quinta-feira, 22 de março de 2012

Motoristas em uma quinta à noite

Saio de casa apressado: queria jantar e ainda pegar algum mercado próximo aberto – hoje tinha preguiça de passear pela av. Paulista, como tivera de cozinhar algo decente no almoço.

Na rua da Consolação, o sinal para pedestres pisca e resolvo esperar. Um rapaz, seus vinte e cinco anos, atravessa a rua, vindo na minha direção. Para atravessar, precisa contornar um carro que parara em cima da faixa – dirigido por outro rapaz, também nos seus vinte e cinco anos. Enquanto passa, gesticula. Que foi, pergunta irritado o motorista, Porra, olha onde você pára, em cima da faixa, Que tem, não gostou, Não tem respeito, não, idiota, não tem educação. O sinal abre, mas os ânimos seguem exaltados. O carro parte, Eu devia descer e te dar uma porrada, isso sim, palhaço. O pedestre responde algo, mas eu já estou distraído com duas mulheres que dobram a esquina correndo – Pega ladrão, grita alguém do bar, em tom jocoso.

Na esquina seguinte, escuto barulhos estranhos vindos de um carro que espera o sinal abrir: um "japonês" acompanha a bateria da música que ouve batendo duas baquetas contra o volante – eu chutaria que ele é antes jogador de Guitar Hero do que baterista.

Dobro em direção à rua Augusta. Um homem, fora da faixa, perna enfaixada e muleta, atravessa lentamente a rua. Um carro se aproxima e vai diminuindo a velocidade, até ter espaço para contornar pelo lado – imaginei que fosse buzinar, mas não o fez. Bom que não teve pressa, porque dez metros a frente precisou parar atrás de uma fila de carros, num pequeno congestionamento – muito provavelmente porque algum motorista mais lento tentava estacionar.



Já na Augusta, dois andinos, um na caixa, outro no charango e na flauta de pan, tocavam uma música típica – como estava com pressa não pude parar para ouvi-los, infelizmente. Quando voltei da lanchonete, já haviam encerrado a apresentação, e uma esquina acima contavam o que haviam recebido. Em frente ao Conjunto Nacional um homem apresentava sua arte no saxofone. Nada traumático, do nível de Kenny G, mas lamentei que não fosse música andina.

No mercado, a caixa ganha da cliente um pão de mel. Obrigada, eu nem gosto de doce... sou pior que formiga. Apesar da caixa ter terminado sua frase, a cliente não havia ouvido a resposta: Dá para alguém que goste, então. No outro caixa uma mulher acena para seu "filho", um cachorro que a espera com a filha (esta sem aspas) do lado de fora.

No caminho para casa, nenhuma Flávia parecida com Carla Bruni, mas um grupo de japoneses (estes sem aspas) conversa animadamente – e me vejo concordando com o Cássio: parece que estão brigando, pela entonação própria do idioma.

Praticamente em frente ao prédio onde moro, espero os carros passarem para atravessar a rua. Uma mulher vem lentamente, conversando no celular enquanto dirige. De repente noto que avança em minha direção. Dou um pulo para trás. Pela velocidade não chegou a assustar – e eu, que de início achei que ela queria estacionar, e não que simplesmente perdera a direção do carro, concentrada que estava na conversa, acabo não tendo uma segunda reação de indignação.

Antes de chegar em casa, dou licença à Mercedes do vizinho do prédio ao lado, apressado que está em entrar na garagem. Pela pressa, devia estar com dor de barriga, os odores do organismo a pestilentar o carro caro, até então com cheiro de novo. E eu devia estar mesmo cansado, pois acabo não me irritando com mais isso – sequer para sarcasticamente cumprimentá-lo.

Sem sarcasmo, cumprimento Luís, o porteiro do turno, e subo para estudar mais um pouco – que troco por esta crônica.


São Paulo, 22 de março de 2012.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Elevador exclusivo

Hoje fui com meu irmão dar uma volta, apresentá-lo a São Paulo – ao mesmo tempo que ele aproveitava para me apresentá-la um pouco mais. Até sábado, quando chegou, o que meu irmão conhecia da cidade se resumia a ir de metrô do terminal rodoviário do Tietê até o da Barra Funda.

Chegou na hora que eu recebia a visita de alguns grandes amigos. Quando se foram, levei-o pra dar uma olhada no que é a Rua Augusta num sábado à noite – sem podermos nos demorar muito, pois ele tinha compromisso no dia seguinte, mas o suficiente para que o impressionasse o a fauna, a balbúrdia, o tanto de gente na rua.

Segunda-feira, com praticamente todos os museus fechados, restringimos nossa visita a um rolê pelo centrão de São Paulo: Mosteiro São Bento, Sé, Edifício Banespa, Largo São Francisco. A catedral da Sé, eu havia entrado pela última vez há uns sete anos. Lamentei que o quiosque que vende souvenir não vendesse café expresso, achei o lugar aconchegante, agradável – bem diferente do escuro, pesado e sádico Mosteiro São Bento, que eu ainda não conhecia. Tampouco conhecia o edifício Banespa e seu mirante – e as duas horas por cinco minutos de vista, tanto eu quanto meu irmão ficamos em dúvida se valeram a pena. O Largo São Francisco eu conhecia, mas nunca havia entrado na Faculdade de Direito.

O prédio, da década de 1930, projetado pelo sucessor de Ramos de Azevedo (responsável pelo Teatro Municipal, por exemplo), Ricardo Severo, é imponente e seu interior transmite muito bem essa imponência, como se anunciasse já em sua arquitetura: daqui sai a elite da elite tupiniquim, desde os tempos do Rei – louvada seja a Faculdade de Direito.

Os tempos eram outros, de um Brasil antigo, quase uma mera continuação do Brasil Colônia, e essa afirmação de superioridade de classe era natural e bem-vista. Diz o texto da faculdade, sobre o edifício: “representou a própria criação do estilo neocolonial, que agregava à moderna arquitetura, elementos do barroco luso-brasileiro, evocando a tradição cultural do país e do velho convento” – ocultou que a tal tradição cultural evocada passa também pelos seus aspectos sociológicos. E é essa tradição que segue presente para além da arquitetura, já neste Brasil Moderno, de modernização sempre conservadora, meio a la Lenin, com um passo para trás – mas não necessariamente para dar dois adiante.

Nossa visita à faculdade começou com a ingenuidade do meu irmão: foi entrando na biblioteca, para conhecê-la, como se público para a USP fosse sinônimo de algo destinado ao público e não a um certo, bem delimitado e selecionado público. O guarda, muito gentil, nos informou que precisávamos pegar uma autorização no prédio principal. No tal prédio, foi meu irmão quem chamou a atenção para os elevadores de uso exclusivo dos “senhores professores”. Pior: não bastasse essa distinção, os elevadores exclusivos para os senhores professores possuem ascensoristas. Sim, um funcionário que passa o dia sentado, esperando por esse ser superior – o Professor Doutor – entrar e dizer: segundo, e após um minuto, se tanto, anunciar, cabeça baixa, segundo andar. Ao mesmo tempo, toda essa pompa é incapaz de atentar para a manutenção do prédio, que tinha o teto e paredes descascando – mas era no terceiro andar, talvez por isso pudesse deixar passar: importante é o hall de entrada, a sala de visitas ser chique.

Ao chegar em casa, antes de escrever esta crônica, abro o Facebook. Uma amiga – que não estudou na “Sanfran”, mas na Unicamp, que também tem como meta (primeira, mas velada) garantir a distinção de classe – compartilhou uma tirinha falando das agruras dos pobres (ex) pós-graduandos de universidade pública, incapazes de conseguir um emprego à altura do que merecem – como acontece desde o trote, apelando ao tradicional escárnio da nossa elite intelectual (!?) para com quem não teve o mesmo berço ou a mesma sorte.

Com isso, fiquei na dúvida: melhor o escárnio pós-moderno – bem humorado (?) –, ou se prender às velhas formas de distinção. A segunda parece saber conciliar nossa tradição cultural com a modernidade que aspiramos e fingimos ter alcançado – e isso seria o Brasil democrático: toda doméstica tem direito a usar o elevador de serviço (não precisa subir pelas escadas). A primeira, ilustrada, não apenas acredita, como comprova cientificamente que alcançamos tal modernidade – nosso atraso se deve exclusivamente a uma elite (não ela, claro) perversa, e às domésticas, que insistem em preferir o elevador de serviço.


São Paulo, 19 de março de 2012.

domingo, 11 de março de 2012

Para que serve uma federação estadual de futebol?

Na década de noventa, me lembro, o campeonato catarinense era um campeonato menor – e não digo por ser do Paraná. Era visível pelo pequeno número de participantes – mesmo atualmente o campeonato só tem duas divisões, a primeira com dez, a segunda com sete times – e pelo papel menor no cenário nacional do futebol local. Até hoje, nunca um time catarinense ficou entre os quatro primeiros do campeonato brasileiro, enquanto o Paraná tem dois títulos, e oito vezes algum time do estado já ficou entre os quatro – sendo que o primeiro a conseguir a façanha foi o Londrina, em 1977.

Em 1989, os dois principais clubes da capital paranaense – Atlético e Coritiba, o Paraná seria criado apenas no final do ano – caem pra série B do campeonato nacional. No ano seguinte, Atlético consegue retornar à elite, e o Operário Ferroviário, de Ponta Grossa, fica muito perto de conseguir a vaga – termina em quinto, apesar de, no geral, a campanha ser melhor do que a do Atlético. Vale lembrar que estamos nos anos dos regulamentos kafkianos do futebol tupiniquim – ainda reproduzido por muitas federações estaduais, não sei se precisava lembrar da Paranaense. A partir de então, o estado sempre teve um time na primeira divisão nacional.

Em 1991, na série B, o Coritiba termina em terceiro, o Paraná, em sexto, o Londrina é décimo primeiro. O Operário, apesar de terminar à frente do Criciúma, foi despachado pra série C no ano seguinte, ao contrário do time catarinense. Na série A, o Atlético perigou cair, mas acabou ficando em décimo sétimo, de vinte clubes.

Em 1993, diante da virada de mesa da CBF, Coritiba consegue voltar à elite, mesmo tendo sido décimo segundo na série B no ano anterior – vencida pelo Paraná Clube –, e Santa Catarina consegue alçar um clube à elite do futebol brasileiro pela primeira vez em cinco anos. Depois de cinco anos, em 1998, o Criciúma cairia para a série B. Em 2001, quando o Atlético Paranaense levantou o caneco, não havia nenhum representante barriga-verde, enquanto havia os três da capital paranaense: o Figueirense subiria aquele ano, junto com o Paysandu. Deixava para trás o Avaí, Joinvile e Criciúma, mas também Londrina e Malutrom. Ou seja, nas duas principais divisões, haviam cinco paranaenses contra quatro catarinenses.

Em 2003, o Brasileirão adota o sistema de pontos corridos – apesar do forte lobby contra da Rede Globo. Desde lá, somando as participações dos clubes, são vinte aparições paranaenses na série A e nove na B, contra doze na A e quinze na B dos catarinenses. Em 2012, cada estado terá apenas um representante na elite do futebol nacional. Em compensação, na série B, serão três catarinenses – Avaí, Criciúma, Joinvile – e dois paranaenses – Paraná e Atlético. Santa Catarina ainda tem um representante na série C, que chegou muito perto de subir pra B em 2011, o Chapecoense. Isso se refletiu no campeonato estadual: o Coxa sobrou no campeonato paranaense – conhecido como Ruralzão – em 2011, enquanto o Figueira, que disputou com o Coxa vaga na Libertadores, acabou em terceiro no catarinense.

A organização dos times, sem dúvida, é fundamental para bons resultados. O Barcelona não é a referência que é hoje por um acaso. O crescimento do Figueirense tampouco se dá sem planejamento. Há um outro fator, contudo, que ajuda a entender a inversão de papéis entre o futebol paranaense e catarinense: o apoio das federações.

A novela do campeonato paranaense da divisão de acesso em 2012 mostra o porquê dessa inversão entre o futebol desses dois estados.

Depois de uma campanha merecedora do rebaixamento, em 2011, não adiantou brigar na justiça desportiva, o Paraná Clube fez jus pelo que jogou e foi enviado para série B do Ruralzão. Eu, ingenuamente, imaginando que a FPF tinha o objetivo de fortalecer o futebol no estado, já via o Paraná numa pré-temporada de luxo: sem a pressão de disputar o título, com times muito inferiores, podendo fazer dos jogos jogos-treinos, poupando os titulares de viagens, e aproveitando pra observar reservas e jogadores da base (que um dia já foi referência e revelou craques do nível daquele que hoje ocupa a prancheta do time). Eu deveria ter me informado mais sobre FPF, Hélio Cury e cupinchas.

Para “não prejudicar” times do porte do Júnior Team, a FPF recusou o pedido de antecipar o campeonato – ela que deveria ter tomado a iniciativa de fazê-lo, sem necessidade de pedido de clube algum. Apenas a título de comparação: a Federação Paulista de Futebol tem suas três divisões principais ocorrendo simultaneamente. Primeiro porque sabe que acavalar o calendário da A2 com a B do Brasileirão prejudicaria clubes como o Santo André. Depois, porque sabe que eventualmente as divisões de acesso podem apresentar jogadores aos clubes principais. Mais: faz acordo com a Rede Vida para transmissão dos jogos da A3 em rede aberta.

Enquanto isso, nestes tristes sub-trópicos, em nome de “justiça” e não prejudicar clube algum, a federação prejudica uma das três forças do estado, e ainda pode fazer com que os demais clubes tenha um enorme prejuízo. Conforme levantamento do blogueiro paranista Luis Hansen, se o Paraná fizer respeitar as 66 horas entre duas partidas, o campeonato da Divisão de Acesso, que deveria ir de maio a julho se estenderá até outubro; ou seja, clubes sem receita tendo que arcar com salários pelo dobro do tempo. O detalhe: o Paraná Clube se mexia e praticamente havia conseguido transmissão pela TV, negociando um patrocinador para a competição. A FPF, já em férias, e em respeito à unanimidade, recusou o arranjo.

A conclusão desta breve comparação é óbvia: enquanto Santa Catarina consegue elevar sua representatividade no futebol nacional, com clubes de quatro das oito regiões do estado nas três principais divisão do país; no Paraná, mal e mal restam os três grandes da capital. No próprio estadual, apenas seis, das dez regiões em que o estado é dividido, possuem representantes. O tradicional Londrina, só em 2012 voltou à elite do futebol estadual, e faz uma campanha mediana; o segundo time mais antigo do estado, o Operário Ferroviário, de Ponta Grossa, só não está disputando o rebaixamento no seu centenário porque Paranavaí e Irati assumiram as últimas posições e parecem dispostas a não sair dali. A federação o que faz? Para ajudar o futebol do estado, absolutamente nada: seus diretores devem achar que há coisas mais importantes pra federação cuidar. O que? Aí só eles poderiam responder.


São Paulo, 11 de março de 2012.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Viva os noivos!

O Facebook, como outrora o Orkut, tem como grande utilidade não deixar esvair-se o reino da fofoca. Nos põe numa grande aldeia global (não faço referências aqui a McLuhan), em que bisbilhotamos a vida de todos, apesar de não conhecermos verdadeiramente ninguém.

Pato Branco, claro, já está conectada à internet, tem Coca-Cola, e essas coisas básicas – outras novidades, um pouco menos alardeadas, ainda não chegaram: procurei em quatro super-mercados. Aqui, porém, além da aldeia global, resta a aldeia local. O centro da cidade contribui para o encontro. Organizado de forma que lembra – em partes – shopping centers, com calçadas muito bem iluminadas, lojas bem cuidadas, bancos para se sentar – que fazem com que a rua seja mais do que um lugar de passagem, como também de encontro –, e uma certa assepsia social. Por aqui as listas de casamento ainda estão nas vitrinas das lojas. 
 
Meus pais têm por hábito parar em uma dessas lojas e atentar para quem são os casamenteiros, para ver se tem algum conhecido, ou mesmo para conhecer nomes novos – esses nomes que os pais, em arrombos da criatividade, cravam em bebês indefesos para o resto da vida.

Caminhava com eles pela cidade, paramos na referida loja, e nenhum nome esdrúxulo. Em compensação, um casal trazia nomes conhecidos. Nomes que me levaram a quinze anos atrás, quando eu tinha meus quatorze anos, por aí, e costumava ir à casa de um amigo – morava no décimo andar –, comer esfirra, jogar lixo para janela, só para ver cair, e assistir ao programa X-Tudo (que na minha casa não pegava TV Cultura).

O noivo, havíamos estudado junto – os três – em algum cursinho de inglês. A noiva – cuja irmã, junto com uma amiga, foi das primeiras a mexer com minha imaginação pré-adolescente – era a primeira paixão desse meu amigo.

Teve um dia que, cansado dos seus reiterados suspiros apaixonados, resolvi aconselhá-lo. Propus uma tomada de atitude sumária, do estilo chega junto e manda ver, sem blábláblá, direto ao ponto. Um ano mais velho, o aconselhei fazendo uso da autoridade do meu maior tempo no mundo – o que não queria dizer, em absoluto, que fosse mais escolado nas coisas do mundo. Seguiu meu conselho, tão crente nele como no amor e em Jesus Cristo. No dia seguinte voltou me amaldiçoando solteirisse eterna e com apenas uma das crenças das que tinha no dia anterior. Ao menos resolveu o meu problema com seus suspiros.

Ao chegar em casa depois do passeio com meus pais fui, é claro, bisbilhotar o Facebook. O noivo, filho de uma das famílias-coronéis da cidade, parece bem mais velho do que é. Seu emprego, não sei qual é, mas deve ser tocar os negócios da família sem afundá-los – e creio que tenha competência para isso. Ela, no que trabalha nem chega a ser importante, já que será esposa de um dos donos da cidade. Aproveitei e vi o “perfil” desse amigo da infância. Talvez se meu conselho tivesse dado certo, ou então, mais sensato, se ele não tivesse seguido meu conselho e tivesse outra sorte, atualmente fosse uma pessoa diferente, com mais leveza e menos culpa. Entretanto, a contar por hoje, nem o meu, nem o conselho de quem fosse, teria alterado suas chances com a guria.

Em tempo: o noivo nunca me pediu conselhos para nada.


Pato Braco, 07 de março de 2012.

sábado, 3 de março de 2012

Serra candidato: sepultura tucana e nova disputa moralista?

Sem acompanhar com muita atenção os jornais durante a semana, fui pego de surpresa com a nomeação do Bispo Crivella – que prefere não ser chamado de bispo – para o ministério da Pesca. A primeira pergunta: Bispo Crivella na pesca?? Logo a seguir respiro aliviado: ainda bem que não no da Educação ou no Ministério de Desenvolvimento Social. Vem, então, uma segunda questão – já respondida –, mas que mesmo assim faço, e julgo até mais importante: por que uma secretaria com estatuto de ministério, com todo o dispêndio que acarreta? Pra quê, está claro: moeda de troca política. E o timming da substituição dos ministros – justo quando Serra anuncia sua pré-candidatura à prefeitura de São Paulo – não deixa dúvidas para isso.

A prefeitura valendo um ministério para a bancada evangélica, outra coisa para não se admirar: um dos pré-candidatos de São Paulo, Chalita, vem como representante da Paróquia de Aparecida; com Serra na disputa, o PT se arma para uma nova disputa a la 2010: família, aborto, religião, casamento gay, divórcio, valores, Deus – logo voltaremos a discutir o biquini e a mini-saia.

Serra como candidato é o PSDB cavar a própria sepultura. Para médio prazo, sepultura eleitoral: o partido tem sérias dificuldades em repor seus quadros, e o demonstra ao aceitar Serra para a disputa em São Paulo, ao mesmo tempo que abdica de concorrer em outras cidades importantes do Estado, como Campinas e São José do Rio Preto. Na ânsia de uma vitória no curto prazo – Maringoni diz que os partidos da chamada direita não sobrevivem sem o Estado, por falta de base social –, o PSDB perde a chance de se renovar – por mais que tal renovação seja repaginar o sobrenome, como Covas em São Paulo, Richa no Paraná, Neves em Minas. Serra pode vencer – o eleitorado paulistano é suficiente conservador, não esqueçamos a dupla Boris Casoy-Jânio Quadros, em 1985 –, mas, diante das disputas fratricidas internas tucanadas, o único a ganhar com isso é ele. Se perder, perde o partido todo – e Kassab, que embarcou nessa empreitada por puro sentimentalismo.

Se essa questão dos quadros – cuja modelo de renovação, no Brasil, ficou marcada como sendo típica do PFL/DEM – é um dos aspectos que apontam para a sepultura tucana, a outra, mais imediata, é do próprio ideal de um partido moderno – naquelas modernização-conservadora típica tupiniquim, da qual nem o PT escapa. O PSDB já possui Alckmin como governador do principal estado da nação – dispensando comentários sobre seu conservadorismo truculento –; com Serra novamente em destaque, vai assumindo e se firmando como um partido conservador não apenas na economia – que isso o PT também é –, mas principalmente nos costumes (comentei isso em crônica anterior [j.mp/cG24112]).

Não há como não lembrar de Chico de Oliveira, quando este falou da irrelevância da política pós reformas estruturais da era FHC: com o principal partido de oposição sem um projeto alternativo para o país, sem uma discussão sobre a urbe, resta a rinha em cima de migalhas moralistas, num momento de recrudescimento das posições conservadoras – de esquerda e de direita, é bom salientar.

Pior: o PT sabe disso, não nega, e se adapta: ele sabe da irrelevância da política e não tem interesse em alterar esse panorama, pois se beneficia dele.


Pato Branco, 03 de março de 2012.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Campinas asséptica

Programa de terceira idade me fez voltar a Campinas, esta terça: médico. A tradicional visita mensal ao Aílton, meu homeopata.

Campinas me lembra o título de um filme hispânico, que assisti numa aula de espanhol, há uma década e meia, e não lembro absolutamente de nada, além do título: El aliento del diablo, O sopro do diabo. São Paulo andava quente, mas Campinas consegue juntar ao calor qualquer sensação térmica de fim de mundo. Passei o dia me arrastando pela cidade, com o bafo seco dos infernos soprando de todos os lados.

Ao meio-dia, encontrei com alguns amigos – fiquei devendo visita a outros – para almoçar e conversar um pouco – a consulta era às cinco. Havia também marcado de encontrar outro amigo, o Thyago, no centro, mas lh'escrevera a data errada (amanhã, numa mensagem com data do dia 28) e ele se programara para quarta: para a terça estava atolado de coisas para fazer – não que isso fosse novidade –, e deixamos nosso famigerado café para uma próxima oportunidade – já há uns dois anos seguidamente combinamos de combinar um café para pôr o papo em dia. Quem sabe em São Paulo, agora que ele passou no mestrado na ECA-USP?

Barão Geraldo é tão Terra do Nunca que até quando há um assalto banal merece efeitos especiais: minha amiga contou que, pela manhã, se atrasara para o trabalho porque tivera que tomar uma rota alternativa, já que no caminho havia um helicóptero da polícia parado no meio da rua.

Cheguei no centro de Campinas bem antes do horário marcado e dei uma passada na farmácia onde Ruth trabalha, já certo de que não estava – acertei. Fui até uma lanchonete, comer algo. No caminho, do outro lado da rua, numa loja de cópias e gráfica, um senhor de idade, cabelo todo branco, ele mesmo muito branco, em roupas claras, traçava uma linha para moça do balcão. Sua figura, o gesto lento, misturado ao calor da tarde deu à cena um ar de imobilidade móvil, ou mobilidade imóvel – não sei –, até ele levantar a prancheta, mostrar à moça seus rabiscos, e quebrar um pouco a leseira do instante.

Depois da consulta, tinha algumas horas para enrolar – descobrira que a linha que utilizo para fazer o trajeto Campinas-Ponta Grossa-Pato Branco não circula às terças. Parte passei numa lan-house, nesse grande ralo de tempo, esse buraco-negro espaço-temporal, que é a internet.

Clima mais ameno, saí para dar uma volta pela cidade. Não andei muito, diferentemente do que faço na capital – até por conta do peso da mochila e de trazer nela meu computador. Nas ruas, carros passavam, as pessoas se concentravam nas mesas dos barzinhos, nas calçadas. Na praça do Centro de Convivência Cultural, já no Cambuí, pessoas fazendo caminhada ou correndo, crianças brincando, pessoas com seus totózinhos, velhos passeando, casais namorando, grupos de jovens conversando. Quase lembraria a Av. Paulista confinada a uma pequena praça circular, não fosse um detalhe: não havia um mendigo, um pedinte.
Ainda me sobrando tempo, fui até a farmácia de Ruth uma vez mais, ver se ela não tinha trocado de turno – não tinha, mas a próxima consulta do Aílton marquei para a manhã, a ver se não a encontrarei. No trajeto, a mesma cena: pessoas nos bares; circulando, quase só carros, e nenhum pedinte ou morador de rua. Estes, seu eu quisesse vê-los, precisaria ir aonde estão: se não estão confinados, como as prostitutas, em um bairro, claramente estão impedidos de andar pela área nobre da cidade – não que São Paulo não gostaria, não tente pôr em prática o mesmo, só não consegue.

Cheguei à rodoviária com tempo de sobra – inclusive para começar esta crônica. Rodoviária higienizada de pessoas indesejadas no entorno próximo. Dentro, asseada, iluminada, "protegida" por câmeras de segurança, onde nunca ninguém me pediu um real para completar a passagem, nem há catadores de latinhas.

No ônibus, enquanto me afasto de Campinas, sinto que um leve olor putrefato fica para trás.


Campinas, 28 de fevereiro de 2012.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Meia ópera e um teco de São Paulo

Apenas havia visto, no sábado, que haveria ópera do Villa-Lobos, no Teatro Municipal, esta quinta, nas comemorações dos noventa anos da semana de arte moderna de 1922, e resolvi comprar o ingresso. Vi o título – Magdalena –, não a conhecia, não fui atrás de me informar. Comprei o ingresso mais barato – porque as contas na capital andam ariscas –, e me dispus a aproveitar São Paulo naquilo que não tinha em Campinas.

Talvez eu devesse ter assistido à ópera sem ter lido antes a apresentação. Ou talvez devesse ter lido sobre a ópera antes de ter comprado o ingresso – e deixado para conhecer o Municipal em outra oportunidade: Magdalena é uma ópera-musical, ou musical-opéra, feito especialmente para a Broadway, em 1947.

No intervalo, já não sendo grande fã de ópera – dia desses ouvi Iris, de Mascagni, e essa eu gostei!, ao menos de ouvir –, cansado daquele pot-pourri (ou remix, se for usar um jargão mais modernex) de Villa-Lobos feito por ele próprio, com um libreto muito fraco, e com coreografias até que bacaninhas, mas bem no estilo musical, decidi ir embora - ouvir Vivaldi ou Dirié, que ganhava mais. Em casa, mais tarde, li o resumo da ópera, e vi que o chavão que se desenhava era de fato o que aconteceria.

Era pouco mais de nove da noite. Cheguei ao Anhangabaú e resolvi ir até a República, para não ter que fazer baldeação. No meio do caminho, decidi dar uns giros por aquela região central de São Paulo, desta feita sem a companhia do Cássio, como sói acontecer. Decisão não digo sábia, mas a única a ser tomada, uma vez que me perdi e não achei – senão bem mais tarde – a praça da República:: São Paulo não é uma cidade racional.

Nas calçadas, sacos de lixo e pessoas se amontoavam – dali a pouco devia ser hora do lixeiro passar. Achei curioso, talvez pelo guarda-chuva pendurado no ombro, não sei, ninguém me ter me abordado para pedir dinheiro – quando caminho com o Cássio, mais ou menos na mesma hora, invariavelmente alguém nos pára, mesmo que tenhamos dado uma volta rápida. Passo por prédios ocupados pela FLM (Frente de Luta por Moradia). Passo por prédios desocupados, e que mereciam um fim mais nobre: não apenas serem ocupados, mas serem de fato resididos – por pessoas como as que militam no FLM, por exemplo, cujo interesse vai ao encontro do da cidade. Do outro lado da Av. São João, um grande grupo de moradores de rua: auto-proteção? pedra? sopa?

Reparo que se seguisse em frente, a avenida ermava, resolvo dobrar uma rua um pouco mais movimentada. Passo por um restaurante aparentemente chique – ao menos guardava um ar portenho –, e logo me deparo com o Largo do Arouche, ao menos com a placa – porque depois, vendo no mapa, noto que mal tangeciei o famigerado Largo. Me vêm à mente a música do Criolo, "Freguês da meia-noite": Em pleno Largo do Arouche, em frente ao Mercado das Flores, Há um restaurante francês. Não sei por quais quebradas me meto e logo estou frente a frente com o Elevado Costa e Silva – o Minhocão. Me sobe aquele medo na espinha, fodeu – talvez o nome daquele monstro citadino seja uma justa homenagem ao assassino que governou o Brasil de 1967 a 1969, deveriam fazer outras do gênero. Por qualquer mania que tenho, decido não voltar pelo mesmo caminho; viro à esquerda, e na segunda rua, vendo que há um grande número de transeuntes, entro nela, na esperança de dar com algum lugar conhecido. Pessoas malham numa academia, carros passam, travestis caminham para seus pontos. Dois mendigos conversam, sentados na sarjeta: quem tem medo de cagar não come. Olho para trás, tenho vontade de voltar e cumprimentá-lo pela frase, quem sabe até lhe dar um dinheiro – quanto custa um livro de auto-ajuda? Não o faço e me arrependo depois: quem tem medo de cagar não come, posso ter perdido alguma outra pérola do homem. Que não tivesse outra, essa valeu a noite. Depois de errar outra entrada, ao invés de entrar na Consolação, acabo na República. Só dali chego à Av. da Consolação.

Contorno a Praça Roosevelt e subo a Augusta. Um homem me chama, que tal tomar uma breja com a mulherada. Agradeço. Domingo, quando passei por lá, voltando da casa do Cássio, imaginei como não seria a tal mulherada, a se tomar como base as que estavam na porta. Nesse mesmo domingo, exatamente ao lado, por conta de um barzinho, uma grande aglomeração de adolescentes e jovens vestidos de preto. Duas belas garotas gargalham, e quase esbarram no mendigo que dorme ao seu lado.

Quinta é diferente, ou ao menos a hora ainda não é apropriada, não há jovens darks e emos ao lado do inferninho, e os mendigos ainda não se aconchegaram sob as marquises. Sigo em meu passo rápido – se tem uma coisa que sou paulistano de nascença é a velocidade de caminhar, principalmente se estou sozinho –, mas logo preciso parar: um mendigo pede dinheiro pra pinga para três jovens que descem em direção ao centro, e os quatro ocupam toda a calçada. Não lhe dão atenção, e eu passo assim que possível. Obrigado de qualquer forma, desculpa o incômodo. Parece que pedir dinheiro pra pinga é a moda entre pedintes. Me soa hipócrita: uma garrafa de pinga custa R$ 3,00, não precisam esmolar tanto se é pra beber. Mas esse o segredo para sobreviver numa sociedade hipócrita: diga o que querem ouvir que lhe darão dinheiro. Se disser que é pra comida, vão dizer que está mentindo, se for pra cigarro... melhor que beba, porque cigarro faz mal.

Passo por um rapaz que parece o Mário (não, não é uma piada para perguntar que Mário), duas vezes calouro meu na Unicamp. Qual enésimo curso terá ele começado (ou recomeçado) este ano? Num bar, um homem usa uma boina, que não controla a vasta cabeleira encaracolada, grisalha e desagruvinhada, metido numa espécie de manto colorido. Parece saído de algum filme B que passa à tarde, sobre vagabundos nas florestas da Inglaterra – faltou uma flauta. Lembro da discussão que tivera com o Cássio, há quatro dias, e me pergunto uma vez mais: quem não está fantasiado? Que não está encarnando uma persona na cidade? Num dos inferninhos mais acima, ao invés de mulheres semi-nuas, homens sem camisa e com salientes barrigas descarregam cerveja – e recordo questão que pusera ao Wlad, há um tempo: por que todo maitre de inferninho precisa lembrar o Ratinho?

Caminho um pouco mais e cruzo com outro homem que soa conhecido, esse lembrando algum ex-colega de escola, de Pato Branco – era o Norton ou o Pelicano? Um homem em roupas psicodélicas expõe seu artesanato na calçada, está com óculos escuros: enxerga alguma coisa com aqueles óculos à noite? O Cine-Unibanco ainda não terminou de ser fechado. Quase chegando na Paulista, reparo de canto de olho um rapaz que vem na direção contrária hesitar. Por fim, acaba me abordando, já quando estamos lado a lado. Amigo. Tarde demais, não diminuo o passo e finjo que não ouvi, concentrado que estou na minha futura crônica.

Desço a Haddock Lobo. Pela hora, não tenho esperanças de encontrar com nenhuma Flávia que lembre a Carla Bruni. E realmente não cruzo com ninguém. No barzinho da esquina de casa havia uma mocinha bonitinha, mas não se parecia com a Carla Bruni. Em casa estão o Hugo e o Gabriel.


São Paulo, 23 de fevereiro de 2012.

ps: ao entrar no sítio da FLM [www.portalflm.com.br], desconfio que o grupo que se ajeitava sob a marquise, do outro lado da Av. São João, devia estar em busca de auto-proteção, mesmo.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Política ou polícia: as tais “lições de democracia”, novamente na USP.

Neste domingo de carnaval, 19 de fevereiro de 2012, mais uma vez a Tropa de Choque da Polícia Militar de São Paulo tomou a fresca da madrugada na Universidade de São Paulo [http://j.mp/yd0p10]. Chegou às cinco horas da manhã para desocupar meia dúzia de saletas que há quase dois anos eram ocupadas por estudantes que reivindicam aumento de vagas na moradia estudantil – o CRUSP –, distribuindo democraticamente violência, inclusive deixando sua marca em uma mulher grávida. Diz a polícia que apenas se utilizou da força necessária para se defender. Para uma polícia com longa lista de "mortes em conflito" e acusações de violações de direitos humanos, podemos deduzir que bala de borracha seja coisa leve.

Contrariamente à ocupação da reitoria, em novembro de 2011, não havia nenhum motivo que pudesse ser alegado “forte” para desocupação do prédio: o Moradia Retomada, definitivamente, não atrapalhava em nada as atividades burocráticas, administrativas ou pedagógicas da universidade. Não eram vagabundos, baderneiros, maconheiros, irresponsável, pelo contrário: conseguiam uma organização, e tinham um senso de responsabilidade – individual e coletivo – que a USP tem se mostrado falha em muitos aspectos. Mas a lei é a lei, dirão alguns, defensores da ordem e do progresso, ignorando que se a lei fosse a lei para sempre, a escravidão ainda estaria em vigência, e não teríamos tido FHC, Lula ou Dilma na condução do país, e sim Dom Luís Gastão Maria José Pio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orléans e Bragança e Wittelsbach – apesar que, com o pensamento político visceral que parece ser a regra hoje nestes tristes trópicos, muitos devem encarar esse futuro do pretérito como virtuoso.

Como no Brasil o que temos é um arremedo de segunda linha do programa Renda Básica Cidadã (ou Renda Mínima), vinculado ainda ao que (não) ganha uma pessoa, o auxílio estudantil se torna um imperativo não apenas do ponto de vista individual, como do próprio critério de excelência acadêmica: alguém preocupado com onde morar, ou morando precariamente, tende a ter dificuldades para se concentrar nos estudos. Inclusive nesses ranqueamentos que mídia e academia de país subdesenvolvido adoram, índice de desistência do curso é algo levado em conta.

Não é demais repetir, entretanto, que a universidade pública brasileira – as paulistas acima de tudo – é feita pela elite e para a elite, para a perpetuação da elite. Os órgãos de assistência à ciência, idem. Pretendo tratar em mais detalhes deste assunto em crônica posterior.

Na semana anterior foi noticiado parceria entre USP e SPTrans, para que haja um circular que faça o trajeto USP-Estação Butantã do metrô gratuitamente para alunos e funcionários. Primeiro aspecto a ser lembrado: originalmente deveria haver uma estação de metrô dentro do campus, ela não existe porque a universidade vetou – não imaginemos que seja um disparate de uma burguesia burra e preconceituosa as reações contra as estações em Higienópolis ou no Morumbi. Segundo ponto: já que a estação fica fora do campus e haverá uma linha que fará a ligação direta entre esses dois pontos, por que não estender a gratuidade a todos os que desejam ir até a USP, seja para pesquisar, para usar a biblioteca, para vender artesanato, para catar latinhas, para passear, para ir ao MAC? No que custará a mais para USP ou SPTrans cinqüenta pessoas ao invés de dez num ônibus? Contudo, sabe-se bem quanto custará a mais para essas pessoas. Isso para não falar no aspecto simbólico: apesar de não ser inibidor dessas pessoas sem direito legal ao templo sagrado do conhecimento freqüentarem-no, ter que pagar a integração com o ônibus, ou mesmo fazer uma caminhada de vinte minutos para chegar à USP, serve para deixar claro que não são bem vindas. Lugar de povo é na cidade; na USP, acadêmicos e pessoas em seus carros, em trânsito para os bairros nobres que a cercam.

Volto à questão inicial, a nova ação do Choque na USP. Ou melhor: a nova ação do Choque em ação de contestação política. Já é assustador notar que se trata de política deliberada – política de governo – do PSDB paulista massacrar (não, o termo massacre não é pesado) qualquer contestação política e social que não seja feita nas instâncias “apropriadas”: via representantes nas casas legislativas – nas quais, diante das manobras e dos acordos entre cavalheiros que ocorrem a rodo, contestações ou são abafadas, ou são risíveis. Ainda mais aterrador é esse padrão se repetir com tamanha naturalidade na USP, teoricamente centro de excelência da ciência e do pensamento tupiniquim. Apesar de não ser o reitor mais votado – Serra escolheu o segundo na lista tríplice –, Rodas recebeu votos: possuía apoio, portanto, quando assumiu o cargo. E ainda que seu apoio seja precário – e ele e seu grupo o administra muito mal –, houve poucas manifestações contundentes e em peso dos seus pares – professores da USP – pelas atitudes que vem tomando – desmandos que vão bem além da questão da ação policial.

Não se pode chamar Rodas de fascista, simplesmente – até porque o fascismo é um fenômeno político bem delimitado na história –, mas as semelhanças que ele guarda com o movimento do início do século são evidentes, e coadunam com a idéia de universidade defendida pela elite ilustrada e pela Grande Imprensa: o tecnocratismo levado ao extremo da negação radical da política – via perseguições internas ou via polícia. A passividade dos professores apenas reforça essa impressão. Não se trata aqui de encampar o tosco discurso “quem defende a universidade não deve ser punido”, afinal, não há um absoluto do que seja a defesa da universidade, mas saber que dissenção é parte da política e da ciência – goste-se ou não, ambas estão fortemente vinculadas. Assumir o debate e a negociação – que não devem ser confundidos, o primeiro com o é assim, entendeu?, a segunda com você faz do meu jeito e estamos todos bem – é fator vital para o crescimento da própria universidade, e até, quem sabe, para uma futura inserção de fato desta na vida quotidiana do país – inserção essa, espero, que não seja para calcular o gás mais agressivo sem ser letal, se é que ser letal de vez em quando não caia bem, a depender sobre quem.


São Paulo, 20 de fevereiro de 2012.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Sta. Cecília - Luz - Liberdade - Paulista

Combinei de encontrar um desconhecido às 13h na estação Santa Cecília. Ele vinha de Barão e tinha um presente que uma amiga me dera: babosa – desde que a Anvisa proibiu a comercialização de derivados da planta, anda difícil achar o concentrado que tomava, e o último que encontrei estava com ágio de 50%. Me entregou o pacote e fomos a um restaurante ali perto, almoçar e conversar um pouco – brasilianista, faz doutorado e é professor (no sentido português do termo) na Universidade de Nova Iorque. Conversamos sobre São Paulo, viagens e algumas questões acadêmicas, políticas, marxistas – ele conhece meu orientador da monografia.

De lá fui à Pinacoteca do Estado, onde vi as exposições de Eliseu Visconti, Joaquín Torres Garcia e “Percursos e Afetos – Fotografias, 1928/2011” – a única que realmente me interessou, em especial as fotos do fotógrafo Boris Kossoy –, além do trabalho Mausoléu, de Carlos Bunga, que me trouxe algumas reflexões.

Da Pinacoteca, aproveito o ensejo para saciar minha índole consumista, e dou um passeio pela famigerada região da Luz, em busca de um fone e uma extensão para ele, na Santa Ifigênia. Antes, uma rápida volta pelo Parque da Luz, que eu nunca tinha ido – me lembrou o passeio público, em Curitiba, mas não tão bem cuidado.

Cruzo a Estação da Luz, o piano, como sempre, sendo tocado, com uma pequena platéia em volta – não páro, e de passagem não consigo identificar o que está sendo tocado. Do outro lado, noto menos mendigos à porta da estação - mas seguem lá. Enquanto transito pela região, não tem como não lembrar do polêmico projeto da Nova Luz e seus últimos desdobramentos: a política higienista para limpar a área dos nóia e do populacho, para deixar o terreno livre à especulação imobiliária. Dizem que se trata de "revitalizar". Realmente, há locais ermos e mortos, mas em uma boa parte possui vida – e muita – pulsando nas ruas. Passeio pelas galerias da av. Santa Ifigênia, em busca dos tais fones, mas pensando que eu bem poderia ter dinheiro pra comprar umas câmeras de segurança pra fazer o filmete que uma vez tive idéia – a câmera de segurança apenas pela questão estética. Noto que se coço a barbicha ao entrar nos locais me abordam com mais freqüência: abandono o expediente. No caminho, uma senhora trova um policial militar, que a trata de uma maneira bem diferente da imagem que a PM paulista tem conseguido passar – conversam sobre o Big Brother, se bem entendi. Na loja onde vou comprar o fone, a mulher conversa sobre seus planos de fazer lipo e pôr silicone – com o médico da Mulher Samambaia, sabe. Comenta que já teve dois filhos, agora pode se dedicar a isso. Seu interlocutor diz que tem um contato melhor, que ao invés de 16 faz tudo por 12 mil, e ainda parcela em seis vezes.

Saio da Santa Ifigênia, pela Av. Ipiranga chego à São João. Ali páro pra tomar um mate e descubro onde comprar erva-mate argentina – a um preço nada argentino. Não compro porque acredito ainda ter um pacote na casa dos meus pais. 

Meio perdido de onde estou – sei que em algum canto eu devo dar na Consolação, que vai dar na casa do Cássio –, decido tentar chegar à Sé, como sempre. Sigo em frente e me deparo com a Galeria Olido, ao lado a Galeria do Rock, que uma vez entrei e nunca mais achei. Desta vez não acho a camisa do Paraná Clube a preço interessante, mas descubro que ela fica bem mais perto da Sé do que eu imaginava – e saio de lá desconfiado de que da próxima vez vou ter dificuldade em encontrá-la de novo, se não pesquisar no mapa antes.

Já no centrão de São Paulo, me vem aquele espanto de sempre: como a cidade é bonita! Ao menos enquanto tem gente – e acho que é isso que faz a beleza de São Paulo –, pois a vez que passei ali já depois do expediente, soava quase uma cidade deserta, não era bonita. Decido ir até o Patéo do Colégio – nunca passara por lá. No caminho, uma pedinte, já com mais de sessenta anos, cabelos brancos, me chama atenção pela beleza e garbosidade. Atrás da Sé, enquanto espero o sinal pra pedestre abrir, um homem berra num megafone que foi roubado pelo Bradesco, isso pode acontecer com você também. Uma prostituta compra café de um vendedor ambulante de bolos e afins.

Na Liberdade, entre a Galvão Bueno e a São Joaquim, uma mocinha, seus dezessete, dezoito anos me abora, está vendendo canetas. Já a imagino voluntária de alguma instituição de recuperação de drogados. Na verdade é voluntária do CAIC – não, não se trata da escola inspirada nos CIEPS da dupla Brizola-Darcy Ribeiro, e sim de uma instituição que quer salvar os valores da família. Não, obrigado, não concordo com os valores da família – lembrei da minha babosa na hora: será que em breve serei eu um novo drogado a atentar contra os valores da família e da sociedade? Quer dizer que não concorda com os valores normais? Então tá, e já se vira para oferecer caneta a outro passante – me arrependo de ter sido tão breve, poderia ter enrolado um pouco mais a moça, só para deixá-la em contradição.

Passo pelo Centro Cultural São Paulo, ver a programação. Na entrada, um homem me lembra o Hugo, que mora comigo, mas um pouco mais maduro – na casa dos seus trinta anos. Descubro a parte de teatro que está fechada para reforma. Presencio a cena de um senhor em “roupas de aposentado”, que dava pinta de morar pela região do Paraíso, Aclimação, jogando xadrez com um hippie – um fazedor/vendedor ambulante de artesanato.

Atravesso a ponte da 23 de março. Pouco à frente, rio com um namorado que beijava insistentemente sua garota, e dá uma pequena pausa, apenas para ver se não vai trombar em poste algum e se depara com uma loira bronzeadíssima, de belas formas que andava na minha frente, e não consegue disfarçar a olhada. Antes de voltar aos beijos insistentes na namorada, ainda a observa de rabo de olho. Espero o sinal abrir para atravessar a rua e chegar, finalmente, à Paulista. Dali escuto de algum canto sinos badalando as dezoito horas. Uma madame, num carrão, acompanhada de um homem e um cachorrinho, resolve não esperar pelo próximo sinal e pára em cima da faixa de pedestre. Me dou conta de que só corro perigo se a mulher estiver disposta a sacrificar seu carro, não acredito na hipótese, e enquanto serpenteio pelo carro pra atravessar a rua, singelamente a cumprimento com o dedo médio – tomo apenas cuidado para ver se não vai mesmo jogar o carro pra cima de mim, não presto atenção em nada mais dela: uma boa desfeita deve ser feita sem se preocupar com a reação. 
 
Atravesso a Paulista quase inteira, desço a Haddock Lobo, cruzo com algumas mulheres bonitas no caminho, nenhuma parecida com a Carla Bruni.

São Paulo, 15 de fevereiro de 2012.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Da USP à Paulista

Um amigo meu, o Wlad – que é também meu editor, diga-se de passagem e sem propósito outro que disfarçadamente dizer que em breve lançarei um livro –, pediu pra dormir aqui em casa: tinha reunião de serviço e depois iria para uma festa na FAU-USP. Me chamou pra ir junto (à festa), o que aceitei sem muito titubear – até porque era recepção aos ingressantes, e eu poderia conferir in loco o que estava perdendo, por ter ido, como sempre, mal na prova de aptidão.

Não chegou a ser uma “festa estranha com gente esquisita”, como o Festival de Apartamento, ao qual eu fora – o Wlad também – no final de semana, em Campinas. Na verdade, estava uma festa universitária banal, com o diferencial de que tocava uma banda ruim e havia alguns cartazes, fora Rodas, fora PM, GREVE! A outra diferença, mais marcante, foi não trombar com ninguém conhecido lá – o Wlad ainda encontrou dois, que estavam trabalhando no bar. Uma sensação estranha, que a mim incomodava, e o Wlad tentava encarar com a receptividade dos velhos tempos. Tentava, mas não conseguiu. Nem duas horas depois de chegarmos, tomávamos o caminho de volta: que tal flanar pela Paulista e Augusta, convidou-me. Convite que aceitei de pronto.

Descemos na estação Consolação. Na plataforma de embarque, uma mulher na casa dos seus trinta e poucos, muito elegante – de uma elegância que lhe assentava muito bem – passou por nós. Não havíamos sequer saído da estação quando cruzamos com duas gurias bonitas. Na rua, mal adentramos a Augusta, um mendigo anunciava, Acabou o show, agora é hora d'eu ir catar lixo. No caminho, um rapaz, acompanhado de mais dois, nos abordou pedindo dinheiro pra pinga – não vou mentir que é pra comer. Demos, por conta até da inferioridade numérica – apesar do tom não ter sido ameaçador. Mal passaram por nós, dois PMs atravessaram a rua em direção a eles – e de outros dois que estavam na mesma calçada que nós. Fodeu, lá vem truculência, pensei. Os três seguiram seu caminho sem titubear e a polícia não os incomodou. Eu, em compensação, não tive como não deixar escapar um puta, que medo!, diante de uma metralhadora que um policial entregava a outro. Que ignorância, comentou meu companheiro de passeio, pouco depois. Uma breve pausa num bar, gol!, onde assistimos ao segundo tento do Palmeiras. Prosseguimos. Mais à frente questionei: as pessoas que faziam ponto ali, eram mulheres ou travestis. Dúvida compartilhada pelo Wlad.

No caminho de volta para a Paulista, uma prostituta nos avisou que a Augusta termina naquela esquina. Também nos contou que fazia direito e que queria ser promotora: nada é pro curto prazo, é preciso ser persistente. Mais pedintes – esses sozinhos –, pessoas se apertando nas áreas para fumantes dos barzinhos, três baianos – a acreditar no sotaque e na camisa de um deles – nos pararam para pedir informação, aqui ainda é a Augusta, uma garota que esperava o ônibus, e do outro lado da rua um rapaz munido de guitarra e amplificador tocava um pop-rock romântico qualquer – tenho a impressão de que não daria certo, a moça estava suficientemente irritada ao celular, e alguém pra atrapalhá-la era tudo o que ela não devia querer.

Na Paulista, um mendigo dormindo não com o cofrinho, mas com a bunda exposta. Sob o vão do MASP, dois carros da PM estacionados; próximo a eles, num canto, um homem vendia artesanatos. Se punha ao lado dos seus produtos, peito estufado, como orgulhoso da sua mercadoria. Questionei ao Wlad expunha, vendia a quem, se praticamente ninguém passava lá àquela hora. E não seria louco de vender drogas na cara da polícia, se acaso aquilo fosse só um disfarce – não parecia. No meio do caminho, o Wlad ainda encontrou um conhecido da cidade dele, que interrompeu sua manobra de skate para convidá-lo para uma festa do vinil em Socorro. Cola lá, leva as bolachas!

Passamos no mercado e voltamos para a Augusta – agora mais movimentada –, comer um pedaço de pizza. Diante da frieza da rede de fast-food, nos animamos mais com uma “pizza de padoca” de um bar. Um homem ainda não bêbado, mas já suficientemente chato, insistia que a cerveja estava quente: molha e põe no freezer, junto com aquela que você vai beber depois. Ali terminamos com poucas palavras a última conversa que vínhamos tendo, sobre questões existenciais e afetivo-existenciais.

No caminho de casa, na parte de auto-atendimento de uma agência do Itaú, três mendigos dormiam o sono dos justos (zelado pelo vigia do banco?). Na FAU, a festa era prometida até às cinco.


São Paulo, 09 de fevereiro de 2012.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Vamos salvar o mundo? As sacolinhas de mercado e a consciência pseudo-ecológica.

Por um lado é curioso: a decisão dos supermercados de abolirem as sacolinhas plásticas cria um ar anos 70, quando as donas de casa iam às compras levando de casa suas sacolas, seus carrinhos de feira. Havia, claro uma diferença significativa: nos anos 60, 70, utilizava-se tal método porque as tais sacolinhas plásticas eram inviáveis, e não por consciência ecológica, como hoje – a acreditar no que dizem.

Mas, chato desconfiado que sou, aposto meu mate de domingo que o discurso ecológico é apenas uma forma politicamente correta de lucrar mais. Não tanto pelo que os mercados economizarão na confecção de sacolinhas: desconfio, pela forma como eram utilizadas, que seu custo seja irrisório para uma grande rede – ou então já teriam orientado os funcionários a utilizarem-nas racionalmente. Há a loja de uma rede, em Barão Geraldo, cujos empacotadores costumavam pôr em média dois a três produtos por sacola.

Aos dias de hoje, do politicamente correto e economicament rentável: na entrada do mercado carrinhos com suas sacolinhas ecológicas acopladas a R$ 39,90. Se não for o caso de sair passeando de carrinho pela cidade, apenas as sacolas ecológicas custam R$ 0,90 – talvez você precise duas ou três, a depender do tamanho da compra, ou, se achar que esse acréscimo nas compras não compensa, pode voltar amanhã, o mercado agradecerá. E se nessa próxima vez, caso esqueça a sacolinha ecológica comprada da última vez, compre novas sacolas ecológicas – nem que seja para carregar três ou quatro produtos.

Vi ontem, na tela de outro mercado, enquanto esperava minhas vez no caixa, o argumento de que sacolinhas plásticas não eram aptas para receber lixo orgânico e único – coisa que as sacolas plásticas vendias pelo mercado, certamente feitas de um material especial, feitas com amor, o são. Não tardará muito e a imprensa fará saber que reutilizar sacolas ecológicas não é bom para a saúde, pois tais sacolas ecológicas acumulam fungos e bactérias: o negócio é trocar toda semana, quem sabe em freqüência maior.

Enquanto cobram dos consumidores (pela) consciência ecológica, nas gôndolas, o que se vê é o contrário. Compro duzentos gramas de queijo fatiado em uma bandeja de isopor. Mesmo que queira em peça, ela virá embalada no seu microfilme com isopor – quando uma embalagem de plástico bastaria. O meu velho exemplo do chá em saquinho, esse persiste: são dois plásticos e uma caixa para garantir a assepsia do saquinho com 10g de erva – se muito. Na lanchonete do mercado, canudinhos em embalagens individuais, e dois guardanapos envolvidos por um plástico nos garante que não foram contaminadas por mãos alheias. Porque o ecologicamente correto tem limites: nossa saúde. O que não tem limite são as oportunidades de lucro que esse discurso traz.

São Paulo, 30 de janeiro de 2012.

ps: detalhe: sou do que levam a própria sacola pro mercado já há meia década.


domingo, 29 de janeiro de 2012

Adeus, Campinas!

Finalmente me mudei, depois de dez anos no mesmo endereço – nove na mesma casa! Casa que nesse longo tempo foi ocupada por amigos, ex-amigos, ex-namoradas, marrecos, sabiás, lagartixas, ratos, gatos e por último, sapos. Ah, sim! E por pessoas desconhecidas, uma vez, que levaram duas caixas de bombom e um walkman antigo. 

Depois de dez anos de Campinas, cidade que cheguei maldizendo, que no meio do caminho criei não digo simpatia, mas tolerância – depois de ler o livro A cidade – Os antros e os cantos, do historiador Amaral Lapa, que me permitiu imaginar muito do que Campinas poderia ter sido e não é –, saí dela falando mal – mas com retorno combinado já para o próximo final de semana. Deixei a periferia pacata e rica (e ilustrada?) de uma cidade provinciana para morar perto da principal avenida de uma das cidades mais cosmopolitas do mundo – uma mudança brusca, e que eu sentia como sendo mais do que necessária.
 
Enquanto empacotava meus apetrechos, desempacotava lembranças – involuntariamente. Lembranças que simplesmente brotavam, ou então que eram despertadas por algum objeto – como um cedê da banda Zwan, mofado, que jazia embaixo de um monte de revistas que nunca mexo. Esse rememorar já havia começado antes, quando fora levar a um amigo minha bicicleta, há anos encostada, talvez justo pelas  recordações que ela pudesse trazer –  lembranças amargas de amigos que tentaram se matar, ou que conseguiram.
 
Na última noite de Campinas, chamei os amigos para uma festa despedida. Alguns apareceram. Parece que foi só então que me dei conta do que acontecia: naquele instante, mais do que um futuro prenhe de novidades, eu largava um passado pejado de possibilidades, mas que eu não soubera aproveitar. Me senti como Francoy, ao relembrar dos beijos que não teve de Beatriz: esse passado prenhe de possibilidades desperdiçadas era “algo como perder um dia de sol simplesmente por não ter achado a chave que abria a porta de casa”, ensimesmado por conta de alguma crise existencial, ou, mais comum, por não ter aonde ir para poder aproveitar o dia – o programa campineiro, shopping, convenhamos, não serve para aproveitar o sol, ou a lua, quando muito a chuva.
 
Ao se irem todos e eu ficar sozinho naquela casa vazia (de futuro), abarrotada por caixas cheias de livros e sentimentos, bateu uma sensação de nostalgia, de melancolia. Não tinha mais internet para fingir acompanhado na minha solidão, e o futuro do pretérito ressoava alto, a ponto de fazer esmorecer o futuro simples. 

Assim foi toda a sexta-feira. 

Ao aportar em São Paulo, numa noite fria, sob uma garoa fina, senti-me em casa antes mesmo de chegar no apartamento.


São Paulo, 29 de janeiro de 2012.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

PT, PSDB e direito humanos

Como não tinha laços afetivos com o PT, não tive problemas em aceitar que o partido não oferecia para o país uma alternativa de fato ao programa de modernização-conservadora posta em prática nos anos de tucanato no governo federal. Não precisei, portanto, fazer como muitos dos meus amigos, nutrir um ódio irracional ao PSDB para ter que justificar o voto no PT: não voto em nenhum dos dois, e em ninguém, diante do próprio arcabouço institucional que rege nossa política.

Por não ter aderido ao Fla-Flu PT-PSDB, sempre encarei ambos os partidos como primos – para não dizer irmãos (gêmeos?) –, que disputavam, via de regra, o mesmo eleitorado, o mesmo nicho, com pequenas nunces – importantes, mas não fundamentais. Ainda que PSDB caia para a direita, e PT, para a esquerda no espectro político; dentro dos partidos, a depender da corrente ou do cacique, o PT está à direita do PSDB. Para ficar apenas em um exemplo de como os partidos não possuem lá suas grandes diferenças: os programas de inclusão social postos em prática durante o governo Lula eram ações já defendidas por muitos adeptos do neoliberalismo, diante do desmonte do consenso de Washington: políticas compensatórias à massa de excluídos da bonança do capital financeiro, com o intuito de evitar eclosões sociais severas, que pusessem o status quo em risco.

Encarava como partidos próximos, mas preciso admitir, contudo, que desde a última eleição, quando Serra escancarou de vez a caixa de Pandora do pensamento mais reacionário do país, PT e PSDB começam a demarcar suas diferenças de modo mais significativo. Infelizmente, tais diferenças não se encontram no campo da economia, de programas para o país, ou mesmo em uma disputa para ver qual o mais moderno: tais diferenças têm se marcado no campo dos direitos humanos. A proposta de país é a mesma, a mesma modernização-conservadora, com alguma nuance mais desenvolvimentista aqui, mais liberal acolá, mas sempre se pautando num grande pacto com elites regionais de todas as nuances, no crescimento da produtividade e nas parcerias público-privadas – nova roupagem para as privatizações dos anos 1990.


Ainda que o PT não venha se mostrando um ferrenho defensor dos direitos humanos, na atuação da polícia e nos planos de segurança, fica evidente a diferença de tratamento para com as questões sociais, e isso não é de agora. Vale lembrar que durante os anos do governo FHC, como o governo não conseguiu cooptar o MST, o movimento passou a ser encarado como caso de polícia (mesmo de exército) – e isso foi posto em prática também por governadores aliados, como Jaime Lerner (então PFL), do Paraná, ou Antônio Britto (PMDB), do Rio Grande do Sul, com direito a assassinatos por parte da polícia.

As recentes ações da Polícia Militar paulista, uma polícia com boa reputação internacional no quesito desrespeito dos direitos humanos – vale lembrar que este anos comemoramos 20 anos do massacre do Carandiru que, dizem, matou 111 pessoas –, mostram uma vez mais a diferença entre os partidos: enquanto o PT tenta, pelas bordas, diminuir a força da PM via guardas-municipais (necessidade para aspirar a uma cadeira no conselho de segurança da ONU), o PSDB endurece a linha-dura, disposta a agradar parcela significativa da população que apóia o “atire antes, pergunte depois”, com base no precário silogismo “quem não deve não teme”.

Se na ação contra jovens de classe média, membros da elite intelectual-acadêmica do país (não necessariamente econômica, mas cientes de muitos dos seus direitos), Estado e polícia não tiveram peias em se utilizar de truculência, pode-se dizer que, diante do que ela está apta, para seus padrões, a PM paulista agiu quase que com delicadeza nos recentes grandes casos (norme$ ca$o$) em que esteve envolvida, desta vez contra miseráveis que parte da população gostaria de ver exterminada: o expurgo da Cracolândia, a limpeza de Pinheirinho. Melhor não tentar nem imaginar como ela não atua diariamente, em casos isolados, na periferia pobre, e melhor fingir acreditar que as rebeliões nas cadeias acabaram mesmo, e que isso se deu por convencimento na base do discurso-racional aos presos e ao PCC.


Campinas, 24 de janeiro de 2012.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Luiza está na mesa, o BBB está no ar

Não sabia da história de “menos Luiza, que está no Canadá”. Devo culpar meus contatos no facebook, que passam o dia a compartilhar coisas dos mais diversos matizes, de denúncias sérias, artigos bons, a piadas de segunda, denúncias furadas e bobagens mil, e deixaram passar essa. Foi só hoje pela manhã, quando pipocaram nas atualizações dos amigos vídeo com Carlos Nascimento, no Jornal do SBT de ontem (19), que fui ver do que se tratava – isso após alguém ter comentado que era bom dar certa liberdade aos âncoras, feito por algum amigo que certamente não ouve BandNews FM, com o Boechat enchendo a voz para soltar diariamente seu senso comum de classe-média-fascistóide-indignada travestida de opinião séria e independente.

Assisti ao vídeo do Nascimento. Fui, então, atrás do que ele se referia: a reportagem no mesmo dia 19, no Jornal Hoje, e a propaganda em que era dita a famigerada (dizem) frase “menos Luiza, que está no Canadá”. A propaganda, de um apartamento de alto-padrão (alto-custo, para sermos corretos) em João Pessoa, é banal e boçal: não tenho dúvidas que a frase se encaixa bem melhor no contexto do comercial do que o apartamento no contexto urbano. A reportagem da rede Globo é constrangedora: conseguiram utilizar quatro minutos do jornal do meio-dia para falar abobrinhas quaisquer sobre Luiza, e o fato de ser a última notícia mostra a que veio: para ser o assunto comentado da edição – espectadores de tevê, pelo próprio meio, têm memória curta, vão lembrar mesmo da última notícia antes do intervalo.

Dito e feito, textos sobre o caso do estupro no BBB, que jorravam como o ouro a sair da bolsa de Peter Schlemihl, desapareceram. Que não tenha havido estupro, isso é de menos, a oportunidade de seguir discutindo problema seríssimo estava dada. Entretanto, a polêmica em torno do programa da Globo – e a conseqüente discussão sobre o estupro – estava encerrada, a questão agora era Luiza, que voltou do Canadá e foi notícia no Jornal Hoje. E no sistema da indústria cultural, funcionando justamente como sistema, até mesmo a crítica serve positivamente àquilo que teoricamente está depreciando.

Me irrito com minhas crônicas conclusivas – até porque, dizia Pessoa, a única conclusão é morrer –, porém me parece evidente que a Globo sabe se mexer no terreno da comunicação de massa, para muito além de televisão e seu portal na internet. Redes sociais incomodam, podem até acabar impondo uma pauta ou outra, mas, no Brasil, quem ainda manda é ela. E não é o facebook que vai contestar seu poderio. Não é xingar muito no tuíter que mudará algo. É ocupar (de verdade e não só a passeio) a rua, o espaço-território, real, o que ainda tem força: a ocupação da USP pode ser tida como exemplo: se manteve em evidência por tempo considerável graças à ação radical – inteligente ou não, se mostrou oportuna – de alguns grupos extremistas.

Quem acredita no poder revolucionário da internet, das redes sociais, deve ver esta tirinha de André Dahmer:



Campinas, 20 de janeiro de 2012.

ps: não há erro de português no título.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Educação para salvar o Brasil da obesidade

Sempre que escuto os termos “bispo” e “escola” ou “educação” juntos n'A voz do Brasil (sim, acreditem!, escuto o programa com alguma freqüencia, principalmente os jornais dedicados às casas legislativas), me arrepio imediatamente e já me preparo para o pior. Felizmente não foi o que aconteceu quando escutei a proposta do bispo Crivella (PR-RJ). A intenção do senador é boa – educação alimentar nas escolas –, porém abusa da boa vontade e evita a raiz do problema: como um rabanete, escondido na seção de verduras e – a depender do senador – nos livros escolares, pode competir com o um BigMac, estampado em toda a cidade, em todo lugar, gritando a toda hora na televisão? Se o bispo Crivella tivesse assistido a Super Size Me, filme de 2004 de Morgan Spurlok, teria se dado conta de que sua proposta é inócua sem proibir a propaganda de alimentos industrializados – algo que os congressistas suecos fizeram já há um bom tempo.

Menos esperançoso das boas intenções, o senador Wellington Dias (PT-PI) resolveu tratar do maior problema de drogas do país da maneira mais sensata: no relatório final da Subcomissão Temporária de Políticas Sociais sobre Dependentes Químicos de Álcool, Crack e Outros, encaminhado ao executivo, propôs que fosse proibida a propaganda de bebidas com teor alcoólico acima de 0,5% – o que impediria a propaganda de cervejas e bebidas ice. A relatora do trabalho, Ana Amélia (PP-RS) se opôs à idéia: disse ela que a autorregulamentação, tanto das indústrias de bebida quanto das agências de publicidade, dão conta de alertar os problemas do álcool e evitar maiores danos aos cidadãos. Sem dúvida, a frase “se beber não dirija” acaba por ofuscar todas as gostosas da propaganda de cerveja vinculadas imediatamente antes. Inclusive poderiam começar uma outra, de eficácia equivalente, também voltada para o problema de violência no trânsito: “se for bater não dirija”.

Queria estar errado, contudo, aposto um BigMac com cerveja que a proposta do bispo Crivela passa, e a de Wellington Dias, não. Primeiro porque apela para a educação, essa grande panacéia brasileira; segundo, porque não mexe no sagrado direito de expressão das empresas de publicidade – as quais, junto com a mídia, não conseguem entender por que ainda não tem uma cláusula pétrea na Constituição garantindo esse seu direito. Afinal, proibir propaganda afeta não apenas o produto anunciado, como toda a cadeia de produção da imagem a ser vendida, em especial, as emissoras de tevê.

E não há porque proibir propaganda: a criança obesa, o adolescente com diabetes precoce, o jovem que volta da balada dirigindo embriagado e avança contra seis pessoas no ponto de ônibus, o pai de família que bate na mulher ao voltar do bar bêbado, tudo isso pode ser resolvido com educação – uma época dir-se-ia “amor”, mas vivemos num tempo mais realista.

Campinas, 18 de janeiro de 2012.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A garotinha do metrô


A garotinha não era feia – ou não deveria ser. Pelos dentes nascendo, devia ter seus sete anos, apesar do falar um tanto embebezado para sua idade, me pareceu. Entrou no metrô com a mãe e outra mulher, e se sentou bem defronte a mim, de forma que o breve trajeto que percorremos juntos pus-me a observá-la – até porque me chamava a atenção.
Não era feia – já disse –, talvez até pudesse ser uma criança bonita: olhos grandes, azuis, loira, gordinha (sem exageros) do estilo redondinha. Mas usava lápis de olho, batom que marcava bem (ou simulava) o contorno da boca, e devia usar mais alguns apetrechos de maquilagem que não constam no meu escasso repertório do gênero. Tudo isso dava a ela um ar de personagem de filme de terror, algo como Chucky, o boneco assassino. E não adiantava ela sorrir com as palhaçadas da amiga da mãe, tudo aquilo de maquilagem – que quem sabe na mãe não desse um ar sexy – a ela emprestavam um quê de sádico e alheio.
Me lembrei das pinturas medievais, nas quais se representavam crianças como mini-adultos, ou mesmo nas de Paula Rego, em que crianças mini-adultos dava um ar de horror a cenas que aparentemente tendiam para festas. Ocorre que a garota nascera no século XXI, mais próxima de Paula Rego do que de Fra Angelico, e sua mini-adultice era horrorificante.
Ao sair do vagão, reparei que a mãe – loira como a filha – tinha as raízes escuras. Apesar da curiosidade, preferi não reparar de novo no cabelo da garotinha.

São Paulo, 10 de janeiro de 2012.