistas, GCM e nosso déficit democrático

O vídeo que circulou na internet no início do mês mostrando a ação da Guarda Civil Metropolitana de São Paulo contra skatistas na Praça Roosevelt [http://j.mp/ZIZmZi], no centro da cidade, acaba sendo uma pequena amostra de tensões latentes (ou nem tão latentes assim) da sociedade brasileira atual, tendo como foco agonístico a questão da convivência com o diferente (e a cidade como palco), com conseqüências para a discussão sobre segurança pública, dos direitos humanos e usos da cidade (que passa de palco para personagem do drama político).

O vídeo é uma prova do que poderia ser tido por despreparo da GCM, mas parece antes ser fruto do seu preparo precário, mesmo. Para piorar, esse preparo não é substancialmente diferente da polícia militar – ainda que a GCM não guarde o nível de letalidade da PM (estimulada e ovacionada pelo governador Geraldo Alckmin, assim como por apresentadores raivosos na TV). Quando se recorda que o fortalecimento das Guardas Civis no governo Lula, que almejava a ascensão de uma força civil de segurança pública que paulatinamente suplantasse a militar (bem ao estilo do seu governo de comer pelas bordas e evitar o conflito aberto), se deu sob o pressuposto de respeito aos direitos humanos – condições para buscar uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU –, é de se questionar seriamente o papel das forças de segurança no país. Podemos retomar, quase trinta anos depois, o refrão de Tony Belloto, agora sob a forma de pergunta: Polícia para quem precisa? Quem precisa de polícia? Que fique claro: não se trata de repetir um bordão não de todo incomum em considerável parte da nossa intelectualidade acadêmica preguiçosa, que prega o fim da polícia no mundo (para pôr o que no lugar? civis com balaclavas, como no Fórum Social Mundial?, ou liberarmos um estado de natureza hobbesiano, cada um por si e uma arma na mão?), ou acha que é levando porrada que se aprende (até ser ele ou seu filho quem apanha, aí descobre que pau-de-arara não é do bem, como certo dramaturgo durante a ditadura civil-militar): o ponto é adentrar esse que parece ser um dos núcleos do gládio político atual, tanto na política-quotidiana, como na esfera político-institucional – há tempos acuso como ponto de divergência essencial entre os dois principais partidos do país, o PSDB sob a égide paulista e o PT, a questão dos direitos humanos.

Passemos o vídeo em revista. Temos seis atores em cena: a GCM, o que chamarei aqui de leão-de-chácara da GCM (ou só leão-de-chácara), os skatistas, a praça Roosevelt, e, escondidos, a prefeitura e os moradores do entorno da praça.

O vídeo começa com um guarda à paisana e sem identificação – o leão-de-chácara da GCM – dando uma gravata em um rapaz. Não é possível saber o que motivou a ação – conforme a imprensa, a GCM acusa os skatistas de estarem em área proibida, por mais que não haja área proibida na praça. Independente disso, não há dúvidas de que o golpe é exagerado: uma gravata serve mais do que para imobilizar, serve para matar alguém. Imobilização pode ser feita com uma chave-de-braço, algo que o leão-de-chácara deu mostras de não saber fazer, em outro vídeo, esse vinculado por reportagem do SBT: apelando para a força, ao invés da técnica, mais do que imobilizar, ele acaba por machucar o cidadão agredido-imobilizado [http://j.mp/TLOkP9].

Depois que ele solta o rapaz, a pequena multidão, que estava em cima, se dispersa um pouco. Ficam em volta, vendo o desenrolar da ação da GCM, sem a mesma pressão até então, mas sem se comportarem como boas ovelhas. A GCM resolve, então, dispersar de verdade o pessoal, e faz uso de spray de pimenta. Nenhuma novidade nesse abuso, coisa que se aprende com a PM:

O uso desse expediente, por mais que seja comum, mostra o despreparo da GCM: não há risco de tumulto, não há ameaça contra os “mantedores da ordem”, nada que justifique o uso do spray, a não ser a tentativa de mostrar quem manda ali.

Logo a seguir, uma guarda discute com o skatista. Isso pode ser tanto mostra de falta de justificativa para a ação quanto de desmoralização da força de segurança: se se está correto, por que discutir, ainda mais assim, dando de dedo? Se se está correto, via de regra, não é preciso levantar a voz – até porque o skatista não estava exaltado a ponto de precisar gritar a ele que se calasse. Creio eu que seja os dois.

Diante da aproximação de um grupo dos dois que discutem, aparece um guarda empunhando um cassetete. A cena é patética, e se olhada com certo distanciamento, quase dá dó: o guarda sabe da sua desmoralização, da sua impotência: não pode dar porrada como o leão-de-chácara (não tem o mesmo porte e, ademais, está fardado), e não consegue impor respeito pela sua farda. Resta-lhe apelar ao falo da ordem, como substituto das suas frustrações.

Depois do breve relato do cinegrafista, é possível ver o leão-de-chácara, junto com outros três guardas, protegidos por um surreal sem-número de outros mais, intimando o skatista. O leão-de-chácara, então, se aproxima – escoltado por outro GCM, lo muy valente do cinegrafista e passa a ofendê-lo e agredi-lo verbalmente (desejava uma reação do rapaz, para ter “justificativa” para poder dar porrada?): “agita, seu arrombado” “seu pau no cu” “cala essa porra dessa boca, quem tá errado aqui é você, seu bosta, não serve para porra nenhuma” “seu merda do caralho” “taca pedra, seu pau no cu” “você não trabalha porra nenhuma, você é vagabundo, que fica aqui andando de skate, seu arrombado”. E depois tenta intimidá-lo: “pode filmar, seu lixo, tem filmagem de você tacando pedra” (a reportagem do Estadão perguntou pela tal filmagem e não foi respondida).

A ação do leão-de-chácara, particularmente (mas a da GCM não está muito aquém), não apenas não corresponde ao que se espera de um agente de segurança pública, como ele age mais como um pit-boy, desses macho-alfa que arranjam brigas em boates, espancam homossexuais, e que parece que a única possibilidade de ressocialização é via castração química. Seu amadorismo é tão grande que dá vontade de duvidar que seja da corporação, parece antes um desses homens de bem que, iluminados e estimulados por âncoras fascistóides como Datena, resolvem fazer uso do que possuem de bom (a força) para ajudar a guarda civil contra os “lixos sociais”. Seu discurso é do fascistismo presente na Grande Imprensa brasileira: a negação do Outro, acusado de lixo (e o que se faz com lixo? joga-se fora ou queima-se) e mandado que se cale; a lógica do ser humano ter que ser útil: “não serve para porra nenhuma (...), não trabalha porra nenhuma”; o agir em nome da defesa da ordem. Arbeit macht frei era também um slogan de defesa da ordem, de uma ética do trabalho, de uma limpeza social.

Mas seria ingenuidade minha acreditar que as forças de segurança do país – não falo aqui da chamada banda podre – não estejam imbuídas, da cúpula à base, dessa mentalidade de inspiração fascista, estimulada por toda uma parcela da população e pelos donos do poder – afinal, para estes, o discurso do medo é altamente lucrativo. Se parte da população critica os “excessos”, é porque ela não vê problema nos motivos da ação: apadrinham a dispersão de vagabundos, a prisão de baderneiros, o “rigor” da polícia contra o crime – sendo que rigor, aqui, não raro, é extrapolação da lei. Está aí para provar a votação enorme do jagunço da PM, que se orgulha de, dentre as suas 36 mortes, não ter matado nenhum “inocente” [http://j.mp/RUtYDP]. Apadrinham, como os moradores do entorno da Roosevelt, a limpeza das praças dos elementos indesejados – só falta alegarem motivo de saúde pública.

A ocupação ou esvaziamento da praça Roosevelt (neste caso, mas não apenas), as formas de ocupação dos espaços públicos, isso está aberto a discussões. Um acordo sobre essas questões deve ser buscado pelo debate, ainda que dificilmente a decisão tomada não desagrade um lado, por mais que se discuta – isso não exime, contudo, de ser discutida. A GCM entra no meio dessa discussão, fazendo o trabalho sujo para a prefeitura – que encampa interesses econômicos na região – e para os cidadãos de bem que vivem no entorno na praça – esses que trabalham com amor e orgulho, não usam drogas e, logo, têm o direito a classificar quem presta quem não. Por isso a guarda não apenas obriga que se cumpra a ordem, mas precisa discutir: a ordem não está tão bem estabelecida para que seja simplesmente cumprida, de forma que a ação da GCM está aberta à disputa política.

Como estão abertas à disputa as funções e as ações da polícia e demais forças de segurança. Assim, cabe a pergunta: quem precisa de polícia? Dessa polícia, não são os moradores das periferias, ao certo; não é a parte mais carente e mais marginal da população – e se pensassem um pouco, tampouco seria a classe média e os moradores do centro e dos bairros nobres. Se a Grande Imprensa evita esse debate, ou tenta desqualificar todos que o põem, é porque seus interesses e dos seus patrocinadores estão sendo atendidos com essa polícia/política. E tais interesses não têm nenhuma afinidade com a democracia – a não ser que formos pensar numa democracia hayekiana, mas não é essa que está em nossa Carta Magna.

Se Gilberto Freire conseguiu construir o mito da democracia racial, a partir da proximidade da casa grande e da senzala, nosso republicanismo sempre agiu na direção contrária, de separar o máximo a casa grande da senzala: da reforma urbana no Rio de Janeiro, no início do século, ao plano posto em prática em Palmas, no Tocantins; a delimitação de bairros para ricos e para pobres, de áreas permitidas para ricos e para pobres. Casa grande e senzala só voltam a se juntar nos espaços privados de uso público, shopping centers e condominíos fechados, em que todos têm seu papel muito bem delimitado e vigilância constante – garantidora de que todos estão cumprindo seu script adequadamente.

A revitalização da praça Roosevelt é uma mostra de que a ordem é uma ordem a serviço de um grupo bem específico – não é em favor da cidade, nem da grande massa dos seus moradores. A se acreditar na versão oficial, a praça passou por um processo de decadência nas décadas de 1980, 1990, e teve uma revivescência com a instalação de diversos grupos teatrais. Aproveitando que a praça já estava sendo novamente ocupada, prefeitura interveio para “revitalizá-la”. O resultado é sabido: a especulação imobiliária tem expulsado muitos desses grupos que foram responsáveis pela reversão da decadência da praça. Não houve, por parte do poder público, tentativa substancial de evitar que isso acontecesse, para manter a praça como um dos centros de cultura da cidade.

Esqueceram, contudo, de combinar com os russos. Uma praça de cimento e escadas no centro de uma cidade carente de espaços públicos é um convite aos skatistas – que vem de todas as partes da cidade, quer seja das áreas ricas, quer das pobres. Ou seja, a senzala invade a casa grande, numa situação sem o controle dos shopping centers e clubes de bacanas. A princípio, não seria nenhum problema: no máximo regulando um pouco seu uso, ao reservar áreas para o skate, áreas para os cachorrinhos (para os pedestres, esses fracassados sociais, não houve sequer direito a calçadas no entorno da praça), e a convivência poderia se dar de maneira pacífica – o que não quer dizer que não haja problemas e conflitos. Mas ao tentar impedir a prática de skate justificando o barulho causado pelas pranchas, os moradores do entorno mostram que seu interesse não é o conviver com o outro, não é o do aprendizado com a prática da alteridade: é o de fazer da praça um versão a céu aberto da sua vida classe média uniforme e precária.

Vamos ver como age o novo governo. Via de regra o PT é mais sensível aos direitos humanos, às demandas sociais e disposto ao diálogo (ainda que isso, muitas vezes, sirva para encobrir a ausência de políticas efetivas para que se atenda as reivindicações dos mais pobres). Tem agora um exemplo prático de consertar no quotidiano da cidade o que seu partido institui no plano federal, tanto nos excessos da GCM como na sua própria ação ordinária, e mostrar que lado Haddad está disposto a agradar e a desagradar no curto prazo. A praça Roosevelt pode se tornar um caso emblemático em favor de uma mentalidade mais democrática em São Paulo. Ou se tornar outro caso em que o governo age em favor dos interesses de quem tem mais.

São Paulo, 24 de janeiro de 2013.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Moço, me salva.

Sem conseguir me concentrar nos estudos, aproveito o clima agradável e saio tomar a fresca da noite. Um passeio no meu habitual ritmo de marcha atlética por São Paulo, que, passado uma hora, dava a impressão que seria apenas isso: um passeio, sem nada mais a declarar. Augusta com gente, muitas pessoas falando em inglês, Roosevelt com skatistas e bares tocando samba. Na boca do lixo, uma travesti, do outro lado da rua, mexe comigo: lindo. No Largo do Arouche, páro no mercado para comprar algo pra comer e beber. Dou uma volta na praça – o que nunca havia feito até então. A parte central está ocupada por muita gente. Muitos casais, principalmente de homens, alguns de mulheres – na rápida olhada, não noto casais heteros. O posto da polícia é um polo repelente. Mas logo no outro lado da rua o bar está bem movimentado. Descubro, finalmente o tal restaurante francês em frente ao mercado das flores que Criolo canta – na frente do restaurante, uma Mercedes e outros dois carrões. Decido não contornar a praça e nisso me sinto consideravelmente deslocado. Tenho a impressão de que seguir reto darei no Minhocão, mas não vejo o monstrengo urbanístico. Sigo reto: de qualquer forma. em algum lugar darei. Acabo mesmo no Minhocão. Do lado de lá – Santa Cecília, se estiver correto nos meus precários conhecimentos da geografia paulistana –, tenho a impressão de um morador de rua amassar latinhas. Ao me aproximar, noto que os gestos estão agressivos demais: por segurança, atravesso a rua. Ele taca pedras contra alguma coisa. Joga com raiva a tal coisa no chão e a atira, depois, no bueiro. Passo prestando atenção se não sobra nada sendo atirado contra mim – não houve. Ele agora quebra outra coisa com igual raiva. Caminho por uma paralela da Amaral Gurgel, e sem muito no que reparar, volto para as quebradas da República. Estou caminhando há quase duas horas, as pernas começam a cansar, e resolvo fazer uma pausa na Praça da República. Sento em frente ao prédio principal da praça. Atrás de mim um casal de jovens (uns trinta anos) namora. Ao seu lado, um homem segura a cabeça entre as mãos – dá a impressão de que dorme. À minha direita, um casal de pessoas um pouco mais experientes também namora. À esquerda, um homem muito calmamente termina sua refeição. Tem junto de si uma garrafa – parece litrão de cerveja – e uma sacola plástica. Tem também um guarda-chuva grande. Findo seu sanduíche, pega da sacola um caderno com as páginas muito gastas e um lápis, passa a fazer anotações. Penso que se eu estivesse com minha caderneta e uma caneta, estaria a fazer o mesmo, esboçando esta crônica. Não estou, fico observado a movimentação na praça. Pessoas caminham em direção ao metrô. Da praça, escura e erma, saem dois garotos com três anos, no máximo. Um deles tem tênis com luzinhas, que piscam tanto na frente quanto atrás. O tênis me remete à minha infância – sexta série, doze anos, talvez – no meu tempo, as luzinhas do tênis eram só atrás. Lembrei uma vez que vi um colega correndo com um, no corredor de baixo do Colégio das Irmãs. Eu tinha um igual mas não tinha como ver como era ele piscando de longe – e só vira até então na propaganda. Pouco atrás das crianças, surgem duas mulheres, uma delas empurrando um carrinho de bebê. Ainda pouco íntimo da cidade, tenho receios de atravessar a praça pelo meio – e parece ser besteira da minha parte. Entre mim e o senhor do caderno gasto senta-se um homem, acende um cigarro. Pessoas passam. As crianças brincam. O tênis pisca. Eu penso esta crônica, com base no homem e seu caderno. Me levanto: hora de voltar pra casa. Passo por um grupo de três garotas – bem bonitinhas, diga-se de passagem. Uma delas, sentada no meio, me chama: moço, me salva. Eu olho, não sei se páro, se continuo, se finjo que não foi comigo. Me ajuda, moço, minhas amigas estão só me sacaneando aqui. Elas riem. Eu fico ali parado, meio sem jeito na minha timidez. Tento entender a abordagem, acompanhada do riso das amigas. Será que estão tirando sarro da minha cara? Penso, quase igual como pensaria quando mais jovem, com a idade das garotas, uns dezoito anos. A diferença é que agora me questiono e não afirmo. Liga, não moço, ela faz cênicas e é ótima atriz. Faço, não, sou uma completa leiga no assunto. Desculpa interromper a conversa de vocês, mas que prédio é esse? Uma morena (bonita também, por sinal) com um celular no ouvido interrompe nossa “conversa”. É parte da cena?, me pergunto. Sei lá. Parece uma igreja. É o prédio da República. Diz que é do lado da saída metrô, que fica ali, é facinho. Obrigada – e se retira. Conversamos um pouco – ou elas tagarelam, na verdade, para um cara parado na frente delas, sem graça e sem saber o que falar – até que que a moça do meio esticou a mão: ajuda moço. Ajudei a se levantar, caminhamos uns vinte passos, em que ela perguntou meu nome, eu o dela – Stephany (a grafia fica por minha conta) – e ela pediu desculpas pela interpelação – falou que trabalhava com venda de assinaturas de revistas, então tinha essa facilidade para falar com pessoas. Nos despedimos com um aperto de mão, ela voltou com as amigas, eu segui meu caminho, sem entender muita coisa, achando que poderia ser diferente – ou não. Na Augusta, os bares cheios, como convida a sexta-feira. Duas garotas de programa conversam encostadas em um carro, enquanto esperam a abordagem de algum possível cliente. Uma delas bebe todinho de caixinha. Em frente a um empreendimento imobiliário estacas de madeira preservam a grama e reservam espaço mínimo para pedestres. Mas Las Jegas, só pelo nome. Imagino do que trata a conversa do grupo de rapazes que passa por mim – e concordo, Las Jegas é nome que dá todas as interpretações dúbias possíveis a um inferninho. Na esquina com a rua Fernando Costa, descubro que estou com os reflexos bons, ao me desviar de um cruzado desferido por um rapaz, que explicava ao seu amigo que fica para lá – o que eu não sei, mas era na direção do meu queixo. Ainda mais pessoas falando em inglês. Encontro dois amigos. A amiga me cumprimenta passando a mão em meu cabelo: só te conhecia cabeludo, todas tuas fotos são com cabelo, você fica estranho assim. Penso em minha mãe: deve ter se sentido vingada das vezes que fiz esse tipo de agrado nela. Um deles está procurando casa – e isso pode significar que eu procure novo morador para minha república em breve. Um morador de rua muito bêbado me aconselha: ó!, ó!, juízo! Nem precisava, tem horas que acho que juízo tenho demais. Em casa, mais relaxado após a caminhada (quase três horas), me vejo restabelecido para estudar. Opto por escrever esta crônica.

São Paulo, 18 de janeiro de 2013.