quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Meia ópera e um teco de São Paulo

Apenas havia visto, no sábado, que haveria ópera do Villa-Lobos, no Teatro Municipal, esta quinta, nas comemorações dos noventa anos da semana de arte moderna de 1922, e resolvi comprar o ingresso. Vi o título – Magdalena –, não a conhecia, não fui atrás de me informar. Comprei o ingresso mais barato – porque as contas na capital andam ariscas –, e me dispus a aproveitar São Paulo naquilo que não tinha em Campinas.

Talvez eu devesse ter assistido à ópera sem ter lido antes a apresentação. Ou talvez devesse ter lido sobre a ópera antes de ter comprado o ingresso – e deixado para conhecer o Municipal em outra oportunidade: Magdalena é uma ópera-musical, ou musical-opéra, feito especialmente para a Broadway, em 1947.

No intervalo, já não sendo grande fã de ópera – dia desses ouvi Iris, de Mascagni, e essa eu gostei!, ao menos de ouvir –, cansado daquele pot-pourri (ou remix, se for usar um jargão mais modernex) de Villa-Lobos feito por ele próprio, com um libreto muito fraco, e com coreografias até que bacaninhas, mas bem no estilo musical, decidi ir embora - ouvir Vivaldi ou Dirié, que ganhava mais. Em casa, mais tarde, li o resumo da ópera, e vi que o chavão que se desenhava era de fato o que aconteceria.

Era pouco mais de nove da noite. Cheguei ao Anhangabaú e resolvi ir até a República, para não ter que fazer baldeação. No meio do caminho, decidi dar uns giros por aquela região central de São Paulo, desta feita sem a companhia do Cássio, como sói acontecer. Decisão não digo sábia, mas a única a ser tomada, uma vez que me perdi e não achei – senão bem mais tarde – a praça da República:: São Paulo não é uma cidade racional.

Nas calçadas, sacos de lixo e pessoas se amontoavam – dali a pouco devia ser hora do lixeiro passar. Achei curioso, talvez pelo guarda-chuva pendurado no ombro, não sei, ninguém me ter me abordado para pedir dinheiro – quando caminho com o Cássio, mais ou menos na mesma hora, invariavelmente alguém nos pára, mesmo que tenhamos dado uma volta rápida. Passo por prédios ocupados pela FLM (Frente de Luta por Moradia). Passo por prédios desocupados, e que mereciam um fim mais nobre: não apenas serem ocupados, mas serem de fato resididos – por pessoas como as que militam no FLM, por exemplo, cujo interesse vai ao encontro do da cidade. Do outro lado da Av. São João, um grande grupo de moradores de rua: auto-proteção? pedra? sopa?

Reparo que se seguisse em frente, a avenida ermava, resolvo dobrar uma rua um pouco mais movimentada. Passo por um restaurante aparentemente chique – ao menos guardava um ar portenho –, e logo me deparo com o Largo do Arouche, ao menos com a placa – porque depois, vendo no mapa, noto que mal tangeciei o famigerado Largo. Me vêm à mente a música do Criolo, "Freguês da meia-noite": Em pleno Largo do Arouche, em frente ao Mercado das Flores, Há um restaurante francês. Não sei por quais quebradas me meto e logo estou frente a frente com o Elevado Costa e Silva – o Minhocão. Me sobe aquele medo na espinha, fodeu – talvez o nome daquele monstro citadino seja uma justa homenagem ao assassino que governou o Brasil de 1967 a 1969, deveriam fazer outras do gênero. Por qualquer mania que tenho, decido não voltar pelo mesmo caminho; viro à esquerda, e na segunda rua, vendo que há um grande número de transeuntes, entro nela, na esperança de dar com algum lugar conhecido. Pessoas malham numa academia, carros passam, travestis caminham para seus pontos. Dois mendigos conversam, sentados na sarjeta: quem tem medo de cagar não come. Olho para trás, tenho vontade de voltar e cumprimentá-lo pela frase, quem sabe até lhe dar um dinheiro – quanto custa um livro de auto-ajuda? Não o faço e me arrependo depois: quem tem medo de cagar não come, posso ter perdido alguma outra pérola do homem. Que não tivesse outra, essa valeu a noite. Depois de errar outra entrada, ao invés de entrar na Consolação, acabo na República. Só dali chego à Av. da Consolação.

Contorno a Praça Roosevelt e subo a Augusta. Um homem me chama, que tal tomar uma breja com a mulherada. Agradeço. Domingo, quando passei por lá, voltando da casa do Cássio, imaginei como não seria a tal mulherada, a se tomar como base as que estavam na porta. Nesse mesmo domingo, exatamente ao lado, por conta de um barzinho, uma grande aglomeração de adolescentes e jovens vestidos de preto. Duas belas garotas gargalham, e quase esbarram no mendigo que dorme ao seu lado.

Quinta é diferente, ou ao menos a hora ainda não é apropriada, não há jovens darks e emos ao lado do inferninho, e os mendigos ainda não se aconchegaram sob as marquises. Sigo em meu passo rápido – se tem uma coisa que sou paulistano de nascença é a velocidade de caminhar, principalmente se estou sozinho –, mas logo preciso parar: um mendigo pede dinheiro pra pinga para três jovens que descem em direção ao centro, e os quatro ocupam toda a calçada. Não lhe dão atenção, e eu passo assim que possível. Obrigado de qualquer forma, desculpa o incômodo. Parece que pedir dinheiro pra pinga é a moda entre pedintes. Me soa hipócrita: uma garrafa de pinga custa R$ 3,00, não precisam esmolar tanto se é pra beber. Mas esse o segredo para sobreviver numa sociedade hipócrita: diga o que querem ouvir que lhe darão dinheiro. Se disser que é pra comida, vão dizer que está mentindo, se for pra cigarro... melhor que beba, porque cigarro faz mal.

Passo por um rapaz que parece o Mário (não, não é uma piada para perguntar que Mário), duas vezes calouro meu na Unicamp. Qual enésimo curso terá ele começado (ou recomeçado) este ano? Num bar, um homem usa uma boina, que não controla a vasta cabeleira encaracolada, grisalha e desagruvinhada, metido numa espécie de manto colorido. Parece saído de algum filme B que passa à tarde, sobre vagabundos nas florestas da Inglaterra – faltou uma flauta. Lembro da discussão que tivera com o Cássio, há quatro dias, e me pergunto uma vez mais: quem não está fantasiado? Que não está encarnando uma persona na cidade? Num dos inferninhos mais acima, ao invés de mulheres semi-nuas, homens sem camisa e com salientes barrigas descarregam cerveja – e recordo questão que pusera ao Wlad, há um tempo: por que todo maitre de inferninho precisa lembrar o Ratinho?

Caminho um pouco mais e cruzo com outro homem que soa conhecido, esse lembrando algum ex-colega de escola, de Pato Branco – era o Norton ou o Pelicano? Um homem em roupas psicodélicas expõe seu artesanato na calçada, está com óculos escuros: enxerga alguma coisa com aqueles óculos à noite? O Cine-Unibanco ainda não terminou de ser fechado. Quase chegando na Paulista, reparo de canto de olho um rapaz que vem na direção contrária hesitar. Por fim, acaba me abordando, já quando estamos lado a lado. Amigo. Tarde demais, não diminuo o passo e finjo que não ouvi, concentrado que estou na minha futura crônica.

Desço a Haddock Lobo. Pela hora, não tenho esperanças de encontrar com nenhuma Flávia que lembre a Carla Bruni. E realmente não cruzo com ninguém. No barzinho da esquina de casa havia uma mocinha bonitinha, mas não se parecia com a Carla Bruni. Em casa estão o Hugo e o Gabriel.


São Paulo, 23 de fevereiro de 2012.

ps: ao entrar no sítio da FLM [www.portalflm.com.br], desconfio que o grupo que se ajeitava sob a marquise, do outro lado da Av. São João, devia estar em busca de auto-proteção, mesmo.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Política ou polícia: as tais “lições de democracia”, novamente na USP.

Neste domingo de carnaval, 19 de fevereiro de 2012, mais uma vez a Tropa de Choque da Polícia Militar de São Paulo tomou a fresca da madrugada na Universidade de São Paulo [http://j.mp/yd0p10]. Chegou às cinco horas da manhã para desocupar meia dúzia de saletas que há quase dois anos eram ocupadas por estudantes que reivindicam aumento de vagas na moradia estudantil – o CRUSP –, distribuindo democraticamente violência, inclusive deixando sua marca em uma mulher grávida. Diz a polícia que apenas se utilizou da força necessária para se defender. Para uma polícia com longa lista de "mortes em conflito" e acusações de violações de direitos humanos, podemos deduzir que bala de borracha seja coisa leve.

Contrariamente à ocupação da reitoria, em novembro de 2011, não havia nenhum motivo que pudesse ser alegado “forte” para desocupação do prédio: o Moradia Retomada, definitivamente, não atrapalhava em nada as atividades burocráticas, administrativas ou pedagógicas da universidade. Não eram vagabundos, baderneiros, maconheiros, irresponsável, pelo contrário: conseguiam uma organização, e tinham um senso de responsabilidade – individual e coletivo – que a USP tem se mostrado falha em muitos aspectos. Mas a lei é a lei, dirão alguns, defensores da ordem e do progresso, ignorando que se a lei fosse a lei para sempre, a escravidão ainda estaria em vigência, e não teríamos tido FHC, Lula ou Dilma na condução do país, e sim Dom Luís Gastão Maria José Pio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orléans e Bragança e Wittelsbach – apesar que, com o pensamento político visceral que parece ser a regra hoje nestes tristes trópicos, muitos devem encarar esse futuro do pretérito como virtuoso.

Como no Brasil o que temos é um arremedo de segunda linha do programa Renda Básica Cidadã (ou Renda Mínima), vinculado ainda ao que (não) ganha uma pessoa, o auxílio estudantil se torna um imperativo não apenas do ponto de vista individual, como do próprio critério de excelência acadêmica: alguém preocupado com onde morar, ou morando precariamente, tende a ter dificuldades para se concentrar nos estudos. Inclusive nesses ranqueamentos que mídia e academia de país subdesenvolvido adoram, índice de desistência do curso é algo levado em conta.

Não é demais repetir, entretanto, que a universidade pública brasileira – as paulistas acima de tudo – é feita pela elite e para a elite, para a perpetuação da elite. Os órgãos de assistência à ciência, idem. Pretendo tratar em mais detalhes deste assunto em crônica posterior.

Na semana anterior foi noticiado parceria entre USP e SPTrans, para que haja um circular que faça o trajeto USP-Estação Butantã do metrô gratuitamente para alunos e funcionários. Primeiro aspecto a ser lembrado: originalmente deveria haver uma estação de metrô dentro do campus, ela não existe porque a universidade vetou – não imaginemos que seja um disparate de uma burguesia burra e preconceituosa as reações contra as estações em Higienópolis ou no Morumbi. Segundo ponto: já que a estação fica fora do campus e haverá uma linha que fará a ligação direta entre esses dois pontos, por que não estender a gratuidade a todos os que desejam ir até a USP, seja para pesquisar, para usar a biblioteca, para vender artesanato, para catar latinhas, para passear, para ir ao MAC? No que custará a mais para USP ou SPTrans cinqüenta pessoas ao invés de dez num ônibus? Contudo, sabe-se bem quanto custará a mais para essas pessoas. Isso para não falar no aspecto simbólico: apesar de não ser inibidor dessas pessoas sem direito legal ao templo sagrado do conhecimento freqüentarem-no, ter que pagar a integração com o ônibus, ou mesmo fazer uma caminhada de vinte minutos para chegar à USP, serve para deixar claro que não são bem vindas. Lugar de povo é na cidade; na USP, acadêmicos e pessoas em seus carros, em trânsito para os bairros nobres que a cercam.

Volto à questão inicial, a nova ação do Choque na USP. Ou melhor: a nova ação do Choque em ação de contestação política. Já é assustador notar que se trata de política deliberada – política de governo – do PSDB paulista massacrar (não, o termo massacre não é pesado) qualquer contestação política e social que não seja feita nas instâncias “apropriadas”: via representantes nas casas legislativas – nas quais, diante das manobras e dos acordos entre cavalheiros que ocorrem a rodo, contestações ou são abafadas, ou são risíveis. Ainda mais aterrador é esse padrão se repetir com tamanha naturalidade na USP, teoricamente centro de excelência da ciência e do pensamento tupiniquim. Apesar de não ser o reitor mais votado – Serra escolheu o segundo na lista tríplice –, Rodas recebeu votos: possuía apoio, portanto, quando assumiu o cargo. E ainda que seu apoio seja precário – e ele e seu grupo o administra muito mal –, houve poucas manifestações contundentes e em peso dos seus pares – professores da USP – pelas atitudes que vem tomando – desmandos que vão bem além da questão da ação policial.

Não se pode chamar Rodas de fascista, simplesmente – até porque o fascismo é um fenômeno político bem delimitado na história –, mas as semelhanças que ele guarda com o movimento do início do século são evidentes, e coadunam com a idéia de universidade defendida pela elite ilustrada e pela Grande Imprensa: o tecnocratismo levado ao extremo da negação radical da política – via perseguições internas ou via polícia. A passividade dos professores apenas reforça essa impressão. Não se trata aqui de encampar o tosco discurso “quem defende a universidade não deve ser punido”, afinal, não há um absoluto do que seja a defesa da universidade, mas saber que dissenção é parte da política e da ciência – goste-se ou não, ambas estão fortemente vinculadas. Assumir o debate e a negociação – que não devem ser confundidos, o primeiro com o é assim, entendeu?, a segunda com você faz do meu jeito e estamos todos bem – é fator vital para o crescimento da própria universidade, e até, quem sabe, para uma futura inserção de fato desta na vida quotidiana do país – inserção essa, espero, que não seja para calcular o gás mais agressivo sem ser letal, se é que ser letal de vez em quando não caia bem, a depender sobre quem.


São Paulo, 20 de fevereiro de 2012.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Sta. Cecília - Luz - Liberdade - Paulista

Combinei de encontrar um desconhecido às 13h na estação Santa Cecília. Ele vinha de Barão e tinha um presente que uma amiga me dera: babosa – desde que a Anvisa proibiu a comercialização de derivados da planta, anda difícil achar o concentrado que tomava, e o último que encontrei estava com ágio de 50%. Me entregou o pacote e fomos a um restaurante ali perto, almoçar e conversar um pouco – brasilianista, faz doutorado e é professor (no sentido português do termo) na Universidade de Nova Iorque. Conversamos sobre São Paulo, viagens e algumas questões acadêmicas, políticas, marxistas – ele conhece meu orientador da monografia.

De lá fui à Pinacoteca do Estado, onde vi as exposições de Eliseu Visconti, Joaquín Torres Garcia e “Percursos e Afetos – Fotografias, 1928/2011” – a única que realmente me interessou, em especial as fotos do fotógrafo Boris Kossoy –, além do trabalho Mausoléu, de Carlos Bunga, que me trouxe algumas reflexões.

Da Pinacoteca, aproveito o ensejo para saciar minha índole consumista, e dou um passeio pela famigerada região da Luz, em busca de um fone e uma extensão para ele, na Santa Ifigênia. Antes, uma rápida volta pelo Parque da Luz, que eu nunca tinha ido – me lembrou o passeio público, em Curitiba, mas não tão bem cuidado.

Cruzo a Estação da Luz, o piano, como sempre, sendo tocado, com uma pequena platéia em volta – não páro, e de passagem não consigo identificar o que está sendo tocado. Do outro lado, noto menos mendigos à porta da estação - mas seguem lá. Enquanto transito pela região, não tem como não lembrar do polêmico projeto da Nova Luz e seus últimos desdobramentos: a política higienista para limpar a área dos nóia e do populacho, para deixar o terreno livre à especulação imobiliária. Dizem que se trata de "revitalizar". Realmente, há locais ermos e mortos, mas em uma boa parte possui vida – e muita – pulsando nas ruas. Passeio pelas galerias da av. Santa Ifigênia, em busca dos tais fones, mas pensando que eu bem poderia ter dinheiro pra comprar umas câmeras de segurança pra fazer o filmete que uma vez tive idéia – a câmera de segurança apenas pela questão estética. Noto que se coço a barbicha ao entrar nos locais me abordam com mais freqüência: abandono o expediente. No caminho, uma senhora trova um policial militar, que a trata de uma maneira bem diferente da imagem que a PM paulista tem conseguido passar – conversam sobre o Big Brother, se bem entendi. Na loja onde vou comprar o fone, a mulher conversa sobre seus planos de fazer lipo e pôr silicone – com o médico da Mulher Samambaia, sabe. Comenta que já teve dois filhos, agora pode se dedicar a isso. Seu interlocutor diz que tem um contato melhor, que ao invés de 16 faz tudo por 12 mil, e ainda parcela em seis vezes.

Saio da Santa Ifigênia, pela Av. Ipiranga chego à São João. Ali páro pra tomar um mate e descubro onde comprar erva-mate argentina – a um preço nada argentino. Não compro porque acredito ainda ter um pacote na casa dos meus pais. 

Meio perdido de onde estou – sei que em algum canto eu devo dar na Consolação, que vai dar na casa do Cássio –, decido tentar chegar à Sé, como sempre. Sigo em frente e me deparo com a Galeria Olido, ao lado a Galeria do Rock, que uma vez entrei e nunca mais achei. Desta vez não acho a camisa do Paraná Clube a preço interessante, mas descubro que ela fica bem mais perto da Sé do que eu imaginava – e saio de lá desconfiado de que da próxima vez vou ter dificuldade em encontrá-la de novo, se não pesquisar no mapa antes.

Já no centrão de São Paulo, me vem aquele espanto de sempre: como a cidade é bonita! Ao menos enquanto tem gente – e acho que é isso que faz a beleza de São Paulo –, pois a vez que passei ali já depois do expediente, soava quase uma cidade deserta, não era bonita. Decido ir até o Patéo do Colégio – nunca passara por lá. No caminho, uma pedinte, já com mais de sessenta anos, cabelos brancos, me chama atenção pela beleza e garbosidade. Atrás da Sé, enquanto espero o sinal pra pedestre abrir, um homem berra num megafone que foi roubado pelo Bradesco, isso pode acontecer com você também. Uma prostituta compra café de um vendedor ambulante de bolos e afins.

Na Liberdade, entre a Galvão Bueno e a São Joaquim, uma mocinha, seus dezessete, dezoito anos me abora, está vendendo canetas. Já a imagino voluntária de alguma instituição de recuperação de drogados. Na verdade é voluntária do CAIC – não, não se trata da escola inspirada nos CIEPS da dupla Brizola-Darcy Ribeiro, e sim de uma instituição que quer salvar os valores da família. Não, obrigado, não concordo com os valores da família – lembrei da minha babosa na hora: será que em breve serei eu um novo drogado a atentar contra os valores da família e da sociedade? Quer dizer que não concorda com os valores normais? Então tá, e já se vira para oferecer caneta a outro passante – me arrependo de ter sido tão breve, poderia ter enrolado um pouco mais a moça, só para deixá-la em contradição.

Passo pelo Centro Cultural São Paulo, ver a programação. Na entrada, um homem me lembra o Hugo, que mora comigo, mas um pouco mais maduro – na casa dos seus trinta anos. Descubro a parte de teatro que está fechada para reforma. Presencio a cena de um senhor em “roupas de aposentado”, que dava pinta de morar pela região do Paraíso, Aclimação, jogando xadrez com um hippie – um fazedor/vendedor ambulante de artesanato.

Atravesso a ponte da 23 de março. Pouco à frente, rio com um namorado que beijava insistentemente sua garota, e dá uma pequena pausa, apenas para ver se não vai trombar em poste algum e se depara com uma loira bronzeadíssima, de belas formas que andava na minha frente, e não consegue disfarçar a olhada. Antes de voltar aos beijos insistentes na namorada, ainda a observa de rabo de olho. Espero o sinal abrir para atravessar a rua e chegar, finalmente, à Paulista. Dali escuto de algum canto sinos badalando as dezoito horas. Uma madame, num carrão, acompanhada de um homem e um cachorrinho, resolve não esperar pelo próximo sinal e pára em cima da faixa de pedestre. Me dou conta de que só corro perigo se a mulher estiver disposta a sacrificar seu carro, não acredito na hipótese, e enquanto serpenteio pelo carro pra atravessar a rua, singelamente a cumprimento com o dedo médio – tomo apenas cuidado para ver se não vai mesmo jogar o carro pra cima de mim, não presto atenção em nada mais dela: uma boa desfeita deve ser feita sem se preocupar com a reação. 
 
Atravesso a Paulista quase inteira, desço a Haddock Lobo, cruzo com algumas mulheres bonitas no caminho, nenhuma parecida com a Carla Bruni.

São Paulo, 15 de fevereiro de 2012.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Da USP à Paulista

Um amigo meu, o Wlad – que é também meu editor, diga-se de passagem e sem propósito outro que disfarçadamente dizer que em breve lançarei um livro –, pediu pra dormir aqui em casa: tinha reunião de serviço e depois iria para uma festa na FAU-USP. Me chamou pra ir junto (à festa), o que aceitei sem muito titubear – até porque era recepção aos ingressantes, e eu poderia conferir in loco o que estava perdendo, por ter ido, como sempre, mal na prova de aptidão.

Não chegou a ser uma “festa estranha com gente esquisita”, como o Festival de Apartamento, ao qual eu fora – o Wlad também – no final de semana, em Campinas. Na verdade, estava uma festa universitária banal, com o diferencial de que tocava uma banda ruim e havia alguns cartazes, fora Rodas, fora PM, GREVE! A outra diferença, mais marcante, foi não trombar com ninguém conhecido lá – o Wlad ainda encontrou dois, que estavam trabalhando no bar. Uma sensação estranha, que a mim incomodava, e o Wlad tentava encarar com a receptividade dos velhos tempos. Tentava, mas não conseguiu. Nem duas horas depois de chegarmos, tomávamos o caminho de volta: que tal flanar pela Paulista e Augusta, convidou-me. Convite que aceitei de pronto.

Descemos na estação Consolação. Na plataforma de embarque, uma mulher na casa dos seus trinta e poucos, muito elegante – de uma elegância que lhe assentava muito bem – passou por nós. Não havíamos sequer saído da estação quando cruzamos com duas gurias bonitas. Na rua, mal adentramos a Augusta, um mendigo anunciava, Acabou o show, agora é hora d'eu ir catar lixo. No caminho, um rapaz, acompanhado de mais dois, nos abordou pedindo dinheiro pra pinga – não vou mentir que é pra comer. Demos, por conta até da inferioridade numérica – apesar do tom não ter sido ameaçador. Mal passaram por nós, dois PMs atravessaram a rua em direção a eles – e de outros dois que estavam na mesma calçada que nós. Fodeu, lá vem truculência, pensei. Os três seguiram seu caminho sem titubear e a polícia não os incomodou. Eu, em compensação, não tive como não deixar escapar um puta, que medo!, diante de uma metralhadora que um policial entregava a outro. Que ignorância, comentou meu companheiro de passeio, pouco depois. Uma breve pausa num bar, gol!, onde assistimos ao segundo tento do Palmeiras. Prosseguimos. Mais à frente questionei: as pessoas que faziam ponto ali, eram mulheres ou travestis. Dúvida compartilhada pelo Wlad.

No caminho de volta para a Paulista, uma prostituta nos avisou que a Augusta termina naquela esquina. Também nos contou que fazia direito e que queria ser promotora: nada é pro curto prazo, é preciso ser persistente. Mais pedintes – esses sozinhos –, pessoas se apertando nas áreas para fumantes dos barzinhos, três baianos – a acreditar no sotaque e na camisa de um deles – nos pararam para pedir informação, aqui ainda é a Augusta, uma garota que esperava o ônibus, e do outro lado da rua um rapaz munido de guitarra e amplificador tocava um pop-rock romântico qualquer – tenho a impressão de que não daria certo, a moça estava suficientemente irritada ao celular, e alguém pra atrapalhá-la era tudo o que ela não devia querer.

Na Paulista, um mendigo dormindo não com o cofrinho, mas com a bunda exposta. Sob o vão do MASP, dois carros da PM estacionados; próximo a eles, num canto, um homem vendia artesanatos. Se punha ao lado dos seus produtos, peito estufado, como orgulhoso da sua mercadoria. Questionei ao Wlad expunha, vendia a quem, se praticamente ninguém passava lá àquela hora. E não seria louco de vender drogas na cara da polícia, se acaso aquilo fosse só um disfarce – não parecia. No meio do caminho, o Wlad ainda encontrou um conhecido da cidade dele, que interrompeu sua manobra de skate para convidá-lo para uma festa do vinil em Socorro. Cola lá, leva as bolachas!

Passamos no mercado e voltamos para a Augusta – agora mais movimentada –, comer um pedaço de pizza. Diante da frieza da rede de fast-food, nos animamos mais com uma “pizza de padoca” de um bar. Um homem ainda não bêbado, mas já suficientemente chato, insistia que a cerveja estava quente: molha e põe no freezer, junto com aquela que você vai beber depois. Ali terminamos com poucas palavras a última conversa que vínhamos tendo, sobre questões existenciais e afetivo-existenciais.

No caminho de casa, na parte de auto-atendimento de uma agência do Itaú, três mendigos dormiam o sono dos justos (zelado pelo vigia do banco?). Na FAU, a festa era prometida até às cinco.


São Paulo, 09 de fevereiro de 2012.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Vamos salvar o mundo? As sacolinhas de mercado e a consciência pseudo-ecológica.

Por um lado é curioso: a decisão dos supermercados de abolirem as sacolinhas plásticas cria um ar anos 70, quando as donas de casa iam às compras levando de casa suas sacolas, seus carrinhos de feira. Havia, claro uma diferença significativa: nos anos 60, 70, utilizava-se tal método porque as tais sacolinhas plásticas eram inviáveis, e não por consciência ecológica, como hoje – a acreditar no que dizem.

Mas, chato desconfiado que sou, aposto meu mate de domingo que o discurso ecológico é apenas uma forma politicamente correta de lucrar mais. Não tanto pelo que os mercados economizarão na confecção de sacolinhas: desconfio, pela forma como eram utilizadas, que seu custo seja irrisório para uma grande rede – ou então já teriam orientado os funcionários a utilizarem-nas racionalmente. Há a loja de uma rede, em Barão Geraldo, cujos empacotadores costumavam pôr em média dois a três produtos por sacola.

Aos dias de hoje, do politicamente correto e economicament rentável: na entrada do mercado carrinhos com suas sacolinhas ecológicas acopladas a R$ 39,90. Se não for o caso de sair passeando de carrinho pela cidade, apenas as sacolas ecológicas custam R$ 0,90 – talvez você precise duas ou três, a depender do tamanho da compra, ou, se achar que esse acréscimo nas compras não compensa, pode voltar amanhã, o mercado agradecerá. E se nessa próxima vez, caso esqueça a sacolinha ecológica comprada da última vez, compre novas sacolas ecológicas – nem que seja para carregar três ou quatro produtos.

Vi ontem, na tela de outro mercado, enquanto esperava minhas vez no caixa, o argumento de que sacolinhas plásticas não eram aptas para receber lixo orgânico e único – coisa que as sacolas plásticas vendias pelo mercado, certamente feitas de um material especial, feitas com amor, o são. Não tardará muito e a imprensa fará saber que reutilizar sacolas ecológicas não é bom para a saúde, pois tais sacolas ecológicas acumulam fungos e bactérias: o negócio é trocar toda semana, quem sabe em freqüência maior.

Enquanto cobram dos consumidores (pela) consciência ecológica, nas gôndolas, o que se vê é o contrário. Compro duzentos gramas de queijo fatiado em uma bandeja de isopor. Mesmo que queira em peça, ela virá embalada no seu microfilme com isopor – quando uma embalagem de plástico bastaria. O meu velho exemplo do chá em saquinho, esse persiste: são dois plásticos e uma caixa para garantir a assepsia do saquinho com 10g de erva – se muito. Na lanchonete do mercado, canudinhos em embalagens individuais, e dois guardanapos envolvidos por um plástico nos garante que não foram contaminadas por mãos alheias. Porque o ecologicamente correto tem limites: nossa saúde. O que não tem limite são as oportunidades de lucro que esse discurso traz.

São Paulo, 30 de janeiro de 2012.

ps: detalhe: sou do que levam a própria sacola pro mercado já há meia década.


domingo, 29 de janeiro de 2012

Adeus, Campinas!

Finalmente me mudei, depois de dez anos no mesmo endereço – nove na mesma casa! Casa que nesse longo tempo foi ocupada por amigos, ex-amigos, ex-namoradas, marrecos, sabiás, lagartixas, ratos, gatos e por último, sapos. Ah, sim! E por pessoas desconhecidas, uma vez, que levaram duas caixas de bombom e um walkman antigo. 

Depois de dez anos de Campinas, cidade que cheguei maldizendo, que no meio do caminho criei não digo simpatia, mas tolerância – depois de ler o livro A cidade – Os antros e os cantos, do historiador Amaral Lapa, que me permitiu imaginar muito do que Campinas poderia ter sido e não é –, saí dela falando mal – mas com retorno combinado já para o próximo final de semana. Deixei a periferia pacata e rica (e ilustrada?) de uma cidade provinciana para morar perto da principal avenida de uma das cidades mais cosmopolitas do mundo – uma mudança brusca, e que eu sentia como sendo mais do que necessária.
 
Enquanto empacotava meus apetrechos, desempacotava lembranças – involuntariamente. Lembranças que simplesmente brotavam, ou então que eram despertadas por algum objeto – como um cedê da banda Zwan, mofado, que jazia embaixo de um monte de revistas que nunca mexo. Esse rememorar já havia começado antes, quando fora levar a um amigo minha bicicleta, há anos encostada, talvez justo pelas  recordações que ela pudesse trazer –  lembranças amargas de amigos que tentaram se matar, ou que conseguiram.
 
Na última noite de Campinas, chamei os amigos para uma festa despedida. Alguns apareceram. Parece que foi só então que me dei conta do que acontecia: naquele instante, mais do que um futuro prenhe de novidades, eu largava um passado pejado de possibilidades, mas que eu não soubera aproveitar. Me senti como Francoy, ao relembrar dos beijos que não teve de Beatriz: esse passado prenhe de possibilidades desperdiçadas era “algo como perder um dia de sol simplesmente por não ter achado a chave que abria a porta de casa”, ensimesmado por conta de alguma crise existencial, ou, mais comum, por não ter aonde ir para poder aproveitar o dia – o programa campineiro, shopping, convenhamos, não serve para aproveitar o sol, ou a lua, quando muito a chuva.
 
Ao se irem todos e eu ficar sozinho naquela casa vazia (de futuro), abarrotada por caixas cheias de livros e sentimentos, bateu uma sensação de nostalgia, de melancolia. Não tinha mais internet para fingir acompanhado na minha solidão, e o futuro do pretérito ressoava alto, a ponto de fazer esmorecer o futuro simples. 

Assim foi toda a sexta-feira. 

Ao aportar em São Paulo, numa noite fria, sob uma garoa fina, senti-me em casa antes mesmo de chegar no apartamento.


São Paulo, 29 de janeiro de 2012.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

PT, PSDB e direito humanos

Como não tinha laços afetivos com o PT, não tive problemas em aceitar que o partido não oferecia para o país uma alternativa de fato ao programa de modernização-conservadora posta em prática nos anos de tucanato no governo federal. Não precisei, portanto, fazer como muitos dos meus amigos, nutrir um ódio irracional ao PSDB para ter que justificar o voto no PT: não voto em nenhum dos dois, e em ninguém, diante do próprio arcabouço institucional que rege nossa política.

Por não ter aderido ao Fla-Flu PT-PSDB, sempre encarei ambos os partidos como primos – para não dizer irmãos (gêmeos?) –, que disputavam, via de regra, o mesmo eleitorado, o mesmo nicho, com pequenas nunces – importantes, mas não fundamentais. Ainda que PSDB caia para a direita, e PT, para a esquerda no espectro político; dentro dos partidos, a depender da corrente ou do cacique, o PT está à direita do PSDB. Para ficar apenas em um exemplo de como os partidos não possuem lá suas grandes diferenças: os programas de inclusão social postos em prática durante o governo Lula eram ações já defendidas por muitos adeptos do neoliberalismo, diante do desmonte do consenso de Washington: políticas compensatórias à massa de excluídos da bonança do capital financeiro, com o intuito de evitar eclosões sociais severas, que pusessem o status quo em risco.

Encarava como partidos próximos, mas preciso admitir, contudo, que desde a última eleição, quando Serra escancarou de vez a caixa de Pandora do pensamento mais reacionário do país, PT e PSDB começam a demarcar suas diferenças de modo mais significativo. Infelizmente, tais diferenças não se encontram no campo da economia, de programas para o país, ou mesmo em uma disputa para ver qual o mais moderno: tais diferenças têm se marcado no campo dos direitos humanos. A proposta de país é a mesma, a mesma modernização-conservadora, com alguma nuance mais desenvolvimentista aqui, mais liberal acolá, mas sempre se pautando num grande pacto com elites regionais de todas as nuances, no crescimento da produtividade e nas parcerias público-privadas – nova roupagem para as privatizações dos anos 1990.


Ainda que o PT não venha se mostrando um ferrenho defensor dos direitos humanos, na atuação da polícia e nos planos de segurança, fica evidente a diferença de tratamento para com as questões sociais, e isso não é de agora. Vale lembrar que durante os anos do governo FHC, como o governo não conseguiu cooptar o MST, o movimento passou a ser encarado como caso de polícia (mesmo de exército) – e isso foi posto em prática também por governadores aliados, como Jaime Lerner (então PFL), do Paraná, ou Antônio Britto (PMDB), do Rio Grande do Sul, com direito a assassinatos por parte da polícia.

As recentes ações da Polícia Militar paulista, uma polícia com boa reputação internacional no quesito desrespeito dos direitos humanos – vale lembrar que este anos comemoramos 20 anos do massacre do Carandiru que, dizem, matou 111 pessoas –, mostram uma vez mais a diferença entre os partidos: enquanto o PT tenta, pelas bordas, diminuir a força da PM via guardas-municipais (necessidade para aspirar a uma cadeira no conselho de segurança da ONU), o PSDB endurece a linha-dura, disposta a agradar parcela significativa da população que apóia o “atire antes, pergunte depois”, com base no precário silogismo “quem não deve não teme”.

Se na ação contra jovens de classe média, membros da elite intelectual-acadêmica do país (não necessariamente econômica, mas cientes de muitos dos seus direitos), Estado e polícia não tiveram peias em se utilizar de truculência, pode-se dizer que, diante do que ela está apta, para seus padrões, a PM paulista agiu quase que com delicadeza nos recentes grandes casos (norme$ ca$o$) em que esteve envolvida, desta vez contra miseráveis que parte da população gostaria de ver exterminada: o expurgo da Cracolândia, a limpeza de Pinheirinho. Melhor não tentar nem imaginar como ela não atua diariamente, em casos isolados, na periferia pobre, e melhor fingir acreditar que as rebeliões nas cadeias acabaram mesmo, e que isso se deu por convencimento na base do discurso-racional aos presos e ao PCC.


Campinas, 24 de janeiro de 2012.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Luiza está na mesa, o BBB está no ar

Não sabia da história de “menos Luiza, que está no Canadá”. Devo culpar meus contatos no facebook, que passam o dia a compartilhar coisas dos mais diversos matizes, de denúncias sérias, artigos bons, a piadas de segunda, denúncias furadas e bobagens mil, e deixaram passar essa. Foi só hoje pela manhã, quando pipocaram nas atualizações dos amigos vídeo com Carlos Nascimento, no Jornal do SBT de ontem (19), que fui ver do que se tratava – isso após alguém ter comentado que era bom dar certa liberdade aos âncoras, feito por algum amigo que certamente não ouve BandNews FM, com o Boechat enchendo a voz para soltar diariamente seu senso comum de classe-média-fascistóide-indignada travestida de opinião séria e independente.

Assisti ao vídeo do Nascimento. Fui, então, atrás do que ele se referia: a reportagem no mesmo dia 19, no Jornal Hoje, e a propaganda em que era dita a famigerada (dizem) frase “menos Luiza, que está no Canadá”. A propaganda, de um apartamento de alto-padrão (alto-custo, para sermos corretos) em João Pessoa, é banal e boçal: não tenho dúvidas que a frase se encaixa bem melhor no contexto do comercial do que o apartamento no contexto urbano. A reportagem da rede Globo é constrangedora: conseguiram utilizar quatro minutos do jornal do meio-dia para falar abobrinhas quaisquer sobre Luiza, e o fato de ser a última notícia mostra a que veio: para ser o assunto comentado da edição – espectadores de tevê, pelo próprio meio, têm memória curta, vão lembrar mesmo da última notícia antes do intervalo.

Dito e feito, textos sobre o caso do estupro no BBB, que jorravam como o ouro a sair da bolsa de Peter Schlemihl, desapareceram. Que não tenha havido estupro, isso é de menos, a oportunidade de seguir discutindo problema seríssimo estava dada. Entretanto, a polêmica em torno do programa da Globo – e a conseqüente discussão sobre o estupro – estava encerrada, a questão agora era Luiza, que voltou do Canadá e foi notícia no Jornal Hoje. E no sistema da indústria cultural, funcionando justamente como sistema, até mesmo a crítica serve positivamente àquilo que teoricamente está depreciando.

Me irrito com minhas crônicas conclusivas – até porque, dizia Pessoa, a única conclusão é morrer –, porém me parece evidente que a Globo sabe se mexer no terreno da comunicação de massa, para muito além de televisão e seu portal na internet. Redes sociais incomodam, podem até acabar impondo uma pauta ou outra, mas, no Brasil, quem ainda manda é ela. E não é o facebook que vai contestar seu poderio. Não é xingar muito no tuíter que mudará algo. É ocupar (de verdade e não só a passeio) a rua, o espaço-território, real, o que ainda tem força: a ocupação da USP pode ser tida como exemplo: se manteve em evidência por tempo considerável graças à ação radical – inteligente ou não, se mostrou oportuna – de alguns grupos extremistas.

Quem acredita no poder revolucionário da internet, das redes sociais, deve ver esta tirinha de André Dahmer:



Campinas, 20 de janeiro de 2012.

ps: não há erro de português no título.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Educação para salvar o Brasil da obesidade

Sempre que escuto os termos “bispo” e “escola” ou “educação” juntos n'A voz do Brasil (sim, acreditem!, escuto o programa com alguma freqüencia, principalmente os jornais dedicados às casas legislativas), me arrepio imediatamente e já me preparo para o pior. Felizmente não foi o que aconteceu quando escutei a proposta do bispo Crivella (PR-RJ). A intenção do senador é boa – educação alimentar nas escolas –, porém abusa da boa vontade e evita a raiz do problema: como um rabanete, escondido na seção de verduras e – a depender do senador – nos livros escolares, pode competir com o um BigMac, estampado em toda a cidade, em todo lugar, gritando a toda hora na televisão? Se o bispo Crivella tivesse assistido a Super Size Me, filme de 2004 de Morgan Spurlok, teria se dado conta de que sua proposta é inócua sem proibir a propaganda de alimentos industrializados – algo que os congressistas suecos fizeram já há um bom tempo.

Menos esperançoso das boas intenções, o senador Wellington Dias (PT-PI) resolveu tratar do maior problema de drogas do país da maneira mais sensata: no relatório final da Subcomissão Temporária de Políticas Sociais sobre Dependentes Químicos de Álcool, Crack e Outros, encaminhado ao executivo, propôs que fosse proibida a propaganda de bebidas com teor alcoólico acima de 0,5% – o que impediria a propaganda de cervejas e bebidas ice. A relatora do trabalho, Ana Amélia (PP-RS) se opôs à idéia: disse ela que a autorregulamentação, tanto das indústrias de bebida quanto das agências de publicidade, dão conta de alertar os problemas do álcool e evitar maiores danos aos cidadãos. Sem dúvida, a frase “se beber não dirija” acaba por ofuscar todas as gostosas da propaganda de cerveja vinculadas imediatamente antes. Inclusive poderiam começar uma outra, de eficácia equivalente, também voltada para o problema de violência no trânsito: “se for bater não dirija”.

Queria estar errado, contudo, aposto um BigMac com cerveja que a proposta do bispo Crivela passa, e a de Wellington Dias, não. Primeiro porque apela para a educação, essa grande panacéia brasileira; segundo, porque não mexe no sagrado direito de expressão das empresas de publicidade – as quais, junto com a mídia, não conseguem entender por que ainda não tem uma cláusula pétrea na Constituição garantindo esse seu direito. Afinal, proibir propaganda afeta não apenas o produto anunciado, como toda a cadeia de produção da imagem a ser vendida, em especial, as emissoras de tevê.

E não há porque proibir propaganda: a criança obesa, o adolescente com diabetes precoce, o jovem que volta da balada dirigindo embriagado e avança contra seis pessoas no ponto de ônibus, o pai de família que bate na mulher ao voltar do bar bêbado, tudo isso pode ser resolvido com educação – uma época dir-se-ia “amor”, mas vivemos num tempo mais realista.

Campinas, 18 de janeiro de 2012.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A garotinha do metrô


A garotinha não era feia – ou não deveria ser. Pelos dentes nascendo, devia ter seus sete anos, apesar do falar um tanto embebezado para sua idade, me pareceu. Entrou no metrô com a mãe e outra mulher, e se sentou bem defronte a mim, de forma que o breve trajeto que percorremos juntos pus-me a observá-la – até porque me chamava a atenção.
Não era feia – já disse –, talvez até pudesse ser uma criança bonita: olhos grandes, azuis, loira, gordinha (sem exageros) do estilo redondinha. Mas usava lápis de olho, batom que marcava bem (ou simulava) o contorno da boca, e devia usar mais alguns apetrechos de maquilagem que não constam no meu escasso repertório do gênero. Tudo isso dava a ela um ar de personagem de filme de terror, algo como Chucky, o boneco assassino. E não adiantava ela sorrir com as palhaçadas da amiga da mãe, tudo aquilo de maquilagem – que quem sabe na mãe não desse um ar sexy – a ela emprestavam um quê de sádico e alheio.
Me lembrei das pinturas medievais, nas quais se representavam crianças como mini-adultos, ou mesmo nas de Paula Rego, em que crianças mini-adultos dava um ar de horror a cenas que aparentemente tendiam para festas. Ocorre que a garota nascera no século XXI, mais próxima de Paula Rego do que de Fra Angelico, e sua mini-adultice era horrorificante.
Ao sair do vagão, reparei que a mãe – loira como a filha – tinha as raízes escuras. Apesar da curiosidade, preferi não reparar de novo no cabelo da garotinha.

São Paulo, 10 de janeiro de 2012.

sábado, 24 de dezembro de 2011

A Grande Imprensa e o pseudo-combate à corrupção no Brasil

Renato Janine Ribeiro comentou em seu artigo no jornal Valor, de segunda (“Apurar até depois do fim”); Vladmir Safatle, no seu espaço na Folha de São Paulo, terça (“O inimigo da moral”); Maria Inês Nassif, na sua coluna do dia 22, quinta, no portal de notícias Carta Maior (“2011, o ano em que a mídia demitiu ministros. 2012, o ano da Privataria.”). Os três criticam a parcialidade da Grande Imprensa diante da corrupção no Brasil, e como essa parcialidade, a despeito da impressão de combate à corrupção, não altera em absolutamente nada o panorama, simplesmente porque a corrupção por ela denunciada é um subterfúgio para fazer proselitismo partidário disfarçado.

Maria Inês Nassif, em artigo na revista Interesse Nacional número 11, de outubro de 2010, comentava o fato da chamada direita (PSDB-DEM), carente de base social, ter a Grande Imprensa – ou mídia tradicional, como ela prefere – como tal base, encabeçando os ataques ao governo Lula. Já no governo Dilma, diante do esfacelamento da oposição com o surgimento do PSD, à imprensa coube todo o papel de oposição ao PT: ela assume, então, claramente, ainda que de maneira não admitida, o papel de veículo partidário.

A tática utilizada no correr de todo o ano para tentar desestabilizar o governo Dilma, um governo que teoricamente começou fraco – pela primeira vez o presidente era mais fraco que seu partido, como a própria Nassif assinalara quando Dilma ainda era uma possibilidade de candidata –, tratou de utilizar o que Renato Janine Ribeiro chamou de “tática de artilharia”: mirar um ministro por vez para derrubá-lo. O efeito, contudo, foi contrário ao esperado: Dilma conseguiu passar a imagem de intransigente com os corruptos, além de ter conseguido se tornar credora dos partidos da base aliada – como assinalou Nassif. Isso até o ministro-alvo ser Fernando Pimental, o primeiro da cota de Dilma.

A princípio esse denuncismo parece benéfico, preocupado em combater a corrupção. A forma de agir, contudo, soltando denúncias a conta-gotas e sempre direcionado – exceção a Haddad, que sempre merece uma lembrança, por não ter sido pego em caso algum de corrupção e pôr medo na oposição de perder a principal cidade do país –, é o primeiro sinal de que o interesse é outro.

Como em política, no Brasil, o suspeito é culpado até que se prove o contrário, uma campanha orquestrada pelos grandes veículos de massa tem um poder considerável. Entretanto, uma vez derrubado o alvo, logo a Grande Imprensa se volta para o próximo da lista, como se o caso estivesse encerrado: não tem qualquer preocupação em seguir com a apuração e confirmar se as denúncias são, de fato, procedentes, para, em caso afirmativo, mostrar quais os caminhos da corrupção – obra do sistema e não de um pessoa individualmente –, ou, em caso negativo, em fazer um mea culpa pela reputação manchada.

Mas não é apenas de leviandade: como comentou Safatle, não há sequer simetria na apuração dos casos de corrupção: a Grande Imprensa é extremamente seletiva no que fala, no que cala, no quanto e quando fala. Ele lembra que o esquema do mensalão, que ficou grudado ao PT, teve início no governo PSDB.
 
O assunto do momento é o livro do jornalista Amaury Ribeiro Jr., A privataria tucana, que, conforme Nassif, faz “denúncia fundamentada e grave” sobre o processo de privatização durante o governo tucano – cujo projeto político, junto com a redução do Estado, típico do receituário neoliberal, era de criar uma burguesia moderna, “escolhida a dedo por uma elite iluminada, e tecida especialmente para redimir o país da velha oligarquia, mas em aliança com ela própria”. A tentativa de ignorar o livro, num primeiro momento, a campanha de desqualificação do autor, depois, mostram que não se trata de uma obra desprezível – sem contar que acabaram por fazer propaganda ao livro, já esgotado.

O risco de um CPI a partir daquilo que o livro constrange a Grande Imprensa a moderar no seu apetite contra o governo Dilma: afinal, seu grande aliado nas últimas cinco eleições presidenciais, o PSDB, está no alvo, afora o fato de nunca se sabe aonde termina uma CPI – nem nós sabemos até onde se estende o quarto poder.

A conclusão dos três colunistas é basicamente a mesma: para combater a corrupção estrutural do Brasil, não adianta fazer denúncias para derrubar ministros, ou encarar toda denúncia como disputa partidária: é preciso levar as investigações adiante, em busca do que esquema que move, e não das pessoas que se aproveitam dele – e fazê-lo sem coloração partidária necessária.


Pato Branco, 24 de dezembro de 2011.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

O grande fiasco da Fuvest?

Quando li a notícia de que uma questão de matemática da Fuvest 2012 deveria ser anulada, comemorei: um ponto mais!, já que a havia chutado errado. E a vida continuaria, eu pensando que precisava começar a estudar pro vestibular, enquanto tentava agilizar o fim do meu mestrado, e organizar a próxima Casuística, não fosse o e-mail do professor da UFPA, João Batista do Nascimento – que tem se dedicado a organizar dossiês com falhas do gênero, sendo que só o do Enem tem 350 páginas –, me alertando para as implicações do “erro monstruoso” em um vestibular em que se tem três minutos para resolver cada questão.

Tendo me dado conta do quão prejudicial aos vestibulandos é uma questão mal-formulada, resolvi dar uma olhada mais atenta à cobertura do problema, e compará-lo com a do Enem: não houve editorial ou “formador de opinião” condenando a USP ou a Fuvest, reitor, governador. 

Tampouco houve repórter indo fazer a prova para ver as falhas de segurança da Fuvest, que são as mesmas do Enem – como pude conferir in loco. Muito menos a ação articulada da Grande Imprensa para a produção de factóides, como em 2010 [j.mp/cG14nv10] e em 2011, tentando criar a impressão de que falha sistemática de segurança e de organização – logo, de gerência e de credibilidade.

Questão anulada, falhas de segurança, problemas na identificação no nome dos alunos: estamos falando do Enem, seis milhões de candidatos; ou do vestibular para a mais rica e importante universidade do país, 150 mil candidatos, R$ 120 de inscrição?

A diferença de tratamento pela Grande Imprensa é tão evidente quanto o erro da questão anulada matemática para quem é da área: o grande problema do Enem é o fato do PT ser governo – bem avaliado, para piorar a situação –, com o agravante de Fernando Haddad ser pré-candidato à prefeitura de São Paulo, num processo de renovação de quadros do lulo-petismo que já culminou com a eleição da atual presidenta, e que não encontra similar na oposição, em que os novos nomes tem os velhos sobrenomes – num país cuja modernização-conservadora da política dos últimos oito anos conseguiu, ao menos, diminuir a importância da sucessão hereditária nos currais eleitorais: Magalhães, Maias, Richas, Neves...

Modernização-conservadora que na educação estagnou a principal tendência fernandista, de sucateamento da universidade pública e extinção do ensino superior gratuito – o tal “financiamento por aluno e não por instituição” que Paulo Renato já havia vaticinado. É certo que o PT conseguiu isso com afagos às fábricas de diplomas, mas o resultado foi, conforme a Grande Imprensa, “o inchaço da máquina pública” – e não alocação mal feita de recursos –, com contratações de professores doutores e funcionários – tudo por querer dar às universidade federais padrões semelhantes aos dos países de primeiro mundo, vejam a petulância do ex-presidente analfabeto.

O maior problema, contudo, é que este imbróglios com Enem e Fuvest apenas ocultam os verdadeiros problemas da educação brasileira: a estruturação de todo o sistema, a inadequação não apenas dos currículos, mas do próprio papel da escola para a sociedade contemporânea, a completa falta de prioridade na discussão séria sobre educação e cultura no país, pensadas simplesmente a partir dos seus rendimentos em testes ou na desova de mão-de-obra qualificada (qualificada para o que?, para quem?).


Campinas, 08 de dezembro de 2011.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Estimular as crianças


Dizem os livros de auto-ajuda pedagógica que é bom estimular as crianças desde cedo, para que se desenvolvam mais inteligentes. Uma pena que há mães que parecem seguir tudo o que dizem por aí, menos a parte boa dos estímulos.

O cartunista Angeli tem uma série que adoro: “duas coisas que eu odeio... e uma que eu adoro”. Numa das tirinhas, não lembro quais as duas que ele odeia, mas lembro a que ele adora: crianças hiperativas: no quadrinho, defronte a ele, uma criança alucinada, e ele pergunta: e chimpanzé, você sabe imitar? Lembrei dessa tirinha quando fiquei dez minutos dentro do ônibus, esperando dar a hora dele sair do terminal.

Uma menina, devia ter seus cinco anos (sou ruim pra chutar idade de criança), corria do fundo do carro pra frente e se pendurava na catraca, da frente pro fundo e pulava no banco, do fundo pra frente, da frente pro fundo... enquanto isso a mãe, mal-humorada e preguiçosamente, sentada num dos bancos da frente, mandava ela parar – no máximo, o que ela conseguiu foi que ela mudasse a rota: subia em um banco na frente, se pendurava na catraca, pulava em outro, no imediatamente atrás, subia na catraca...

Eu estava sentado no último banco, e a menininha, quando vinha para o fundo, pulava exatamente ao meu lado. Uma hora, tendo provocado algum barulho que não ouvi, ela parou, achando que havia quebrado algo. Interagi qualquer coisa com ela: está pesada, ein? Não, estou forte! UAAAH!!! E foi pra frente, onde mudou de rota, pulando um pouco pelos bancos daquela região, enquanto a mãe mandava ela sossegar. Foi nessa hora que lembrei da tira do Angeli e lamentei meu sempre lerdo raciocínio – principalmente quando na interação com outrem.

Ela, porém, resolveu voltar, e eu resolvi aproveitar a chance. Consegue se pendurar ali em cima? Perguntei, apontando para a barra de segurar. A mãe me olhou com cara feia nessa hora. Não, sou pequena. Me respondeu a guria. Tem que pular alto. Não dá, olha. E pulou – duas vezes –, demonstrando que não conseguia. Foi o suficiente, porém, para que ela, que já andava um tanto agitada, ficasse a mil, para irritação maior da mãe, que não deixou ela se sentar ao meu lado, quando o ônibus partiu, e teve, então, que aguentar ela pulando e a pentelhando durante boa parte da viagem – até o momento em que, finalmente, cansada de mandar que parasse, se dignou a se levantar, pegou ela no colo e a segurou à força.

Lamentei por ambos o fim da diversão, aquela mãe mal humorada, para quem o problema da filha saracotear no ônibus em movimento não era ela se machucar, mas ela estar enchendo o saco. De qualquer forma, descobri que Angeli tinha razão: pôr pilha em crianças já em estado de serelepice profunda é divertido – inclusive pra elas, que devem ter poucas oportunidades de um adulto dando corda. E a diversão ganha um gosto extra quando a mãe não gosta e em breve você vai descer, deixando que ela cuide da filha – que só queria brincar sem atrapalhar ninguém.

Campinas, 28 de novembro de 2011.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Quem tem medo das ruas ocupadas?

A internet tornou-se parte importante da arena política, isso é inegável. Uma mostra foi a eleição para presidência dos EstadosUnidos de Barack Obama, que soube fazer bom uso da rede, principalmente para arrecadação de fundos pra campanha. No Brasil, temos presenciado este ano reiteradas discussões – classificá-lasde “quente” seria eufemismo –, cuja repercussão tem reverberado muito além da internet: nos meios de comunicação tradicionais, como também foi responsável pela articulação do protesto “churrascão da gente diferenciada”, por exemplo.

De modo que a internet pode ser encarada como um paliativo – apresentado pelo status quo como suficiente – para a falta de legitimidade das instâncias representativas das atuais democracias – legitimidade aqui não no sentido legal, antes nosentido “moral” –, como dão mostras não apenas os índices de abstenções, votos brancos e nulos de eleições pelo mundo, como o efervescente ano de 2011, seus ni-ni espanhóis, estudantes chilenos, turba londrina, e por último o Occupy Wall Street – para não falar dos mimados-vagabundos-mascarados da USP e de Harvard, que invadem reitorias.

Os exemplos acima não foram ao acaso. O Brasil, até os recentes eventos da USP, curiosamente vinha num contínuo contra-fluxo, comper da de visibilidade dos seu principais movimentos sociais “de rua” – como MST e MTST. Na sociedade do espetáculo, um movimentode massa perder visibilidade implica quase necessariamente na perda de poder – serve de ilustração a grande disputa pelo edifício São Vito, em São Paulo, sinônimo de discussão sobre moradia popular e direito à cidade, que foi ignorado pela imprensa, e passou despercebido pelo respeitável público.

Me volto à mais aclamada das manifestações do ano, depois da primavera árabe, o Occupy Wall Street,que se disseminou por diversas cidades dos Estados Unidos e do mundo. O “Empty Wall Street” promovido pelo governo, com apoio da corte suprema do país, que declarou legal a proibição de acampar em locais públicos, deixou claro que a internet pode ser auxiliar na arena política, mas está longe de ser seu palco principal – que continua sendo a rua.

Comonos séculos passados, quem está com a rua está com o poder de fato, e as demonstrações desta semana mostram que não é preciso sequer estar armado. Buscou-se no discurso médico-científico a alegação do risco de doenças, e no discurso do medo (que já prescinde de cientistas) a necessidade de segurança, sob o pretenso aumento da violência (brigas, mortes, drogas), a legitimidade para ouso da repressão policial; sem precisar, assim, admitir que o verdadeiro motivo para o esvaziamento dos locais públicos é o fato da efetividade da representatividade democrática e desse poder descolado da população estarem sendo não apenas questionados, mas corroídos por algumas milhares de pessoas acampadas em uma ou algumas praças.

Retomo a discussão mais em evidência por estestristes trópicos, semana passada: por que a PM e não uma estação de metrô na USP?


Pato Branco, 16 de novembro de 2011.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Ordem ou conflito: democracia e a PM na USP

A parceria da reitoria da USP com a PM pode não ser, por princípio, nada benéfica para o ambiente acadêmico; contudo, a presença da PM no campus tem se mostrado, na prática, de grande interesse para sociedade, que fica conhecendo um pouco da principal universidade do país, e para a USP, que fica conhecendo um pouco destes tristes trópicos que a cercam. É evidente que o pretenso objetivo da PM no campus – coibir a criminalidade – não tem sido posto em prática – autuar estudantes com cigarro de maconha não soa inibidor de assassinos. Isso, porém, não é extraordinário: é dever do Estado zelar pela vida, como explicar a PM paulista ser responsável por 20% dos assassinatos da capital paulista, conforme dados do próprio governo [http://glo.bo/tQlaB2]? Por sinal, a morte do estudante da FEA ainda não foi bem explicada, e a explicação oficial – assalto – não foi bem digerida por boa parte dos estudantes – diante dos boatos que pairam, a não-solução do caso parece ser interessante para a reitoria.

Trato novamente das reações raivosas dos cidadãos de bem às atitudes radicais de uma minoria dos estudantes, que resolveram invadir primeiro o prédio da direção da FFLCH, o da reitoria da USP, depois.

Curiosamente, uma das grandes virtudes alardeadas do sistema democrático representativo liberal é a garantia de poder para as minorias (minorias no sentido de classes, não de grupos étnicos, opção sexual ou afins). O Brasil, com a necessidade de maioria qualificada para alterações constitucionais e parlamento bicameral, segue o melhor do receituário para a preservação da voz e dos direitos dessas minorias. Salvo as esquerdas radicais, quase ninguém questiona tais garantias, que no Brasil ganham o status de privilégio – basta ver o número de grandes proprietários de terra que o país possui e a força que eles têm no congresso.

Garantias que são ótimas no parlamento, aquele antro de corruptos, onde são todos farinha do mesmo saco, conforme os incorruptíveis e politizados homens de bem – muitos deles professores da USP.

Quando a questão desce para o mundo quotidiano, e as minorias deixam de ser as endinheiradas, a reação é diametralmente diferente. No caso motivador desta crônica, a primeira acusação – seja da comunidade acadêmica, seja dos homens de bem de fora da academia, seja dos meios de comunicação – costuma ser a de que se trata de uma minoria dos estudantes. Isso é inquestionável! Mas vem a questão: não vi o grupo que invadiu a reitoria ter dito que falava por todos os alunos, no máximo pode ter dado a entender que defendia os interesses da universidade e dos estudantes – isso, porém, a imprensa faz todo santo dia: diz defender interesses gerais, sendo que se é geral, é de todos, sem que tenha nunca consultado os todos por quem diz falar.

E por qual motivo tal minoria, a exemplo do que ocorre nas casas representativas, não deveria ter direito a voz e voto (que não simbólico) na universidade? Não tendo, deveria simplesmente se calar e aceitar o que vem de cima (bovinamente, como os cidadãos de bem)?

Ao mesmo tempo, se a minoria radical aceitar ter voto em instâncias representativas, implica que concordou a “ordem burguesa”: como vai poder defender suas bandeiras? Logo, suas bandeiras são factíveis com atos isolados, como ocupação de reitorias, ou, sem a grande noite da revolução, se trata somente de oba-oba-hormono-revolucionário?

E o Estado, sendo democrático e de direito, não teria a obrigação de entrar na justiça contra aqueles que descumpriram as leis – ou, como as manifestações são de “esquerda”, cabe o “dois pesos duas medidas”? Por outro lado, que democracia é essa que não suporta conflitos? (Notem que não estou falando nem de movimentos sociais, nem da questão de sindicâncias internas da universidade).

Sem dúvida, a discussão é bem mais complexa do que simplesmente PM ou não PM no campus, e exige reflexões mais profundas e soluções menos simplistas. A única certeza que se pode ter é que com cassetetes é que não se aprenderá a dialogar, e sem diálogo a solução fica na dependência de métodos definitivamente anti-democráticos – nada que os homens de bem e a imprensa não tenham apoiado num passado recente e não voltariam a apoiar, caso necessário.

Pato Branco, 07 de novembro de 2011.

domingo, 6 de novembro de 2011

Vagabundos, baderneiros, maconheiros, irresponsáveis... incompetentes?

Richard Dawkins questiona algures o que não seria da física e da ciência se Newton tivesse se dedicado integralmente a ela, ao invés de ter perdido tempo com discussões estéreis, como as sobre religião. Não lembro se ele faz a mesma pergunta sobre Einstein, Heisenberg e outros físicos e cientistas da primeira metade do século XX. De qualquer forma, chuto uma resposta à sua pergunta: se Newton tivesse se abstido das atividades extra-científicas, assim como os grandes cientistas da primeira metade do século XX, em geral bastante engajados politicamente, teria sido tão medíocre quanto a grande maioria dos pesquisadores da atualidade.
A intelligentsia acadêmica brasileira (para ficar na parte tida por pensante da sociedade) não é nenhum Richard Dawkins, mas bem gostaria de sê-lo: ter panca de inteligente e intelectual, morar na Inglaterra, dando aula para ou tendo como colegas pessoas com boa formação, convivendo com gente “civilizada”, enfim (salvo eventuais hordas bárbaras, como a de agosto). Claro, não precisa ser ateu – apenas pró-ciência e anti-comunista.
Novo protesto na USP, e lá vemos novamente as mesmas manifestações dos bons cientistas da universidade e dos homens de bem de nação, criticando os baderneiros que não querem estudar e atrapalham o bom andamento da ciência tupiniquim.
Afinal, conforme ranqueamentos internacionais, da TopUniversities, para ser mais exato, a USP é a melhor universidade latino-americana, e a 169º do mundo. Não que eu ache que esses rankings sirvam para muita coisa, mas nossa intelligentsia certamente se guia por ela – publicações, prazos, congressos, papérs, bolsas, tudo é feito em função do que os gringos dizem que é bom.
É de se questionar, portanto, onde não estaria a USP, não tivesse todos os incômodos causados por esses alunos que fazem protestos, greves, ocupam prédios.
Bem... talvez estivesse fora do ranking das 200 melhores: dos nove cursos que aparecem entre os 200 melhores, nas diversas áreas, seis – filosofia, sociologia, história, lingüística, ciência política e geografia – são da FFLCH. E se esses alunos estavam fumando maconha e fazendo greve, é de se questionar, então, o que estavam fazendo os demais dos 198 programas de pós da USP. Assistindo tevê, lendo Folha e Veja?
Surpresa? Não deveria ser. A ciência pura pode até existir (não vou entrar nesta questão), mas o cientista puro, certamente não. Não por acaso, quando a Science publicou reportagem sobre a ciência no Brasil, quem ganhou destaque não foi a Fapesp e seus quase 800 milhões de reais – que não mereceu uma mísera linha –, e sim um cientista que faz bastante alarde político – ainda que questão de política científica, mas com uma visão bem menos tacanha de ciência que Brito Cruz, ou demais coronéis da ciência paulista –, Miguel Nicolelis.
Esta ocupação de prédios na USP poderia ser uma ótima oportunidade para esses pesquisadores fazerem uma auto-crítica (proposta ingênua, eu sei): ao invés de desqualificarem o outro, entrarem realmente no debate – não é obrigado a concordar com a atitude, contudo, é radicalmente diferente negar a política, exigindo logo a ordem e a autoridade –, e admitirem: pessoas, mesmo as diferentes, as chatas, as que usam vermelho, as que fedem, eventualmente podem ter mais assuntos e ser mais interessantes do que ratos e átomos.

Pato Branco, 06 de novembro de 2011.

sábado, 22 de outubro de 2011

Até o final!


Torcedor 1 – Olha, gol!
Torcedor 2 – Gol?
Torcedor 3 – Que gol bizarro!
Torcedor 2 – Gol mesmo?! Vamos comemorar!
(A torcida comemora com grande entusiasmo, apesar de ser 47 do segundo tempo).
Torcedor 1 – O cara da imprensa nem tá mais aqui.
Torcedor 2 – Sacanagem!
Torcedor 1 – Ah, o cara já se mandou...
Torcedor 3 – Mas a torcida ainda tá aqui!
Torcedor 2 – E como foi o gol?
Torcedor 1 – Você não viu?
Torcedor 2 – Não.
Torcedor 1 – Foi um gol feio, bate-rebate-entrou.
Torcedor 3 – Já pensou se o Paraná empata?
Torcedor 2 – Seria bonito.
Torcedor 1 – A Ponte tá vacilando muito.
Torcedor 2 (subindo na grade) – A gente podia provocar a torcida adversária.
Torcedor 3 – Como aquele ali? – e aponta para um torcedor ponte-pretano que acha uma brecha na lona que oculta uma torcida da outra, grita dois impropérios e pára.
Torcedor 1 – Desistiu.
Torcedor 2 (grita para a torcida adversária, que nessa hora pressiona pedindo o fim do jogo) – Tão com medo? Tão com com medo?
Torcedor 1 (apontando para um integrante da comissão técnica, na beira do gramado) – Olha aquele lá, o desespero.
Torcedor 2 – Chuta pra frente! Chuta pra frente! Antes que o jogo aca...be... acabou.
Torcedor 3 – Quase, ein?
Torcedor 1 – Deu um sufoco na Ponte nesse finalzinho.
Final: Ponte Preta 4 x 3 Paraná Clube.
E quando Vannucci, eu e Ricardo saímos do Moisés Lucarelli, toda a torcida do Paraná que resistiu até o final e pôde comemorar o terceiro gol da equipe deixou o estádio (detalhe: eu, que não vi o gol, era o único torcedor paranista). Enquanto nos afastávamos, combinávamos de aparecermos para um próximo jogo – mas na torcida animada.

Campinas, 22 de outubro de 2011.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Entre escolhas e a indignação


Em Indignação, Philip Roth narra parte da história de vida de Marcus Messner, que para fugir do pai repentinamente super controlador, transfere a faculdade da Robert Treat, na sua natal Newark, próximo a Nova Iorque, para Winesburg, localizada na área rural de Ohio, e dedicada a formar engenheiros e profissionais liberais. De uma vida urbana, em que dividia bancos da praça com mendigos e tinha aulas com professores vindos de NY e de viés esquerdistas – a história se passa em 1951, a Guerra das Coréias acontecendo e a ameaça de ser chamado para lutar, caso não esteja cursando uma universidade é uma constante –, acaba numa universidade em que é obrigado a freqüentar aulas de religião, onde impera o moralismo mais tacanho e os alunos se segregam por “fraternidades”. De um lugar onde ele estava relativamente bem adaptado e em que o diferente era o outro, passa a ser ele o diferente: judeu, ateu, que pretende ser um livre-pensador, independente, que se nega a participar de uma fraternidade, a se adequar aos moldes que todos os alunos da Winesburg seguem.
Por conta disso, fica difícil conciliar seu espírito cosmopolita com a visão estreita dos demais alunos, e suas desavenças com colegas de quarto surgem rapidamente. Primeiro com Flusser, num quarto de judeus no qual lhe havia sido reservada uma cama; depois com Elwyn, cuja frieza e distância de início pareceram positivas, mas depois se tornaram insuportáveis. A única pessoa com quem consegue ter uma relação mais próxima é Olivia Hutton, primeira garota com quem tem algum tipo de relação sexual, e que fora mandada a Winesburg pelos pais com o intuito de que se reabilitasse, depois de, bêbada, ter tentado suicídio cortando os pulsos – com ela, mais do que amor romântico, há um quê de identificação. Por conta das mudanças de quarto, é chamado pelo diretor da instituição, o dr. Caudwell, com quem acaba discutindo asperamente desde a vigilância sobre suas mudanças de quarto até a obrigatoriedade das aulas de religião, passando pela sua recusa em entrar no time de beisebol ou em alguma fraternidade.
Estão postos os elementos para a crônica de um fim anunciado. Marcus sabe – como quem lê sabe – que, na vida dele, para dar errado, basta fazer o “certo”, basta deixar de ser diferente – apesar que foi justo por ser diferente que ele vai se emaranhando nas tramas em que se perde cada vez mais. É sempre pensando no seu melhor – ou por amor –, que seu pai, sua mãe, Sonny Cottler, da fraternidade judaica, Flusser, Caudwell, vão empurrando Marcus para um fim que não é inexorável, mas que lhe custará abdicar da sua independência, de ser o livre-pensador em tempo integral – por um período, que seja. Mas parece ser justo essa liberdade o que mais o caracteriza.
E se por um lado Marcus, na efervescência dos seus dezoito anos ainda não é capaz de saber que suas escolhas mais banais podem levar a resultados desproporcionais, Caudwell tem plena certeza disso – como tem plena ciência do que está acontecendo no mundo. Porém Caudwell é um acadêmico, cristão, moralista. Marcus Messner é apenas outro aluno qualquer – da pior espécie, dos que não obedecem hierarquias.

Campinas, 19 de outubro de 2011.